10/11/2019

[3 alinhavos breves] Old teenage hopes are alive at your door

01
Essa pessoa ↝ sorridente em frente ao Water Lillies de Monet é Chet Gold, atual supervisor do serviço de segurança (security supervisor) do MoMA. Eu o conheci mediante a série At The Museum (S02), um compilado de curtos vídeos que o museu nova-iorquino disponibilizou no YouTube para documentar a reforma e expansão conduzidas em 2019.

Dado o tema principal deste diarinho, acredito que não causará espanto revelar que foi graças à literatura que, pela primeira vez, atentei e refleti de modo consciente acerca do trabalho exercido pelos seguranças de museus. Especificamente, foi o espanhol Javier Marías quem virou minha cabeça em noventa graus para que eu parasse de olhar os quadros e reparasse naqueles sisudos empaletozados de (aparente) castigo no canto das galerias. Antes de Marías, seguranças de museus eram apenas a peculiar categoria de profissionais cuja autoridade, por alguma razão estapafúrdia (que a psicologia certamente explica), me instiga um empenho para deixá-los orgulhosos de meu comportamento exemplar. Crazy much? Não à toa, o único segurança que tenho gravado na memória é aquele (da equipe do MoMA, aliás) que chamou minha atenção duas vezes!, porque tirei fotos onde não devia. Posto isso, a dura verdade: não sou uma exemplar visitante de museu. Meu castelo de areia ruiu, e a culpa é de um segurança do MoMA. - Play the world's smallest violin, dj! ¯\_(ツ)_/¯

Mas voltemos ao assunto desta entrada, o qual começa mesmo é com Marías. O pai do protagonista de Coração tão Branco era um renomado curador de arte, ex-funcionário do Museu do Prado, e ele dizia ao filho que é preciso manter os seguranças de museus sempre contentes, pagando-os bem, pois deles depende não apenas a segurança e o cuidado, mas a própria existência das pinturas. O pai do narrador tinha consciência de que:
"(...) um homem ou uma mulher que passa seus dias encerrado numa sala vendo sempre as mesmas pinturas, horas e horas todas as manhãs e algumas tardes sentado numa cadeirinha sem fazer outra coisa além de vigiar os visitantes e olhar para as telas (proibido até de fazer palavras cruzadas), podia enlouquecer e propiciar ameaças ou desenvolver um ódio mortal a esses quadros."
     - Javier Marías, Coração tão branco (Tradução: Eduardo Brandão)

Ou seja, é um trabalho com potencial para deixar qualquer um maluco de raiva dos malditos quadros. Nesse sentido, o pai disse ao filho que, em sua época, ele sempre buscava saber como andava a vida pessoal dos seguranças (se estavam sossegados ou alterados) e que todo mês mudava os guardas de lugar, para que pelo menos vissem as mesmas telas apenas durante trinta dias e seu ódio se aplacasse. [Adendo: na narrativa de Marías, esse papo meio que funciona como alegoria para a vida conjugal - cada cônjuge, todo santo dia, é "obrigado" a olhar para a cara do outro etc -; porém pularei essa parte, porque não estou disposta a mexer em casa de marimbondo. Contudo mantenho a ressalva, uma vez que a considero relevante para a conclusão da minha história.]

Enquanto ainda persistia o efeito de Coração tão Branco, o senhor Chet Gold cruzou meu caminho e bagunçou as peças do quebra-cabeça. Naqueles vídeos, ele confirma que o trabalho de segurança de museu é de fato estressante. Os seguranças tendem a um estado de elevada ansiedade, em decorrência da obrigação de perscrutar os movimentos de todos, tendo de identificar qualquer sinal de mero ímpeto, a fim de serem capazes de se antecipar a possíveis atos depredativos. Nesse contexto, Gold menciona que ele próprio precisa de um lugar para relaxar ("to decompress") por alguns instantes durante a jornada de trabalho. Certo; e qual é o lugar que oferece-lhe o precioso respiro? É bem ali, de frente para o Water Lillies, de Monet. Gold compartilha que é àquele quadro que ele sempre recorre nos momentos de tensão. Aquela série de vídeos é inclusive circular, pois termina com a imagem dele reencontrando-se com a obra, agora que o MoMA reabriria as portas, e de novo exibindo seu belo sorriso.

