16/01/2018

Lendo Contos | O Aleph - Jorge Luis Borges / #02 - O Morto

(Sinopse, info, etc: link/ Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


A Aline Aimée, do ótimo canal no You Tube Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse perdidamente pelo autor. Isso me impedirá de pagar mico (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1.
- Vídeo da Aline Aimée sobre O Morto: link 2.
- Postagem anterior: #01.

** RISCO DE SOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Eis que me encontro sem uma imediata impressão global de leitura justamente após ler um conto de Borges sem elementos fantásticos. A princípio, isso é tão cômico, que chego a ouvir o tema de abertura de Curb Your Enthusiasm. Bom, sendo assim, procederei resgatando os destaques que grifei no conto para, a seguir, pontuar elucubrações pessoais.

(1) 
A presença de um recurso narrativo que me parece ser recorrente na obra de Borges chama atenção logo no início: o narrador observador que não conhece todos os fatos da história e que, "pior", sequer é capaz de atestar a veracidade daquilo que nos conta. Em parte, talvez essa seja a causa de meu pronto desnorteio ao final da leitura; o qual ainda me obriga a segurar um "tá, e daí?" entalado na garganta.
(Err, desculpe. ¯\_(ツ)_/¯)
"(...) quero contar o destino de Benjamín Otálora, de quem talvez não reste lembrança (...) Ignoro os detalhes da sua aventura; quando me forem revelados, tratarei de corrigir e ampliar estas páginas. Por ora, este resumo pode ser útil." 
"Muitas coisas vão acontecendo depois, de que sei pouco. (...) Outras versões mudam a ordem desses fatos e negam que tenham ocorrido num único dia."
- Jorge Luis Borges, O Morto

Confabulo se objetivaria enaltecer a literatura oral, fazendo o leitor refletir a respeito de sua evolução para o registro escrito e seu importante papel na preservação da cultura e história de um povo. Novamente, explicaria minha reação ao final da leitura: na tradição oral, a extração de uma mensagem fundamentada na narrativa fica por conta do ouvinte (aqui, documento escrito, da leitora).

Curiosamente, isso resgatou de minha memória a experiência que tive ao ler "O Obsceno Pássaro da Noite", de José Donoso. Nesse livro, a narrativa do autor chileno realça inúmeras vezes o papel daqueles pequenos causos que são contados entre gerações, crescendo cada vez mais, ganhando múltiplas versões e ares pitorescos. Trata-se de uma tradição que julgo ser, de fato, bastante típica da cultura latino-americana. Saquei o livro da estante e, na página 24 (Editora Francisco Alves, 1979),  localizei esta passagem (um exemplo apenas, pois há vários outros) que dialoga muito bem (acho) com o recurso usado por Borges em O Morto:
"(...) as velhas, não me lembro qual delas, tanto faz, estavam contando mais ou menos esta fábula, porque a ouvi tantas vezes e em versões tão contraditórias, que todas se confundem."
- José Donoso, O Obsceno Pássaro da Noite (* nome do tradutor não localizado)

A identificação desse elemento provoca divertidos questionamentos devaneantes:
- A ausência de um atestado de veracidade daquilo que é narrado compromete o valor da produção literária? Repercute em nossa interpretação, certo, no entanto a invalida? Tudo indica que não.

- Essa incerteza em relação àquilo que é narrado não lembra bastante a forma com que contamos nossos sonhos a terceiros?! Sonhos!! Rá!

- Uma vez que o narrador afirma desconhecer alguns fatos, ao mesmo tempo que reconhece a existência de outras versões, mostrando-se disposto a ampliar posteriormente seu relato, então essa anedota seria... Infinita? Passível de engrandecimento e correções infinitas?! Ora, ora, hein?

(2)
Depois, pude perceber outro tema também caro a Borges (a própria nota de rodapé inicial do tradutor facilita): o gaucho e seu vasto mundo das planícies. Dando uma olhadela na coletânea Ficções, pesquei dois contos aparentemente responsáveis pela minha recordação: O Fim e O Sul. Segue um trecho de O Morto que sugere bem tal temática:
"Começa então para Otálora uma vida diferente, uma vida de vastos amanheceres e de jornadas que têm o odor do cavalo. Aquela vida é nova para ele, e às vezes atroz, mas já está em seu sangue, porque, da mesma forma que os homens de outras nações veneram e pressentem o mar, assim nós (também o homem que entretece esses símbolos) ansiamos pela planície inesgotável ressoando sob os cascos. Otálora fora criado nos bairros do carreteiro e do quarteador; antes de um ano se torna gaucho."
- Jorge Luis Borges, O Morto.

Aproveitei para recorrer, finalmente, ao Borges Babilônico, enciclopédia organizada por Jorge Schwartz (Companhia das Letras, 2017). Prontamente, topei com uma direção mais clara quanto à anteriormente referida tradição oral: ela relaciona-se ao próprio gauchesco! Fascinante. E registro, super resumidamente, que o termo "gaucho" surgiu no último terço do século XVIII (a história do conto transcorre em 1891), tendo sofrido mudanças nas significações até atingir o mitificado emblema de uma identidade nacional. Para detalhes, recomendo a leitura direta do texto contido na enciclopédia, do qual extraio os seguintes trechos:
"(...) no rio da Prata, uma coisa é a tradição e a produção oral dos gauchos (v.) (...) O efeito oralizante da gauchesca é tão forte que até os mais argutos leitores esquecem que com grande frequência esses textos estabelecem outra ficção: a de que o lido corresponde a algo — gazeta, carta, manifesto, reclame, anúncio, ameaça — escrito por imaginários gauchos letrados, embora de forma muito distante do conceito das belas-letras contemporâneas, como se, ao escreverem, estivessem falando."
"As primeiras atitudes de Borges quanto à questão dos gauchos e às temáticas que a rodeiam, nos textos impregnados de um vanguardismo de matiz criollista (v. criollo) que ele depois eliminou das Obras completas, foram de fascínio pelo personagem e pelas modalidades de sua fala e tons, que contaminaram as próprias opções léxicas e de fonetização da escrita."
- Julio Schvartzman, Borges Babilônico (Organização: Jorge Schwartz)

O fato de que Otálora não nasce gaucho, mas, sim, que torna-se um a partir de sua condição de compadrito (plebeu das cidades) parece particularmente relevante, contudo encontro dificuldade em delinear precisamente a intenção de Borges aqui. Acredito que essa reflexão exige maior conhecimento dos aspectos políticos e históricos formadores da identidade nacional dos países da bacia platina, os quais, infelizmente, não possuo. Ouso lançar uma pergunta especulativa: a metamorfose explicaria o destino que a narrativa reservou a Otálora? Sendo um gaucho (mal) "convertido", digamos, seu final restaria fadado a tamanha prematuridade? Aliás, quando a imagem dele não apareceu refletida no espelho embaçado, vaticinei um "xi, ferrou, Otálora."

