24/08/2019

autoficções #03

01  
[Lendo o Crônicas Completas:] 
"E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar."  - Clarice Lispector

Em princípio, não parece haver lógica nenhuma aí, porém aprender a respeitar-se é, sim, um desafio e tanto. Eu acho. Pra mim, é. Digo com tranquilidade que não cheguei lá, contudo já enxergo a Aretha cantando Respect logo ali, na linha de chegada. Como ela está linda.

02
Enquanto isso, nos Stories da Florence Welch:

- Olha só, Liam Gallagher!, ao contrário do Noel, a Florence "can handle rock 'n roll"! 

03
O senhor que costuma fazer pequenos reparos aqui em casa tirou um belo sarro da minha cara (ou me elogiou, nem sei) por conta do jeito sisudão (?) com que escrevo no What's App. Ele disse que mostrou minhas mensagens para um amigo que, por sua vez, perguntou se eu era advogada, juíza ou coisa parecida. MÉU DÉUS. Minha escrita é empolada?! Escrevo em juridiquês no What's App?! NOOOOOOOOO! Que merda. Nhé, pelos menos a gente riu um bocado.

P.S.: minha teoria, depois de pensar um tantinho (=💩), é que tenho tanto pavor de soar como aqueles clientes que são escrotos com prestadores de serviço, que acabo pesando a mão e pisando em ovos.
Oh well.
P.S.2: outrossim, hacker aqui

04 
Situação: em uma ampla via com pesado tráfego de carros, um jovem da geração sem tempo, irmão arrisca atravessá-la enquanto o sinal encontra-se vermelho para pedestres. Simultaneamente, escuto o comentário de um senhor idoso à minha esquerda:

- A vida é tão boa; pra que arriscar? (com o sinal verde liberado:) Pronto, agora eu vou

05
Ideia para conto: fluxo de consciência/monólogo interior contemplando 24h na mente de um cachorro da raça Pinscher. Ritmo frenético, sem pontuações ou parágrafos, com muita paranoia e teorias da conspiração. E, nas entrelinhas, uma profunda angústia e melancolia. 

06
[Ainda lendo o livro Crônicas Completas:]
"Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não querem dizer."    - Clarice Lispector

Puxa, lembrei de uma das minhas músicas favoritas do White Stripes (saudades):
Truth Doesn't Make a Noise.

You try to tell her what to do
And all she does is stare at you
Her stare is louder than your voice
Because truth doesn't make a noise

[- Ah, Jack, o quanto essa música me ajudou a aproximar-me daquela linha de chegada. Nós dois acabamos seguindo por caminhos diferentes, contudo minha gratidão é eterna.]


07
Pera, pera, pera. Mas então... Eu virei aquilo que mais abominava: a pessoa que lança na internet citações aleatórias da Clarice Lispector?! NOOOOOOOOOO no.2.

08
Como sou teimosa, fui lá ver ANIMA, o curta que Thom Yorke lançou em parceria com Paul Thomas Anderson. Gostei bem mais do que eu tinha antecipado e registro três breves reações:

- Nunca imaginei que veria, com esses olhos que a terra comerá, Thom protagonizando ceninhas fofas e românticas. (Ok, o clipe de Knives Out chegou perto, mas nem se compara.) Mentira, imaginei sim. No caso, imaginei em meus sonhos, nos quais, é claro, euzinha sou a protagonista, e não aquela turca lá. Humpf. (Brincadeira, desejo felicidades aos dois. Ou não.)
- Não adianta; eu escuto esses trabalhos solo do Yorke e sinto vontade de incorporar o panda irado no estúdio dele, destruindo toda a parafernália eletrônica. Melhor: bancar a Annie Wilkes, do livro Misery (King), sequestrando-o e mantendo-o em um cativeiro onde ele só teria um piano e um violão acústico para compor músicas. #paz
- E quanto mais ouço a onda solo do Yorke, mais valorizo a presença do Jonny no Radiohead.                  Louvado seja.

09
Durante a última (pseudo) reorganização de minha estante, estive prestes a jogar fora um livro já detonado (um daqueles mass market paperback americanos, publicado em 1968!), entretanto o nome do meu pai escrito à mão na folha de rosto me travou. Curiosamente, o nome dele aparece escrito várias vezes, como se ele estivesse aperfeiçoando a caligrafia até chegar naquela que hoje usa e que bem conheço. Acredito que o vídeo no qual Clare Fenby atribui uma sensação de proximidade com Sylvia Plath/Virginia Woolf (escritora favorita dela) à capacidade que detém de reconhecer a caligrafia da autora salvou meu velho livro da lixeira. É mesmo uma bela forma de intimidade. Em uma vida, quantas caligrafias uma pessoa é capaz de reconhecer apenas mediante uma batida de olhos? A resposta pode revelar bastante sobre a jornada de alguém. Acho.

Este é o vídeo, iniciando no ponto exato em que ela trata dessa temática:


10
Nas crônicas, Lispector recorrentemente aborda encontros com leitores (especialmente via cartas), e os relatos dela me fazem devanear uma porção de coisas. Por exemplo, ela tem reforçado minha teoria de que é impossível travar contato com um ídolo sem bancar a completa idiota. E a experiência de Lispector me faz crer que esses encontros sejam marcados por um certo embate:
- De um lado, o fã iludido pela certeza de já ter desvendado todo o mundo interior do ídolo artista. Graças à profunda conexão estabelecida com a obra da pessoa admirada, o fã se considera super íntimo, um quase amigo de infância. (a Clare Fenby, ali em cima, sustenta justamente o que digo.)
- Do outro, o artista ressabiado que não poupa esforços em ressaltar que o fã está completamente equivocado ao supor que o conhece; demonstrando um quase pânico diante da possibilidade de estar desnudo na própria obra.