Moral da história "Javier Marías x Chet Gold"? Ah, cada um com a sua. 😉

02
A leitura do Todas as Crônicas segue curso lerdo, entretanto é válido registrar que, dentre os causos "Clarice Lispector e seus leitores" (bastante divertidos), aquele do polvo é um dos mais marcantes até agora. Explico. Lendo uma das crônicas, descobri que a leitora Ana Luísa, em agradecimento pelos textos que expressam exatamente como ela se sente, resolve presentear Lispector com um polvo. Refiro-me, é lógico, a um prato de polvo cozido e temperado, com arroz tal e coisa. O pior, ou melhor (sei lá), é que o regalo inusitado nem é o maior encanto da história, visto que a parte que ficou congelada na minha memória corresponde sobretudo àquela em que Lispector, tomada por espanto, apela a um dicionário, para buscar o significado da palavra polvo. (??!!!!!!!!!!!!!!!) Sobre o achado:
"E é simplesmente esse pavor de viver: "molusco cefalópode, que possui oito tentáculos, cheios de ventosas". Logo abaixo vem uma palavra que se aplica a Ana Luísa: polvarim - "pó que sai da pólvora". 
                                                                - Clarice Lispector;  Ana Luísa, Luciana e um Polvo.

Na crônica, Lispector diz que Deus deve saber o motivo que a fez buscar a palavra polvo no dicionário. Pois agora que li Nox (livro lindo, lindo), apostaria que, se Anne Carson tomasse conhecimento desse causo, ela também teceria um ou dois comentários a respeito da reação da cronista. Nox é um livro elegíaco que Carson escreve ao falecido irmão e, nessa obra, ela dedica-se à tradução de Catullus 101, elegia que o romano Gaius Valerius Catullus escrevera a seu próprio irmão morto. No verso de cada página de Nox (é possível ver na imagem acima), a autora incluiu a entrada lexicográfica completa (de um dicionário latim → inglês) de cada uma das palavras que compõem o poema Catullus 101, e o memorável efeito provocado pela leitura de algo tão simples (verbetes de dicionário!) me deixou embasbacada.

Cássia Eller já cantava, né? Ela cantava:
Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras momentos
Palavras, palavras
Palavras, palavras

Como sou palhaça, é claro que estou me mordendo pra não tirar sarro dessa canção. Simultaneamente, porém, questiono se dá para afirmar com tranquilidade que esses versos são pura galhofa. Ontem, eu teria respondido que sim; hoje, não sinto tanta segurança.

Um dicionário, um oráculo.
Uma palavra, uma resposta.
Uma palavra, um poema.
Uma palavra, uma pergunta.
Como ler uma palavra?
Palavra, palavra
Palavra?!

03
O filme Oitava Série (Eighth Grade - Bo Burnham, 2018) deflagrou devaneios relacionados a esta cena que não sai da minha cabeça:
Aquilo que está sendo engolfado pelas chamas é uma espécie de cápsula do tempo. Numa atividade escolar da sexta série, Kayla havia montado aquela caixa com memorabilia e uma mensagem em vídeo para seu eu do futuro ("a garota mais legal do mundo"* → é o que está escrito na tampa), a Kayla prestes a concluir a oitava série. Como prêmio por ter sido eleita "aluna mais calada da turma"* (- padroeira dos introvertidos, olhai por nós), ela ganha o direito de revisitar a caixa antes da formatura no ensino fundamental. (*sonho x realidade)

Após assistir (sozinha, no quarto) a si mesma no vídeo do passado e constatar que havia desapontado seu eu da sexta série, Kayla desce até a sala e pede ao pai que a ajude a queimar umas coisas. O que me pegou desprevenida foi a reação do pai. Quando ela responde que aquela caixa continha seus sonhos e esperanças, ele confirma sem alarde - "e você os está queimando?"-, e pronto; não diz mais nada. O pai não se atira desesperado para salvar a caixa do fogo, nem vomita um daqueles discursos piegas típicos de coach® de internet. Ele só assente e permanece em silêncio, pondo a mão sobre o ombro da filha. Ficou bonito, achei. A sequência adquiriu ares de uma cerimônia formal que integra toda e qualquer vida; quase um rito de passagem. Sai a festa de quinze anos, entra a queima dos sonhos e esperanças da pré-adolescência? Parece-me uma ótima proposta. A outra surpresa foi ver Kayla montar uma nova caixa. A garota não se intimida e simplesmente grava um novo vídeo (e otimista!) no qual expressa, para seu eu do futuro, o que ela espera e sonha que aconteça nos próximos três anos de ensino médio. E essa é a cena que me pôs a devanear. A marmanja aqui, com muito mais de treze anos na cara, está ruminando tudo issaê. Que vexame. Digo, primeiramente até avaliei que minha reação era imatura, mas depois o cosmos começou a mandar supostas ~mensagens subliminares~ que me fizeram ponderar que talvez esse lance de elaborar ⇋ destruir sonhos e esperanças seja de fato mais complexo do que aparenta ser.