E olha só! Buscando "Otálora" no Borges Babilônico, encontrei uma informação bastante esclarecedora: a transformação do protagonista também se relaciona à ambiguidade do espaço de fronteira.
"Ali (fronteira) a ambiguidade é possível e a identidade pode ser alterada, refeita, como faz o personagem de “O morto” (O Aleph), Benjamín Otálora, um argentino que se torna um gaucho (v.) no Uruguai — uma ironia sobre a possibilidade de definir a nacionalidade argentina tendo como ponto de partida o gaucho."
- Pablo Martínez Gramuglia, Borges Babilônico (Organização: Jorge Schwartz)

Mas é claro. Boa. 

 (3) 
Ademais, acrescento somente que parece-me peculiar que as coisas tenham dado errado para o jovem Otálora exatamente quando ele se deixa guiar cegamente pela ambição, caindo na crença falaciosa de que sua juventude derrotaria a larga experiência do velho Azevedo Bandeira. Outro grave erro cometido pelo rapaz foi subestimar os laços de fidelidade construídos na sociedade gauchesca. Ele erra embaraçosamente ao apostar que o fiel capanga Ulpiano Suárez estaria disposto a passar a perna em seu velho chefe. Haveria, desse modo, lições de paciência e de respeito pela sabedoria e tradição que nos antecede? Deixo a especulação. 

E achei igualmente interessante que uma liderança bem-sucedida naquele meio gauchesco tenha sido caracterizada pela conquista de uma tríade (descrita por dois grupos distintos de palavras):
"A mulher, o arreio e o alazão são atributos ou adjetivos de um homem que ele almeja destruir." 
"(...) o amor, o mando e o triunfo, (...)"
- Jorge Luis Borges, O Morto.

Indica que, nas amplas e infinitas (oi!) planícies, seriam os bens que realmente importam.

Por fim, ressalto o gosto amargo produzido pelo destino final de Otálora. Considerando-se a frase “lhe permitiram o amor, o mando e o triunfo, porque já o davam por morto, (…)”, minhas conjecturas contemplativas concentraram-se nesta pergunta: a morte seria a única maneira de conquistar a tríade gloriosa? Opto concluir que, quando metemos os pés pelas mãos como o fez o jovem gaúcho Otálora, sim.

É, ficarei por aqui. Vamos ao vídeo da Aimée. Play!



[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]






[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Para quem teve de segurar um “tá, e daí?” ao terminar de ler O Morto – é, porém ressalvo que a Aimée admite ser um conto simples - , é espantosa a complexidade que se revela quando nos dispomos a 
lê-lo minuciosamente. A análise do vídeo ficou excelente. Procederei, então, à complementação das minhas impressões.

“O Imortal → O Morto”: é verdade! A ironia na sequencia dos títulos, comentada por Aimée, tinha me escapado vergonhosamente. Concordo quando ela diz que Borges era um fanfarrão. Se duvidar, é por isso mesmo que gosto tanto do que ele escreveu. 

Preciso anotar uma informação significativa que ela fornece no vídeo, a qual eu ignorava. Borges, em sua obra, contesta três certezas de nossa existência:

- O Universo;

- A Personalidade;

- O Tempo.

Ótimo, terei isso em mente para os próximos contos. Aimée refere que, em O Imortal, ele explora a contestação da personalidade. Contudo, como escrevi em minha postagem anterior, penso que o autor contesta conjuntamente também o tempo naquele conto. Como falar de “tempo” em um contexto de imortalidade, afinal? Em O Morto, Aimée esclarece que também encontramos a discussão da personalidade, visto que Otálora passa por extremos de identidade. Além disso, essa ambiguidade aparece não só no espaço de fronteiras e nesse lugar movente da personalidade do protagonista (as quais consegui captar), mas igualmente na cena em que o protagonista leva o chá para Bandeira. Era uma tarefa medíocre que, simultaneamente, notável por permitir que Otálora se aproximasse de seu alvo. Há lógica; e achei formidável!

Certo, contudo a parte mais legal da resenha da Aimée ficou por conta do comentário referente às leituras distintas que Otálora e Bandeira fizeram daquela situação. Otálora cai nas pistas falsas que surgem em seu percurso colocadas por Bandeira, o melhor leitor* e a personagem que efetivamente escrevia aquela história. Nesse sentido, a identidade que Otálora cria para si é uma mentira, ou seja, uma ficção! (O que, uma vez mais, contesta a ideia de personalidade.) Essa chave, penso, encaixa-se na pergunta que eu havia lançado (repito:): "A ausência de um atestado de veracidade daquilo que é narrado compromete o valor da produção literária? Repercute em nossa interpretação, certo, no entanto a invalida? Parece que não, confere?". Resta evidente, nesse ponto, que uma inveracidade não apenas não invalida uma narrativa; mas, inclusive, constrói a ficção! É divertido demais. Ah, e Aimée lembra que isso estabelece um paralelo com o conto A Morte e a Bússola, da coletânea Ficções. Não vislumbro outra saída, senão repetir a exclamação: é verdade!

[** Atualização em 20/01/2018**]
Atualmente estou lendo o livro Autumn, escrito pela escocesa Ali Smith, e surgiu uma passagem  - um diálogo entre duas personagens, para ser mais precisa - que acredito também traduzir de uma boa maneira o que eu quis dizer quanto à relação entre histórias x verdades x mentiras. Decidi incluir o trecho nesta postagem. Segue:
"The world exists. Stories are made up, Elisabeth said. 
But no less true for that, Daniel said. (...) And whoever makes up the story makes up the world, (...) And if I'm the storyteller I can tell it in any way I like, (...) 
So how do we ever know it's true? Elisabeth said. 
Now you're talking, Daniel said."
                                                                                                                      - Ali Smith, Autumn. 
[** Fim da atualização de 20/01/2018**]

Agora, para o que me aparvalhou: há, no texto, sutis referências bíblicas. Meu deus (intencional 😉). Benjamin é o nome do filho de Jacó, havendo reflexos (oi!) entre a jornada da figura bíblica e a da borgiana (Benjamín Otálora). Outra: a cena do beijo que Otálora recebe de sua amante, antes de morrer, lembra o beijo de Judas. Não dou conta desse fanfarrão argentino. Amo.

- Aimée, obrigada pelo vídeo.

Próximo conto: Os Teólogos. Até lá.
---

* Hum, eu seria uma Leitora Otária Otálora??!

06/01/2018

[OFF-TOPIC] Diário Cinematográfico #03

Total sentimentalidade nas estrelinhas e zero análise técnica, como sempre. ¯\_(ツ)_/¯
⭐ Não gostei.     ⭐⭐ Ok.      ⭐⭐⭐ Gostei.      ⭐⭐⭐⭐ Gostei muito.      ⭐⭐⭐⭐⭐ AAAH! INCRÍVEL.      