Na prática, talvez a realidade corresponda a uma média ponderada desses dois lados. Vai saber.

11
[Continuando nos encontros da Lispector:] Ela convida leitores para tomar um café, dá livros autografados de presente, abre a porta de casa para aqueles que tocam sua campainha. É realmente admirável. Recordei de quem? Claro, daquele que nunca some dessas bandas: Thomas Mann. Ora, imagine só que uma Sontag de 13-14 anos, mais o amigo, liga para a casa do grande escritor alemão que não apenas atende o telefone, como também os convida para um chá da tarde em sua casa. Que me perdoem os contemporâneos, mas fica difícil não atentar que hoje, quando a gente recebe um singelo like de um escritor nas redes sociais, um unicórnio nasce na Nova Zelândia. Bom; cada tempo, um tempo. E o nosso é o tempo do sem tempo, irmão.

12
 Bora de mais Lispector? Deparei-me com isto aqui:
"(...) escrever sobre a vida e você mesmo, o que significaria a mesma coisa."

O monólogo interior no qual embarquei ao fim dessa frase foi este: Ok, faz sentido. Já que só posso falar sobre a vida a partir da minha própria experiência, falar de mim = falar da vida. E olhe, lá. Porém... Eu posso tentar me colocar na posição de um outro, o que significaria adentrar o campo da imaginação. Imaginar outras experiências. O universo da ficção. (...) Ficção ainda é a vida? Se a ficção que crio faz parte de quem sou (?), escrever ficção pura é sempre escrever sobre a vida. É?

Conclusão? Exato: bela groselha de platitudes. (#pleonasmei?)

13
A reflexão "literatura  x  vida" encontrada no diário do Piglia demonstra (?) que a Lispector não me fez devanear tanta abobrinha assim, hein. O argentino mandou esta:
"(...) é preciso ver de que lado se coloca o sinal positivo: ver a literatura a partir da vida é considerá-la um mundo fechado e sem ar; ao contrário, ver a vida a partir da literatura permite perceber o caos da experiência e a carência de uma forma e um sentido que permita suportar a vida."
                                                         - Ricardo Piglia; Os Diários de Emilio Renzi (tradutor: Sergio Molina) 

Isso me faz pensar que, para encerrar qualquer desvario, basta tacar um "é relativo" e pronto; imbróglio sanado.

14
Finalmente cedi a outro hype: Russian Doll. Curti demais os primeiros episódios (que escrita afiadinha!), mas o final... Sei lá; preferiria algo menos embrulhadinho pra presente, talvez. 

O lance dos espelhos x morte recuperou da memória um quadro discutido por Manguel no Lendo as Imagens. Este aqui, o Mosaico da Batalha de Isso:

Circulei toscamente a potente imagem que mais me interessa, acerca da qual Manguel escreve:
"É um soldado persa; (...) caiu entre as espadas  e lanças espalhadas; seu último gesto é levantar o escudo para ver, nessa superfície de espelho, a sua própria face. Esse soldado deseja saber quem é, antes de morrer.
Quando penso nesse tema associadamente ao período em que o quadro foi concebido, fico destrambelhada. É extraordinário.

15
Após ouvir o podcast Um Milkshake Chamado Wanda, fui lá desenterrar das cinzas minha evidência do #sóquemviveusabe: ⇣


Encontrar um CD dentro foi uma total surpresa! Do outro lado do oceano, Liam Gallagher deu conta de se vingar da minha zoeira com a cara dele, pois o Oasis tá lá no bolo, acompanhado de The Killers, Franz Ferdinand, Strokes, Wolf Parade... É, Gabi, só quem viveu sabe. Eu gostava tanto desse danado, que não consegui me desfazer dele.
(*E este é o II, pois o querido I foi literalmente destruído pelas ondas do mar)








16  
Acredito que logo mais terei de me despedir definitivamente do Godard, pois nossos santos não se bicam. Dessa vez fui de Masculin, Féminin e, bem, até gostei mais desse, porém... Ai, nem sei explicar direito porque a obra dele não desce. Tentarei só mais um e, se não rolar, será adeus. Se não consigo ser cool, paciência.

[- Eduardo, comer hambúrguer na lanchonete é muito mais legal do que ver um filme do Godard. A Mônica não sabe de nada.]


17

Por incrível que pareça, nunca vi ou li a história do Pinóquio. Quando criança, possivelmente assisti àquele clássico desenho da Disney, no entanto, se de fato vi, a memória tratou de deletar. Enfim; toco no assunto porque essa narrativa cruzou meu caminho por duas maneiras surpreendentes. No podcast da Carambaia, Renato Moricone compartilhou que seu filho parecia recorrer ao desenho do Pinóquio, especificamente ao momento em que o protagonista está dentro da baleia, para conseguir assimilar a concepção de que logo mais um irmãozinho sairia de dentro da barriga da mãe. Depois, na The Red Hand Files #51, newsletter de Nick Cave, um pai que perdera o filho pergunta se estaria fadado a permanecer dentro da baleia, agora que seu Pinóquio estava morto. Em um mesmo trecho de uma narrativa, espectadores/leitores identificam caminhos para assimilar tanto a vida, quanto a morte. É isso o que torna uma história grandiosa, não? Logicamente o livro foi pra minha pilha de leitura. 