Por exemplo, tomemos o filminho O Caçador de Dotes (A New Leaf - Elaine May; 1971), que vi ao acaso algumas semanas após Oitava Série. Pra jogar conversa fora com a presa, o caçador de dote pergunta-lhe quais eram seus sonhos e esperanças. Ela diz lá qual é sua esperança (= descobrir uma nova espécie de planta - ela era pesquisadora), daí me faz o favor de emendar com esta pérola: 
Mas que merda. E agora, hein? O que eu sonho é a mesma coisa que eu espero? É tudo a mesma coisa, sonho e esperança? Teria algo a ver com tempo: curto x longo prazo? Seria uma questão de complexidade? Será que o Martin Lurther King tinha um sonho? Não seria uma esperança? E faria diferença? Que dor de cabeça. Ah, taí!, seguirei os exemplos de Lispector e Carson. Abro nova aba para o dicionário on-line e: 
O ligeiro alívio proporcionado por esses verbetes não durou muito tempo, pois a leitura do livro Serotonina trouxe outra palavra para participar da rodada de elucubrações: desejo. Por sinal, suspeito que o que efetivamente me inquieta nesse jogo de palavras foi revelado no instante em que o narrador do Houllebecq me lançou este questionamento: desejo equivale à “razão para viver”? 


"Desprovido tanto de desejos quanto de razões para viver (seriam equivalentes os dois termos?, era uma questão difícil, não tinha uma opinião formada a respeito)
(...)
Mas nesse momento eu não tinha nenhum desejo, o que muitos filósofos, pelo menos era a minha impressão, consideravam um estado invejável; os budistas estavam todos na mesma longitude de onda. Mas outros filósofos, assim como os psicólogos, consideravam que essa ausência de desejo era patológica e insalubre."
    - Michel Houellebecq; Serotonina (Tradução: Ari Roitman + Paulina Wacht)


E se, ao contrário de Kayla, uma pessoa não consegue montar caixas de sonhos, esperanças e desejos? Esse tipo de pessoa ("normal/anormal?") existe? É possível sentir-se incapaz de montar uma caixa dessas? Tal incapacidade seria compatível com a vida? Pode-se falar de preguiça? Para meu conforto, o narrador de Serotonina felizmente recordou que a controvérsia persiste até entre filósofos, budistas e psicólogos.
"(...) meu Deus, como é difícil vencer a esperança, como a esperança é tenaz e ardilosa!, será que todos os homens são assim?"
                                       - Michel Houellebecq; Serotonina (Tradução: Ari Roitman + Paulina Wacht)

Aliás, e quanto à destruição? Todo e qualquer sonho/esperança/desejo é feito (retomo: devem ser feitos?... pulemos a pergunta) para ser eventualmente queimado? Se a resposta for positiva, como reconhecer a ocasião oportuna de queimar aquilo que ainda não se concretizou ou conquistou? Será que a técnica da Marie Kondo também pode/deve ser aplicada à organização desse tipo de caixa? Sobre essa parte do imbróglio, recebi duas mensagens cósmicas. A primeira veio na forma de um poema da Florbela Espanca (grifos meus): 

   Ruínas

   Se é sempre Outono o rir das Primaveras,
   Castelos, um a um, deixa-os cair...
   Que a vida é um constante derruir
   De palácios do Reino das Quimeras
!

   E deixa sobre as ruínas crescer heras,
   Deixa-as beijar as pedras e florir!
   Que a vida é um contínuo destruir
   De palácios do Reino das Quimeras!

   Deixa tombar meus rútilos castelos!
   Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
   Mais alto do que as águias pelo ar!


   Sonhos que tombam! Derrocada louca!
   São como os beijos duma linda boca!
   Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar.
                  
                                          - Florbela Espanca, Livro de Sóror Saudade.

Ok; então os indícios poéticos apontam que Florbela Espanca segue a mesma filosofia da adolescente Kayla. A propósito, a portuguesa contribuiu com outra palavra da mesma, digamos, linhagem: quimera.

A segunda mensagem cósmica foi enviada na forma de uma citação extraída de um livro da Hilda Hilst:
“há sonhos que devem permanecer nas gavetas, nos cofres, trancados até o nosso fim. e por isso passíveis de serem sonhados a vida inteira.”
                                                                               - Hilda Hilst; Estar sendo. Ter Sido.

Para reduzir o risco de interpretar equivocadamente a frase de Hilst, decidi ler o livro, porém adianto que, como todo bom livro de ficção, ele não me trouxe respostas definitivas. Aquele que advoga a favor da permanência de alguns sonhos na gaveta é Vittorio, um senhorzinho de 65 anos, já em cadeira de rodas, que pressente que a morte está prestes a dar-lhe o bote. Portanto conto com a abordagem de uma adolescente - Kayla não reaproveita nenhum sonho da caixinha; manda tudo pro fogo - e de um idoso – Vittorio conserva um ou dois sonhos na gaveta. Curti essa dualidade, pois enriquece demais estas divagações.

