25/02/2017

[DL #04] Middlemarch - George Eliot (Mary Ann Evans)

Em 2016, inicio a leitura de Middlemarch pela primeira vez e tento registrar aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada um dos oito livros que compõem a obra. Não li previamente nada sobre o livro e desconheço quase tudo sobre ele.

Edições adotadas: 

LIVRO 04
Three Love Problems


 Errei feio ao apostar que Fred levaria a herança de Mr. Featherstone, hein? Espere; pensando
melhor, nem mandei assim tãããoo mal, pois, durante alguns minutos, a herança ficou, sim, nas mãos
do Fred. Hum, se bem que eu sabia da encrenca relacionada aos três testamentos... Ok, mandei mal
mesmo. Fui muito ingênua por não ter antecipado que Eliot, evidentemente, aproveitaria a ocasião
para quê? Isto mesmo: introduzir uma nova personagem. Avaliando retrospectivamente minha breve
jornada literária, Middlemarch desponta como o livro com a maior densidade demográfica de
personagens que já li. É realmente impressionante. Ressalto que não tenho enfrentado dificuldades para orientar-me no meio de tanta gente, visto que a narrativa de Eliot dá conta do recado bastante bem. Porém, ainda assim, enalteço o auxílio providencial do meu caderninho de anotações das personagens. (*^-‘) 乃

Mas, afinal, quem seria esse tal Joshua Riggs? Por que justamente ele, um cara que materializou-se
do nada (para o leitor e personagens), é o sortudo que leva para casa o cobiçado prêmio? Por
enquanto, pouca coisa foi esclarecida a respeito desse mistério, porém a narrativa já depositou
muitas pulgas atrás da minha orelha:

1. Onde e como Featherstone arrumou, na última hora, esse pimpolho desconhecido?
2. Por que, antes de morrer, Featherstone insistiu para que Mary Garth queimasse o último testamento, exatamente aquele que desfazia todos os anteriores e garantia Riggs como herdeiro? Mary poderia ter evitado algo? O quê?! Alguma catástrofe futura?
3. O que significa aquele papo do Riggs com seu padrasto pidão (cap. 41)?
4. E qual seria a implicação daquele pedaço de papel que o padrasto surrupia do enteado, no qual consta o nome de... Bulstrode?! (O banqueirão protagonizará a temática da burguesia que apropriava-se da posição social, relevância e posses da nobreza decadente?)

MUCH CONSPIRACY!!

Destaco que essa passagem da revelação do conteúdo do testamento foi, até aqui, a parte mais engraçada do livro. Li durante a madrugada e é possível que eu tenha acordado o vizinho com minhas gargalhadas. Como se não bastasse redigir três testamentos, o filho da puta - não há outro termo, desculpe - do Mr. Featherstone ainda teve a pachorra de sacanear os urubus da família reservando parte considerável da sua herança para a construção de um asilo para velhos pobres, a fim de “agradar a Deus”. Mr. Featherstone (R.I.P.) fará muita falta nessa narrativa. Tremenda personagem.

As manifestações da parentada foram espetaculares:
– "Inconcebível!"
– "Excêntrico!"
– "Hipócrita!"
– "E a despesa que a gente fez com a viagem, (…)!"
– "Para ele, o lugar para onde foi não vai fazer diferença"
 (= foi pro inferno.)
– "Não tenho a menor vontade de pôr meus pés aqui de novo. Tenho minha própria terra e meus bens para legar aos outros." (= versão pomposa do “Eu nem queria essa bosta mesmo. Eu sou “rycoh!”)
– "Um testamento de doido numa família já basta."
- Narrativa finíssima, Eliot. Parabéns.

Fred Vincy, agora que não pode mais contar com nenhuma herança caída do céu, terá de tentar tomar vergonha na cara e retomar os estudos. Por enquanto, Mary escapa desse sujeito (o que também destruiria outra teoria minha); enquanto um novo pretendente surge no horizonte dela: Mr Farebrother! Mais um religioso. Que dó. Nas palavras da Mary (falando para Fred Vincy):
“(...) (você) seria um desses pastores ridículos que contribuem para tornar o próprio clero ridículo.”
Eu já havia registrado suspeita similar, mas aproveito a recorrência do tema para ratificar a impressão de que o clero inglês do século XIX era composto, em sua maioria, por um bando de ridículos sem vocação, interessados no pragmatismo financeiro da posição.

