26/11/2022

[DROPS] Habemus podcast?

Surfando na onda dos tais snacks/lanchinhos de mídia, pensei em tentar adaptar o blog ao formato de podcast. Na verdade, não apenas por causa da tendência de fatiar/multiplicar conteúdos, mas também porque gosto bastante de ouvir podcasts enquanto caminho e pinto principalmente. Minha ideia inicial é manter o blog como está e, em paralelo, adaptar algumas postagens (ou trechos) para o formato de áudio curto; ainda que eu não descarte a possibilidade de episódios inéditos e/ou apenas em formato de áudio. Fazer podcast é tecnicamente bem mais difícil do que escrever textos — a qualidade do áudio, em especial, é um enorme desafio — então não sei se este humilde projetinho dará certo. Ah, e assim como o blog, não conseguirei fixar uma frequência para publicação de episódios. De qualquer forma, já disponibilizei dois (*apenas no Spotify):

📻 #01 Gênia ou nada
Adaptação de um trecho do post Alejandra Pizarnik; Diarios - 08/1955publicado em 12/06/2020.

📻 #02 Simplesmente embarcar: no trem, no ônibus
Adaptação do post [alinhavando] Think of me as a train goes by, publicado em 31/07/2022

06/10/2022

[alinhavando] He'll make a tree from me


Em um grupo de pessoas vestidas de luto
um garoto
olha encantado um pé de caqui.
— Abbas Kiarostami
(Tradutor: Pedro Fonseca)

Assistindo a um vlog de viagem no You Tube (despretensioso, feito por quem não é influenciadora), fui surpreendida pela seguinte confidência da turista: "Estou fascinada pelas árvores daqui. Vou mostrar minha árvore favorita." Sem exagero, afirmo ter sido uma das coisas mais delicadas que já ouvi — num vídeo de viagem, ao menos. Nos dias seguintes, o comentário da vlogueira persistiu ecoando na cabeça e me vi consumida pela triste constatação de que não tenho uma árvore favorita. Por que e como isso aconteceu? Não sei; no entanto fui tomada pela certeza de que preciso encontrar minha árvore favorita. Desse modo, durante as caminhadas no parque, resolvi parar de observar os passarinhos (é um observatório fabuloso), a fim de reparar nas árvores. A dificuldade da empreitada logo superou a prevista, sobretudo porque atinei que sequer sei o que procurar ou registrar, durante a observação. Em outras palavras: o que torna uma árvore a favorita de alguém?

Calculei que seria um bom momento para ler Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos (não, nunca tinha lido), contudo a obra só me deixou mais confusa. Para começo de conversa, Zezé não exatamente escolhe o pé de laranja lima como seu favorito. Na narrativa, o processo corresponde a um feliz encontro resultado do acaso: a família se muda de casa, cada irmãozinho escolhe uma árvore para chamar de sua e, a Zezé, sobra aquele pequenino pé de laranja lima. Descobri, também, que eu não apenas necessito encontrar minha árvore favorita, como terei de nomeá-la. Zezé, por exemplo, batiza sua plantinha de Minguinho, com direito ao apelido carinhoso de Xuxuruca. E até seu amigo português (um adulto) tem uma árvore favorita chamada Rainha Carlota, ainda que ele sempre a trate por Majestade. — Então é isto: todo mundo tem uma árvore favorita, menos eu. Ah, pronto. — Puxa vida, mas como eu poderia nomear uma árvore? Aquelas do parque se apresentam a mim tão imponentes e majestosas que, estou segura, jamais aceitariam ser nomeadas por uma humana. A propósito, o pé de laranja lima de Zezé fala (oh yeah), portanto teorizo que, na verdade, tenho de ouvir o nome das árvores, que elas próprias me dirão. Bom, nem preciso contar que não consegui ouvir nada, preciso? Para ouvi-las, possivelmente tenho de pedir a Deus meu passarinho de volta; aquele passarinho que, segundo o tio de Zezé, eu teria devolvido ao chegar (supostamente) na idade da razão.

Retornando ao vídeo da vlogueira para checar se ela explica o motivo daquela danada ser sua favorita, me deparei com isto: "Minha árvore favorita, ali está ele. Ou ela. Ele/Ela tem um certo ar que impressiona." Ah, pois é, outro problema a sanar: qual será o gênero da minha árvore favorita? Que imbróglio. Enfim, ao prestar melhor atenção nas árvores, sinto, conforme adiantei, uma presença bastante grandiosa, o tal ar que impressiona dito pela youtuber, porém isso se aplica a todas elas. Por outro lado, notei que cada uma emana, de fato, certa particularidade cuja percepção exige sensibilidade do observador. No ótimo livro Lembranças do Porvir, escrito pela mexicana Elena Garro, há uma passagem que aborda, de um jeito engraçado e preciso, essa questão à qual me refiro. A costureira Blandina vai até a casa dos Moncada, para preparar o enxoval dos filhos da família que partiriam em breve, e informa que, para trabalhar, não pode ficar entre paredes, sendo necessário que ela veja folhas. O detalhe é que não pode ser qualquer folha: 

"—Aqui está bem, dona Blandina?
— Não, não, não! Vamos para lá, em frente às tulipas... estas samambaias são muito intrigantes...!"

