10/10/2020

I'm dancing barefoot, heading for a spin, like some heroine

Anthony Mmesoma Madu - Nigeria, 2020

Fecho os olhos e vejo-me dando uma de Rose Dewitt Bukater, possivelmente entrevistada para o trabalho escolar de alguma criança do ensino fundamental: "Passaram-se 84 anos desde a pandemia de 2020... Naquela ocasião, a pequena burguesia*, então trancafiada em seus minúsculos apartamentos financiados, apelou para singulares atividades. Muitos assaram pães em casa, outros rasparam a cabeça - grande apreço pelas mulheres desse grupo - , outros se meteram até a curar queijo; imagine, só! Eu? Ah, eu fui mais modesta, pois apenas me pus a bisbilhotar o universo do balé clássico. he he he"

[PAUSA] * = Para que eu mesma não esqueça, registrarei a origem da minha atual fixação com essa palavra. Dia desses li Guerra Aérea e Literatura, do grande W. G. Sebald, e constatei que o livro faz as vezes de inesperado drinking game: a cada "pequeno-burguês" e variantes mencionadas, uma entornada na garrafa. Nível do jogo: fácil. Hoje, ao caminhar pelo meu bairro, não tenho resistido à tentação de atazanar a alma do Sebald, parafraseando e imitando o Buzz Lightyear, enquanto aponto para os prédios da classe média: "Pequeno-burgueses, Sebald; pequeno-burgueses para todos os lados!" (Até que ponto o crédito seria também do tradutor? Na dúvida, os incluo no registro: Carlos Abbenseth e Frederico Figueiredo.) [FIM DA PAUSA]

🩰

Já mencionei no blog o quanto a dança me fascina (inclusive seu uso na ficção, em especial no cinema), porém confesso que não ligava pro balé. Quando era criança pequena lá em Barbacena, lembro de ter ficado desorientada no momento em que uma amiga (- saudade de você, Paula; espero que esteja bem) me contou, toda radiante, que tinha se matriculado numa escola de balé. Naquela época, todo mundo estava metido com jazz - muito mais legal -, então por que ela se meteria com a chatice do balé? Enfim, corta para 2020, e cá estou falando coisas do tipo "PQP, esse pas de deux é a coisa mais liiiiiiinda! Olha esse arabesque! Ah, porque o fouettés e não sei que mais lá do pliés, tendus, dégagés, fondus, rondes de jambe, rondes de jambe en l’air, frappés, développés, grande battements**... Cara*o, vai se f*er, esse bailarino!" E como assim ninguém me avisou que as músicas nas apresentações de balé clássico resultam da presença de uma orquestra inteirinha à beira do palco?! Não!, eu não fazia ideia de que era assim (vergonha de expor minha ignorância? jamais). Atenção, não digo que agora eu manjo desse paranauê; maaaaas aprendi umas coisinhas e ando bem interessada, refletindo (=💩) um bocado sobre balé e a dança em geral. Com este post, começo a registrar esta fase dançante. 
[ ** = na real, não sei identificar nenhum desses passos. ¯\_(ツ)_/¯ ]

🩰

A pandemia contribuiu para este súbito interesse porque, dada a suspensão dos espetáculos, certas companhias (The Royal Ballet-UK foi meu foco) decidiram disponibilizar no You Tube algumas de suas prévias produções na íntegra, com excelente qualidade de som e imagem. O primeiro espetáculo que vi foi The Cellist* que, verdade seja dita, integra o programa de dança contemporânea do The Royal Ballet. Apertei play sem saber nadinha do que se tratava e, quando dei por mim, estava me debulhando em lágrimas. Fiquei tão atordoada com o fato de um espetáculo de dança me colocar num estado patético daquele, que obviamente quis mais. [ *= narra a biografia da violoncelista Jacqueline du Pré, cuja carreira foi lamentavelmente encurtada em decorrência de esclerose múltipla.]

🩰

Espetáculos vistos até o momento, graças ao You Tube:
- The Cellist;
- O Lago dos Cisnes (versão "final feliz");
- Romeu e Julieta (vi 3 produções, em duas coreografias. é Romeu e Julieta; não resisto);
- Giselle;
- Bela Adormecida;
- Onegin (infelizmente, não há no YT uma versão completa);
- La Bayadère (orientalism is strong with this one);
- E um catatau de vídeos de ensaios (são uma delícia de assistir!) 

Sim, restam-me vários classicões; e que bom! Meta: assistir a um grande espetáculo de balé ao vivo, numa majestosa casa de espetáculos. 
🩰

Algumas questões sempre me intrigaram nesse meio, mas só agora a curiosidade atingiu níveis suficientes pra me fazer mover uma palha a fim de desvendar esses "mistérios". Anoto duas soluções:

(1) Pergunta: O que diabos acontece por baixo da calça dos bailarinos? 
R- Um olhar aguçado permite ter uma ideia, eu sei; no entanto estiquei o braço para jogar no Google e confirmar a suspeita:
Steven Mcrae

Sempre julguei que essa peça tivesse fins meramente estéticos (quem deseja ver bolas pulando pra cima e pra baixo, confere?), mas que nada! Em um dos vídeos a que assisti no YT, bailarinos explicam que o propósito é sobretudo prevenir acidentes envolvendo o saco escrotal. Elementar, meu caro Watson! Ah, e os caras falando do alívio que é tirar o troço ao final dos ensaios? Sendo uma sênhôura de respeito, não alongarei o fio dessa meada (*trocadilho não intencional*).

O legal foi descobrir que, caso eu siga contas de bailarinos no Instagram, corro o risco de ter meu feed invadido por fotos de corpos masculinos perfeitos, trajando nada além dessa tanga. Parece-me um excelente investimento. Calma, quero dizer excelente para praticar desenhos da anatomia masculina. Pô, já disse que sou uma sênhôura de respeito

(2) Pergunta: como essa galera memoriza as coreografias?! 
R- Nem precisaria ter ido tão longe, pois a turma que aprende as coreografias dos clipes da Beyoncé já me deixa abestalhada. O caso do balé é ainda mais complexo, pois são performances que habitualmente duram cerca de duas horas, nas quais cada mínima posição e movimento são ensaiados à exaustão. Para além da memorização, me dei conta de que há outro aspecto relevante: a cada nova produção, é preciso garantir a máxima fidedignidade às coreografias originais que, afinal de contas, são obras de arte que demandam respeito à autoria. Eis que entra em cena a incrível: 

CHOREOLOGIST!
(em pt: coreologista ou coreóloga?)