18
Vagão do metrô. À minha direita, a moça lê A sutil arte de ligar o f*da-se. À esquerda, outra se entretém com o Seja Foda. No instagram, descubro o lançamento do Liberdade, Felicidade & F*da-se. Hum... É, talvez eu deva repensar meu branding; reposicionar minha marca tal.e.coisa. Será? Vejamos... F*dendo entre livros? Eita! Haha, não, calma. Entre livros fodas? F*da-se entre livros? Xi. Seja f*da entre livros? Nhé.

Posteriormente, na série Years and Years, meu queixo caiu com o nome do partido da personagem da Emma Thompson, a política que era contra tudo que estava ali: quatro estrelas ↦ **** = F*CK. Coincidência? Fica a questão.

(Náh, o bobo nome do bloguinho permanece como está; sim, senhora.)

19
Por falar em Years and Years: aparentemente, o capitalismo tardio ressignificou maleficamente as bicicletas? O que representava infância, liberdade, brincadeiras lúdicas e sustentabilidade, tornou-se o grande símbolo do trabalho precarizado. Poxa, dia desses me emocionei pateticamente ao contar para uma amiga o último episódio da S03 de High Maintenance, aquele em que dois amigos da época de escola se reencontram em condições tristes (o filhinho de um deles submetia-se a tratamento oncológico) e, para um breve respiro, os dois passeiam de bicicleta pelas ruas de NY. Depois, com Years & Years, vi a bicicleta do trabalhador matar pedestres na rua, ao mesmo tempo em que representava a salvação financeira do moço de classe média que perdeu, em um piscar de olhos, mais de um milhão de libras. Que maluquice. Se eu continuar me emocionando por aí com historinhas de bicicletas, serei acusada de privilegiada. Com razão? 

Pensando melhor, só agora me dei conta dos motivos pelos quais o filme Ladrões de Bicicleta é um tremendo clássico; mais atual do que eu jamais havia suposto até agora.

20
Correto, a pessoa que estava aí dizendo não ter nenhum apego à infância, foi lá brincar de montar mais uma tirinha de Geraldine + Edith. Temática: Origem da Lua x Steven Universe!
Fonte Nautilus: http://nautil.us/issue/13/symmetry/when-the-earth-had-two-moons
Fusion em Steven Universe: https://www.youtube.com/watch?v=v1dvzCkOZ1E
      
[As conotações lésbicas dessa tirinha estão fugindo do meu controle.😁]

21
Encontrei no filme O Medo Consome a Alma uma cena maravilhosa que reforça uma bobeira incluída no autoficções #02: roupas podem (e devem) ser usadas para construir/apresentar uma personagem.

No começo da obra de Fassbinder, quando Emmi entra no bar frequentado por imigrantes, ela está molhada pela chuva, tem cabelos grisalhos e veste um casaco monocolor escuro. Daí, quando o belo e jovem marroquino a convida pra dançar, e ela tira o caso, calcule o susto que eu e o moço tomamos quando demos de cara com isto:


Poxa, somente com esse jogo de roupas, o Fassbinder conseguiu nos apresentar um mundo inteiro a respeito de Emmi. Joinha para o diretor.












22 
Novamente falarei do mar, pois outras pontes marítimas foram construídas neste mês. A maré começou com o filme da Claire Denis, o 35 Doses de Rum. Especificamente, aqui:

Medo de um mar no qual, quando se grita, ninguém escuta. A fala da personagem de Denis catapultou de volta uma passagem do livro Ruído Branco, na qual a personagem de Don DeLillo argumenta que, quando morrem, os seres humanos gritam para que sejam percebidos, lembrados por um ou dois segundos. Ao somar Denis + DeLillo = o mar escancara nossa insignificância e mortalidade; o medo do mar reflete o medo da morte.

Lendo posteriormente o As palavras não são deste mundo, do Hugo Von Hofmannsthal, esbarrei justamente com essa ideia. Eis a versão mais articulada do senhor Hofmannsthal:
"Assim que vi o mar, compreendi ter envelhecido. (..) Quando (...) já pode ver o mar, (...) sente-se a si mesmo muito claramente, mas com um ar um tanto insólito e rarefeito. Perdem-se muitas coisas que se imaginava possuir: a gente fica mais leve e vazio, é inquietante. (...) diante do mar, tudo que é estático está atrás de nós, para ser deixado para trás, e diante dos olhos nada temos além da existência infinita, algo que não somos capazes de compreender totalmente."
                             -  Hugo Von Hofmannsthal; As palavras não são deste mundo. (Tradutor: Flávio Quintale)

Resgatarei o filme do Godard, ou melhor, a cena em que a personagem de Chantal Goya pergunta à personagem do Léaud o que ele considera o centro do mundo. Ele diz que é o amor, ela diz que é ela própria. Antes das respostas dos dois, respondi na lata "o mar". Na ocasião, ignorei o motivo da minha resposta; entretanto agora ganhei argumentos para, ao menos, balbuciar um arremedo de justificativa.

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Retornando à Claire Denis (por sinal, que cineasta fabulosa!), arrisco associá-la àquele alinhavo feito entre Lispector e White Stripes concernente ao tema a mudez não mente/a verdade não faz barulho. Só vi dois filmes dela (o outro foi o atualíssimo Beau Travail), e a presença do silêncio em ambos foi marcante. Agrada-me demais como Denis conduz sua narrativa, sustendo-a menos em diálogos, e mais nos pequenos gestos, olhares e na relação que as personagens estabelecem entre si e, principalmente, com o espaço/cenário/paisagem que ocupam. São filmes cujo silêncio reverbera longa e ruidosamente. Ah!, quase me esqueci do outro elemento crucial que me fisgou nos dois filmes dela que vi: a dança aparece como instante de ruptura para as personagens. Sabe das coisas, essa Denis.

23
Infelizmente não me apaixonei pelos poemas da Akhmátova (minhas expectativas eram super altas), porém faço uma colagem de alguns versos soltos que me marcaram bastante. O engraçado é que suponho que sejam os que menos refletem aquilo que acadêmicos consideram o ápice da obra da poeta russa.

(Tradutor: Lauro Machado Coelho)

24
Voltei à Netflix por culpa do Thom Yorke e, na busca por algo que me convencesse a permanecer por lá, dei de cara com Shtisel, uma espécie de novelinha "das seis" israelense, sobre judeus ortodoxos. O roteiro segue a linha "nada acontece" e, exatamente por isso, tudo acontece. A vida desenrola-se com suas complicações e delicadezas diárias (sobretudo quando fé/religião está envolvida). É linda. Ah, e o mais surpreendente: muito engraçada! <3

Como banner desse post, colocarei a imagem da Ruchami Weiss destruindo o teclado do computador obrigada a exercer o papel que o pai bunda mole não dá conta, com uma caneta na boca fazendo as vezes de cigarro. A garota curte Middlemarch (<3) e lê para os irmãozinhos, à noite, uma versão adaptada do Anna Karenina. Fazia tempo que não me apaixonava assim por uma personagem.
E parabenizo Shira Haas, atriz que a interpreta.















25
Frases icônicas (pra mim) de Shtisel (transcrição aproximada):
- (Quanto a lotéricas:) Aqui é praticamente uma filial do muro das lamentações.
- Quer fazer Deus rir? Conte-lhe seus planos.
- Quanto deu todo esse glutamato monossódico?

- Eu já comi.
- Eu também.
- Ótimo, vamos alugar a cozinha então.

- Fuma e come. [→ Essa pede contexto. Imagine ter sua identidade reduzida por um outro
                          simplesmente a estas duas palavras: fuma e come. Elevado potencial para fazer                                        alguém embarcar  em uma crise existencial. Pior que a minha descrição nem estaria                                  tão longe, pois seria o batido "come e dorme."]
- Sempre tem jornal. [→ a melhor de todas]

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Ainda rolou um diálogo que aborda aquele meu prévio devaneio acerca da relação "literatura (arte) & vida", instigado pela Lispector:

- É uma pintura, pai, não é vida real.
- Kive, quando vai entender? Tudo é vida! Tudo é vida, e o que fazemos com ela.

E mais outro com as reflexões desse mês relacionadas ao mar!↷
Os roteiristas de Shtisel estão corretíssimos: cautela ao lidar com uma pessoa que não vê graça no mar. 

26
Com a Pizarnik, pensei em personagens que pudessem ser companheiras de choro. Shtisel, a seguir, me fez pensar em quais personagens eu incluiria em minhas orações. Por quê? Porque a matriarca dos Shtisel reza pelas personagens da soup opera americana a qual assistia. Socorro.

Essa foi mais difícil. [Um século depois...] Certo, já que a série israelense me fez reviver Middlemarch, rezarei por Dorothea e Lydgate. E Ruchami, lógico.

27
Us, filme do Jordan Peele, restabeleceu minha fase de ouvir rap/hip-hop no repeat, e me impressiona como recorrentemente o sentimento "Jackie Brown sou eu" se apossa do meu ser enquanto escuto esse gênero musical. Só havia um equívoco nessa equação: nunca tinha assistido ao filme Jackie Brown. Usei o tempo pretérito, porque finalmente corrigi a patacoada, contudo o filme não sustentou muito bem a poderosa imagem de Jackie apontando uma arma pra minha cara.

Para registrar a fase musical, fica uma das favesHeadlines.
[Já sinto o bafo do Donald Glover no cangote, fazendo piada com a latina amarela de classe média que curte um hip-hop, toda metida a woke. What do I know? Shit; that's what. (~Pelo menos~ não farei nenhuma versão acústica no meu quarto para postar no You Tube. Conta?)]

28
Visto que já soltei bobagens quanto a formas alternativas/sutis de construir uma personagem, resgatarei a sequência inicial do filme Jackie Brown. ↷







Tendo a achar que ela só funciona bem em termos estéticos, mas não exatamente narrativos. Se uma narrativa me informa que a personagem está no grupo daqueles que permanecem tranquilamente parados sobre a esteira rolante do aeroporto, contemplo duas possibilidades: ou trata-se de uma PcD, ou é uma pessoa zen cuja vida está sob pleno controle, alguém que não se deixa afetar por aporrinhações aeroportuárias e que nunca está atrasado; enfim, alguém "com tempo, irmão, pois não?" A cena espelho do filme The Graduate, por sua vez, me parece muito mais apropriada para a história de Mike Nichols, pois é natural (e perfeito!) que um jovem recém formado, retornando à casa dos pais para encarar a vida, não esteja assim tão apressado para sair do aeroporto. Jackie Brown certamente teve sangue frio para manejar a presepada em que se mete, porém resisto em enxergar concordância entre "cena  x  personagem  x  narrativa". Poxa, é uma comissária de bordo (voos internacionais) em final de jornada, com dinheiro sujo dentro da bolsa, sabe? Sei não; penso que ela deveria estar voando nessa esteira, a fim de sair logo dali e chegar o quanto antes em casa, isso sim.

29
Estou lendo Oreo, livro que Fran Ross publicou na década de 70. Tenho me divertido descrevendo-o (mal) como uma singular mistura de Spike Lee + Irmãos Coen + Wes Anderson + Kurt Vonnegut. (Oh, yeah.) Trata-se de uma recontagem do mito de Teseu, cuja heroína tem a manha de ser filha de uma negra e de um judeu americanos. Calcule.

[Voltando aos judeus:] Dentre as passagens curiosas do livro, consta a peculiar técnica que a mãe da heroína aplica para descobrir quem são os judeus residentes em uma cidade americana: basta checar, do local, quem assina a New York Review of Books, a Partisan Review e a Commentary. (Será que é errado achar isso engraçado? Ai, ai, jizuis - no pun intended) Na real, a impressão é que Ross tira sarro de tudo e de todos nesse livro, atirando pra todo lado sem dó.

Ah, e tem um moto em latim bem melhor do que aquele manjadão da Margaret Atwood: Nemo me impune lacessit. (+-: ninguém me                                                                  provoca impunemente.)

30
Depois de assistir ao adorável anime que aborda o complexo trabalho editorial envolvido na publicação de dicionários (The Great Passage), sonhei que vivia em um mundo no qual era preciso pagar para usar as palavras, cada uma com um valor. Fiquei encantada diante da revelação de como meu inconsciente foi profundamente afetado pela singela narrativa japonesa. 
"O dicionário é um navio que nos permite navegar no mar de palavras."

31
Putz, e só agora descobri o programa mais legal de todos os tempos:













Desde 2013, o canal Sky Arts organiza a escolha do pintor de retratos do ano. E não há picuinhas, não há manipulação na edição para criar uma narrativa e transformar os participantes em personagens. Não; é simplesmente sobre a pintura - profissionais e amadores. Genial. Essa, sim, é uma competição que mereço ver na televisão. Disponível lá na Tubaína. (*Alerta: altamente viciante.)

Para encerrar, o chiclete musical no dia em que faço esta postagem:
MorMor - Some Place Else.

12/07/2019

[Alinhavando] Alejandra Pizarnik; Diarios [#02]

Postagem anterior: #01 
 Texto sinalizado com [📔, em verde + itálico] entradas originais de Alejandra Pizarnik.


Cuaderno de Junio y Julio de 1955


📔 "Pienso que actualmente todo argumento sería autobiográfico. No tengo el menor deseo de crear seres felices, ni países que no he visto ni situaciones en que no intervine. Tal es mi egoísmo o lo que sea. Cierro los párpados y recorro mi vida. Sonrío. ¿Se la puede llamar intensa? Creo que sí. Inconscientemente intensa."

Nessa passagem, Pizarnik fala especificamente de sua obra literária em construção. Entretanto, me peguei brincando de extrapolar livremente esse pensamento da autora, e a concepção de uma hipotética literatura universalmente autobiográfica me soou meio fastidiosa. Por que fincar os pés no chão quando, nos livros, é possível voar? Partindo para outra brincadeira, aquela em que me flagro em contradições, reparei que minhas leituras atuais consistem em: dois diários, uma coletânea de crônicas, um livro de memórias e outro de correspondências. Honestamente? Até eu boiei. Talvez minhas presentes escolhas sejam o mero reflexo dos sentimentos que ora prevalecem no meu íntimo. Uma necessidade de contato com pessoas reais mediante aquilo que tenham escrito de modo sincero e sem tantos subterfúgios?... Por enquanto, essa é a resposta encontrada.

A autora finaliza a reflexão questionando se sua vida poderia ser considerada intensa, havendo aí o suposto subtexto de que apenas vidas intensas valeriam a pena ser narradas. (Por sinal: como definir uma "vida intensa"?) Thomas Mann e seu singelo Hans Castorp vieram-me à memória (vira e mexe eles voltam a me fazer companhia nesse blog, não?! mas já que o diarinho é meu, nem peço desculpas), pois dentre os aprendizados propiciados pela leitura de A Montanha Mágica, consta a compreensão de que todas as vidas podem - e devem? - ser narradas. Se Mann conseguiu transformar Castorp - aquela opaca massa amorfa - e sua jornada sem graça em algo tão belo e tocante, não tenho dúvidas de que todas as vidas podem originar obras-primas literárias (nas mãos de um bom escritor, é claro). Nas bem-humoradas palavras do Mann (grifos meus):
Queremos narrar a vida de Hans Castorp - não por ele - mas por amor a esta narrativa, que nos parece em alto grau digna de ser relatada. (...) Como se vê, empenhamo-nos em anotar tudo quanto possa prevenir o espírito do leitor a favor de Hans Castorp. Mas julgamo-lo sem exagero, e não o apresentamos nem melhor nem pior do que era. Hans Castorp não era nem um gênio nem um imbecil, e a razão de evitarmos, para sua qualificação, o termo “medíocre”, reside em circunstâncias que nada têm que ver com sua inteligência e quase nada com a sua singela personalidade; fazemo-lo devido ao respeito que temos pelo seu destino, ao qual nos sentimos inclinados a atribuir certa significação ultra-individual.
                                                              - Thomas Mann, A Montanha Mágina (Tradutor: Herbert Caro) 

[- Pizarnik, se o Mann me convenceu de que até minha vida (!) pode render um bom livro, imagine a sua.]


📔 "Me gustaría una novela autobiográfica, pero escrita en tercera persona. Por supuesto que comenzaría en mis diecisiete años. Lo anterior no tiene interés. (¿Y todas las escapatorias de tu ambiente? ¿Y tus sollozos en las escaleras? ¿Y el temor a los lazos?) Pero pienso que hay que escribir cuando se tiene qué decir. ¿Qué diría yo? ¡Mis angustias! ¡Mis anhelos! ¡Mis invisibilidades! Una descripción del Atelier. Los patios de la Facultad."

Em seus diários, Piglia fez um comentário curioso a respeito das maneiras de se escrever sobre si mesmo, traçando um paralelo entre ele e Kafka:
"Entrei na literatura quando consegui trocar o 'ele' pelo "eu'", Kafka. No meu caso, poderia dizer: entrei na minha autobiografia quando consegui viver em terceira pessoa."
                               - Ricardo Piglia, Os Diários de Emilio Renzi (Anos de Formação) (Tradutor: Sérgio Molina) 

Pizarnik, tal qual Piglia, escolhe falar de si mediante o conforto (?) da terceira pessoa. Lembro agora que a Duras, de certo modo, misturou esses dois focos narrativos para falar de si em O Amante.

O desprezo (para fins literários) pelo que ocorreu na vida dela antes dos dezessete anos também me chamou atenção, sobretudo porque três filmes recentes (+ diários do Piglia) me fizeram refletir a respeito de uma possível diferença com que homens e mulheres relacionam-se com suas respectivas infâncias. Insiro a entrada que montei no journal:
Bergman e Tarkovsky criaram personagens masculinas que mantêm intensos vínculos afetivos com suas infâncias, enquanto Varda afirma não sentir nenhum apego especial pelos anos de criança. Eu penso como Varda, e meu pai, bem sei, pensa como as personagens de Bergman e Tarkovsky. Minha mãe... Hum, taí, terei de perguntar, mas minha aposta é que ela pensa como eu e Varda. E agora, Pizarnik dá indícios de entrar no jogo juntando-se ao meu grupo. Ah, e posso trazer o Rainer Maria Rilke para a partida, dado que ele já aconselhava o jovem poeta a buscar refúgio na infância. Resumidamente, eis o que interrogo: homens permanecem mais fortemente ligados à infância do que mulheres?

Bom, é evidente que não terei parâmetros suficientes para uma conclusão, porém manterei arquivada aqui essa hipótese provocativa - e estrambólica? Se bem que a parte mais legal, suspeito, seria investigar os motivos (caso passíveis de identificação) responsáveis por essa teórica distinção, ainda mais depois que Piglia me informou que, segundo Merleau-Ponty, a conexão com a infância refletiria a intenção de resgatar uma sensação de imortalidade.

Além disso, creio que esses dois trechos destacados permitem inferir que a obra de Pizarnik estaria bastante ligada à necessidade da autora de escrever acerca de seu particular momento presente.


📔 "¡Soy Argentina! Argentum: plata. Mis ojos se aburren ante la evidencia. Pampa y caballito criollo. Literatura soporífera. Una se acerca a un libro argentino. ¿Qué ocurre? Viles imitaciones francesas, modismos en bastardilla, fotografías pesadas del campo. De pronto aparece un escrito rrrrealista. ¡Magnífico! Encuentro entonces palabras como «puta» escrita cincuenta veces o diez variaciones más made in Dock Sud: descripción de la viejita, del mate y de doña XX. O si no una bibliografía de los mejores libros clásicos o unos cuentos del tiempo de los valsecitos y las crinolinas, o un affaire in love en las montañas cordobesas llenas de cabritos y ¡de nuevo! mates amargos. ¡Siento que mi lugar no está acá! (ni en ninguna parte quisiera decir). Me encanta elucubrar por escrito. Quizá mi queja contra mi patria sea agresión nacida en base a alguna impotencia literaria." 

É, pelo visto a Argentina e sua literatura definitivamente não serviam de inspiração para a obra de Pizarnik. Acabei matutando sobre a suposta pressão (do mercado? da crítica? do público leitor?) para que escritores produzam uma literatura com traços, digamos, bastante regionalistas. Observando de fora, como reles leitora, não posso confirmar se é real, mas percebo sinais sugestivos. Mencionado por Piglia, o elo entre a literatura de Gabriel García Márques e Jorge Amado, dois latino-americanos que conseguiram aclamação internacional, coloca uma pulga atrás da orelha: "demasiado - profissionalmente - latino-americano: uma cor local festiva". Aliás, no mesmo diário e de novo tratando de literatura, Piglia inclui a expressão: "demagogia latino-americana dos assuntos próprios dessa região do mundo". Também posso acrescentar que, quando acompanho leitores que buscam autores de países fora do cânone ocidental – como naqueles projetos para ler 1 livro de cada país do mundo – noto que o prevalente critério de escolha é que o livro apresente o respectivo país àquele leitor. Nesses devaneios, revivi uma entrevista na qual um escritor (cujo nome não me recordo, infelizmente) queixava-se justamente disso: um autor só tem chance de entrar nos grandes mercados editoriais (= países anglófonos e europeus) caso escreva marcadamente sobre a realidade de seu país. O escritor como porta-voz da nação. Influenciada pelo discurso da Chimamanda Adichie, suspeito de que, quanto mais a história reproduza o estereótipo fabricado para a referida nação, maior a chance de sucesso do autor. Será? Não sei, e essa divagação não chega a conclusão nenhuma.

Mais adiante no diário, Pizarnik inclusive registra o anseio de desvencilhar-se de um lugar fixo, de reconfigurar sua origem para o indefinido (Tetralogia Napolitana/Lenu feelings):
📔 "Heredé de mis antepasados las ansias de huir. Dicen que mi sangre es europea. Yo siento que cada glóbulo procede de un punto distinto. De cada nación, de cada provincia, de cada isla, golfo, accidente, archipiélago, oasis. De cada trozo de tierra o de mar han usurpado algo y así me formaron, condenándome a la eterna búsqueda de un lugar de origen."


📔 "El Dr. R. dijo que un cuento es una novela frustrada."

O conto é um romance frustrado...? Será mesmo? Hoje, tendo a discordar. Ali Smith, no livro Artful, descreve a diferença entre essas duas formas de um jeito muito mais legal e interessante do que esse Dr. R. O cerne da questão para Smith? O Tempo! Arrisco uma tradução livre (grifos meus):
"A diferença entre o conto e o romance relaciona-se não ao tamanho, mas sim ao tempo. O conto sempre tratará de brevidade, “A brevidade da vida! A brevidade da vida!” (como uma das personagens de Mansfield, no conto At The Bay, não se contém em exclamar). Por conta disso, o conto é capaz de fazer o que quiser com as noções de tempo, o qual se move e opera no espaço independentemente da adesão à cronologia ou a tramas convencionais. É uma forma elástica que pode ser tão imaginativa e acronológica quanto deseje, sem que isso implique em perda da forma. Nesse sentido, o conto enfatiza a momentaneidade do momento. Simultaneamente aborda, sem se comprometer, a natureza puramente momentânea das coisas, (…) O romance, de outro lado, encontra-se ligado e impotentemente interessado na sociedade e na hierarquia social, palavras sociais; e a sociedade está sempre conectada, em dívida, construída e revelada pelas armadilhas do tempo.
                                                                                                 - Ali Smith, Artful (tradução minha). 

Contemplando os formatos segundo os termos estabelecidos por Smith, fica difícil encarar o conto como um romance frustrado. Se panz, é provável que seja o oposto.


📔 "Árboles castrados. Conmueven. Parecen tan humildes, tan inocentes. Su postura es la misma que antes, cuando cada brazo refulgía de verdes dorados. Árboles cortados. Erguidos a pesar de todo. Dulce espera de la primavera. Recuerdan las hojas caídas. Recuerdan las sombras gigantescas. Esperan y esperan. Nada se reemplaza. Ya vendrán grandes ramas que, a lo mejor, serán más bellas que las anteriores. ¿Por qué no podrá sucedernos Lomismo? Florecer. Un golpe de hacha. Desnudez impúdica y digna. Espera. Nuevos brotes. Otro florecimiento. Y luego lomismo y Lomismo. Es decir que anhelo un golpe de hacha que quiebre mis ramas actuales. Quedarme desnuda y esperar sonriente."

Curti essa passagem. Coincidentemente, consigo estabelecer outro diálogo bacana com o texto da Ali Smith em Artful, pois a escocesa também utilizou o inspirador ciclo das árvores como metáfora para explorar as temáticas do tempo, luto, narrativas - e do próprio conceito de metáfora/símile. Deixo trechos:
"Unlike flowers which die right down every year and have to start all over again, break the surface again, trees can keep going from where they left off.”
(...)
"'My heart is like a singing bird...My heart is like an apple-tree...Because my love is come to me'*. So simile maybe involved love too. Well, he or she was lucky, having a heart like an apple tree. Even a broken apple tree will know what to do, with a bit of help, to right itself and have its fruits again."
                                               - Ali Smith, Artful (*: versos do poema "A Birthday", de Christina Rossetti). 

🌳 #Throwback.memeas árvores somos nozes.🌳 Pois surrupiarei as palavras de Smith para fazer um desejo piegas, porém sincero: que nossos corações sejam como árvores. E com as de Pizarnik, dou uma reforçada na causa, só pra garantir: que nossa nudez após uma machadada seja o momento em que, serenos e sorridentes, nos preparamos para reflorescer. #Poetei?💩

 

📔 "Tocar a la muerte tan de cerca que una no desee entonces más que vivir."

Já toquei e afirmo que a ponderação de Pizarnik procede, sim. A pegadinha? O anseio é efêmero.