Plano: a cada dez filmes vistos, um post. Apenas algum breve registro do que me marcou/chamou atenção - imagem, gif, diálogo, frase, pensamento, reflexão... Qualquer bobagem está valendo, apenas pela lembrança.

Últimos, na ordem em que foram vistos:


🎥 A Esposa Solitária (Charulata) (1964 - by Satyajit Ray) ⭐⭐⭐⭐
Segundo filme do Satyajit Ray a que assisto e, novamente, encontro a mesma vagareza delicada para narrar a história. É um roteiro que dá aula de sutileza, contudo explodindo no desfecho. Em minhas elucubrações, questionei se a esposa representaria a própria Índia, carreando a mensagem: "se não voltarmos (indianos) nossas atenções para a beleza e o potencial de nosso próprio país, o perderemos." Devaneios.

Dentre as inúmeras imagens belíssimas criadas pela câmera do cineasta, escolho estas duas como minhas favoritas (gif's by me):

   


🎥 Minha Vida de Abobrinha (Ma vie de Courgette) (2017 - by Claude Barras) ⭐⭐⭐⭐
O quê? Não, é claro que  meu pinto não explodiu  não estou chorando. É só um cisco no meu olho, ok?

Sete crianças adoráveis curtiram seu diário cinematográfico. Wee!!

P.S.: Camille, a criança prodigiosa que lê Kafka. 👇




🎥 Star Wars: Os Últimos Jedi (Episode VIII - The Last Jedi) (2017 - by Rian Johnson) ⭐⭐⭐⭐
Gostei de tantas coisas desse filme, que nem sei o que registrar aqui da experiência.

< Uma busca rápida no Google depois. >

(1) Ok, infelizmente ainda não há gifs legais disponíveis, contudo consegui encontrar estas três imagens queridas:


   

(2) Esta liçãozinha simples, porém valiosa, do Mestre Yoda:


(3) Entrando em um, digamos, spin-off, o twitter do moço Kylo Ren:



🎥 Corra! (Get out) (2017 - by Jordan Peele) ⭐⭐⭐ 1/2





🎥 Comrades, almost a love story (Tian mi mi) (1996 - by Peter Ho-Sun Chan) 

Abandonado após 90 minutos e, pior, detestei cada segundo dessa curta, porém sofrida, jornada. O cineasta aí tem um fiapo de romancinho mal ajambrado usado para retratar concomitantemente a vida dos chineses que pretendiam enriquecer em Hong Kong nas décadas de 80 e  90 - somando o tema da influência do capitalismo na cultura oriental (sooo boooring) -, mas penso que ele não conseguiu chegar a lugar algum. Para compensar (???), ele tasca uma trilha sonora instrumental com um pianinho melodramático que toca durante toda.a.porcaria.do.filme. Sério, a cada três minutos de silêncio, entra o pianinho lamuriante. Irrita a ponto de gerar ansiedade pelo aguardo da próxima entrada da musiquinha lazarenta.

Ah, e Leon Lai não deve ter convencido nem a própria mãe de que ele estava interpretando um ingênuo interiorano da China. Coitada da Maggie Cheun. 

P.S.: o filme rendeu, contudo, uma descoberta significativa. Acho que finalmente entendi um certo moço que, atrás de mim em uma fila de padaria, falou: "ficarei aqui atrás dessa chinesinha*". Sim, pois eis que encontrei, com esse filme, minha doppelgänger chinesa! Posso estar desvairando, entretanto sigo achando que a atriz Kristy Yeung tem mesmo uns traços super parecidos com os meus. Impressionante:
(* Na verdade, o cara falou "japonesinha", mas usufruí de minha liberdade poética  ao escrever a narrativa, beleza?)

Prazer, gente!


🎥 A vida é doce (Life is sweet) (1990 - by Mike Leigh) 
Blimey, se eu tivesse de dar estrelinhas exclusivamente por conta da performance de um elenco, sem sombra de dúvidas A Vida é Doce ganharia cinco. Estes quatro atores estão excepcionalmente afiados:


E estas duas incríveis cenas finais garantiram a terceira estrelinha geral para o filme:

Surpreende perceber como os tópicos tratados através da dinâmica dessa família classe média inglesa da década de 90 ainda soam tão completamente atuais. Acredito que, caso refilmassem esse roteiro hoje, pouquíssima coisa necessitaria ser adaptada.



🎥 Poesia (Shi) (2010 - by Chang-dong Lee) ⭐1/2 
Filme simples e complexo, de fato tudo junto. A história é repleta de camadas, havendo doçura e dureza; beleza e tristeza. O contraste entre as personagens masculinas e femininas, em especial, é bastante interessante e chama demais a atenção. Lindo, lindo. (Gifs by me:)

   



🎥 Alice nas Cidades (Alice in the Cities) (1974 - by Wim Wenders) ⭐ (💛)
Os filmes do Wenders são mesmo pura poesia, hein? Adorei cada segundo. Os temas surgem bastante intrincados, porém de um modo despretensioso e sensível: a construção de nossa identidade, a busca pelo nosso lugar no mundo, a relação entre memória (+ as empreitadas anteriormente citadas) x fotografias, amadurecimento, o paralelo estabelecido na jornada do adulto e da criança, amizade... Pra mim, tudo genial.

Começando o ano incluindo mais um no grupo de filmes queridos da vida. Yay! (Gifs by me:)

   

Ah, quase esqueço: estabeleci relação imediata entre uma fala do filme e um dos meus trechos favoritos do livro To The Lighthouse, da Virginia Woolf. Phil aparece frustrado porque suas fotos não captam aquilo que ele efetivamente vê, enquanto Lily Briscoe, a personagem pintora de Woolf, exaspera-se porque não consegue transpor para suas telas as imagens tal como as enxergava. Haveria algo errado com nossa percepção da realidade? Creio que não, correto? Seguem os trechos: (Gif by me:)


(* Grifos são meus:)
"The jacmanna was bright violet; the wall staring white. She would not have considered it honest to tamper with the bright violet and the staring white, since she saw them like that, fashionable though it was, since Mr Paunceforte’s visit, to see everything pale, elegant, semitransparent. Then beneath the colour there was the shape. She could see it all so clearly, so commandingly, when she looked: it was when she took her brush in hand that the whole thing changed. It was in that moment’s flight between the picture and her canvas that the demons set on her who often brought her to the verge of tears and made this passage from conception to work as dreadful as any down a dark passage for a child. Such she often felt herself — struggling against terrific odds to maintain her courage; to say: “But this is what I see; this is what I see,” and so to clasp some miserable remnant of her vision to her breast, which a thousand forces did their best to pluck from her."
                                                                                                  - Virginia Woolf, To the Lighthouse.


