12/05/2022

[alinhavando] ♫* 심장 깊은 곳의 이 떨림 You are my messiah (killing me)


Desde o final de 2021 levo um caldo de Hallyu, a Onda Coreana, me divertindo com um ou outro produto da Coreia; no entanto o próprio fenômeno cultural é mesmo o que mais instiga minha curiosidade. Especificamente quanto ao K-Pop, a comunicação dos Idols com as fãs é o que tem roubado minha atenção, sobretudo aquela durante as lives informais, publicadas em sites como VLive e Instagram — aliás, teorizo que esse diálogo é O grande diferencial do mercado musical coreano que, tal qual diversas empresas modernas, percebeu que não basta ter um bom produto, é preciso construir um sólido séquito de seguidores. Nesse campo, confesso assumir tanto a posição da curiosa e observadora crítica, quanto a da fã seduzida; contudo me motivo a esmiuçar as engrenagens dessas lives justamente porque tenho plena consciência de que foram elas que me enlaçaram fortemente a certos idols. Quer dizer, aplicarei o que escreveu Amanda Montell: em qualquer seara da vida, se você sente que algo está estranho, mas não sabe apontar exatamente o porquê, a linguagem é um ótimo lugar onde começar a buscar pistas. E sim, é inegável a existência de um linguajar peculiar e recorrente empregado pelos artistas coreanos, em menor ou maior extensão, quando em contato com as fãs. Desse modo, como espécie de guia na organização das informações coletadas a partir das lives a que assisti, usarei o Cultish, The Language of Fanaticism, livro no qual Amanda Montell, com abordagem simples e despretensiosa, discute a linguagem utilizada por líderes de cultos com legião de seguidores. [E só porque não tenho uma amiga k-poper com quem conversar...]

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Começo por ressalvas relevantes:

👄 Cultish não aborda o Universo K-pop. Meu plano é pinçar certos elementos linguísticos citados pela autora que, a meu ver, se encaixam ao linguajar observado entre idols, ou seja, todas as associações ao k-pop neste post são por minha conta, baseadas em pessoal experiência de observação.  [*Aproveito para enfatizar: que baita objeto de estudo para acadêmicos da área. Pesquisadores, uni-vos! Em rápida busca, localizei trabalhos analisando a linguagem da mídia ocidental ao reportar o Hallyu, bem como estudos sobre o quanto o coreano estaria se mesclando ao inglês falado por grupos de fãs — temas, por sinal, igualmente instigantes.]

👅 Por enquanto, minha amostra de lives é pequena e enviesada, infelizmente. A quantidade de idols fazendo lives é enorme, não tenho tempo — nem disposição — de ver tudo (primeiro encontro músicas de que gosto, e só então surge o interesse de buscar uma live do respectivo artista). Por exemplo, ainda não assisti a nenhuma live de girl groups (porque não curto as músicas) ou de cantoras solistas. — Mulheres adotariam uma abordagem distinta? Careço de evidências. — Para além disso, percebi que a maioria das lives a que assisti são de idols da 2ª e 3ª geração, ou seja, não vi nada de artistas novos, pouco experientes — Os novatos estariam inovando? Não sei dizer. — Também lamento que minha amostra não inclua a comunicação em plataformas similares ao Bubble, espécie de aplicativo no qual as fãs pagam um valor mensal para ter direito a conversas especiais e restritas com o ídolo (uma área vip, mais ou menos). Encontrei somente algumas trocas de diálogo nesses espaços privados, e o negócio é, digamos, singular. Ah, e abordo objetivamente as lives protagonizadas por apenas um membro, pois são minhas prediletas. 