Por falar em Mary Garth (que persiste como minha personagem favorita), o narrador ofereceu uma
nova descrição dela que fez com que eu elaborasse outra hipótese: Mary Garth poderia ser uma
espécie de alter ego da... George Eliot?! Transcrevo o trecho suspeito a seguir:
"Se você quiser saber mais exatamente como era Mary na aparência, há uma chance em dez de que veja um rosto como o dela na rua cheia amanhã, se lá se puser à espreita: (...) ponha os olhos numa pessoinha amorenada e roliça, de postura firme e serena, que olha à volta de si mas não supõe que haja alguém olhando-a. Se ela tiver o rosto grande e a testa quadrada, sobrancelhas bem marcadas, o cabelo preto e crespo, certa expressão de regozijo no olhar, o segredo do qual sua boca guarda, e no mais uns traços totalmente insignificantes - tome essa pessoa comum mas não desinteressante como um retrato de Mary Garth. Caso você a faça rir, ela há de lhe mostrar que tem dentinhos perfeitos; caso a ponha zangada, não há de erguer a voz, mas é provável que diga uma das coisas mais amargas que você já tenha provado; caso lhe faça uma gentileza, ela nunca esquecerá."
Será? (Tópico para pesquisa posterior.)


 Acredito que, até este ponto da leitura, o livro 4 foi o mais denso do ponto de vista histórico,
expondo muitos elementos narrativos que retratam de maneira bastante interessante o cenário
político-social e a tendência para reformas liberais (inevitáveis) que predominavam na Inglaterra durante o começo do século XIX. Como registrado em DL anterior, os eventos de Middlemarch ocorrem durante o ano de 1829, momento imediatamente anterior ao início da concretização das maiores reformas inglesas (= 1831). Segundo o site do parlamento do Reino Unido, houve, por exemplo: Poverty and the Poor Law, Poor Law reform, Children and Chimneys, Early Factory Legislation, The 1833 Factory Act, Later Factory Legislation Coal Mines. Desse modo, não foi nenhuma surpresa deparar-me com a aristocracia provinciana de Middlemarch completamente em polvorosa e morrendo de medo de perder seus privilégios (baseados principalmente na posse de terra) para a "ralé" social.

Naquele momento, também discutia-se a necessidade de reformas eleitorais amplas na Inglaterra, as
quais concretizaram-se em 1832. Assim, também quanto a esse aspecto, aquele era o período em que políticos de Middlemarch (e de outras províncias inglesas, estou certa) estavam soltando fumaça pelo nariz diante das possibilidades projetadas para o futuro próximo: perda de prerrogativas, maior cerco contra a corrupção eleitoral, extensão do direito de voto a não nobres e novas regras eleitorais e de financiamento político que, possivelmente, aumentariam os custos de campanha dos candidatos das províncias ao parlamento inglês.

Claro, tive de fazer uma breve pesquisa para compreender melhor esse contexto histórico, mas a narrativa da Eliot é bastante generosa – e divertida! - na forma com que ilustra a panela de pressão em que o país parece ter se transformado naquele ano. No livro 4, ela utilizou especialmente o Mr. Brooke, “The Pioneer at the Grange” (apelido irônico que recebeu dos conterrâneos), para protagonizar os fatos principais. Se entendi direito, Mr. Brooke, ao comprar um jornal de linha editorial liberal que pretendia atirar pedra no telhado de vidro dos colegas aristocratas de Middlemarch, acabou esquecendo-se de que as pedras que ele atirava atingiriam seu próprio telhado de vidro. Enquanto Mr. Brooke brincava de editor de jornal liberal, contando com a ajuda oportuna de Ladislaw, seus rendeiros viviam em situação de extrema dificuldade e miséria, trabalhando em terras que necessitavam urgentemente de investimentos de infraestrutura que Mr. Brooke displicentemente negava-se a fazer. A forma com que Eliot descreve um dos rendeiros dele acabou remetendo-me diretamente ao retrato que Tchekhov constrói, em seus contos, da vida sofrida dos mujiques russos daquele mesmo século. Os privilégios sociais baseados na propriedade eram, de fato, bastante concentrados em uma pequena aristocracia conservadora que tornava bastante difícil a vida da maioria da população inglesa.