🎥 Umberto D. (1952 - by Vittorio De Sica) ⭐1/2
Acho que mereço o Troféu Coração de Pedra, pois a verdade é que não curti muito. Perdão, cachorrinhos? Como castigo, não duvido de que terei pesadelos com esta cena do canil (gif by me):

<TRIGGER WARNING: Imagem forte de crueldade contra animais.>


* Update: não falei?! Não foi exatamente um pesadelo, no entanto sonhei com um cãozinho que tive no passado. No sonho, claro que eu era uma dona ingrata, assolada por sentimentos de culpa. Partiu pra terapia!


🎥 Minha Adorável Lavanderia (My Beautiful Laundrette) (1985 - by Stephen Frears) 
Optei por um repeteco do Diário #02, encerrando essa dezena com mais um filme do Daniel Day-Lewis.   (* Primeira vez que vejo esse.) É bem engraçado como as imagens de My Beautiful Laundrette gritam "Anos 80!". (A temática principal, ressalvo, segue relevante, ainda mais em tempos de Brexit.) Daniel, por sua vez, aparenta protagonizar um vídeo dos Smiths. Aliás, ele está tão ~lindo~. Sim, mesmo com o cabelo descolorido pavorosamente.

Como lidar com o sorriso desse cara, meu deus?? Argh!

Apenas quando vi a imagem da lavanderia antes da reforma é que minha memória devolveu a lembrança do curioso conto da Lucia Berlin sobre interações sociais em lavanderias. Segue a imagem do filme com trecho do conto:


"Traveling people go to Angel's. Dirty mattresses, rusty high chairs tied to the roofs of dented old Buicks. Leaky oil pans, leaky canvas water bags. Leaky washing machines. (...) I liked the Indians and their laundry. The broken Coke machine and the flooded floor reminded me of New York. Puerto Ricans mopping, mopping. Their pay phone was always out of order, like Angel's."
                                                                                                  - Lucia Berlin, Angel's Laundromat.

***

Até o próximo Diário! 

19/12/2017

Lendo Contos | O Aleph - Jorge Luis Borges / #01 - O Imortal

(Sinopse, info, etc: link/ Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


A Aline Aimée, do ótimo canal no You Tube Chave de Leitura, está realizando um projeto de resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse perdidamente pelo autor. Isso me impedirá de pagar mico (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1.
- Vídeo da Aline Aimée sobre O Imortal: link 2.

** RISCO DE SOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

Parece que comecei me dando mal, pois esse primeiro conto é repleto de referências literárias,  históricas, geográficas. De cara, digo que o meio de campo embaçou, tendo em vista que não li nenhuma das obras de Homero (eu sei, eu sei). De qualquer maneira, efetuarei um voo rasante sobre questões que chamaram minha atenção, além de algumas correlações, digamos, desajuizadas.

Bem, acredito que a epígrafe escolhida por Borges seja crucial, dado que aparenta conter a chave que revela a temática principal do conto. Reproduzo o trecho escrito por Francis Bacon (* a edição da Companhia das Letras não conta com tradução do trecho):

"Salomon saith: There is no new thing upon the earth.
So that as Plato had an imagination, that all knowledge
was but remembrance; so Salomon giveth his sentence,
that all novelty is but oblivion."
Francis Bacon, Essays, LVIII

Aplicando-se esse raciocínio, não existiriam inovações no mundo, dado que toda e qualquer novidade e/ou novo conhecimento seriam, na verdade, espécies de ecos de rememorações de algo preexistente e esquecido. Sendo assim, seria possível concluir que tudo que existe é, de certo modo, imortal. Segundo a própria narrativa de Borges:
"Entre os imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre incansáveis espelhos. Nada pode acontecer uma única vez, nada é preciosamente precário."
Parece remeter muito à ideia do "eterno retorno", porém com a ressalva irônica de que não haveria retornos, visto que não haveria exatamente partidas. Refletidas umas nas outras, todas as coisas do mundo tornam-se eternas, sem hiatos. Trata-se de uma imortalidade que, além de brincar com os espelhos queridos por Borges, reproduz outra característica imagética favorita do autor: a circularidade. Os imortais existiriam na forma de uma verdadeira simbiose, o que fundamentaria uma conclusão expressa neste outro trecho do conto:
"Ninguém é alguém, um único homem imortal é todos os homens. (...) o que é uma cansativa maneira de dizer que não sou."
O título daquele livro do Pirandello (vira e mexe o cito nesse blog) resumiria bem o trecho: Um, Nenhum, Cem Mil. Se nossa existência torna-se perene através dos outros, conseguimos ser todos e, concomitantemente, nenhum.

Ademais, os imortais do conto decidiram viver no pensamento e a ele se entregavam, esquecendo-se do mundo físico. Ou seja, o caminho para essa imortalidade estaria no pensamento. Como pensar sem linguagem? Sem palavras? Hum, então as palavras seriam o veículo para esse universo dos imortais e, dessa forma, os pensamentos expressos mediante palavras estariam sempre ecoando em outros pensamentos, em outras palavras.
"Quando o fim se aproxima, já não restam imagens da recordação; só restam palavras. (...) Eu fui Homero; em breve, serei Ninguém, como Ulisses; em breve serei todos: estarei morto." 
Nesse sentido, a forma e a estrutura narrativa do conto trazem uma metalinguagem que recria, ela própria, a imortalidade circular tratada pela história. O protagonista reverberou em seu texto as palavras de outros autores e, no seu processo ficcional, assim também o fez Borges. Avançando nessas elucubrações, este meu próprio post dá continuidade a essa circularidade, uma vez que ecos de Homero, de Bacon, de Borges surgem aqui reproduzidos. Seria essa a razão inconsciente que me leva a escrever todas estas groselhas no blog? Garantir minha própria imortalidade e, simultaneamente, contribuir para a imortalidade dos livros e autores que leio? Será? Seria cômico, visto que, conscientemente, não sinto nenhuma intenção de ser imortal, porque, conforme descrito no conto de Borges:
“(...), aumentar a vida dos homens era aumentar sua agonia e multiplicar o número de suas mortes.”
Tratando-se desse modo a imortalidade, desafia-se a própria percepção do conceito de tempo, não é mesmo? O qual, aliás, é outro tema favorito do escritor argentino. Seria lógico falar em passado, presente e futuro, quando tudo é eterno?

Certo, agora é o momento das correlações nada acadêmicas. Ocorre que, em O Imortal, a imortalidade seria conquistada através das águas de um rio:
"(...) "o rio secreto que purifica os homens da morte. (...) rio cujas águas dão a imortalidade."
Pois muito bem, e que tipo de associações esdrúxulas minha mente elaborou com essa informação?

1. A mais óbvia (??!!): o Poço de Lázaro - The Lazarus Pit! Entendo bulhufas a respeito de super-heróis, contudo, vendo a série mal-ajambrada Arrow, do canal CW, aprendi que o vilão da DC Comics chamado Ra's al Ghul tem esse tal Poço de Lázaro que lhe garante a imortalidade, veja só. A razão para usar “Lázaro” - homem ressuscitado por Jesus – no título dessa arma secreta é fácil captar, entretanto o “poço/pit” ficou mais interessante com a leitura desse conto.

Borges x DC Comics! Às vezes, nem eu acredito nas minhas presepadas audaciosas.

2. Na sequência, aprontarei mais esta: Borges x The Leftovers! Isso mesmo, aquela série excelente da HBO, a qual tornou-se uma das minhas favoritas da vida. Elaborarei uma breve explicação para essa segunda presepada. Dentre os diversos temas tratados em The Leftovers, encontramos estes: o enigma maior sobre nossa existência, os desafios relacionados à compreensão de nossa realidade e mortalidade (alguns dos temas recorrentes na obra de Borges!). Nesse contexto, os roteiristas recorrem ao elemento água inúmeras vezes ao longo dos episódios. No universo ficcional constituído por realidades paralelas (opa, Borges novamente), a personagem interpretada por Theroux, Kevin Garvey, seria aparentemente imortal - pelo menos, ele retorna do mundo dos mortos cerca de 02-03x -, e a água é o veículo utilizado para essa travessia. Selecionei algumas cenas a fim de tentar ilustrar essa onipresença da água na série:

                       

Já que a água molhou meu caminho novamente com o conto de Borges, aproveitarei para dar uma olhadela rápida no livro de símbolos que possuo. Antes, algumas alusões são muito fáceis de serem feitas, obviamente. Nossa existência, afinal, começa dentro de uma bolsa preenchida por líquido amniótico e, regredindo mais na linha temporal, o surgimento dos primeiros seres vivos na Terra foi patrocinado amplamente pela presença da água. Ah, e temos ainda a água utilizada no batismo, representando vida, morte e ressurreição.

J.C. Cirlot, no Dictionary of Symbols, afirmou algo meio óbvio, mas para o qual eu não tinha atinado. Por não possuir uma forma fixa, a água correlaciona-se bastante à noção que discuti de uma existência simbiótica infinita. Ou não? Este trecho, escrito por Cirlot, resume bem o que tento expressar:
“On the cosmic level, the equivalent of immersion is the flood, which causes all forms to dissolve and return to a fluid state, thus liberating the elements which will later be recombined in new cosmic patterns.”
Esta segunda afirmação, do mesmo autor, tornou as coisas divertidas:
“This ‘fluid body’ is interpreted by modern psychology as a symbol of the unconscious, (...)”
Uma eternidade conquistada através da água ou, em outras palavras, de um inconsciente coletivo?! Mas é claro! É precisamente isso! Hum, ou ainda... Uma memória coletiva?

Os dados que encontrei a respeito do símbolo “rio” também caem como uma luva (nenhuma surpresa) em O Imortal  - grifo meu:
 “River An ambivalent symbol since it corresponds to the creative power both of nature and of time. On the one hand it signifies fertility and the progressiveirrigation of the soil; and on the other hand it stands for the irreversible passage of time and, in consequence, for a sense of loss and oblivion.”

No mais, apenas acrescento o tom onírico de toda a narrativa, o que nos faz questionar se aquilo que lemos é real ou um sonho. Contudo sempre surge a interrogação: o que seria o Real? 

Ok, acho que essas foram minhas impressões principais. Fico devendo possíveis correlações com Ilíada/Odisseia, pois, como confessei, nunca os li. Vamos ao vídeo da Aline Aimée. Play!


[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]





[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Peço perdão, pois concederei espaço para um breve autoelogio: pela ótima análise da Aimée, parece que me saí melhor do que eu imaginava. Poxa, consegui, sim, captar boa parte da essência do conto. Yay!

Quanto ao que me escapou, aponto que foi, principalmente, a ideia explorada por Borges de que a imortalidade, tal como a concebemos imediatamente (= viver no plano físico eternamente), seria terrível, visto que tiraria do Homem o senso de propósito. A morte é o que confere sentido à vida. O próprio nome Joseph Cartaphilus, citado logo no início do conto, já carrega esse conceito de que a imortalidade seria um castigo ao Homem. Eu até tinha pesquisado o nome e encontrado a informação de que ele era o judeu errante, no entanto morri na praia antes de fazer a ligação de que a "maldição" que Jesus aplica-lhe é justamente a imortalidade. Como esclarece Aimée: "Ele não morreria até que Jesus voltasse, até o fim dos tempos." Interessante demais. Quando escrevi que eu mesma, conscientemente, não tinha nenhum desejo de ser imortal, nem tinha pensado sob essa perspectiva do Borges, mas, sim, porque me agrada muito mais "ser ninguém" - inclusive, aprendi com a Aimée que essa é uma frase da obra de Homero.

A proposta de Borges para o tipo de imortalidade possível, do modo como discuti e como também o fez Aimée, seria portanto o contraponto efetivamente viável. Ou seja, a imortalidade sobrevém apenas com a tradição cultural que se propaga com a atuação de todos os homens. Aimée ressalta que Homero teria conseguido exatamente isso, uma vez que ele é recorrentemente referido por outros escritores. Todos escritos seriam continuação de Homero.

Outra ligação que falhei em estabelecer foi entre palavras (como registrei, os instrumentos para a imortalidade) e, logicamente, livros! São os livros que assumem o papel daquele espelho do mundo, com ele estabelecendo reflexos mútuos. Evidente! Livros são formados por vários outros livros, e gostei desta fala da Aimée: "Os textos de Borges são como bibliotecas." Igualmente não tinha percebido ativamente que Borges reproduz, nesse conto, sua teoria da imortalidade não somente pelas citações e referências - como afirmei -, mas também mediante reprodução da “narrativa de jornada” desenvolvida por Homero. Além disso, desconhecia que o autor referia a si próprio como um escritor leitor; um autor que simplesmente reescreve tudo que lê. Fascinante.

Para finalizar, uma especulação. Aimée optou por não discutir as correntes filosóficas exploradas no conto por Borges, entretanto ela cita brevemente isto: "Ele cita aqui um filósofo Gianbattista Vico que falaria de uma teoria cíclica (...)". Daí, confabulo: ignorando a teoria desse filósofo italiano, será que consegui inferir corretamente a referência filosófica, ao fazer aquela relação da circularidade?! Em pesquisa breve no site Wikipedia, localizei estes dados

"Cyclical history (Corsi e ricorsi)

Vico believed in a cyclical philosophy of history where human history is created by man. His term for the cyclical nature of history was "corsi e ricorsi". Most importantly, man and society move in parallel from barbarism to civilization.
As societies become more developed socially, human nature also develops, and both manifest their development in changes in language, myth, folklore, economy, etc.; in short, social change produces cultural change.

Vico is therefore using an original organic idea that culture is a system of socially produced and structured elements. Hence, knowledge of any society comes from the social structure of that society, explicable, therefore, only in terms of its own language. As such, one may find a dialectical relationship between language, knowledge and social structure.


Relying on a complex etymology, Vico argues in the Scienza Nuova that civilization develops in a recurring cycle (ricorso) of three ages: (...)"

Não houve uma equivalência exata, mas cheguei relativamente perto. Boa. 

***
Adorei a brincadeira! Farei um esforço para manter esse exercício com a Aimée; a quem agradeço imensamente pelos vídeos. 

16/12/2017

What it feels like for a girl


Eis que uma sequência de eventos sincronísticos me obrigou a revisitar sentimentos juvenis do passado. O insight revelador dessa sincronicidade ocorreu enquanto eu escovava os cabelos na frente do espelho: meus olhos encararam atônitos suas imagens reflexas, denunciando a inequívoca e pasmada assimilação da cadeia de acontecimentos. 

Difícil identificar o início, porém sei que o catalisador da constatação consciente foi a recente leitura do livro The Member of The Wedding, escrito por Carson McCullers, combinada ao contemporâneo compartilhamento no twitter de uns versinhos que escrevi aos 13 anos, durante uma aula de literatura da escola. Minha versão adolescente poeta mandou qualquer coisa deste tipo:

"Não sei quê
não sei que lá
choro pelas lágrimas
que não tenho para chorar."
                       - Daniela C.L.(13 anos)

(Pois é.) É imperioso registrar que a inspiração para o compartilhamento dessa ~obra-prima~ naquela rede social foi justamente o poema supostamente escrito por outra pré-adolescente. Seguem os versos da Lorena  que a Lorena teria plagiado (?) do Khalil Gibran:
(* Por favor, direcionem a atenção ao fato de que a reprodução pela aluna sinaliza atração pelo tema, beleza?)

Via: twitter.
O insight que tive à frente do espelho, dias após a divulgação da minha ~arte~ (ok, parei com a autodepreciação), relacionou-se à súbita percepção de que os sentimentos que fizeram meu eu pré-adolescente escrever aqueles versos foram bastante similares àqueles que exasperam Frankie Addams, a protagonista de treze anos do livro da McCullers. Desse ponto, então, levei somente míseros segundos para recordar que, poucos meses antes, eu chorava na sala de uma psiquiatra, à medida que narrava fatos que me haviam ocorrido aos treze anos - sentindo-me ridícula ao longo do processo, obviamente. Não, definitivamente não é uma etapa fácil e inofensiva da vida.
Dando continuidade à cadeia de assimilação, lembrei ademais que, além da McCullers, li em 2017 dois outros contos, escritos por Flannery O'Connor e Lucia Berlin, que igualmente exploram a louca avalanche de transformações típicas da avassaladora fase pré-adolescente. A lembrança de um conto da Katherine Mansfield lido em 2016, sobre a mesma temática, também acabou invadindo minha epifania. Nada mais justo, portanto, do que tentar estabelecer um diálogo entre esses ótimos textos, sim? Organizar as perspectivas oferecidas por essas excepcionais autoras e, quem sabe, submeter-me a uma espécie de terapia literária. The Member of the Wedding conduzirá a conversa, enquanto os demais contos - e minha própria experiência pessoal - contribuirão pontualmente ampliando as reflexões. 




De que idade estamos falando?
- The Member of the Wedding,  Carson McCullers: Frankie Addams, doze anos.
- A Temple of the Holy Ghost, Flannery O'Connor: protagonista de doze anos, sem nome.
- The Wind Blows, Katherine Mansfield: Matilda, adolescente sem idade especificada.
- Stars and Saints, Lucia Berlin: protagonista de 09 anos, inominada.
________________________________________________________
Ou seja: falamos da faixa etária típica da puberdade feminina. 


✒ Estações do ano x Pré-adolescência.
Dentre as quatro, McCullers e Mansfield são as autoras que optam por explorar essa simbologia. A escolha é interessante, se pensarmos que os gregos representavam as estações do ano através de figuras femininas e, principalmente, que o símbolo reforça a premissa de que o estado de espírito das protagonistas correspondia exatamente a uma etapa do ciclo de desenvolvimento, do ritmo de vida.

A estação escolhida, no entanto, diverge ligeiramente entre as duas escritoras: a americana opta pelo verão, enquanto a neozelandesa fica com a transição entre verão e outono. A informação é apresentada ao leitor logo no início das narrativas:
(McCullers:) "It happened that green and crazy summer when Frankie was twelve years old." 
(Mansfield:) "It is cold. Summer is over-it is autumn-everything is ugly."
Pesquisando esses símbolos no livro de Michael Ferber, A Dictionary of Literary Symbols, encontrei que o verão, no contexto da vida representada por um ano, simbolizaria precisamente a maturidade, o completo desenvolvimento dos poderes da mulher. O mesmo autor relembra que Shakespeare evoca em seus sonetos que o verão é muitas vezes desagradável por conta do excesso de calor e da ventania, o que acredito avivar metaforicamente o desconforto - físico, mental - característicos da etapa puberal. 

Em relação ao outono escolhido por Mansfield, Ferber destaca tratar-se da estação em que simultaneamente celebra-se a colheita do verão e lamenta-se a proximidade do fim do ano. É, desse modo, uma estação de dupla faceta, visto que ela festeja tanto a vida, como a morte. Apropriada, parece-me,  considerando-se a própria dualidade transitória "criança-mulher" presente nessa transição.  Além disso, o outono é igualmente usado como metáfora para a maturidade, como Ovídio aqui o emprega: ‘‘Then autumn follows, youth’s fine fervour spent, / Mellow and ripe, a temperate time between / Youth and old age, his temples flecked with grey’’ (Met. 15.209--11, trans. Melville). Dado que a idade da protagonista não é explicitamente relatada por Mansfield, o outono parece sugerir que ela estava completando seu ciclo, e não apenas iniciando-o.


✒  Para Frankie, nem verão, nem outono; mas sim: a Estação (Temporada) dos Dias de Cão!
Exato, a querida protagonista de McCullers opta por um apelido muito mais propício para aquela maldita/bendita estação; o mesmo (origem na Grécia antiga) adotado para designar os dias mais quentes e desconfortáveis de verão.
(McCullers:) “And the season of dog days is like this: it is the time at the end of the summer when as a rule nothing can happen-but if a change does come about, that change remains until dog days are over. Things that are done are not undone and a mistake once made is not corrected.”