👂 De modo algum estou aqui criticando ou "denunciando" (pelo amor de deus) que a turma k-poper se organiza como um culto; loooonge disso. De saída, transcrevo esta frase do livro:  We’re “cultish” by nature / (~) Por natureza, nos inclinamos a cultos. Conforme Montell explica, embora a palavra culto se revista de forte tom pejorativo, trata-se de um termo bastante inespecífico na verdade, pois o que existiria é um espectro: num polo, cultos inofensivos e benéficos; no outro, cultos nefastos, violentos e criminosos. A depender dos elementos identificados em qualquer relação humana, será possível encaixá-la num ponto desse espectro. A partir do que Montell discute no livro, eu consideraria o Universo K-Pop uma positiva experiência de culto, notadamente porque (1) não há coação para entrar, (2) não emprega eufemismos que buscam deformar a realidade ou camuflar objetivos espúrios, (3) ninguém é constrangido e/ou perseguido caso decida desembarcar e (4), até onde pude perceber, é um meio que permite formar vínculos saudáveis de amizade. Apesar disso, vale trazer uma ressalva citado no livro de Montell, inclusive porque euzinha — k-poper novata, porém com muitos quilômetros de vida rodados — me peguei caindo na arapuca. Cultish afirma haver pesquisas psiquiátricas nas quais resta demonstrada uma alta incidência de distúrbios psicossociais entre fãs de celebridades, tais como transtorno dismórfico corporal, obsessão com cirurgias plásticas, mau julgamento de limites interpessoais, ansiedade, disfunção social, narcisismo, dissociação e comportamentos persecutórios. Pois bem, durante essas lives, é bem recorrente que os idols compartilhem constantes preocupações com peso corporal, dietas mirabolantes nas quais apostam (há lives em que se pode ouvir a barriga do pobre artista roncando de fome), ansiedade por estarem envelhecendo, inseguranças relacionadas à pele, cabelo, nariz, boca, mãos... Enfim, de tanto ouvir essa ladainha, eu mesma, que há muito tempo me conformei com a feiura e a velhice, me peguei brevemente cabreira por ser uma k-poper titia, reparando em assimetrias no rosto. (*MDDC*) Dessa maneira, avalio caber cautela para não se deixar contaminar pelas neuras próprias desses artistas, algo que talvez uma jovem não tenha de sobra. Mencionaria ainda que, por vezes, a linguagem deles acaba, perigosa e inadvertidamente (?), estimulando a construção de relações parassociais. Pode-se argumentar haver um tom cômico, do qual as fãs estariam cientes, quando eles dizem coisas do tipo "fico feliz quando sentem ciúmes de mim"/"gosto que sintam tanto minha falta"/"vou pegar quem está te maltratando/"acho estranho que tenham namorados"/"digam que me amam", mas sigo encarando com estranheza esses tipos de falas direcionadas a um grupo tão heterogêneo e desconhecido de pessoas (no caso do BTS, por exemplo, são milhões de fãs assistindo; de todas as idades, em vários pontos do planeta). 

👀 Por fim, é imperioso destacar: essa comunicação é intermediada por tradução (para a enorme parcela de fãs não coreanas, é óbvio) que, a propósito, fica a cargo das próprias fãs em várias situações. Ou seja, todos os recursos de linguagem apontados por Montell em Cultish, e aplicados pelos idols, chegam às interlocutoras por via da tradução e, mesmo assim, os efeitos da mensagem não se perdem. É fascinante. Quanto ao tema, e para incitar devaneios, deixo este curto diálogo, extraído de uma live:

Fã nos comentários, em inglês: - Não entendo o que você está falando, mas te amo.
  Idol, respondendo em inglês: - Obrigado. Hum*... (*dito em tom sério e pensativo).


Ressalvas feitas, vamos à listinha de trechos de Cultish, acompanhados de breves comentários do que observei no Universo K-pop.
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👄 "(...) a hair-raising sermon."
Antes de ler o livro, a ideia não havia passado por minha cabeça, porém bastou pôr os olhos na palavra "sermão", e eu tasquei: taí!; essas lives aproximam-se de um sermão, seriam o instante ritualístico em que a comunidade suspende tudo o que está fazendo, para ouvir a tão aguardada palavra do querido líder. (O show seria a celebração máxima, óbvio.)


👅 "When repeated over and over again, speech has meaningful, consequential power to construct and constrain our reality."
É essencial que a linguagem seja repetida com frequência, repetidas vezes, a fim de que seus poderosos efeitos sobre a realidade sejam sentidos; o que significa dizer que essas lives não podem ocorrer apenas de vez em quando. Pelo que observei, chutaria haver o objetivo mínimo de 01 live/mês, aumentando-se exponencialmente essa frequência durante os períodos de comeback (= lançamento de um novo álbum). Para ilustrar o quanto isso é levado a sério, registro que membros do BTS, após shows e cerimônias de prêmios, voltam ao hotel e ficam, sei lá, meia hora falando com as fãs. Taemin ( meu ultimate bias/UTT = o favorito dos favoritos) é outro que, no carro de volta pra casa após o show de 1h30min, bate papo com as fãs por 20 minutos. Você, pessoa não k-poper, imagine sair pilhada e felizona de um show e, na saída, poder conversar com o querido ídolo a respeito do show que acabaram de vivenciar juntos! Ainda que eu tenha compadecido da trabalheira/correria por que passam esses artistas**, achei a proposta massa. 

** = Embora Montell não cite esse específico recurso, ele é rotineiro na fala dos idols: é fundamental sempre destacar o quanto estão trabalhando duro, dando o máximo de si e se sacrificando; tudo pelas fãs, é lógico. Na realidade, é um elemento que integra a próxima estratégia desta lista: 👇


👂"(...) brands that succeeded in cultivating extreme solidarity and loyalty among both employees and patrons (...)"
Esse expediente é presença praticamente garantida nos discursos dos idols: o cultivo da solidariedade e lealdade extrema entre as partes. Por exemplo, eles jamais deixam de agradecer as fãs, quase sempre fazendo questão de reconhecer que tudo que conquistaram foi por causa das fãs. Trabalha-se uma linguagem que atenda à necessidade de consolidar uma parceria, um pacto entre idol e fã. De um lado, o idol se esforçará para entregar boas músicas e performances (vide o que citei no item anterior; ressaltar que se matam de trabalhar); do outro, a fã retribuirá comprando os discos, indo aos shows, ouvindo as músicas em sites de streaming, visualizando os music videos, e... 👇


👀 "Next step: Each month, recruit ten new members (...)"
...trabalhando para o artista, na medida em que as fãs se encarregam da trabalheira de divulgar os novos discos, elevar as músicas no topo das paradas de streaming. Dia desses, tive ciência de que, na Coreia, fãs colaram adesivos nos carros, para divulgar o disco novo do bias. Eu diria que o BTS é um exemplo extremamente bem-sucedido do método da parceria. Se duvidar, esta é a grande chave do sucesso do grupo, sobretudo porque o BTS aparenta trabalhar não só a parceria Idol-Fã, mas também a Fã-Fã, contribuindo para estreitar os laços entre os próprios membros da comunidade.


👄 "(...) offered not only desirable products and services, but also personal transformation, belonging, and answers to big life questions (...)"
Embora eu não tenha identificado esse subterfúgio nas falas dos idols às quais tive acesso [*se bem que a última live do Namjoon (BTS) teve um pouco disso....], acho importante incluí-lo aqui, porque trata-se de um elemento que se faz intensamente presente nos discursos das fãs do BTS principalmente. Não sei até que ponto os artistas se articularam para firmar essa questão na comunidade, no entanto chutaria que o fenômeno tem, sim, dedo dos idols — ainda que somente mediante o teor das letras das músicas —, pois é como diz Montell: "...a linguagem funciona como a cola que liga o viciante combo comunidade e motivação." Em qualquer um dos diversos artigos que pipocam na internet defendendo o Army contra críticas, é praticamente certo deparar-se com este parafraseado argumento: não se trata apenas de música pop ou de fãs enlouquecidas por galãs coreanos; é algo muito maior - é acolhimento, pertencimento e transformação


👅 "They share intimate stories and hardships from their own lives and invite followers to reciprocate. Followers form deep-rooted loyalties to their favorite teachers..."
Cada idol escolhe como matará o tempo das lives. Na minha amostra, a música (os artistas cantando para as fãs e/ou promovendo um novo lançamento) preenche largos intervalos de tempo, é preciso assumir; no entanto, por ser um momento marcado (teoricamente) por informalidade (às vezes, estão em suas próprias casas — adoro*), a live corresponde à oportunidade para que o idol se mostre melhor às fãs, possivelmente compartilhando questões íntimas. Conforme adiantei nas ressalvas, não raro eles desabafam suas ansiedades e são mais espontâneos, falando bobagens que tipicamente falamos em conversas com amigos. Então, tendo em mente a citação de Montell, é inegável que aqueles idols que se sentem à vontade para expor um pouquinho de suas reais personalidades — quero dizer, baixando a guarda e criando uma brechinha para seus mundos interiores —, são os que têm mais sucesso em estabelecer a ilusão de intimidade com a fã. Comigo, pelo menos, é o recurso de melhor eficácia.

*Nas palavras de Montell:"(...) sits close to the camera, creating the cozy atmosphere of a home gathering or a one-on-one conversation, (...)"


👂 "But sex appeal isn’t just looks—it’s an ability to craft the illusion of intimacy between yourself and your fans. (...) The key to creating the following is to sound authentic. When you sound like popcorn, people can hear it"
Comumente líderes de seitas são tidos — ao menos entre as seguidoras — como caras sexys e charmosos. A maioria dos idols coreanos é inegavelmente agraciada pela beleza física (há embustes, entretanto é prudente omitir nomes), contudo a observação de Montell é pertinente mesmo no Universo K-Pop: a famigerada beleza não costuma se sustentar na aparência física propriamente dita, mas sobretudo na habilidade do líder em bombardear a seguidora com o linguajar certeiro. Enfim, é preciso saber seduzir; criar e sustentar bem a ilusão de intimidade. Essa específica habilidade é dominada com maestria por muitos idols, porém também há diversos desprovidos de carisma e que soam mais falsos que uma nota de três reais, sem nenhum talento para falar com fã. É frustrante curtir a música de um desses artistas, daí abrir uma de suas lives apenas para dar de cara com um blob desprovido de personalidade, que não sabe segurar uma conversa por míseros vinte minutos (repito: é mais seguro omitir nomes). A propósito, essa sensação de falta de carisma/artificialidade ocorre especialmente com idols que preferem manter bem alto o muro que os separa das fãs, digo, aqueles que não admitem nenhuma posição de vulnerabilidade.


👀 "Across the influence continuum, cultish language works to do three things: First, it makes people feel special and understood. This is where the love-bombing comes in: the showers of seemingly personalized attention and analysis, the inspirational buzzwords, the calls for vulnerability (...)"
Acredito que o love-bombing — bombardear a fã de amor/afeto — é expediente onipresente nas lives de idols. A facilidade com que dizem Amo vocês persiste surpreendendo, assim como sempre acho graça quando perguntam "Vocês já comeram? O que comeram? Cuidem da saúde." Ah, também é curiosa a necessidade de sempre reforçar que não estão ali, batendo papo, porque a empresa mandou (ou porque o bussiness exige), mas sim porque estavam com saudades. Dia desses, caí na gargalhada com o JK (BTS), no Instagram, aconselhando as fãs coreanas a levarem um casaquinho aos shows, pois estava fazendo frio. Muitas vezes a abordagem até soa singela, porém a sensação de artificialidade constrangedora é bem mais frequente — é a habilidade do idol em soar autêntico, conforme referido por Montell, que ditará qual desses dois efeitos prevalecerá.


👄 "This goal of isolating followers from the outside while intensely bonding them to each other is also part of why almost all cultish groups (as well as most monastic religions) rename their members (...) the special jargon (...) In the beginning, learning this private terminology makes speakers feel, well, cool (...)"
Cultos são notórios por empregarem um vocabulário particular, e o k-pop não foge à regra. Na minha experiência, com frequência necessito apelar ao Google, a fim de entender onde estou me metendo ou do que diabos estão falando — e não me refiro somente à barreira coreano x português. Além disso, fiquei estupefata ao descobrir que, ao contrário do que eu supunha, são os próprios idols quem apelidam/nomeiam as fãs; e também a cor da comunidade, o lightstick... Quer dizer, a estratégia de culto Us x Them (Nós x Eles) é igualmente levada a sério. Ignoro se a bizarra rixa entre grupos distintos de fãs nasce daqui, ou mesmo se seria encorajado pelos idols. Particularmente, nunca vi nada nesse sentido partindo explicitamente da fala dos artistas, e duvido que ocorra. 


👅"(...) His lullabies and moodiness, even his tantrums, gave him an “innocent adorable” factor (...)"
Embora não seja possível afirmar que todos apelam para a fórmula, com certeza ela está presente na linguagem da maioria: bancam e soam feito fofinhos adoráveis e inocentes (*em coreano, é o tal Aegyo). Para ser justa com esses artistas, é forçoso reconhecer que as próprias fãs enchem o saco pedindo esse tipo de comportamento — "Ãin, faz coraçãozinho; ãin manda beijinho"; nossa, é chatérrimo (too old for this shit) —, contudo Montell esta aí demonstrando que a parada funciona para segurar seguidoras. [Praticando a honestidade: e se eu disser que o atual bordão do meu UTT é "Adorable"? Reclamo, porém caí direitinho na conversa fiada.]


👂 "(...) she was provided scripts to post verbatim that made (...)"
Não obtive evidências, no entanto suponho que ninguém discordará de que o mais provável é que as empresas treinem os idols na comunicação tanto com as fãs, quanto com a mídia. As recorrências de vários cacoetes de linguagem entre todos é tão impressionante, que conjecturei a existência de um eventual checklist. Posso afirmar, entretanto (pois eles confessaram e/ou vemos indiretamente), que todas essas lives são acompanhadas por, pelo menos, um funcionário da empresa, seja para monitorar os comentários das fãs, seja para ficar de olho em eventuais bobagens que os artistas falem. 

Acrescento que, em sua última live, Namjoon (BTS) compartilha que a conversa em inglês lhe exige cautela, pois sente que, expressando-se nesse segundo idioma, a probabilidade de falar o que não deve é maior, em comparação ao coreano. Achei a informação incrível, outro campo instigante para estudo envolvendo linguística e comunicação em mídias; sobretudo porque a sensação compartilhada por ele não parece resumir-se ao mero comportamento entre Língua Materna X Segunda Língua, mas resultar da própria estrutura dos dois idiomas, em paralelo aos aspectos culturais das sociedades onde são falados. Pesquisadores, uni-vos!


👄 "(...) just stares intensely into the lens, grinning, barely blinking, intermittently murmuring, “I love you.” He calls these parasocial gaze-offs (...)"
Uma vez que o parasocial gaze-off (⥲ olhar parassocial, com sussurros de carinho próximo à câmera) exige uma maior desenvoltura e habilidade sedutora do idol, poucos têm coragem de aplicar esse complexo recurso; mas que rola entre alguns, ah rola — e eu sempre fico sem acreditar na audácia do fdp. [*sim, meu UTT faz ㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋ.]


👅 "(...) has announced that he doesn’t want children because he already has seven billion (...)"
Em defesa dos idols, aponto o dedo para as fãs, que toda.fucking.hora pedem para se casar com eles. Pelo amor de deus, sabe? Ok; pode até ser brincadeira besta, mas, sei lá, se for pra fazer piada, por que não pedir logo ~outras coisas~? Casar?! Que papo chato. Na última live, Namjoon (BTS) me surpreendeu ao perguntar, levemente aborrecido, que moda é essa de pedir pra se casar com ele. Enfim, esse papinho de que vão se casar com sei lá quantas fãs, mencionado por Montell em referência a certo guru, é relativamente frequente entre idols (não todos). 


👂 "For you, it might feel like the quest for self-actualization, but for them, it’s a profitable, scalable, passive-income-generating cash cow."
Para fechar, é preciso deixar claro que não estou criticando esses artistas, nem afirmando que são um bando de falsianes. Apenas sustento que talvez seja prudente não perder de vista o que está em jogo nessas conversas: uma empreitada que mobiliza muita grana e a promessa de uma carreira sólida e longeva. É benéfico sonhar o sonho — por enquanto, eu mesma estou me divertindo com esse sonho —, porém prefiro preservar a consciência de que, no fim das contas, estou meramente sonhando. [Mas, hey, cada qual com seu cada um, sim? Afinal, quem sou eu nesse rolê? Só uma k-poper novata e gagá, pobre de mim.]
...

Nota: às fãs que gravam todas essas lives e as disponibilizam traduzidas no You Tube, meu muito obrigada; especialmente às Jjakkoongs (짝꿍) e Shawols. 😊

30/04/2022

[alinhavando] Undoing the latches

Após encerrar as atividades no final de 2021, eis que, mais uma vez, resgato das cinzas o bloguinho. Para além de questões logísticas, a pausa resultou da concretização do que eu previra ano passado: meu pescoço travou linda e dolorosamente. Houve melhoras com a fisioterapia, porém sigo com dificuldades para permanecer sentada por longos períodos (e meu trabalho já me exige muitas horas à mesa); portanto é preciso cautela. A regra deste espaço sempre foi "só escrevo quando quero e sobre o que quero", de modo que apenas terei de acrescentar um "e se minhas condições físicas também quiserem." (Idade bateu demais.) Dessa maneira, hiatos sem postagens poderão tornar-se ainda mais longos, mas tudo bem. Por ora, estão publicadas no blog apenas algumas das postagens antigas. Aos poucos, republicarei outras, não todas. 

Ah, por que voltei? Hum... Talvez uma leitura deste ano tenha contribuído para a decisão. Marcelo, o narrador protagonista do livro Bartleby e companhia, de Enrique Vila-Matas, durante seu rastreio de bartlebys, acabou por me lançar a pergunta: 
"— E a senhora, por que não escreve?
As mulheres, às vezes, são de uma lógica arrasadora. Olhou-me, surpresa com a pergunta, sorriu e me disse:
— O senhor está brincando comigo. E então diga-me: por que eu deveria escrever?"
To write or not to write, that is the question. (Na Internet de 2022, então, nem se fala.) Marcelo, soltarei por uns instantes a mão de meu querido Bartleby e retomarei a jornada da blogueira do sim. Yes, I'd rather not to write (groselhas). [*até o dia em que eu prefira não.]

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Na tentativa de me adaptar ao Instagram (devido à falta do blog), postei por lá um alinhavo, em vídeo curto, entre estes dois livros: Os Tais Caquinhos, de Natércia Pontes e o  Autobiography of Red (Autobiografia do Vermelho), de Anne Carson. Num exercício de aquecimento para a volta do blog, incluo uma versão em texto logo abaixo. No entanto, dadas as condições do meu pobre pescoço, antecipo a possibilidade de, a partir de agora, recorrer com maior frequência ao formato de vídeos no blog. A ver.

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"(...) Pedro Garfias (...) um homem que podia passar uma infinidade de tempo sem escrever uma única linha, porque procurava um adjetivo. Quando Buñuel o via, perguntava-lhe;
— Já encontrou aquele adjetivo?
— Não, continuo procurando - respondia Pedro Garfias, afastando-se pensativo.

(...)

A vida é horrorosa, disse a mim mesmo. Imediatamente, porém, pensei que aquilo já não mudava nada e que era melhor não perder tempo procurando adjetivos para a vida."

            — Enrique Vila-Matas; Bartleby e companhia. (Tradutoras: Maria Araújo/Josely Baptista)


Quando resenhistas falam/escrevem a respeito de Os tais caquinhos, de Natércia Pontes, é recorrente relatarem que o livro trata da vida de adolescentes que, durante a Fortaleza da década de 90, vivem num apartamento sujo, fedido, entulhado de lixo, repleto de baratas, sem comida. Bem menos recorrente nas resenhas — pra não dizer quase inexistente — é a preciosa informação de que a autora escolhe que a forma de sua narrativa reflita o espaço caótico e entulhado no qual as personagens vivem. Ou seja, assim como as personagens, o leitor também habitará um texto sujo e amontoado. Para efetivar essa decisão estilística, a autora lança mão de alguns recursos narrativos, dentre os quais estão os diversos capítulos curtos que, empilhados no sumário, parecem esboçar a imagem dos caquinhos do título, algo que também relaciona-se à fragmentação em que se encontram as personagens do livro. Em resenha na revista 451, Iara Machado Ribeiro comenta esse aspecto formal do texto, chamando atenção ainda ao uso sistemático da conjunção "e": "Com blocos de texto sem parágrafo, iniciados sempre por inusitados títulos, e o uso sistemático da conjunção “e”, o enredo e a forma do texto se encontram nessa estética do amontoamento, a obsessiva conservação das coisas que formam uma vida." Neste meu post, no entanto, desejo me deter num específico artifício de escrita eleito pela autora: o excesso de adjetivação. Natércia Pontes escreve um texto repleto de adjetivos, outra ferramenta na construção de uma forma que espelhe uma vida em escombros. Quase todos os substantivos estão colados a um adjetivo; por sinal, o mais comum são dois adjetivos para cada. Consegui localizar uma resenha que aborda esse específico procedimento, escrita por Julie Fank, para o Plural Curitiba: "A adjetivação kitsch entalhada nas descrições quase faz, vez ou outra, a história escorregar, mas, notadamente, forma e conteúdo se dissolvem na decadência encapsulada de uma família em pedaços. É como se cada descrição nos propusesse um reconhecimento do caco estirado no chão, somente nomeável a partir da análise da arcada dentária."  Por mais que eu compreenda a escolha estilística da autora — em teoria, pertinente e interessante —, é forçoso admitir que não consegui dar conta de tantos adjetivos, sendo "vômito verde e luminescente" o ponto de máxima irritação em que me dei por vencida e abandonei a leitura. Não deixa de ser curioso, pois, ao admitir minha dificuldade em ler esse texto, é como se eu desabafasse às personagens: sinto por vocês, mas terei de abandoná-las, uma vez que não consigo viver nesse espaço caótico e sujo.

Passado certo tempo, tive uma epifania que me trouxe de volta à memória o que Anne Carson escreveu a respeito de Stesichoros, logo no início do livro Autobiography of Red (Autobiografia do Vermelho), o qual li este ano, pouco antes de Os tais caquinhos. Stesichoros foi um poeta da antiguidade clássica grega que se destacou por justamente fazer adjetivos. Ao apresentá-lo, Carson nos convida a pensar por um instante acerca de adjetivos. O que seriam adjetivos? Nas palavras da canadense, nomes nomeiam o mundo, verbos ativam os nomes, contudo adjetivos vêm de outro lugar. Em grego, a palavra significa "colocado em cima" — olha os cacos de Natércia Pontes, seus diversos e curtos capítulos empilhados na obra — importado, estrangeiro;  e, em princípio, parecem tratar-se de acréscimos inofensivos. No entanto, esses pequenos mecanismos importados são responsáveis por conectar todas as coisas do mundo a um lugar de particularidade. Os adjetivos são as travas do ser. ("They are the latches of being") Ao retrabalhar os adjetivos em sua épica, Stesichoros começou a desfazer as travas, de modo a permitir que todas as coisas do mundo passassem a flutuar livres; livres para todas as diferentes possibilidades de ser. Ao rememorar esta passagem do livro de Anne Carson, voltei a refletir, atônita, sobre a obra de Natércia Pontes; percebendo que a proliferação de adjetivos dialoga não apenas com os cacos e a sujeira, mas também com o tempo e espaço daquele livro. Possivelmente apenas aqueles que viveram a adolescência na Fortaleza da década de 90 compreendam, porém, eu vivi esse tempo/espaço e, quando penso nele, a imagem e sensação que me tomam é precisamente a de uma vida presa numa particularidade. Ali, naquele meio, não era possível flutuar para agarrar qualquer uma das inúmeras possibilidades diferentes de ser. Na Fortaleza da década de 90, uma amarra bastante firme segurava os adolescentes —  a Daniela adolescente, que seja — a um único jeito de ser. É claro que cada experiência é diferente, no entanto, pelo menos até o ponto em que li Os tais caquinhos, sinto-me segura em afirmar que as personagens do livro, a protagonista em especial, sentiam-se presas a uma única forma de ser, soterradas pelos caquinhos da vida. Embora irritantes, o quanto cresceram pra mim os tais adjetivinhos da narrativa de Natércia Pontes... Se duvidar, é outra razão por que não consegui terminar o livro: não quero (não posso) voltar àquele modo de ser, àquele tempo e espaço, ainda que apenas via literatura. Farei como a personagem de Vila-Matas, incluída na epígrafe do post: não perderei tempo procurando adjetivos para minha vida. Flutuar! é a ordem do dia.