Aquela fala de Vittorio é dita em referência ao amigo que nunca havia conseguido sequer encontrar-se com a corista que amava. Na teoria de Vittorio, possivelmente o amigo apaixonado sabia que, no momento em que dormisse com a amada, o sonho de viver aquela paixão se acabaria, o romance terminaria e ele restaria com nada. É nesse contexto que Vittorio defende a manutenção de alguns sonhos no cofre, a fim de que possam ser ressonhados. Na velhice, quando tudo se esvai, tudo se dilui, (…) e a carne vai ficando triste, talvez seja realmente um alento e tanto poder ressonhar um desses sonhos do passado. Ao mesmo tempo, no entanto, Vittorio repete com certa frequência, ao longo de seu monólogo, esta frase: preciso viver meu sonho. Ela me faz interrogar: o sonho que ele teima em manter na gaveta não estaria também causando-lhe sofrimento? O discurso dele sugere a angústia de ainda querer muito viver um sonho que é impossível, dado que ele está ciente de que já não tem energia, de que agora ele não dispõe de tempo. O ressonhar seria fonte de prazer e sofrimento?  Em uma de suas crônicas, Lispector escreve que "Todo prazer intenso toca no limiar da dor",  portanto (outra vez nas palavras dela:) talvez assim seja.

Caramba, quanta pergunta sem resposta. Mas dane-se; encerrarei a postagem aqui, antes que eu queime mais fusíveis da minha cabeça, matutando abobrinhas. 😟

23/10/2019

[alinhavando autoficções] Here comes the sun, little darling

01
Em entrevista concedida a Stephen Colbert no começo deste mês, Thom Yorke falou algo (valendo-me das palavras de @livrisa:) que me trouxe reticências*. Comentando o título de seu novo disco solo - ANIMA -, ele expressou gostar da ideia de que todos nós temos pequenos animas que são enviados por aí, através de nossos black mirrors (celulares), para firmar comunicação. Só que, ainda conforme o querido músico, todos interpretam equivocadamente o que recebem, de modo que o pequeno anima retorna desfigurado e irreconhecível, feito bumerangue, direto na fuça do remetente (a metáfora é por minha conta). Na opinião de Yorke, é como se estivéssemos vivendo sob um estado de sonho bizarro, enquanto a realidade afasta-se em direção oposta. Provavelmente eu conseguiria vomitar um monte de trivialidades inspiradas nesse discurso, contudo pinçarei somente o ponto de partida do raciocínio dele, aquele relacionado ao ato de espalhar pela internet pequenos animas (sentido não estritamente junguiano, mas também "yorkiano" rs) de nós mesmos e de como eles são capazes de afetar o anima de alguém completamente desconhecido. [*: dentre os símbolos que adoto em minha marginália, constam justamente as reticências (uso bastante!); razão por que curti a expressão da Isabella Tramontina.]

Em abril deste ano, Luiza Pinheiro, autora da excelente newsletter Doses de Tiquira, enviou a cartinha #56, na qual ela narra o feriado de semana santa que desfrutara na praia de Campeche, em Florianópolis. O texto é lindo, super bem escrito, e me tocou profundamente, em especial os trechos em que ela reflete a respeito da experiência de ser uma mulher viajando sozinha pra praia, sem grandes planejamentos, apenas a fim de curtir um pouco de sol, mar e sossego. Embora me considere expert na arte de fazer coisas sozinha, ir só à praia, sobretudo a uma praia não urbana, continuava representando uma fronteira a ser ultrapassada, e sinto que a cartinha da Luiza Pinheiro me ofertou a dose de anima que me faltava. Em outubro deste ano, após seis anos em que períodos de férias foram gastos trancada sozinha em um apartamento, arrumei mala e cuia para passar pouco mais de uma semana na praia. Foram dias muito, muito felizes em que revi o mar e durante os quais - para resgatar meu último alinhavo - diversos animais concederam-me o privilégio de poder observá-los: tartarugas marinhas (nadei com elas!♥), tubarões (adulto e filhote!♥), golfinhos, aves marinhas, polvos, arraias, peixinhos multicoloridos, siris, moreia, lagartixas... Por volta do terceiro dia, admito que bateu uma desolação quando me olhei no espelho e constatei que as sardas se multiplicavam e os melasmas se expandiam por conta de toda aquela danação sob o sol. Esse sentimento, entretanto, morreu quando minha piegas poeta interior me informou que cada novo pigmento de melanina representava um segundo da alegria que eu estava sentindo naquelas férias. Em meu rosto, desenhava-se um mapa de instantes pessoais de felicidade. #poetei💩

Agradeço à Luiza Pinheiro (pessoa que sequer conheço, com quem sequer me comunico diretamente) o tantinho de anima recebido que permitiu eliminar de minha visão a barreira "proibido viajar sozinha para praias". Foi uma experiência que reforçou a intenção de lançar nesse blog-diarinho pedacinhos de meu anima que, com alguma sorte, possam afetar positivamente o anima de alguém. Não; mais fácil melhor: simplesmente manter o bumerangue no ar; relançando, na forma de relatos de gratidão, os pequenos e generosos animas que chegam até mim.

02
O autoficções #03 incluiu entradas em que devaneei sobre o medo despertado pelo mar, alinhavando Claire Denis, Don Delillo e Hugo Von Hofmannsthal. Pois dia desses decidi finalmente travar contato com a escrita do David Foster Wallace e é claro que escolhi começar pelo famosão ensaio sobre cruzeiros (*por sinal, ganhou uma nova dimensão depois da série Succession. Quem viu, sabe a que me refiro). Nessa leitura, me admirei quando Foster Wallace revela sentir real pavor do mar. Ele retoma os argumentos que eu já tinha citado com a ajuda daqueles artistas (em destaque: o mar nos faz confrontar nossa mortalidade e insignificância), porém acrescenta outro estupendo: a relação entre o efeito corrosivo do mar (pela maresia, salinidade etc) e nosso envelhecimento; nosso próprio processo de corrosão progressiva, digamos, rumo à morte. E Wallace completa a reflexão com a fascinante contribuição da obra Moby-Dick, do Melville (ainda não li; fuén). Insiro a passagem (grifos meus; tradução: Daniel Galera e Daniel Pellizzari):
"(...) eu senti desespero. (...) uma mistura simples — um estranho anseio pela morte combinado com um sentimento esmagador da minha pequenez e da minha futilidade, que se apresenta como um medo da morte. Talvez seja algo próximo daquilo que as pessoas chamam de pavor ou angústia. Mas é bem outra coisa. É como desejar morrer para escapar da sensação insuportável de compreender que sou pequeno e fraco e egoísta e que sem a menor dúvida vou morrer. É querer se atirar do navio. (...) Eu, que antes desse cruzeiro nunca estivera no oceano, sempre associei o oceano com pavor e morte. (...) Na escola, acabei escrevendo três trabalhos diferentes sobre o trecho “O Náufrago” de Moby Dick, o capítulo em que o grumete Pip cai no mar e enlouquece por conta da imensidão vazia onde se vê flutuando. (...) E o próprio oceano (que descobri ser salgado como o inferno, salgado como gargarejo para aliviar dores de garganta, com borrifos tão corrosivos que a armação dos meus óculos provavelmente terá de ser trocada) é em essência um enorme mecanismo de decomposição. (...) Mas num Cruzeiro de Luxo 7nc somos envolvidos com destreza na construção de fantasias variadas de triunfo sobre essa morte e essa decomposição."
                           - David Foster Wallace, Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer.

Persisto no papo sobre o medo do mar não apenas pelas novas reverberações obtidas com David Foster Wallace, mas principalmente porque descobri, nessas férias, que eu mesma tenho mais medo do mar do que supunha. Sério; logo que lá cheguei, me caguei de medo de entrar na água. - E se uma corrente me arrastar? E se um tubarão me morder? Uma moreia?! E se eu pisar numa arraia? E se eu encostar numa água-viva? E SE EU MORRER? O que me ajudou a dominar o pânico foi o anima de um mergulhador chamado - que rufem os tambores - Matrix! O mergulho guiado (de snorkel) equivaleu a tomar a pílula vermelha (ou seria a azul?). Continuei medrosa, entretanto com um medo apenas respeitoso (bem sabemos que o mar exige respeito) e menos infantil, diria. Muito obrigada, Matrix. Daqui, devolvo novamente bons animas pra você.

P.S.: depois de tanto pensar no mar nas últimas autoficções, percebi que é hora de sacar da estante a coletânea de poemas da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. O Coral e outros poemas saiu do plástico e, no momento, repousa sobre a cabeceira, ou seja, o mar seguirá molhando os posts do bloguinho. 🌊 (*E como é triste pensar nas últimas notícias do que ocorre na costa do Nordeste.)

03
Acho engraçada a parte em que, naquela newsletter, Luiza ressalta que a decisão de ir sozinha à praia não envolveu algum grande propósito, a resolução de alguma questão ou a necessidade de repensar algum aspecto da vida; pois receio que meu caso teve, sim, um tantinho desses clichês. Conforme adiantei no autoficções #01, em agosto me submeti novamente ao bisturi do cirurgião (sem intercorrências, pós-operatório tranquilo), de maneira que, se o pó me lançou ao mundo com "x" órgãos, ele terá de se contentar em me ter de volta com "x-2". Parcelei meu retorno, e ~é estranho~.