✒ Por falar em símbolos,
outro que chama atenção é o vento e suas variações - ventania, tornado, tempestade, ciclone -, os quais surgem intensamente no conto de Mansfield (logo no título: The Wind Blows!), mas também no romance de McCullers. Curiosamente, é um símbolo que também parece carregar dualidade: ventos são vigorosos, caóticos, potencialmente devastadores e, ao mesmo tempo, vazios e efêmeros como aquela própria etapa das vidas das protagonistas. Mansfield vale-se ainda do mar para representar a intensidade de emoções e metamorfoses por que atravessava sua personagem. 
(Mansfield:) "It is only the wind shaking the house, rattling the windows, banging a piece of iron on the roof and making her bed tremble." 
(McCullers:) "I think something is wrong. It's too quiet. I have a peculiar warning in my bones. I bet you a hundred dollars it's going to storm. A terrible terrible dog-day storm. Or maybe even a cyclone."

✒ Abruptude desnorteante.
Peço desculpas, pois optarei por apelar para aquele velho chavão: dorme-se criança e acorda-se mulher. É evidente que as mudanças não acontecem com a fugacidade que essa expressão sugere, entretanto a sensação é praticamente essa; uma vez que o tempo que nos é concedido não é, definitivamente, proporcional à extensão da metamorfose que sofremos. A despeito disso, precisamos sobreviver.

Cientes do sentimento, as autoras recorrentemente reforçam que suas personagens sentem-se tomadas de surpresa, atrapalhadas em decorrência das transformações repentinas:
(Mansfield:) "Suddenly-dreadfully-she wakes up. What has happened? Something dreadful has happened." 

(McCullers:) "One night in April, when she and her father were going to bed, he looked at her and said, all of a sudden: “Who is this great big long-legged twelve-year-old blunderbuss who still wants to sleep with her old papa?”

“And then, on the last friday of August, all this was changed: it was so sudden that Frankie puzzled the whole blank afternoon, and still she did not understand."

“It is so very queer the way it all just happened.”

“Then the spring of that year had been a long queer season. Things began to change and Frankie did not understand this change.”

✒ Então o corpo muda.
Logicamente esse território não teria como estar de fora. No caso das meninas, contudo, há uma engrenagem social que torna o fenômeno mais perverso. A menina confiante que se enxergava (inconscientemente) quase como um ser andrógino, passa a sentir com maior intensidade as pressões relacionadas às rígidas concepções sociais de como uma mulher deve se comportar e se apresentar, notadamente para tornar-se "atraente para garotos". É o terreno fértil para insegurança, baixa autoestima e ansiedade.

Frankie Adamms, aos 12 anos, já contava com 1.67m de altura, calçava sapatos de número 36 e temia o risco de seguir crescendo até virar uma girafona, o que seria péssimo, já que uma dama não pode ser um varapau, não é mesmo? A pobre garota começa a preocupar-se em aparentar seu melhor no casamento do irmão, o que implicaria, na visão dela, em longos cabelos loiros cacheados (porém ela tinha acabado de cortá-los bem curtos!), muitos laçarotes, babados, perfume, sapato apertado. Enfim, somente itens que ela não estava habituada a usar, mas aos quais estaria obrigada a se adequar.
(McCullers:) "this summer she was grown só tall that she was almost a big freak, and her shoulders were narrow, her legs too long. (…) her hair had been cut like a boy's, (…) The reflection in the glass was warped and crooked, but Frankie knew well what she looked like; (...)”
É também quando certos desvios físicos são costumeiramente corrigidos. Eu, por exemplo, tive de encarar aparelhos ortodônticos horrendos; a protagonista do conto de Berlin, coletes para tratamento de escoliose.
(Lucia Berlin:) "But I had this heavy metal brace on my back, for what was called the curvature, let's face it, a hunchback, so I had to get the white blouse and plaid skirt way too big to go over it, (...)" 
                                   


✒ Well then, I'm a FREAK!
Essa recorrência é fascinante, dado que surge de maneira explicitamente similar nas narrativas de O'Connor e McCullers. Em determinados trechos, as respectivas protagonistas mencionam a passagem pela cidade de uma dessas feiras andarilhas de múltiplas atrações, dentre as quais havia a famigerada Tenda dos Freaks. Ainda mais assombroso é que as garotas focam suas atenções na apresentação do hermafrodita, recurso narrativo que novamente parece acentuar os conflitos internos proporcionados pelas expectativas sociais de gênero que elas subitamente precisavam enfrentar.

Certa distinção, todavia, pode ser observada na reação das duas àqueles Freaks. Frankie entra em uma espécie de pânico contido ao considerar que aquela possa ser a turma a qual ela pertence. É o pavor de também ser uma aberração digna de um show circense.
(McCullers:) “She was afraid of all the freaks, for it seemed to her that they had looked at her in a secret way and tried to connect their eyes with hers, as though to say: we know you.”
A protagonista de O'Connor, de outro lado, reagiu de modo peculiar e inesperado: ela apropria-se da resiliência contida nas palavras declaradas pelo hermafrodita para encontrar consolo para seu desespero. Eis o que disse aquele freak: (O'Connor:) This is the way He (God) wanted me to be." Quer dizer, a adolescente conseguiu usar as palavras de teor religioso para se aceitar do jeito que era. Visto que O'Connor era católica fervorosa, não surpreende.

Pessoalmente, sinto que tive uma experiência que resultou da combinação dos casos dessas duas personagens. Comigo, não houve um show de freaks, é lógico, mas uma música. Qual? Voilà, na linda versão piano + Coral Scala, só de garotas:



Quando ouvi essa música pela primeira vez (por volta dos 13-14 anos, creio), sobretudo quando pude associar aquela voz à imagem de um vocalista com pálpebra caída e dentinhos tortos, senti um grande conforto ao perceber que, afinal, eu não estava sozinha! Havia outros creeps por aí que, como eu, não sabiam o que diabos estavam fazendo nesse planeta. (- Obrigada, Thom!)


✒ Solidão, isolamento e não pertencimento.
Aqui é onde desponta aquele meu poeminha. A inspiração para aqueles versos foi esta: meu eu adolescente sentia-se excluído e acreditava (tolinha) que todas as outras garotas populares tinham vidas intensas repletas de acontecimentos, ao passo que nada acontecia comigo. Portanto, como eu poderia chorar; quer de tristeza, quer de alegria? (Rindo:) Perdão pelo tom excessivamente dramático e provavelmente piegas, porém esse é um fato inegável, ainda que embaraçoso. As personagens das obras selecionadas nesse post, além do mais, não permitem que eu minta: todas sentem uma solidão imensa, sentem-se excluídas do mundo e que não pertencem a lugar nenhum. Alguns trechos (de cortar o coração):
(Lucia Berlin:) "(...) I knew that never in my life was I going to get in. Not just fit in, get in. (...) not only unable to get in but seemingly invisible, which was a mixed blessing." 
(McCullers:) “This was the summer when for a long time she had not been a member. She belonged to no club and was a member of nothing in the world." 
“She was an I person who had to walk around and do things by herself. All other people had a we to claim, all others except her.”
No caso de Frankie Addams, McCullers é particularmente cruel, tendo em vista que, naquele verão, 1. as outras garotas não permitiram sua entrada no clube que dava festas com a presença de garotos, 2. sua melhor amiga mudara-se para outro estado, 3. seu irmão partiria de casa após o casamento iminente e 4. até seu gatinho havia fugido de casa para, pasmem, achar uma companheira (teoria da querida personagem Berenice). É demais para uma mocinha de apenas 12 anos, gente!