Colocada de frente às tulipas, nova queixa:
Muito vistosos! Muito vistosos! - disse com desgosto. Se não se incomodam prefiro estar em frente às magnólias."

Posicionada então diante das magnólias, outra reclamação:
"São muito solenes e me deixam triste."

Após testar a paciência da família, aqui está o ângulo da varanda no qual Blandina se encontra (grifo meu):
"— Daqui só vejo a folhagem; o alheio se perde entre o verde."

                                                                — Elena Garro, Lembranças do Porvir (Tradução: Iara Tizzot)


Quer dizer, umas são intrigantes, outras vistosas e algumas solenes. Por sinal, lembro que a série Dickinson também explora brevemente esse mesmo ponto, mediante esta personagem* que atesta a impossibilidade de paz, quando estamos sentados ao lado de uma roseira:  
(* = Ninguém menos que Frederick Law Olmsted, o paisagista responsável pelo projeto do Central Park.)

No meu caso, porém, o que prevalece durante as caminhadas é a forte sensação de ser observada atentamente pelas árvores. Por alguma razão que não sei explicar, inclusive, sinto que elas me observam a partir de suas cascas. É provável que isso decorra do simples fato de que as cascas estão facilmente à mostra, logo na altura de meus olhos, refletindo meu próprio olhar. Além disso, admito que a casca é o que mais tem chamado minha atenção; e fico apalermada diante da encantadora variedade de formas, cores, texturas, desenhos — a imagem no início do post são algumas cascas fotografadas durante recentes andanças. Dessa maneira, conjecturei que encontraria minha árvore favorita, caso seguisse as pistas das cascas. Assim, lembrei que o filósofo Georges Didi-Huberman escreveu um livro intitulado Cascas, o qual saquei para imediata leitura. Tal qual Meu Pé de Laranja Lima, o livro de Didi-Huberman não me ajudou tanto, visto que a obra realmente concentra-se na reflexão filosófica acerca de como recordar/ler o passado do holocausto; quer dizer, como construir e preservar essa memória para efeitos no presente. Simultaneamente, porém, foi bastante intrigante constatar que, durante a visita ao campo de concentração Birkenau, o filósofo foi tomado pela urgência exata de arrancar lascas de cascas das Bétulas que povoam o bosque daquele local. Nas palavras do autor (tradução: André Telles): "(...) três lascas de tempo. Meu próprio tempo em lascas: um pedaço de memória, essa coisa não escrita que tento ler; um pedaço de presente aqui, sob meus olhos, sobre a branca página; (...)". Ao descrever as Bétulas que testemunharam o horror ali cometido contra os judeus, Didi-Huberman diz que seus troncos possuem uma enorme força visual que chega até a tornar discreto o arame farpado, os postes de cimento e os fios eletrificados do campo. Ainda segundo o autor, as Bétulas transmitem uma paradoxal serenidade verdejante, com toda a delicada beleza dos troncos brancos com suas manchas, que evocam resquícios de alguma partitura musical. Em consequência, ele me ajudou a perceber que os relevos de um dos troncos que avistei remete a caixinhas de música (!).  Ao contrário de Zezé, quem sabe eu precise estar atenta para ouvir não a fala verbal, mas sim a música das árvores...? Melhor: tocá-las para ouvi-las? [Vixe, neste ritmo, logo virarei a louca que abraça árvores.]


Didi-Huberman assegura que a casca das árvores não exatamente equivale àquela mera superfície que esconde a verdadeira essência das coisas; afirmando que as árvores se exprimem pela casca; ou que, em todo caso, elas se oferecem ao exterior mediante as cascas. Esse pressuposto é usado pelo autor como metáfora para fundamentar a necessidade de olharmos feito arqueólogos o espaço soterrado do campo de concentração, a fim de localizar elementos que ajudarão a firmar a memória daquele evento histórico. Embora a fundamentação faça sentido, não nego que ela acabou por estremecer minha impressão de que as árvores estariam me encarando de volta a partir de suas cascas; quero dizer, a palavra "superfície" permaneceu piscando pra mim. Para piorar, durante a rápida pesquisa feita objetivando rememorar informações biológicas sobre cascas, esbarrei com o óbvio: essa é a parte morta da árvore, logo como elas poderiam estar me enxergando pela casca?! Felizmente, entretanto, meu sentimento de estupidez se esvaiu quando minha memória catapultou à superfície (😉) um trecho do ensaio The Naive Reader, no qual a poeta dinamarquesa Inger Christensen escreve (tradução dinamarquês ➝ inglês: Susanna Nied; inglês ➝ português: minha):
"Eu consigo enxergar uma árvore, enquanto a árvore presumivelmente não consegue me enxergar. Mas o que significa "enxergar"? Isso é linguagem humana. É claro que é correto dizer que uma árvore não enxergou nada, porém, à sua maneira, a árvore me enxergou. Ela registrou presença humana, nem que tenha sido nada além da poluição do ar. (...)"