A primeira versão do post continha maiores detalhes (melodramáticos), porém a cafonice e o #TMI me fizeram apagá-la. É hora de substituir o anima de novela mexicana pelo anima da grande filósofa Mary J. Blige:

Let's get it crunk upon
Have fun upon up in this dancery

(...)
'Cause we celebrating 
No More Drama in our life

No mais, ousaria confessar que, durante a viagem, rolou a sensação de protagonizar um daqueles contos "praianos" da Lucia Berlin (coletânea Manual da Faxineira, tradução: Sonia Moreira), nos quais mulheres solitárias e infelizes recorrem a um tempo na praia para uma espécie de... recalibragem? reconfiguração? cicatrização? luto? Não sei. No entanto sei que, em Toda Luna, todoaño e Dor, a autora americana conseguiu fazer o clichê "retiro na praia para repensar a vida" funcionar. De volta ao lar, reli os dois contos e me encantei ainda mais com o uso do mergulho como experiência catártica para as protagonistas de Berlin. Não, não transei embaixo d'água com um mergulhador gostosão (ah, como a ficção é mais legal do que a vida real, hein? rs), porém agora sei exatamente do que a Berlin fala, quando ela fala de mergulho no mar*: (grifos meus):
"O peso desapareceu. Não só o peso do tanque, mas também do seu próprio corpo. Ela estava invisível. Batia os pés, usando pés de pato pela primeira vez, planando pela água. Por causa do bocal, ela não podia rir nem gritar. (...) Ela continuou voando,
(...)
Sem peso, você perde a si mesmo como ponto de referência, perde seu lugar no tempo. (...)
No mar alto, duas tartarugas verde-escuras acasalavam, flutuando nas ondas. (...)
O que ela ia fazer quando voltasse para casa?"
                                                                                               - Lucia Berlin, Toda Luna, todoaño 

*E olha que só mergulhei de máscara + snorkel, viu? (Infelizmente, me dei conta de que meu histórico clínico contraindica o mergulho de cilindro.) O objetivo da ressalva é anima(r) um mergulho, caso surja qualquer tipo de oportunidade, ok? 

04
Durante essas férias, o livro Deixa Comigo, do uruguaio Mario Levrero (Tradução: Joca Reiners Terron) me fez companhia, e me surpreendeu encontrar nele a tangente abordagem da temática "viagens". Logo no início, o narrador de Levrero diz algo curioso relacionado aos sentimentos pré-viagem:
"(...) essa angústia habitual (...) mistura de temor ao desconhecido com uma nostalgia antecipada pelas coisas e espaços de minha casa."
                                                                                                  - Mario Levrero, Deixa Comigo.

Eu me identifiquei com essa mistura doida de sentimentos, e costumeiramente é uma luta árdua impedir que a referida angústia leve a melhor e me mantenha presa à teia de aranha. A propósito, foi por um bem-vindo acaso que, dias depois de ler a prosa de Levrero sobre as teias de aranha, a @casatorquato (delicado perfil do instagram + youtube, uma @ distribuidora de bons animas) me mostrou essa foto linda de teias na natureza. A família Torquato, Levrero e eu estamos com os animas sincronizados. 🕷🕸

05
Nesse livro do Levrero, o mencionado fotógrafo capaz de captar a beleza das teias de aranha é encarado, pelas pessoas da cidade em que morava, como uma figura excêntrica. Quanto a ele, um morador comenta (grifos meus):
"(...) um tipo estranho, mais ou menos da tua idade, que sempre anda sozinho por aí, sentado na praça, às vezes o vejo agachado olhando uma plantinha, não sei, essas coisas. Às vezes inclusive tira fotos, mas não de paisagem nem de gente, e sim de paredes descascadas, coisas assim, entende? Não sei se alguma vez escreveu algo, mas tem o tipo, percebe?"
                                                                                                - Mario Levrero, Deixa Comigo.

Matutei que talvez esse seja o motivo por que morro de vergonha de sacar o celular da bolsa, no meio da rua, para tirar fotos de coisas que me sensibilizam. Caramba, foi durante essas férias na praia que, pela primeira vez, arrisquei tirar selfie em público. Na realidade, há pouco fui empurrada por outro ótimo distribuidor de animas inspiradores. Em um post de setembro, Austin Kleon compartilhou fotos em que ele captura a imagem da lua naquelas primeiras horas da manhã, e fiquei mega empolgada dado que, por sair bem cedo pra trabalhar, eu própria estava avistando a lua toda bonitona nas manhãzinhas, porém sem coragem de tirar foto. Com o anima do Kleon, superei o constrangimento e agora tenho a lua comigo:

06
Tirei boas sonecas embalada pelo barulhinho gostoso do mar - ASMR da natureza! -, mas a água da chuva também canta um sonzinho melodioso. Leituras recentes me mostraram que Florbela Espanca e Roberto Arlt percebem o chamado à dança feito pela chuva (pelo mar). Cartier-Bresson, recordei, já congelou em imagem o som e a dança pluviais.