✒ Som e Penumbra preenchem o vazio.
Admito a possibilidade de que eu tenha viajado nessa percepção, mas a incluirei em meus registros de qualquer jeito. O'Connor e McCullers me pareceram usar penumbra e som, respectivamente, como artifícios aos quais suas protagonistas recorriam, em seus quartos, para disfarçar e/ou aplacar a solidão que as espreitava constantemente; tentativa de criar um aconchego artificial. Seguem os trechos:
(O'Connor:) "She went upstairs and paced the long bedroom (...) She didn't turn on the electric light but let the darkness collect and make the room smaller and more private." 
(McCullers:) “Frankie's room was furnished with an iron bed, a bureau, and a desk. Also Frankie had a motor wich couls be turned on and off; the motor could sharpen knives (...)"

✒ Autoestima tem, mas acabou.
Diante de tudo isso, espanta que essas moças se odiassem?
(O'Connor:) "(...) she knew she would never be a saint. She did not steal or murder but she was a born liar and slothful and she sassed her mother and was deliberately ugly to almost everybody." 
(McCullers:) “This was the summer when Frankie was sick and tired of being Frankie. She hated herself, and had become a loafer and a big no-good who hung around the summer kitchen: (...)"
Que desejassem ser um outro alguém?
(McCullers:) "I wish I was somebody else except me."

✒ Das duas, uma: ou destruição, ou reparação. 
Trata-se, digamos, da direção que o ricochete segue. Algumas garotas rebelam-se a favor da explosão e da destruição. Frankie começa a cometer pequenos furtos pela cidade, a brincar com a pistola do pai e com facas e, efetivamente, a desejar destruir tudo.
(McCullers:) “I just wish I could tear down this whole town.”
Um tipo mais ameno de ira, quase defensiva, direciona-se às garotas que mostravam-se ajustadas à vida (especialmente as mais velhas), sejam aquelas que já estavam namorando e que as excluíam da conversa, sejam as que partiam para o bullying declarado. Para nossas protagonistas, as outras garotas eram estúpidas, tolas e até chamadas de todo tipo de palavrão. Pura salvaguarda.
(O'Connor:) "The child decided, after observing them for a few hours, that they were practically morons and (...) she couldn't have inherited any of their stupidity." 
"Neither one of them could say an intelligent thing and all their sentences began, "you know this boy I know well one time he..." 
(McCullers:) "The son-of-a-bitches.”
Chutando a porta de vez, a personagem da Mansfield revolta-se contra tudo e todos.
(Mansfield:) "How hideous life is-revolting, simply revolting... (...) Go to hell", she shouts, running down the road."
A personagem da Berlin apela para o caminho oposto: empenha-se ao máximo em tentar agradar, para que, de alguma forma, seja aceita e consiga construir qualquer vínculo com alguém. Por ser mais nova, talvez? O desespero da garota é tamanho, tadinha, que ela dedica-se com afinco a agradar até o padre da Igreja Católica que ouvia sua confissão (ela era de família protestante!):
(Berlin:) "Then he asked about my sins. I wasn't lying. I really and trully had no sins to confess. Not a one. I was so ashamed, surely a could think of something. Search deep into your heart, my child... Nothing. Desperate, wanting so bad to please I made one up."
Nesse ponto, Berlin acaba aproximando-se de O'Connor, considerando-se que o universo religioso também traz à sua protagonista algum tipo de alívio para toda aquela pressão. (*As coisas não dão muito certo no final, é verdade.)


✒ Metafísica e crise existencial de sobra.
Pensa que a Lorena do 4o ano B é a única a interessar-se pelo vazio? Então, pense novamente. Todas essas garotas começam a despertar para questões relacionadas à vida, ao universo e tudo mais, entretanto as respostas escapam-lhes completamente. A consequência? Medo, mais solidão e aflição existencial da boa. Seguem algumas instigantes reflexões de nossas personagens:
(Berlin:) "A lot of things were really bothering me in those days, like what gave life to the candles and where the sound came from in the desks. If everything in God's world has a soul, even the desks, since they have a voice, there must be a heaven. I couldn't go to heaven because I was Protestant. I'd have to go to limbo. I would rather have gone to hell than limbo, what an ugly word, like dumbo, or mumbo jumbo, a place without any dignity at all." 
(McCullers:) “She was afraid of these things that made her suddenly wonder who she was, and what she was going to be in the world, and why she was standing at that minute, seing a light, or listening, or staring up into the sky: alone. She was afraid, and there was a queer tightness in her chest.”

✒ Saída? Fugir!
Essa é, aparentemente, a única solução que as personagens vislumbram e a que anseiam fervorosamente. O "para onde" nem importava, mas apenas escapar do sofrimento e explorar o mundo. Retomando nosso símbolo: como conter o vento em um espaço confinado e privá-lo da liberdade de soprar pelos quatro cantos? O conto de Mansfield, por exemplo, encerra com a personagem sonhando acordada a imagem de sua fuga no navio que partia. 

Para Frankie,  o fato do irmão ter passado dois anos servindo ao exército em um lugar tão pitoresco como o Alasca, acrescido das notícias provenientes de vários países durante a então corrente Segunda Guerra Mundial, intensificavam nela a noção de que havia um mundo vasto aguardando que ela o explorasse. Em algum ponto dele, com certeza ela se encontraria. 
(Mansfield:) "They are on board leaning over rail arm in arm. (...) Good-bye, little island, good-bye...(...) the ship is gone, now. 
(McCullers:) “I've been ready to leave this town só long. I wish I didn't have to come back here after the wedding. I wish I was going somewhere for good.” 

“She did not know why she was sad, but because of this peculiar sadness, she began to realize she ought to leave town. (…) but she did not know where she should go.”
**** 
Se pudesse, abraçaria todas essas personagens - e as garotas reais, de carne e osso, que agora enfrentam esse pandemônio - e afirmaria-lhes que esses dias de cão terminam eventualmente. Outros começam, admito, contudo reservaria a revelação desse "detalhe" para uma outra ocasião. 😉


"(...) You are the we of me."

                                                       - Carson McCullers, The Member of the Wedding.


Para exorcizar esses velhos esqueletos do armário, vamos de Florence Welch?


 THE DOG DAYS ARE OVER, FRANKIE! 
(For now.)