Estamos falando de partituras de dança (!), ou seja, de representar graficamente os movimentos; de desenhar a dança com o mínimo de traços e o máximo de detalhes. É a dança enquanto língua escrita, não é? Caramba, não aguento!; essa descoberta me proporcionou uma felicidade indescritível. 
Visto que o canal do Royal Ballet posta muitos vídeos de ensaios (se vacilar, gosto de vê-los mais do que os próprios espetáculos), pude constatar que as choreologists sempre estão presentes e, somente com as pastas de partituras na mão, são capazes de apontar cada movimento fora do lugar, cada passo realizado fora do tempo. A impressão que tive, a partir dos comentários dessas profissionais durante os ensaios, é que a técnica (Benesh Dance Notation) realmente é eficiente em documentar cada mínimo detalhe das coreografias. Segundo uma das choreologists do Royal Ballet (UK), Anna Trevien, a técnica foi bolada por Rudolf Benesh, contador e pintor/desenhista (óbvio ❤), em parceria com sua esposa, a bailarina Joan Benesh. Trevien explica que, antes dessa forma de anotação, Joan valia-se de palavras para descrever cada instante da coreografia que estava aprendendo, o que não era nada prático, dado que resultava em textos super longos. Assisti ao vídeo em que Trevien comenta a lógica da técnica, contudo estaria mentido se dissesse que entendi tudo e que estou pronta para ler qualquer partitura de dança. Para os mais sabidos, o vídeo:

 

🩰

Como este blog ainda é um diarinho pautado sobretudo nos livros que leio, o registro dos devaneios dançantes serão auxiliados, claro, por livros. Nesta primeira postagem, contarei com a ajuda de trechos do The Cranes Dance, escrito por Meg Howrey, ex-bailarina do Joffrey Ballet e do City Ballet of Los Angeles. Essa obra ficcional é uma espécie de versão moderna de O Lago dos Cisnes, mas dane-se a história (desculpe-me, Howrey), pois o que curti foram os comentários da narradora acerca do fascinante mundo do balé.
[P.S.: as traduções toscas dos trechos listados a seguir são culpa minha. Grifos eventuais também são meus.]

 "Até a coisa mais básica, mais principiante, a primeira posição, é cheia de regras. Calcanhares PRA FORA, pernas RETAS. Joelhos PRA CIMA. Barriga PRA DENTRO E RETA. Caixa torácica PRA DENTRO E PRA CIMA. Ombros PRA BAIXO. Braços PRA FORA, cotovelos ALINHADOS, polegar curvado ligeiramente PRA DENTRO, dedo indicador LIGEIRAMENTE ESTENDIDO, os demais levemente relaxados e o dedo mindinho RELAXADO e levemente ELEVADO. Pescoço ALONGADO. Queixo ALINHADO."

➛ "A gente nunca verá o Romeu irritado com a Julieta", eu divaguei. "Nunca vai parecer uma relação real. (...) Está tudo nesse nível elevado e irrealista. Mas temos de fazer. E nós somos pessoas reais. Há esta... lacuna". "Na verdade, não", disse Roger. "A menos que você pense que o que estamos fazendo agora é menos real do que o que fazemos no palco."

Esse trecho me fez pensar que a intensificação de meu espírito Blanche DuBois, promovida pela pandemia, foi a grande responsável por fazer o balé cair de súbito em minhas graças. EU NÃO QUERO REALIDADE. EU QUERO MAGIA! O trecho também me remeteu àquele excelente diálogo da série israelense Shtisel: 
- É uma pintura, pai, não é vida real.
- Kive, quando vai entender? Tudo é vida! Tudo é vida, e o que fazemos com ela.


➛ "Então eu os observei nos observando. Os rostos das pessoas ficam tão suaves no escuro, tão inocentes. Tão confiantes. Eles sabem o que estão vendo, mas também devem saber um pouco do que não estão vendo. Eles sabem que as joias são falsas. Eles sabem que a lua está pintada. Eles sabem que não é fácil virar e pular, e sabem que muito esforço e talvez dor estão sendo ocultados. Eles não se fixam nisso. Eles se deixam ser (...) conduzidos. Eles são gratos por serem (...) enganados. Nossos truques nunca os machucarão. Nunca diremos a coisa errada, porque nunca falamos. Eles nunca ficam tão felizes quanto quando os fazemos chorar."

SIM! E é peculiar, esse sentimento de gratidão despertado pela arte que nos conduz às lágrimas, não? O que estaria por trás disso? Talvez seja porque nos faz lembrar de que estamos vivos, e de que isso é uma dádiva e tanto. Por ora, é a hipótese aventada.


➛ "Ele diz coisas como "Tente parecer feliz quando faz isso" e (...) "Por que todo mundo está suando? O balé é tão fácil." 
+
➛ "É assustador vê-los (o público) assim, sob as luzes, quero dizer. Eles são mais interessantes na escuridão."


Não minto: durante os vídeos de ensaios, reparei nas pizzas de suor nas axilas dos bailarinos (e até nos espetáculos é possível ver, dada a qualidade das imagens). É meio desconfortável notar esses detalhezinhos, pois inegavelmente arranham a magia. Contudo, o bacana a respeito dessas passagens de The Cranes Dance é o reconhecimento de que o pacto ficcional funciona como uma via de mão dupla, digo, o público também é capaz de quebrar a magia que igualmente acontece para os próprios bailarinos. Escondidos na escuridão, somos desejados, mas basta que nossos rostos se materializem na frente dos bailarinos, para que o desejo colapse. 


➛ "O Lago dos Cisnes, como todos os grandes balés clássicos, realmente exige um programa de notas porque, caso contrário, será preciso acompanhar o enredo mediante a mímica do balé, e Deus sabe o quanto ela é verdadeiramente indecifrável."

Foi um alívio ler essa passagem, pois estava me sentindo mais burra do que o habitual, por não conseguir entender as histórias exclusivamente a partir da dança; de modo que costumo apelar ao Google para localizar as descrições do que ocorre em cada ato. Porém, destaco que não considero isso um "problema" dessa arte; muito pelo contrário. A coreografia de The Cellist, por exemplo, talvez possa ser criticada justamente por certo didatismo dos movimentos, quero dizer, uma transposição um tanto literal e pouco criativa da vida da biografada para a linguagem da dança. A fim de ilustrar o que teorizo, afirmo que não decidi se acho esta posição/movimento de bom ou mau gosto:
Meio cafona, né, não?

➛ "A maioria das produções de O Lago dos Cisnes não varia tanto assim uma das outras. (...) Não se pode desviar muito no balé clássico; senão ele não será mais, bem... clássico."

De fato, rapidamente percebi que o adjetivo "clássico" não é usado à toa; e esse é um aspecto que me desagrada um bocadinho no balé. Embora as temáticas sejam atemporais (o amor, por exemplo, é uma grande constante), é difícil contestar que a abordagem é algo conservadora (se é que faz sentido falar nesses termos). Acredito que essa é a principal razão por que não me empolgo tanto com as produções baseadas em contos de fadas, sobretudo porque resisto em enxergar algo além do moralismo sem graça (pra mim) dessas narrativas. As adaptações de obras literárias clássicas de grandes escritores, por sua vez (Shakespeare, Pushkin...), assim como os espetáculos de dança contemporânea, me instigam bem mais. Reconheço que isso sinaliza o quanto dependo de uma boa narrativa para me envolver com o espetáculo de dança, o que possivelmente seja uma limitação minha. Em outras palavras: não consigo me emocionar com a técnica pela técnica, simplesmente. Em um dos ensaios a que assisti, era nítida a profunda emoção da instrutora diante do talento da bailarina a quem orientava - ela estava paralisada e sem palavras, tadinha - ; e tal sentimento ainda me é alienígena, lamento.


 "(...) há uma série de problemas para transformar histórias complicadas em balé. (Romeu e Julieta seria uma exceção. Eu diria que o balé é melhor do que a peça. Se você discorda, é só porque nunca viu a cena do pas de deux na sacada ou porque você é feito de pedra)."

SIIIIIIIIIM!!!!!!  A coreografia do Sir Kenneth MacMillan para Romeu e Julieta, combinada com a composição do Prokofiev, é absurdamente linda. E pensar que quase morri sem ter visto isso. A respeito do pas de deux final, aquele em que o Romeu dança com a Julieta "morta", digo apenas: vai se f*er! E a coreografia inclui até as lutas de espadas!! Não dá, não dá. NÃO.DÁ. Aviso logo que devo ter visto umas vinte vezes, ao longo de duas semanas. 


➛ "Entra uma moça. Ela está vestida de branco e seu cabelo está solto, portanto sabemos imediatamente que ela é jovem e inocente."

A narradora da Meg Howrey menciona alguns desses códigos recorrentes nas produções de balé. Eles são tão apalermados, que fazem a curva e tornam-se engraçados. Organizo uma lista:
   - "Sabemos que ele é um mágico porque tem uma capa, (...)" > Oi? E o pior é que fiquei perdida, pois o Romeu usa uma capa MARA e, até onde eu saiba, ele não é um mágico. Ou há controvérsias? EITA.
   - "(...) que ele é mau porque, debaixo da capa, ele veste essa roupa demoníaca de borracha" > Se você se veste de preto meio gótico, sinto informar que, pelo menos no universo do balé, você é ~do mal~.
   - "A garota parece se perder em meio à névoa. Ela faz o grande gesto "Estou perdida!": uma mão na frente do rosto, dando passos hesitantes, espreitando o redor etc." > Nossa, e quando isso é feito por bailarinos que não sabem atuar (a maioria, sejamos honestos), é mais embaraçoso ver.
   - "A Cena na Vila é padrão no balé clássico, e se você viu um círculo hoo-ha de dança camponesa, já viu todos. (...) Não podemos fingir que estamos falando uns com os outros, pois seria estranho e anti-balé. (...) Por isso, todos circulam e cumprimentam-se com um aceno de cabeça, se for mulher; com um bater de ombros, se for homem. Depois uma pessoa indicará o Palco Central como quem diz "Ei, está vendo? Há pessoas dançando! Não é legal?" E a outra pessoa fará um gesto do tipo "Sim!" >  Essas danças da turma da vila do Chaves, ou mesmo as frequentes danças dos bailes aristocráticos, são chatérrimas. Não adianta, prefiro solo e pas de deux
   - "O Príncipe Siegfried dança um solo no qual expressa (muitos saltos) seu desejo de encontrar o Verdadeiro Amor" > Quanto mais saltitante o mancebo, mais feliz ele está. Hum, se bem que um jovem saltitante e cheio dos rodopios também pode estar putaço. É, tem que ficar esperta. 
   - "(...) faz o gesto do Verdadeiro Amor: uma mão ao peito, a outra erguida com os dois primeiros dedos estendidos." > Não é que é?! Nem tinha me tocado desse código, até ler isso. É bobo demais, adoro.
   - "uma mulher apaixonada quase sempre será subjugada por seus sentimentos de amor, tendo de fugir alguns passos de seu parceiro, para estar apaixonada sozinha por alguns instantes (...)" > EXATO! Caramba, é hilário ver a moça correndinho pra longe do amado, indo regozijar-se de alegria no canto do palco. Devo ter passado uma semana imitando, dentro de casa, essa famigerada corridinha enlevada.
   - "Não há sexo real, mas apenas sua promessa infinita. Você acha que o sexo real alcança esse tipo de sublime? Acha mesmo?" É tudo muito recatado, em nome do sublime. Aceito a troca com prazer.


"O Dr. Ken disse-me uma vez que os bailarinos são seus pacientes favoritos, porque sempre fazemos o que nos mandam e estamos muito abertos a críticas."

Essa reflexão dos bailarinos enquanto pacientes é bastante curiosa. Seguindo o bailarino Steven Mcrae no Instagram, vi que ele está reabilitando-se de uma cirurgia para reconstrução do tendão de aquiles e, puxa vida, fico em frangalhos ao acompanhar o tremendo esforço dele (e a eventual exasperação que escapa nas entrelinhas das postagens) para conseguir voltar à ativa. Pelo que entendi, os coitados se lesionam com frequência. 

A distinta relação dos bailarinos com críticas é bem fácil de captar durante os vídeos de ensaios, pois resta evidente que, caso o artista perca as estribeiras a cada crítica que receba, ele/ela enlouquecerá, pois nunca, jamais sua performance estará perfeita. E desconcerta pensar nesses termos. Digo, os bailarinos são profissionais que esforçam-se ao máximo para atingir uma perfeição sabidamente inatingível. Sempre haverá algo a melhorar, o que significa dizer que eles sempre ouvirão alguma crítica pertinente, por mínima que seja. 


➛ "Temos um inferno anual que gostamos chamar de O Quebra-Nozes. Não passamos o Natal com os nossos próprios pais desde que éramos adolescentes".

Pronto, O Quebra-Nozes é um dos clássicos que não vi. Contudo, ao que parece, nem preciso me preocupar, pois todo Natal rola uma produção do bendito. 


"(...) a familiar conversa da garota não bailarina com a bailarina. (...) "Todos os homens são homossexuais, né?"

Olha, taí uma parada que me deslumbrou: é lenda que todos os bailarinos sejam gays. Talvez eu tenha viajado alto demais, no entanto realmente confabulei que haveria no balé um interessante ponto de partida para pensar outras expressões de masculinidade (aqui, refiro-me à dança propriamente dita, e não aos papéis nas narrativas clássicas do balé). Aproveito o ensejo para admitir que me fascino mais com os solos dos bailarinos, do que com os das bailarinas; e a reflexão que as performances masculinas me suscitam acerca de gênero e sexualidade pode ser um motivo da predileção. Não sei; mas identifico nos movimentos reconhecidamente masculinos do balé clássico uma belíssima e excitante mistura de feminino e masculino. Nas coreografias dos bailarinos, sinto-me inspirada pela força e vigor viris associados à linda delicadeza de gestos; tudo isso acompanhado de uma irrestrita e tocante abertura aos sentimentos. (No balé, a galera é cheia dos sentimentos.) Dessa maneira, quando descobri que não, nem todos os bailarinos são homossexuais, fiquei ainda mais empolgada, dado que isso sustentaria (creio) minha hipótese de que a dança é capaz de recusar as banais classificações de gênero e sexualidade. 

A propósito, dentre todos espetáculos a que assisti até o momento, meu solo favorito é masculino e  corresponde ao solo da personagem Lenski, em Eugênio Oneguin; na coreografia de John Cranko e música (estupenda) de Tchaikovsky. É, lindo, lindo, lindo. O combo música + coreografia + cenário é perfeito, principalmente para quem está familiarizado com o texto do Pushkin e com o que aqueles momentos finais do Lenski - o jovem poeta apaixonado prestes a morrer - simbolizam. Perdi a conta de quantas vezes já assisti a esse solo (a despeito da mediana qualidade da imagem). Na próxima postagem, pretendo voltar a ele, pois há um trecho bastante especial. [P.S: não sei o nome deste bailarino - parece ser canadense (Atualização: descobri!!! Ele chama-se Jeremy Ransom) -, mas mando-lhe um beijo, onde quer que esteja. Agradeço-lhe por ter estraçalhado meu coração, em parceria com Pushkin, Cranko e Tchaikovsky.]

(Solo Lenski: 19:28 a 23:20)


➛ "A acachapante feminilidade etérea de todos os Cisnes Brancos."

Pronto, suponho que aí resida a fonte da relativa preguiça que as personagens femininas ocasionalmente me provocam no balé clássico. Lógico, há também um elemento masculino presente, em especial na tremenda força exigida pelos passos das bailarinas, mas ele fica tão escondido sob a espessa camada de elementos ditos femininos, que é preciso atenção para percebê-lo - aliás, suponho que, se a gente os percebe, significa que a bailarina talvez não esteja mandando bem. No caso dos bailarinos, ambos elementos (feminino  e masculino) gritam no mesmo volume (desde que o bailarino seja bom, pois às vezes a coisa pende feio para um dos lados), de tal modo que o resultado é fabuloso, em minha opinião. Para além disso, os habituais papéis de donzelas que querem casar ou que enlouquecem/se suicidam porque foram desprezadas é muito tedioso, convenhamos.

Ah, e a cena em que os cisnes brancos entram no palco pela primeira vez, numa fila indiana de mulheres em transe, é uma das coisas mais perturbadoras que já vi. Tão logo ela apareceu, lembrei-me daquela outra cena creepy (pra mim) do filme Jeanne Dielman..., da Chantal Akerman:
Será que a Akerman se inspirou em O Lago dos Cisnes??!!


➛ "No pas de deux clássico, o homem controla tudo. Ele ergue a mulher. Ele a põe de volta ao chão. Ele a rodopia, sustenta seu peso, a faz parar; e ela deve ir aonde ele a leva. A mulher submete-se a tudo isso completamente. Mas a submissão da mulher não é lânguida. De fato, ela só é capaz de submeter-se a tal ponto, porque ela mesma é bastante forte em seu centro. Ela não desmorona, não hesita, nem falha. Não; ela se mantém estável de forma muito consciente, muito confiante. Ela está centrada por seu próprio peso. Assim, o homem sempre sabe onde ela está. Ele pode senti-la. Ele pode absorver a força dela. Essa é uma boa parceria."

Tomei essa fala da narradora como corroboração de que não alopro quando teorizo haver no balé, no pas de deux especificamente, uma bonita metáfora da dinâmica de relacionamentos equilibrados. Ao mesmo tempo, porém, a ressalva contida nessa citação do livro é pertinente, pois, à primeira vista, até parece que o homem é o líder do dueto, mas rapidamente nota-se que ele apenas adianta-se às intenções que partem efetivamente da mulher. O bailarino, logo percebe-se, é mero coadjuvante que somente auxilia a grande estrela da p* toda: a bailarina. (Aos meus olhos inexperientes, é bom lembrar.)


➛ "É realmente a única forma de fazer a parceria funcionar. Claro que nem sempre isso acontece. Por vezes, o homem não é forte ou não se importa com a parceira, ele só quer dançar o solo. Daí a bailarina coleciona arranhões e torções de tornozelo e sente-se abandonada. A dançarina regressa ao camarim e diz às outras colegas: "Tenho de fazer tudo!" e "Não posso confiar nele!". Por vezes, a bailarina tenta controlar tudo sozinha ou não sustenta o próprio peso. O homem se cansa, pois tem de lutar contra ela a cada passo. (...) O homem volta ao camarim e diz aos outros homens: "Não sei o que ela quer de mim!" ou "Foda-se, é como segurar um peido!"

Até pra mim, que sou uma completa newbie nessa de balé, é gritante o quanto isso é verdade. Poxa, numa das produções de Romeu e Julieta a que assisti, o pobre bailarino era tão minguado, que quase derrubou a bailarina (a cara feia que ele fez! meu coração saltou pela boca). Como espectadora, é deprimente observar um casal de bailarinos que não tem um pingo de química e sintonia. No entanto, se a dupla funciona, aaaahhhhh!, eu me sinto voando junto com ela. É incrível.


 "Mas na situação ideal há um perfeito equilíbrio. A mulher é suficientemente forte para dar o máximo de si; o homem é suficientemente sensível para absorver tudo. E porque estão a ouvir a mesma música, estão sempre no ritmo. Não apenas na mesma página, mas na mesma nota."

É isso, é exatamente isso. E chamo atenção para os adjetivos que escaparam dos reconhecidos padrões. Aqui, tivemos: mulher-força / homem-sensibilidade. Não estou falando? O balé clássico sustenta-se em narrativas bem classiconas e conservadoras, é verdade; mas sigo cada vez mais convencida de que essa arte inusitadamente nos instiga a rever no que consistiriam, afinal, o feminino e o masculino; sei não. 

➛ "(...) a fofoca" (...) É só drama", disse Mara. "Não se preocupe. (...) Não somos um bando de degoladores (quem tem energia pra isso?), mas é compreensível que os maus sentimentos - ressentimento, ciúme, frustração - surjam eventualmente."

Não posso negar que, vendo os vídeos de ensaios, realmente conjecturei que a Rádio Corredor dessas companhias de balé deve ser frenética. A competição e vaidade nesse meio são acirradas demais, para que seja diferente. Mas vai saber, né? Talvez toda a gentileza que dançarinos e instrutores/diretores demonstram em vídeo seja mesmo real. Pollyannei?


"A carga erótica de jovens suados e seminus a deslizarem as mãos uns sobre os outros também não é exatamente como você pensa. Lembre-se que esses jovens estão sob luzes fluorescentes, diante de um espelho gigante, concentrados em marcar seus movimentos com o tempo da música, enquanto são observados minuciosamente por uma ucraniana que grita coisas do tipo "largue-a, mas não como se ela fosse um saco de batatas, seu i-di-o-ta!" 

Eita, meu castelo de fanfic de areia ruiu num piscar de olhos. Assim, não tem como observar toda aquela tremenda proximidade corporal e pensar diferente. Mas ok, a explicação da narradora da Howrey me convenceu de que há zero tensão sexual em jogo. 

Nos vídeos de ensaios, os instrutores costumam soltar uns comentários bem engraçados, tal qual esse do saco de batata, sobretudo quando eles  precisam dirigir a atuação dos bailarinos na performance dos gestos com função narrativa específica. 


➛ "Todo mundo queria dançar com ele. Talento te torna desejável. Talento supera a boa aparência e compensa uma personalidade apenas decente. Talento é personalidade." 

Os devaneios nos quais me meti acerca de talento e de progressão na carreira dentro do universo do balé me fizeram retornar à crítica que uma you tuber chamada Jenny Nicholson teria feito ao filme Ratatouille, conforme compartilhado por Thiago Guimarães, num episódio de podcast. Segundo Thiago, Jenny Nicholson teria ressalvas em relação à suposta mensagem subentendida na narrativa de Ratatoiulle; esta aqui (parafraseando a fala de Thiago): "um grande chef pode vir de qualquer lugar, no entanto a posição de grande chef não é acessível a qualquer um, mesmo mediante esforço."  Complicado. Imagino que seria maravilhoso caso, mediante intensa disciplina, qualquer um pudesse se tornar Grande em qualquer área; porém não tenho mais idade para acreditar ou brigar por essa fantasia. A real é que talento existe e não há esforço que compense sua falta. Sem talento, suponho que o esforço disciplinado pode nos conduzir à eficiência em muitas áreas do conhecimento/de atuação, mas jamais garantirá a máxima excelência própria daqueles indivíduos que têm o tal Talento. No caso do balé, pelo menos, e julgando a partir das informações que coletei, parece-me bastante evidente que esforço nenhum garante que um bailarino/uma bailarina chegará à posição de Principal numa importante companhia internacional de balé. (Para não estender o assunto, sequer tocarei no lance da grana, berço de nascença e contatinhos.) 

Por sinal, uma discussão filosófica sobre Talento me empolgaria demais, pois não sei defini-lo, nem explicá-lo. Ao tentar filosofar sobre talento, empaco no batido e infrutífero "é um je ne sais quoi". No caso do balé, os desafios para defini-lo apresentam-se ainda mais intransponíveis, visto que minha impressão é que não aparenta ser uma mera e isolada questão de refinada técnica. 


➛"A Rainha exigiu que Siegfried fizesse uma escolha. Hilel tomou minha mão e fez sua habitual  reverência de desculpas. Não é que eu não seja bela e digna. Simplesmente não sou especial. Eu não sou A Escolhida."

Xi, nem conheço a Jenny Nicholson, e já suspeito de que ela não curte balé clássico, pois a maioria dos espetáculos aparentemente se sustentam no trope do The Chosen One/A predestinada (para o bem ou para o mal). 


 "O pas de trois do ato I é um momento de bom destaque, e conseguir o papel de uma das personagens que o compõem é sinal de que as coisas estão indo bem para você na companhia e que talvez você não tenha de passar toda a sua carreira como o terceiro pássaro à esquerda."

Mesmo depois do meu papinho de conformar-se em não ser a grande escolhida, não posso negar que me projetei totalmente nessas bailarinas que dançam o papel do terceiro pássaro à esquerda. De onde vem o ânimo para persistir dançando, quando não se é uma Principal e, pior, quando se sabe que jamais será? É uma carreira tão curta e com tão poucas posições de Principal (aprendi que há os Principals, First Soloists, Soloists... toda uma hierarquia), que não sei como conseguem burlar a frustração e a inveja. Talvez não consigam, né? Sei lá; só sei que, ao me colocar na posição delas, somente a falta de outra fonte de renda me faria permanecer feito estátua no canto do palco, enquanto a outra brilha no centro. (acho)


➛ "Lute agora, enquanto você ainda tem algo com que lutar."

Essa pandemia foi particularmente brutal para bailarinos e bailarinas, se considerarmos o quanto a carreira no balé clássico profissional é breve. Sete meses de interrupção (até agora) é uma preciosidade que jamais recuperarão. Dá dó ler os relatos no Instagram; todos conscientes do que perderam.


"(..) ele tem uma casa, (...) incluindo-se prêmios em dinheiro e patrocínios, creio que ele ganha um milhão de dólares ao ano. Uma bailarina com nível equivalente de sucesso pode ganhar cem mil dólares por ano; um pouco mais se fizer muitas apresentações como convidada em diferentes companhias. Em Nova York, significa dizer que conseguirá alugar um pequeno apartamento de um quarto e ainda ter dinheiro para comprar um shampoo da Bumble and Bumble." 

Nesse trecho, a narradora compara um tenista e uma bailarina em estágios similares de carreira, e a comparação me arrasou. É lamentável (acho) que o tremendo esforço e talento desses bailarinos não sejam remunerados à altura. E é estranho que seja assim, se pensarmos o quanto os diretores dessas companhias bajulam os ricaços, sempre chorando por dinheiro para financiar as produções. Poxa, será que a saída não estaria num esforço para popularizar o balé clássico? Se bem que tênis não é nada popular... Arte x Esporte...? Mas... esporte é arte? Entendo naaaada.


➛ O patrocínio individual de bailarinos agora tornou-se algo normal nas companhias de balé. Mediante o pagamento de uma taxa fixa, seu nome aparece ao lado do nome de um bailarino no programa do espetáculo. "As atuações de Tina Ballerina são patrocinadas por Bruce e Brenda Mufunfa". Está provado que as pessoas são mais generosas com os necessitados, caso o necessitado tenha um rosto individualizado, uma personalidade, uma narrativa com a qual elas possam simpatizar. Não significa que os dançarinos tenham de usar o nome de seus patrocinadores nas roupas. (...) Logo, os doadores individuais precisam se contentar com o habitual: bar privado na casa de espetáculo, melhores cadeiras, jantares com os dançarinos, (...)"

Putz, balé é uma parada muito de riquinho middlebrow, né? Agora que espalhei na internet que estou metida com balé clássico, já sei que serei degolada, tão logo aconteça a revolução. Ela está marcada pra quando? Ah, dane-se, pois terá valido a pena. Sou pequeno-burguesa, Sebald; por favor, me perdoe. 

Não fiz nenhuma doação financeira (ainda rs), mas, olha, com essas promessas de regalias aí..., sei não, hein; sei não. Tipo, ouvir o Roberto Bolle falar, em italiano (!), sobre Romeu e Julieta, num jantarzinho à luz de velas, a troco de um punhado de euros? Estaria disposta; se rica fosse.                                                                                                                                                                                                  Para falar um pouco mais sério, menciono que alguns desses bailarinos me despertam um amor tão inusitado e inexplicável**, que me imagino facilmente bancando a tonta, dando-lhes todo meu suado dinheirinho. [**= Digamos que, se eu encontrasse na rua aquele bailarino (Atualizando 2: descobri o nome dele! = Jeremy Ransom) que dançou o solo do Lenski, estou certa de que o esmagaria num abraço e não soltaria nunca mais.]


➛ "(..) beleza física não significa para nós a mesma coisa que significa para o resto do mundo. Aqui, a pessoa pode ter um nariz torto, um caroço no olho ou uns poucos fios de cabelo, mas se ela for uma dançarina incrível, todos diremos: "Oh, ela é deslumbrante"."

Bem pensei esse tipo de coisa, ao acompanhar essa galera do balé. Esbarrei em uns dançarinos super feiosos (malz aê), mas os fdp são tão talentosos, que, aos meus olhos, viraram anjos que me fazem suspirar.


"As pessoas ainda se arrumam para assistir ao balé, e isso é gentil da parte delas."

Ãin, agora fiquei ansiosa. O que vestirei, quando for ao meu primeiro espetáculo de balé?! Providenciarei um vestido incrível, pois quero estar lindona (na medida do possível, veja bem), ainda mais se for para ver o Anthony Madu. 

Voe alto, Madu!

13/09/2020

Maybe all I need is a shot in the arm

Shannon Cartier Lucy; Naptime (2018)
01
No vídeo em que apresenta sua biblioteca para o canal Les Inrockuptibles (link aqui: X), Leila Slïmani compartilha uma singela história que marca a relação dela com Anna Karênina, de Tolstói, e com a própria literatura. A autora relembra ter sentido muita raiva ao ser chamada pro jantar por sua mãe; quando, no quarto, ela lia o livro russo, mais precisamente a página <SPOILER> em que era narrado o suicídio da personagem Anna Karênina. Slïmani explica que sua revolta decorria do fato de que, para ela, era inadmissível pensar em tais trivialidades - jantar?!-, quando Anna Karenina simplesmente acabara de morrer.

Durante este período de medidas de isolamento e distanciamento sociais, vivi algo similar ao relatado por Slïmani. Quando dei por mim, me peguei preocupada com as Irmãs Makioka (! - personagens do livro de Junichiro Tanizaki), consumida pelas seguintes reflexões e aflições: mas e quanto à visita anual das irmãs às cerejeiras do jardim sagrado no templo Heian, em Kyoto, no mês de abril?! E a tradicional foto das quatro debaixo da cerejeira localizada à beira do lago Hirosawa, com a montanha Henjoji ao fundo?! Não vai rolar?! Ah, não! Puxa vida, como estará Sachiko? Que pena. De início, me senti meio abestalhada, temerosa de ter virado uma Dona Quixote, entretanto lembrei das palavras de Slïmani e sosseguei — "Foi quando, pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não se dão conta da importância da literatura. Eu estava completamente alheia às trivialidades da vida."

Com a leitura de Os Judeus e as Palavras, também encontrei conforto no trecho em que Amós Oz e Fania Oz-Salzberger comentam que pouco importa se as personagens bíblicas, por exemplo, existiram ou não, porque todas vieram da vida real, vieram de linhas de textos cujas ideias transmitidas existiram e ainda existem. "Como leitores, sabemos que a ficção transmite verdades". Quer dizer, será que, neste exato momento, não há uma família japonesa desolada porque se viu impedida, pela pandemia, de seguir sua tradição de visitar as cerejeiras em flor? Pois meu pensamento está com ela. Por sinal, o último conto que li de Borges (Emma Zunz) igualmente tocou nesse assunto (≅ os detalhes das histórias são ficcionais, enquanto os sentimentos...), mas este é tema da próxima postagem da série de leitura de O Aleph.

02
Suponho que uma das coisas que torna momentos como este verdadeiramente difíceis é termos pessoas em nossas vidas com as quais nos importamos plenamente, não? O tal, digamos, "Sustentável (mas a que custo, meu deus!) Peso do Ser". Esse desvario cafona me ocorreu em resposta a uma cena tragicômica do belo filme Starlet (Uma Estranha Amizade; 2012), do diretor Sean Baker. A obra narra a gradativa amizade que se estabelece entre duas mulheres solitárias da Califórnia, uma jovem e uma idosa. A senhorinha resiste rabugenta às investidas persistentes da garota, sobretudo avessa ao cachorrinho que era carregado a tiracolo pra todo lado, tratado praticamente feito bebê. Quando as duas estão um tanto mais próximas, a jovem pede que a senhorinha fique de babá do cachorro, enquanto ela trabalha. O experimento não dá muito certo, pois o cão foge e a pobre senhora, totalmente exasperada, gasta horas procurando-o pelas ruas do bairro. Não demora, e logo o filme faz o que filmes fazem melhor; digo, entrega a famigerada imagem que fala por mil palavras:
Aos prantos, ela cambaleia desolada no meio da rua. A edição do filme é massa, visto que, desse ponto, corta diretaço para a senhora devolvendo o cachorro à moça, ao mesmo tempo que ordena-lhe que desapareça pra sempre e que não a aporrinhe mais os pacovás; sem qualquer explicação. E não é assim? Assim é.

03
Os meses de março e abril, em particular, foram marcados por suadeira nas mãos, angústia opressora e contínua leitura de artigos sobre a doença, tendo as notícias da Globonews como trilha sonora. Graças a essa rotina, acredito ter conseguido capturar uma imagem da melhor biblioteca de jornalista dentre aquelas que têm aparecido durante as atuais transmissões de TV. Falo do escritório/biblioteca de Miriam Leitão, antes do suposto upgrade:
Por onde começar??!! 
- Máquina de escrever fabulosa (quero);
- Pôster da Clarice Lispector;
- Outro pôster ali atrás de algum livro da editora Record?;
- Quadros... eu deveria saber de quem são, né? Vergonha; não sei (não sou das artes, me ajudaê);
- Carrinho mara de biblioteca (quero!);
- As Crônicas de Nárnia (! - #nãolinemlerei);
- Pilha de moleskines (?);
- Algum tipo de colírio para olhos (acho - é, também tenho aqui do lado);
- É uma calculadora, ali?!;
- E la pièce de résistance: a palmilha sobre a mesa (ou não é?). Como? Por quê? Um mini conto se aproxima. 

04
Boa musiquinha para a presente realidade, esta do Caribou. Saca o refrão em loop eterno:

She's going home
Baby, I'm home, I'm home, I'm home

(*Aliás, pera, canção das privilegiadas..., né? Ontem, loser; hoje, privilegiada. So it goes.)

05
(Dado que o tema é casa:) No começo do ano, eu estava em busca de um novo apartamento pra morar (caçada interrompida pela pandemia, claro) e, além dos requisitos óbvios (preço ok, dispensa de reformas etc), eu só fazia questão de uma coisinha: VARANDA. E pra quê, né? A real é que não se constroem mais varandas e, quando o fazem, a família classe média brasileira vai lá e taca-lhe uma janela pra fechar tudo, integrando a p* toda à sala. Eu vejo as fotos nos sites de imóveis e quero morrer. Quando tomada pelo espírito meio bastante porco do "há males que vêm pra bem", ouso trepidante conjecturar que, com alguma sorte, esse vírus fará a turma dar a devida importância às varandas. Quem envidraçou e tijolou sua varanda, não pôde postar, nas redes sociais, vídeos de cantoria e festinhas nesses espaços, não é meixmo? Bem feito. É peculiar, esse habitual anseio do brasileiro de separar-se a qualquer custo do mundo exterior, de ampliar e definir precisamente os limites do seu espaço privado. 

Frustrada com a realidade imobiliária, não pude evitar que meus olhos marejassem diante deste inesperado poema da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen:

Varandas

É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste — quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha

Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade
 — Sophia de Mello Breyner Andresen

Não posso contar com arquitetos, engenheiros e imobiliárias; porém ainda posso contar com os poetas.

06
Por falar em poesia, 
a mesa de bar, tema é,
no Slam da Pandemia.
Dr. Fauci ou Carioca do Leblon?
Água ou Chandon?
Garçom, sobe o som!
Durante uma das trilhas que fiz numa viagem do ano passado (contei aqui: X), um moço do grupo se destacou por seu desconsolado praguejo: - Puta merda, tanta praia bonita pra tomar uma cerveja gelada, e eu aqui nesse perrengue. A fala dele não só alimentou ainda mais minha crise de riso provocada pela inusitada situação em que me encontrava (botando os bofes pra fora, cercada pela natureza inebriante), como também despertou certo desalento embalado por aquela assombrosa pergunta de Esperando Godot, do Beckett: We always find something, eh Didi, to give us the impression we exist? (Nós sempre achamos alguma coisa, hein Didi, para nos dar a impressão de que existimos?) Por que esse something é, pra tanta gente, o álcool? Isso me deixa destrambelhada, admito com não pouco embaraço. Ora, lá estávamos nós cercados pela, como disse deliberadamente, natureza inebriante, e mesmo assim não era suficiente. Toda aquela beleza articulada com o esforço do corpo não bastava para que o moço se convencesse de que ele estava vivendo amarradão. Não entendo; e simultaneamente estou ciente de que (1) minha reação é despropositada e (2) não tenho direito de julgar. Que as pessoas tenham encontrado um something, já é motivo para se contentar, de fato. Acho. Ou será que o álcool, na real, somente faz as pessoas esquecerem que estão à procura de um something? Caí num pleonasmo? Que confuso. Ah, e sim, meu lugar de fala é o da pessoa que não bebe. Quer dizer, curto um vinhozinho com uns queijos espertos talecoisa (#pequeno-burguesa), sabe como é, contudo a parada, pra mim, se encerra aí. Chata muito? Opa, provavelmente; mas como hoje estou disposta a ser gentil comigo mesma, argumento que apenas prefiro ficar bêbada mediante outros meios — e não; não tô falando de remedinhos.

The Hills erect their purple heads,
The Rivers lean to see
Yet Man has not, of all the throng,
A curiosity.
— Emily Dickinson

Em meio a esse conflito alcoólico, os filmes do Sang-soo Hong, que andei vendo nestes dias, só pioraram minha desorientação. Em todas as obras desse cineasta sul-coreano a que assisti, o álcool se faz presente de um modo determinante que, a princípio, me desconcerta. Em linhas gerais, a entrada do álcool nas narrativas dele serve para desarmar as inibidas e formais personagens que, então, finalmente desembucham o que de fato estão sentindo. Ou seja, o esforço exigido pela rígida performance social é posto de lado e os nós desatam, quando a galera de Hong começa a encher a cara. Pô, só eu® fico meio deprimida diante dessa dependência humana? Busquei no google artigos/críticas/análises acerca dessa presença do álcool nos filmes do cara, mas não localizei nada legal. No entanto, a entrevista que ele concedeu ao site Sofilm me ofereceu respostas valiosas, algumas das quais listo a seguir (grifos são meus):

Q- Como começou a beber? R- Eu tinha 15 ou 16 anos. Cerca de 10% dos meus colegas de turma bebiam nessa idade, (...) Os meus amigos tinham problemas familiares, todos eles. Assim, quase todos os dias, depois das aulas, nos encontrávamos para beber juntos. (...) Bebíamos muito. Realmente, muito.

↦ Q- Por que bebia tanto? R- (...) Eu estava... (longo silêncio) solitário. Eu era muito reservado. Não tinha amigos fora do meu gangue alcoólico. (...) Eu estava muito desorientado, sem objetivos ou planos para a vida. (...) Eu não sonhava com nada. Esse período de alcoolismo brutal durou dois anos (...) entre os 15 e os 17 anos. Depois comecei a beber menos, mas ainda não tinha nenhum objetivo! (...) Só queria esquecer.

↦ Q- Gostava de ler e escrever? R- Sabe, beber é algo tão poderoso, que apaga qualquer relação que se possa ter com qualquer outra coisa, apaga toda a sua energia. Mas no fundo, me senti dividido entre essas duas experiências: beber e escrever. Embora não pudesse escrever com frequência, estava sempre interessado em livros.

↦ Q- Quando bebe com os seus amigos, de que falam? R-  (...) o que faço é propor um jogo alcoólico para entornar todas. Se o jogo durar uma hora, todos acabam bêbados e não há mais necessidade de falar. Nos sentimos próximos, nos amamos, e não há necessidade de dizer bobagens pelas quais se arrepender no dia seguinte.

Q- No entanto, nos seus filmes, esses momentos frequentemente levam a situações embaraçosas, em que as pessoas falam demais. R- Sim, mas na minha vida isso só acontece quando bebo toda a noite, conversando até o amanhecer. É aí que se acaba fazendo besteira. E nem sequer é sincero, são bobagens que não se ancoram na realidade; um produto do cérebro fora de si. É por isso que eu gosto de jogos, porque não lhe dão tempo para falar. Tudo o que permitem é se embebedar, se sentir bem com as pessoas e ir para casa feliz.

↦ Q-  Então, costuma beber com os seus alunos? R- Tento evitar. (..) gastei tanta energia com eles! As conversas nunca acabam! Não suporto. Estão ansiosos por tudo, durante todo o dia, têm muitas perguntas sobre a vida.


Minha hipótese do álcool servir para promover o esquecimento da pergunta formulada pela peça de Beckett parece ter sido corroborada pelas respostas de Sang-soo. Interessante. E o que ele menciona a respeito da enorme capacidade do álcool de bloquear qualquer relação que possamos ter com outras coisas na vida me tocou em especial, pois parece ser o cerne do que me inquieta na relação firmada por muitos com essa droga. A sensação é que, para realmente diversas pessoas, nenhuma ocasião será de efetiva celebração feliz com o outro, a menos que envolva bebida alcoólica. Por que sentem-se (creio) desse jeito? Também preciosa é a opinião dele de que o álcool não desperta a expressão de nenhuma verdade interior do indivíduo, mas apenas um monte de idiotices. Gosto disso, sobretudo porque desmonta a leitura que fiz de seus filmes. E, claro, para quem aprecia demais o silêncio, torna-se mais fácil entender a enorme valoração social do álcool, a partir do momento em que Sang-soo me diz que o que ele busca com a bebida é a possibilidade de não falar nada e ser feliz com os amigos de que gosta. Um brinde a isso, senhor Sang-soo.

Que dei meus últimos tostões
Por esse vinho, estão lembrados?
E seus eflúvios inspirados
Geraram tolas percepções,
Mas também verve e poesia,
E discussões, sonho, alegria!
— Alexandr Pushkin; Eugênio Oneguin 
    (Tradutor: Dário M. C. Alves)

O livro de Montaigne afinal saiu da estante, e, ao espiar o índice, tive a alegria de dar de cara com um ensaio intitulado Sobre a embriaguez. Bom, eis que saí da leitura com um aliado e tanto, pois não é que o grande ensaísta meio que concorda comigo?! Rá!, tomem essa, bebuns dos infernos. Montaigne considera a embriaguez um vício grosseiro e brutal, que destrói e entorpece o corpo. No ensaio dele, porém, consta uma lista de causos históricos que contradizem o cineasta Sang-soo Hong no que diz respeito à eficácia do álcool em fazer a turma da mesa de bar vomitar seus segredos mais íntimos. Vale ressaltar que, para Montaigne, é importante reconhecer que uns vícios são piores que outros e, nesse sentido, embora covarde e estúpido, o álcool não seria o pior e mais prejudicial à sociedade. <Aqui, admito que discordamos, porém deixo esse debate para outra ocasião. Fora que o cara fala do contexto social do século XVI; é bom lembrar.> Para não me restringir a um tolo ataque ao álcool (sequer é minha intenção), acrescento o que, segundo Montaigne, Platão afirmara acerca da embriaguez: "(...) a embriaguez é uma prova boa e segura da natureza de cada um, ao mesmo tempo que é capaz de dar às pessoas de idade a coragem de se divertirem em danças e na música, coisas úteis e que não ousam empreender em estado normal". Claro que tem seu valor, portanto. Mas tem uma pegadinha: na cartilha platônica, a bebida está liberada só após os quarenta anos. É, já suspeito quais seriam as reflexões de Platão sobre a bebedeira nos filmes do Sang-soo, sobretudo se ele fosse informado de que o cineasta começou a entornar garrafas de soju com quinze anos. 

Emet
(...)
Eu sei, também tenho ido a bares e outros lugares
igualmente reais. E tenho tido
uma vida ou mais. Mas é tempo de falares
tu, livro. Eu tenho dito.
 — Manuel António Pina


Sensação de que paguei de chatonilda ao abordar esse tema; e o pior é que nem precisava, uma vez que tudo que tentei concatenar aqui a respeito do álcool já foi dito de forma muito mais divertida pelos senhores Robert Eggers e Max Eggers, no filme O Farol (2019).

- Boredom makes men to villains, and the water goes quick, lad, vanished. The only med'cine is drink. Keeps them sailors happy, keeps 'em agreeable, keeps 'em calm, keeps 'em...
- Stupid.
- Curse me if there ain't an old tar spirit.

Mas assim, né?; não trabalhamos com intransigências, veja bem. Pra que essa besteira? Tipo, se este cara aí 👇 me chamasse pro bar, eu negaria? A resposta é: claro que não. Me liga, Lenny Bruce

"(...) Samuel Johnson (...) Tarde da noite, quando saía à procura de conversa de 
taberna, experimentava o alívio de ver suas próprias necessidades refletidas 
na companhia que encontrava: aqueles que bebiam e falavam do Homem e de Deus 
até que a luz despontasse, porque também nenhum deles queria ir para casa."

                                                                          - Vivian Gornick, The odd woman and the city

07
Uma de minhas grandes recentes descobertas (não foi a vacina, desculpa) foi constatar que, quando o assunto é cagar em locais públicos (sim, neste blog, basta um toque na barra de rolagem, e passamos do álcool à caganeira ¯\_(ツ)_/¯), o mundo conta com dois tipos de roteirista de série de TV. Esta, sim, uma escolha difícil. Ladies and Gentlemen, it's time for... THE POOP BATTLE!
De um lado, temos o querido fdp Larry David que, na S10 de Curb Your Enthusiasm (HBO), inventa abrir uma cafeteria cujos banheiros para o público não têm privadas. O mais novo empresário da Califórnia se recusa a ter de lidar com o cocô alheio em seu empreendimento. Ah, então o cliente quer cagar após o cafezinho? Pois vai ficar querendo; porque, no banheiro da cafeteria do Larry, não vai rolar.

Do outro lado, o querido entregador de maconha Ben Sinclair, na S04 de High Maintenance (HBO), nos apresenta a um pobre profissional de Mensagens ao Vivo (é esse o termo?) que, mega apertado enquanto trampa nas ruas de NY, é resgatado por uma cafeteria. O rapaz, ao sair aliviado do banheiro, agradece ao barista e se desculpa de ter defecado no sanitário do estabelecimento. A reação do barista? Abre um sorriso simpático, dizendo-lhe pra deixar de bobagem, porque está ciente do aperreio que é querer fazer cocô, quando se trabalha na rua. No universo de Sinclair, o cocô é livre.

E aí, quem leva o POOP TROPHY? Meu eu constipado que trava-me o esfíncter retal tão logo ponho os pés fora de casa fica com o Larry David; enquanto meu eu consciente de que um intestino saudável requer alívio imediato onde quer que se esteja e que, para isso, é importante ajudarmos uns aos outros, fica com o Ben Sinclair. Complicado.

Pra que escolher um, né? Amo esses dois cagões.

08
E pensar que, no começo do ano, eu estava aqui desejando bastante transa pra todo mundo, hein? How the turntables...