🌧☔Florbela Espanca x Roberto Arlt (O Brinquedo raivoso) x Cartier-Bresson x A Melodia da chuva:

07
No meu álbum anexado no topo deste post, incluí uma frase do Larry David na série Curb Your Enthusiasm: "Não se pode nem sair de casa". Cabe, aqui, explicar o cômico contexto (para que eu, no futuro, não esqueça). Naquele episódio, Larry sai pra jantar com sua esposa Cheryl e, no restaurante, encontra ao acaso um amigo. Ele se empolga, troca conversa fiada com desenvoltura etc. No entanto, quando Larry volta para sentar-se à própria mesa, Cheryl o repreende por ele não ter cumprimentado a esposa do amigo. Larry papeou com o coleguinha como se a respectiva esposa não estivesse ali, ignorando-a completamente. A câmera aproveita a deixa para alternar closes da cara da desdenhada, que ri ironicamente, ao mesmo tempo que fuzila Larry com olhares oblíquos. Larry sente-se péssimo (afinal, além da bola fora social cometida por um babaca, Larry é o George Constanza, o que significa dizer que, todo mundo tem que gostar dele), o jantar resta arruinado e ele solta o aforismo máximo: Não se pode nem sair de casa. A reação bebe um pouco da fonte sartriana "o inferno são os outros", né? É embaraçoso confessar, porém simpatizo com o bobalhão (intersocial) Larry nessa. Tivesse ocorrido comigo, sei que ruminaria o faux pas social durante um mês, pelo menos. Para evitar esse tipo de coisa, o que a gente faz? Fica em casa. Fica preso na teia de aranha. Não tira foto. Spoiler: fica no subsolo? ↷

Puxarei a filosofia do Larry David para alinhavar dois livros lidos recentemente: Normal People, da Sally Rooney e Memórias do Subsolo, do Dostoiévski.
Calma, calma. Ok, em princípio são obras díspares, contudo há ao menos uma coisinha que as une. Acho. É o seguinte: o personagem narrador do Dostô e o protagonista da Rooney não conseguem livrar-se do sentimento "o inferno são os outros". Tal qual Larry David/George Constanza, o irlandês do século XXI e o russo do século XIX vivem presos à crença de que, sim, todo mundo precisa gostar deles; caso contrário, é melhor ficar no subsolo, é melhor nem sair de casa, é melhor não revelar publicamente o namoro, é melhor desistir das ambições acadêmicas, é melhor... Apesar da identificação vexatória, a leitura ofereceu o precioso ensejo para pensar o "problema" (?) mediante saudável distanciamento - quando leio, o problema não está comigo, está com a personagem; o que torna as coisas relativamente simples e nítidas. Enquanto estive enforcada nesse nó de marinheiro russo-irlandês, uma imagem ficou persistentemente piscando na minha mente, digo, outra fala de personagem de série de TV. Refiro-me a esta aqui, dita por Don Draper em Mad Men:
Na cena, um ex-funcionário da agência diz na lata uns impropérios sobre o Don, soltando tudo o que pensa a respeito do grande publicitário que, de seu lado, replica com a frase icônica: eu sequer penso em você. Pois quanto mais eu me apoquentava com o sofrimento das personagens da Rooney e do Dostoiévski, mais sentia vontade de chacoalhá-las: "Parem com isso, rapazes; essa aflição neurótica não vale a pena. A verdade é que os outros estão se lixando pra vocês. Sigam o exemplo de Don Draper, seus tontos!" A própria narrativa da Rooney contém uma evidência: SPOILER!!!! > posteriormente, o moço descobre que toda a escola já sabia do namoro que ele julgava esconder e - adivinhe só? - ninguém.se.importava. Até o conto da Lucia Berlin flerta com o mesmíssimo tema:
"Eu me sinto tão nua. Tenho a impressão de que todo mundo está vendo as minhas cicatrizes."
"Sabe uma coisa que eu aprendi? A maioria das pessoas não repara em absolutamente nada ou, se repara, não dá a mínima."
"Você é tão cínica."
                                                                                                    - Lucia Berlin; Dor.

Saí dos desvarios propostos pelas duas leituras com a conclusão (óbvia, reconheço) de que é ilógico estressar-se com a opinião de um outro que, na real, nem está pensando em você; ou, quando o faz, é frequentemente mal, não importa o que você faça. Talvez o ideal seja alcançar o meio termo entre as filosofias Larry David-Don Draper?! (*Pausa*: juntando os miolinhos do chão, depois que minha mente explodiu imaginando um combo entre os dois sujeitos.) Julgarão esquisito que eu esteja viajando sozinha pra praia? Tirando foto da lua pela manhã? É justo. Eu, do lado de cá, me esforçarei para não pensar nisso. Voilà. Por que eu deveria me alimentar de anima negativo? (Falar x Fazer... etc etc.)

08
Outro alinhavo divertido que andei estabelecendo é entre Dostoiévski e Machado de Assis:
Quanto mais minha leitura de Memórias do Subsolo avançava, mais impressionada eu ficava com os elementos que a obra compartilha com Memórias Póstumas de Brás Cubas. A dada altura a coisa estava tão gritante, que apostei como certa a existência de artigos acadêmicos abordando os paralelos; o que de fato procede. Dentre os trabalhos localizados no google, destaco o artigo escrito por Elis Regina Basso, publicado em 2015 na revista Travessias (link aqui), pois ela faz um estudo bem estruturado,  listando cada um dos pontos em comum.

Decidi acrescentar esse alinhavo neste post porque, a despeito das diversas semelhanças entre os dois livros, identifiquei uma hilária diferença entre o personagem russo e o brasileiro, a qual dialoga bem com minha entrada anterior número 07 ⤴. Assim como o "homem-rato" (termo adotado por Nabokov) de Dostoiévski, Brás Cubas tem consciência de ser uma pessoa tosca e insignificante, no entanto isso não é suficiente para que ele recolha a dita insignificância ao subsolo. Por deus, nem depois de morto ele aceita o subsolo (!), pois tá lá insistindo em encher nossos pacovás com seu memento de puro papo furado. Em termos chulos: Brás Cubas está cagando. Brás Cubas sairá de casa sim, tirará foto da lua sim e não pensará em ninguém. Presumo que o estudo comparativo dessas duas personagens possa desvendar um pouco do que significa ser brasileiro. Será? Sei lá, mas fica o registro da hipótese.

09
Na praia, consegui também começar a leitura do livro As pequenas virtudes, escrito por Natalia Ginzburg (Tradução: Maurício Santana Dias). Por enquanto, li apenas o ensaio O meu ofício, no qual a italiana discorre a respeito de sua relação com a escrita. Visto que eu já tinha comentado no blog que me interesso demais em entender o que atrai as pessoas à escrita, é compreensível que eu tenha sido prontamente fisgada pelo atrativo título da italiana. Além do mais, uma vez que muitos animas chegam até mim através de textos, julguei por bem alinhavar esse ensaio na presente postagem.

Embora O meu ofício permita devanear sobre uma porção de coisas, quero me ater, por enquanto, ao recorrente sentimento de felicidade que a autora diz acometê-la quando escreve.
"Tinha escrito meu conto (...) e me sentira feliz como jamais acontecera em minha vida, repleta de pensamentos e de palavras." 
                                                                                         - Natalia Ginzburg; O meu ofício.
Ginzburg menciona que, ao escrever, tudo se distancia e some, e ela está só com sua página; nenhuma felicidade pode subsistir se não estiver estritamente ligada a essa página. Isso me fez lembrar de algo correlato (e singelo) dito por Drauzio Varella em uma antiga entrevista cedida ao Publishnews (link aqui). Ali, o autor comenta sobre a sensação de felicidade que ele obtém sozinho naquele momento mágico em que escreve e sente que o troço ficou bom. Colo a transcrição:
No dia do escritor, a editora Martin Claret publicou no Instagram esta frase da Virginia Woolf: "Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial." Tal assertiva despertou a crítica de uma seguidora que defendia a importância de ser lido, pois do contrário bastaria falar, e hoje acredito que o ensaio de Ginzburg e a resposta de Varella dissipariam a ligeira confusão que se estabeleceu na troca daqueles animas. Ora, se eu mesma, uma tonta que só escreve tonterías em um blog lido por ninguém, experimento um puro contentamento ao terminar um post, imagine então o que se passa no íntimo dos grandes escritores quando escrevem. A própria Ginzburg diz não saber nada do valor daquilo que escreve, entretanto isso não sobrepuja a felicidade advinda de seu ofício. 

Elaborei a teoria (estapafúrdia?) de que talvez um pouquinho dessa felicidade surgida no momento em que um texto é escrito seja transmitida, sob a forma de anima, para o leitor. Se bobear, é a chave do enigma das divergentes respostas provocadas por um único livro: se apaixonam pela obra aqueles que são tomados pela felicidade originada no instante de sua criação. #Poetei de novo?💩

10
Na despedida, a dona do albergue desejou que eu retornasse e que, da próxima vez, eu vá com amigas. Também espero o mesmo. Entretanto, caso companhias não sejam possíveis, não deixarei que isso impeça meu retorno; afinal não há anima mais vigoroso do que aquele que a natureza nos presenteia, certo?