Mr. Chettam, o sogro, é quem acaba liderando o grupo dos nobres coleguinhas da cidade que alertam Mr. Brooke de como a conduta dele era arriscada e hipócrita. Foram necessárias diversas advertências e conselhos do sogro, dos Cadwallader's e de Dorothea para que Mr. Brooke percebesse, quase mediante epifania assustadora, que ele precisava reestruturar suas terras e melhorar as condições de vida de seus rendeiros, caso não quisesse permanecer como alvo das próprias criticas que ele propagava em seu jornal.

Aproveito o tema para resgatar a relevante cena que inicia o livro 4 e que me pareceu bastante simbólica para esse cenário social. Posicionados em uma janela no alto de um solar, Mrs. Cadwallader, os Chettam's, Dorothea, Mr. Brooke e o Reitor assistem ao funeral de Featherstone e, à exceção de Dodo, fazem chacota dos "estranhos animais" presentes. A morte de Featherstone parece simbolizar a morte da nobreza inglesa que, idiota do alto de seu castelinho de areia, nem percebia que seu legado chegava ao fim.
"A pequena nobreza rural dos velhos tempos vivia numa atmosfera social rarefeita: encastelada à parte em seus postos de observação na montanha, olhava para baixo sem distinguir muito bem os cinturões de vida aglomerada no plano."
E a sugestão de que exatamente Bulstrode, o banqueirão da cidade, possa abocanhar as terras do falecido Featherstone apenas reforça isso. 

Cabe registrar que, por conta disso, essa foi uma passagem em que os Garth finalmente se deram bem na história (no thanks to Fred Vincy, all right), uma vez que Caleb foi contratado por Mr. Brooke e Mr. Chettam para administrar as propriedades de ambos. A intenção dos contratantes era “demonstrar” que estavam investindo em suas terras e beneficiando seus rendeiros, de modo que "não havia nenhuma necessidade de Reformas".

P.S.: Ah, e por conta dessa grana extra para o pai, Mary escapa de tornar-se professora, permanecendo em Middlemarch.



Quando avistei o título do livro 4, fiquei empolgada diante da suposta evidência de que eu havia acertado na mosca com a minha teoria registrada no DL#03, contudo logo percebi que aquele “Três” não refere-se a casais distintos, mas aos vértices de um complicado triângulo amoroso: Dorothea - Casaubon - Ladislaw.

O fascinante desse imbróglio triangular é que Dorothea ignora absolutamente o papel que assume na relação conturbada entre os primos. Ela não nutre (pelo menos não demonstrou até aqui) nenhum interesse romântico por Ladislaw, nem mesmo percebe o efeito que sua presença provoca no mancebo. De outro lado, suspeito poder afirmar que ela não possui esse tipo de interesse sequer pelo marido, visto que casara-se para ser o braço direito de um grande estudioso que ilusoriamente transformaria o mundo. Ou seja, a mulher do triângulo não está nem aí para os dois paspalhos, estando mais preocupada em encontrar um sentido para a própria vida. E, ainda assim, os bocós se metem em uma briga boba com direito a troca de insultos requintados em cartinhas pomposas (≈ “Sai daqui!” x “Saio nada!”); cada um convicto da estima que o “oponente” sentia por Dorothea, quem representava o único vértice que ignorava fazer parte de um triângulo amoroso. Bom, pelo menos os dois tontos não duvidam da inocência de Dorothea.


 No capítulo 38, quando Dodo volta a socializar longe de Lowick e do marido, pude perceber de
maneira mais contundente e explícita como a personagem havia, de fato, mudado muito depois do
casamento com Mr. Casaubon. Lendo o discurso eloquente que ela profere ao tio e a Ladislaw, lançando argumentos enfáticos, minha reação imediata foi: “caramba; essa, sim, é a Dorothea do livro 01!”. Ocorre que essa mesma Dorothea do livro 01 é desconhecida de Ladislaw e, curiosamente, foi recebida por ele com certa aversão:
“For the moment, Will's admiration was accompanied with a chilling sense of remoteness. A man is seldom ashamed of feeling that he cannot love a woman so well when he sees a certain greatness in her: nature having intended greatness for men.”
Sei que vou repetir-me, mas expresso novamente a tristeza de observar o destino cruel de uma mulher como Dorothea. O livro 4 expôs mais explicitamente o medo que ela sentia de expor suas opiniões e o constrangimento causado pelo desinteresse de um marido que não tinha paciência para lidar com as colaborações dela. De qualquer jeito, destaco que a personagem reforça não almejar um papel social de protagonismo, tencionando somente o exercício do braço direito de um “revolucionário”, digamos. Ela é uma personagem peculiar, sem qualquer dúvida. (→ Acho que me repeti aqui também, mas aí está.)


 Por outro lado, enfatizo o tratamento particular que o narrador destina a Casaubon. Reiteradamente, nosso narrador embarca em uma espécie de defesa dele, esforçando-se ao máximo para que o leitor compreenda também o lado do marido e perceba que não é assim tão fácil criticá-lo. Há tanta dedicação em expor honestamente Casaubon (no livro 4, foram muitas páginas dedicadas a tal propósito), que começo a desconfiar que Eliot tenha se inspirado em algum conhecido, quando criou essa personagem. Ademais, só agora me dei conta de que minhas suspeitas em relação aos reais propósitos do narrador aumentam justamente quando a narrativa trata de Casaubon. O objetivo deste que narra é mesmo a imparcialidade histórica - para fatos e personagens - ou ele está sendo irônico e tentando me ludibriar?

Bom, com o auxílio desse escrupuloso narrador, pude compreender que Casaubon também não estava feliz em sua vida de casado e que, assim como Dorothea, constatava o equívoco de suas expectativas matrimoniais. É uma personagem que aparenta representar o indivíduo que sempre foi cheio de ambições e desejos (exatamente como a jovem Dorothea!), mas que, chegando na idade em que a ceifadora pode ser observada espreitando na esquina, percebe que falhou em tudo e que não há mais tempo para concertar as coisas. Ele fez ressurgir na memória aquela ótima frase do Brás Cubas: “(...) tantos sonhos, e não sou nada.”

Nesse contexto, as presenças de Dorothea e Ladislaw lembram-no, sem piedade, de seu fracasso e
de sua irrelevância, e criticam implicitamente toda a vida dele. Até então, Casaubon conseguia
convencer a si mesmo de que a vida seguia bem, contudo, encurralado pela doença e pela jovialidade da esposa e do primo, essa empreitada torna-se bem mais difícil.
“When the commonplace 'we must all die' transforms itself suddenly into the acute consciousness 'I must die-and soon'(...)”
Ah, e acertei o diagnóstico dele! ↴
“I believe that you are suffering from what is called fatty degeneration of the heart, a disease which was first divined and explored by Laennec, (…)"
Complementando, a descrição que Lydgate faz de seu paciente realmente demonstra como Mr. Casaubon havia colocado o pé na cova cedo demais:
“(...) the figure (…) showed more markedly than ever the signs of premature age – the student's bent shoulders, the emaciated limbs, and the melancholy lines of the mouth. 'Poor fellow', he thought, 'some men with his years are like lions; one can tell nothing of their age except that they are full grown'.”
Certo, certo; entendo por que o narrador o trata como “Poor Mr. Casaubon (...)”.

P.S.: só que... O temor que Mr. Casaubon manifesta pelo destino de Dorothea depois que ele tenha
batido as botas, rechaçando um eventual casamento dela com Ladislaw, é patético demais.

P.S. 2: que final enigmático, aquele na escada, não? Achei bastante suspeito e simbólico, só não saberia dizer do que, ainda.


 E surgiram novas informações sobre o tal ~mau casamento~ da tia Julia: ela inventou de casar-se
com um polonês refugiado e foi excluída da herança da família! E é por conta disso, portanto, que
Casaubon sentiu-se moralmente obrigado a ajudar financeiramente o primo – contudo segue
indisposto a dividir patrimônio com ele. Ladislaw acabou sofrendo duras consequências por essa
escolha da avó, sempre vivendo em dificuldade financeira. E eu achando que Casaubon estava
sendo generoso demais com o priminho... Veja só.


 Por fim, as informações sobre os preparativos do casamento entre Lydgate e Rosamond seguiram
reforçando minha teoria do DL#3 - ainda que ela aplique-se apenas a dois casais. As expectativas do
noivo e da noiva quanto à vida matrimonial parecem divergentes demais, para que as coisas
deem certo. O pai, pelo menos, bem que fez tudo que pôde para evitar o potencial estrago. Vamos
acompanhar.


 Primeira metade de Middlemarch concluída; rumo à segunda! 😎

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