📔 (grifos meus:) "¿Sabéis en qué consiste la individualidad? En la voluntad consciente. En la consciencia de que uno posee una voluntad y que es capaz de actuar. Sí, esto es, dicho de un modo maravilloso. Diario de KATHERINE MANSFIELD 
(…)
Del diario de Baudelaire Yo no pretendo que la Alegría no pueda asociarse con la Belleza, pero digo que la Alegría es uno de sus adornos más vulgares, mientras que la Melancolía es, por decirlo así, su ilustre compañera, llegando hasta el extremo de no concebir (¿será mi cerebro un espejo embrujado?) un tipo de belleza donde no haya Dolor." 


Pizarnik também lia diários! Trazendo Borges para a conversa (ele ainda reverbera intensamente após o post recente): será que Pizarnik e eu constituímos um duplo?! Não, né? Náh. Contudo enxergo beleza no paralelo criado por nossas narrativas:
  - a poeta que lia diários de outros escritores como fonte de inspiração para sua obra;
            x
  - a leitora que lê os diários da poeta numa tentativa de aproximar-se da vida de onde nasceram os versos que a emocionam.

📔 "Ciertos seres son mis camaradas de llanto: Hamlet, Blanche Dubois, Vallejo, Palinuro, Baudelaire."

Companheiros de choro... Puxa vida, faz sentido. Quem são os meus? Hum... Andrei Bolkonsky (Tolstói), Pereira (Tabucchi), Clarissa & Septimus (Woolf), Julien Sorel (Stendhal), Adriana (Moravia)...


📔 "hay lugares que excitan terriblemente la angustia. Lugares y seres. Hoy, por ejemplo, subí al tranvía con L, riendo ambos feliz e infantilmente. El guarda que nos entrega los boletos, nos miró disgustado con esa expresión de animalidad ignorante y seguridad en su moralidad. Hombre trabajador y activo seguramente. Horario exacto, sueldo que asciende paulatinamente, aspiraciones a inspector y a ¡quién lo dice! Inspector jefe. Bigotes necesarios para tapar la boca y manos sucias. ¡Brrr! Hay millones como él. Pero él sólo bastó para amasar nuestra alegría en una grotesca farsa. Y lo peor (o lo mejor) es que no hay culpables. ¿O tal vez lo seas tú, pobre cuadernillo mío?"

Não, Pizarnik, a culpa não é de seu caderno, porém também não sei dizer se há culpados. De qualquer jeito, sim, tenho certeza de que existe esse lance de lugares e pessoas cuja mera presença, de alguma maneira (como o fazem, não sei dizer exatamente), são capazes de induzir angústia ou transformar nossa alegria em farsa. É tão fatual, que serviu de mote para que os roteiristas da série de TV What We Do in The Shadows bolassem um tipo muito especial de vampiro: the Psychic/Energy Vampires! São vampiros que não se alimentam de sangue, mas de energia humana, a qual é sugada quando eles entediam ou enfurecem pessoas. O campo de caçada deles? Escritórios de trabalho. Brilhante. ↷


📔 "Extraño. Estaba sentada en el colectivo. Ensimismada en no recuerdo qué ensueño. De pronto algo hizo sombra. Fue como en el cine, cuando un espectador rezagado se acerca y su imagen nos obstruye momentáneamente la visión. Sí. Era Raúl que me saludaba desde la acera. Maquinalmente mi mano le hizo un gesto y mis labios recordaron una sonrisa. Debo decir que reconocí que era Raúl al mismo tiempo que lo saludaba… Repito lo de extraño: ¿cómo es posible haberlo visto si yo no miraba? ¡Si mi mente estaba tan lejos…! Me asusta. Es como perder las posibilidades de apresar mi yo. ¡Al diablo! Es decir que mientras yo soñaba con XX, ¡una parte de mí husmeaba indiscreta lo que ocurría en la calle! Es decir, Mr. Dunn, que no están B espectador de A y C de B y D de E, etc., hasta el infinito. ¡No! Hoy sentí tres espectadores. A. que navegaba sonrosada en su ensueño. B que cuidaba de A. y E., ¡maldito sea!, para no aburrirse saludaba a Raúl."

Esse fenômeno é realmente intrigante. É como se estivéssemos cindidos em vários (o eu sob um prisma), e cada parte pudesse manejar com maestria e autonomamente (parece inconsciente) a execução de uma tarefa específica. Gostei porque é uma peculiar experiência cognitiva cuja dificuldade de compreensão se assemelha àquelas pessoais descritas no autoficções #02.


📔 Pero… (los hombres necesitan ser muchos para existir). Pero… junto al libro de Connolly no me siento sola. Luego me puedo decir que no temo la soledad. ¿La temo? (Por favor; no contestar aún. No has entrado siquiera en convalecencia.)

Livros como amigos que afastam a solidão; portos seguros que neutralizam o medo de encontrar-se terrivelmente só. (...) Recordei um antigo tweet escrito pelo senhor Hernán Letelier, ator e diretor de teatro chileno que, aos ~96 anos, descobriu que poderia interagir com o mundo através da internet e redes sociais. Consegui um print do tweet rememorado, cuja leitura me tocou profundamente naquela ocasião:

Quando o seguia no twitter, era sempre comovente sentir nas palavras do senhor Letelier a solidão que marcava sua vida, a qual ele amenizava através da leitura de livros (e da internet, do rádio). Quando ele escreveu os tweets do print, porém, a falta dos óculos impossibilitava o conforto literário, logo a solidão o corroía sem dó. Conclusão? Novamente nenhuma. Enfim.