                                                                           — Inger Christensen, The Naive Reader 

Certo; reescreverei, portanto, minha declaração: as árvores do parque registram minha presença. O curioso é que, naquela mesma pesquisa, o Google acidentalmente (?) me mostrou um artigo que aborda a possibilidade de avaliar a qualidade do ar a partir do estudo da casca das árvores. (Link: X)

Ao revisar os procedimentos desta busca, aventei a possibilidade de que talvez eu não esteja observando direito; falha que potencialmente possa ser corrigida, caso eu me dedique ao desenho e à pintura das árvores do parque. Essa hipótese me foi soprada ao ouvido pelo pintor David Hockney que, no livro A Bigger Message, explica a Martin Gayford que desenhar nos permite ver melhor e cada vez mais claro, nos permite enxergar o mundo com maior intensidade. Na ocasião em que tivera essa conversa com Gayford, a obra de Hockney estava marcada pela presença de árvores que, na opinião do pintor, são a maior manifestação de força vital que testemunhamos, cada uma única — e Gayford complementa (no que Blandina concordaria): gigantes vegetais, algumas heroicas, algumas elegantes, outras sinistras. Fiquei aliviada quando Hockney acrescenta que árvores não são fáceis de desenhar, especialmente a folhagem — "não parecem seguir as leis da perspectiva, com linhas seguindo em todas as direções" — porque eu mesma enfrento muita dificuldade ao tentar desenhá-las. Das pinturas que já fiz, gosto desta onde, sem surpresas, predominam tronco e casca:


O que ocupa minha mente nos momentos em que contemplo as várias árvores do parque, em especial agora que sinto e vejo incontestáveis sinais de envelhecimento em meu corpo, é sobretudo o verso de Tom Waits usado para intitular esta postagem: He'll make a tree from me / ~Ele fará, de mim, uma árvore  (música Green Grass voltando ao blog). Ou seja, é o pensamento de que se aproxima a hora em que cederei todos os meus átomos para a eventual constituição de uma daquelas (ou outras) árvores. Nem de longe trata-se de um sentimento mórbido ou pesaroso. Juan Ramón Jimenez, no lindo livro Platero e Eu, escreveu de modo muito mais bonito e certeiro o que tento expressar. Colarei o trecho aqui, extraído do breve poema em prosa no qual o autor nos diz o que percorre seus pensamentos, quando ele avista o pinheiro no alto da montanha da cidade espanhola de Moguer (grifo meu):
"Quando, no vaguear de meus pensamentos, as imagens arbitrárias se colocam onde querem, ou nos instantes em que há coisas que se veem como numa segunda visão e à parte do que é distinto, o pinheiro do Alto da Montanha, transfigurado como que num quadro de eternidade, surge-me mais eloquente e mais gigantesco ainda, na dúvida, chamando-me para descansar em sua paz, como o término verdadeiro e eterno de minha viagem pela vida."

                                                 — Juan Ramón Jiménez; Platero e Eu (Tradução: Monica Stahel)


Por ora, sou obrigada a encerrar esta postagem sem que eu tenha encontrado minha árvore favorita. Acredito que seja uma questão de acaso realmente. Ou talvez eu não esteja pronta. Não chegou a hora? Falta a vivência de uma história, que construirá uma memória afetiva? No máximo, tenho uma árvore que já há algum tempo me é muito querida: um ipê amarelo localizado em frente à rodoviária de Brasília. Quando está todo florido, esse ipê vive rodeado por pessoas tirando fotos; porém basta que suas flores amarelas caiam e seus galhos sejam tomados por abundantes folhas verdes, para que todos esqueçam dele. Desde que notei isso, faço questão de travar um diálogo silencioso com o Ipezinho da rodoviária, sempre que passo por ele durante trajetos de ônibus: "Olá, Ipezinho, estou te vendo e você segue bonito como sempre." Ao mesmo tempo, que sei eu daquele Ipezinho? É possível que ele nem curta a badalação e prefira não ser importunado. Sua voz ou sua música, nunca consegui ouvir, então eu não saberia dizer. De qualquer forma, ressaltarei que estas duas do parque em que caminho, que aparentam se abraçar (brigar por espaço?! xi), aos poucos me fazem sorrir: