09/02/2020

As Afinidades Eletivas - Goethe

Oi, Manguel. Tem um tempinho pra papear
comigo sobre o livro As Afinidades Eletivas?

Olá, Daniela. Claro que sim. A leitura, afinal, é uma conversa. Suspeito que você estabeleceu um diálogo com a obra de Goethe e que, agora, deseja emprestar realidade a essa ilusão através de uma conversa comigo.
Haha; é mais ou menos por aí, Manguel.

Bom, li pela primeira vez As Afinidades Eletivas – 25 anos atrás, pelo menos – depois de uma longa conversa com Bianciotti sobre La dispute, de Marivaux, que ele vira na produção de Lavelli e que eu perdera por não poder arcar com o preço do ingresso.
#Quem.nunca deixou de ver um espetáculo devido à falta de grana, confere? 
Mas admito que esta é a primeira vez que ouço falar nessa peça — o que diz mais sobre mim, do que sobre ela, óbvio (rindo de vergonha). Qual é a sinopse?

Como tantas outras peças de Marivaux, ela explora a natureza do amor: dois personagens aristocráticos desejam resolver a questão de quem tem mais tendência a ser infiel, o homem ou a mulher. Para chegar a uma conclusão, eles colocam quatro crianças em reclusão solitária, e cada uma fica aos cuidados de um casal de selvagens. Quando atingem a puberdade, elas se encontram. E os aristocratas, com distanciamento científico, podem observar e estudar seu comportamento.

Que experimento bizarro. A hipótese e a metodologia têm toda pinta de peripécia do século XVIII. Acho que deixar um bando de aristocrata com tempo livre nas mãos dá nisso, né?

Possivelmente. Porém, quando o experimento é concluído e os aristocratas estão prestes a fazer a travessia até a ilha onde as crianças são mantidas, eles param na cabeceira da ponte, e desce o pano.
Eles amarelam no final?!
Diria que eles hesitam, preferindo apenas
observar, mas não experimentar.
Entendi. Hum; se trouxermos essa premissa para nosso livro, poderemos dizer que Goethe, por sua vez, obrigou suas personagens a levarem até o fim o experimento sobre o amor. O teste da validade da teoria química das afinidades eletivas no campo das relações humanas amorosas foi, de fato, conduzido até as últimas consequências.

Mas e você?
Como chegou até esse livro de Goethe?
Por coincidência, também cheguei nele a partir de uma obra de ficção que, a meu ver, igualmente aborda a natureza do amor. Falo do filme Jules et Jim, do Truffaut (adaptação do romance homônimo de Henri-Pierre Roché). Já viu/leu?
No filme, Jules, Jim e Catherine – as personagens nos vértices de um triângulo amoroso que estabelece interessante paralelo com o quadrado arquitetado por Goethe - leem justamente As Afinidades Eletivas (AAE); e, próximo ao final, Jim confessa a Catherine que conseguiu sacar "qual era a dela" graças às passagens grifadas por ela no livro compartilhado pelos três. Isso me deixou super curiosa pra ler a obra, sobretudo porque Catherine é uma personagem intrigante e relativamente difícil de ler. A propósito, é ela a responsável pela condução de ~experimentos~ práticos sobre o amor que, tal qual aquele de AAE, não dão lá muito certo. Quando se fala de amor, ao que parece, 3 e 4 são números capciosos. Se bem que, hoje, eu chutaria que inexiste número seguro no amor.

Que um experimento esteja fadado ao fracasso não significa, por certo, que ele seja inútil. Inclusive está na própria natureza dos personagens de AAE que eles tenham de fracassar, e nesse fracasso repousa o sucesso do romance.

A desgraça das personagens servindo ao deleite do leitor? 😁
Mas AAE têm mesmo algo de enredo de telenovela que gira em torno de seus quatro personagens principais: os maduros Eduard e Charlotte, que
EEEEEPA; alto lá, Manguel. Desculpe-me, porém sou obrigada a interrompê-lo. Sem dúvida Charlotte é uma pessoa madura; mas Eduard?! De jeito nenhum. A narrativa apresenta diversos elementos que denunciam a infantilidade dele. Acompanhe a listinha que compilei:
👉Eduard foi filho único,
👉ele casou-se pela primeira vez com uma mulher mais velha que o paparicava; ou seja, a primeira esposa assumiu a função de segunda mãe,
👉quando Charlotte resiste à ideia de convidar o Capitão para o castelo, o narrador afirma que aquela era a primeira vez que Eduard era contrariado — e bem vimos que ele rejeita o "não" como resposta,
👉ele é descrito como uma “alma inconstante”;
👉esta reveladora fala de Charlotte: "(...) pois, tendo ambos praticamente a mesma idade, tornei-me de fato mais velha por ser mulher, e você, como homem, conservou a juventude."

Realmente encaro Eduard como um marmanjo que se comporta feito adolescente mala que não pode ser contrariado; cujas decisões são intempestivas e marcadamente passionais. Ele é um típico man-child.

Bom, Goethe tinha a dizer o seguinte sobre o amor de Eduard por Ottilie: "Secretamente, ele havia se rendido por completo ao sentimento de sua paixão". Em certo sentido, isso é o equivalente emocional de uma auto-absorção disfarçada de paixão.
THE SHADE! haha
Concordo demais, Manguel.
👌. E uma percepção de Charlotte que me deixou perplexo e encantado pode corroborar esse seu ponto de vista, pelo menos no que diz respeito à maturidade dela. Refiro-me ao trecho em que Charlotte discorre sobre "O Destino" quase no final do livro: “Há coisas a que o destino se opõe com grande tenacidade. É em vão que a razão e a virtude, as obrigações e tudo aquilo que é sagrado atravessam seu caminho: há de acontecer o que é justo para ele e que para nós parece injusto; ao fim e ao cabo, ele intervém decididamente, não importando a maneira como venhamos a nos portar." E então ela se dá conta da verdade, que soa como acusação: “Que estou a dizer? O destino quer simplesmente reconduzir a seu devido lugar meu próprio desejo, minha própria intenção, contra os quais agi de modo irrefletido. Não havia eu mesma pensado em Ottilie e Eduard como o mais acertado dos casais?"

Abri aqui meu livro, Manguel, e realmente encontrei esse trecho grifado com a cor que reservo às questões chave nas narrativas que leio, porém acabo de constatar que eu não concedi o mesmo destaque para a virada no raciocínio de Charlotte ressaltada por você. Então... Caramba! Então, enquanto no filme de Truffaut os grifos numa edição de AAE permitem que Jim acesse pensamentos íntimos de Catherine; na minha vida real, aquilo que eu não grifei no livro permite que eu contemple um recôndito do meu inconsciente. Será assim?

Você sabe o motivo
por que ignorou esse trecho?
Provavelmente o desconsiderei porque, para mim, ainda é mais cômodo continuar acreditando que o rumo das coisas está exclusivamente nas mãos de um suposto "Destino", e não nas minhas etc.

Compreendo. Charlotte alega que o Destino
conhece melhor do que ela suas próprias intenções.
Pois é! E pensar que recentemente escrevi, em um post do meu blog, que eu
tenho medo da palavra Destino. Que coisa, não?
E que Destino é esse que é mais sábio que os protagonistas? Eduard e Charlotte nunca fogem dos encontros que o Destino lhes prepara (ainda que às vezes, como Charlotte, eles cheguem um pouco tarde). Eles simplesmente seguem o enredo: o destino como narrativa. De onde vem essa ideia?

Olha, falou em destino, eu já penso nos oráculos
das peças gregas, com aquelas previsões assustadoras.
Sim; mas a ideia não vem do imaginário dos gregos. Essa ideia pertence à literatura, ou melhor, à leitura da literatura, quando o leitor reconhece o que lê como ficção e, entretanto, "suspende de bom grado a descrença" pelo bem da narrativa; é isso que queremos dizer com a inevitabilidade do enredo.

Hum, compreendo-o, Manguel; porém, dado que não foi exatamente essa a leitura que fiz da obra, tomarei a liberdade de assinalar uma ressalva, pode ser? Alongarei-me um pouquinho, portanto já peço desculpas. Na minha percepção, a narrativa de Goethe constantemente instiga o leitor a duvidar desse "Destino", ao contrário de simplesmente aceitá-lo como um mero recurso interno do qual depende a própria ficção. Talvez por não ter suspendido a contento a descrença, senti que a narrativa me instigava a explorar o labirinto erguido por estes questionamentos:

1. Somos peças inertes, um mero joguete nas mãos de um dito "Destino", ou somos nós que delineamos nossos caminhos, a partir de nossas escolhas?
2. E, caso possamos tomar decisões que definirão nossa trajetória, a pergunta: temos de fato plena e irrestrita liberdade para fazê-lo?
3. Ou será que não há nem destino nem escolhas conscientes, mas apenas os caprichos de um Acaso que não se sujeita a qualquer controle?

Confabulei que essa discussão - com o recorte específico dos relacionamentos amorosos, é lógico - seria a temática principal do livro, o qual me cutucou logo no comecinho, no instante em que Charlotte lançou esta pergunta para os dois sabichões: “(...) eu jamais identificaria uma escolha; percebo no máximo uma necessidade natural, pois no fim das contas trata-se de uma questão de oportunidades. A ocasião determina a relação, do mesmo modo que ela faz o ladrão. No caso dos corpos naturais que você menciona, parece-me que a escolha está nas mãos do químico responsável pela reunião desses seres. Postos em contato, Deus sabe seu destino." 

Os diversos sinais que aparentam prenunciar o trágico fim das quatro personagens (refiro-me, por exemplo: 1. ao borrão na carta escrita por Charlotte, 2. o mesmo segundo nome de Eduard e Capitão, 3. a taça com as iniciais "E/O" que não quebra quando lançada ao chão etc) seriam, teorizo, meros elementos que apenas camuflam o relevante papel das escolhas feitas por cada uma das personagens. Por sinal, não é à toa que Charlotte tenha sido a personagem que faz essa reflexão, citada por você, a respeito de "Destino x Escolhas", uma vez que Eduard, Ottilie e Capitão comodamente obrigam-na a assumir a responsabilidade de decidir a vida de todos eles. Para os três bonachões, aconteceria aquilo que Charlotte decidisse, uma vez que nenhum deles tem cacife pra bancar sozinho uma decisão.

Entendo. As próprias formulações pseudomatemáticas que Goethe põe na boca de Eduard para delinear o comportamento humano são fórmulas de consolação, suponho, que suscitam a ilusão de que não estamos vivendo na ambiguidade. Entretanto reforçarei que toda a negociação é conduzida entre as personagens e o leitor; o autor está ausente ou, no caso de Goethe, é meramente um mestre de cerimônias que comenta mas não emite opinião sobre o comportamento de seus personagens. O jovem Stephen Dedalus tem a dizer o seguinte, em Retrato do Artista quando Jovem, de Joyce; “O artista, como deus da criação, permanece dentro ou atrás ou além ou acima de sua obra, invisível, depurado da existência, indiferente, aparando as unhas.” Hoje, brincando com o hipertexto no parquinho pós-moderno, onde temos a ilusão de canalizar o enredo num número finito de caminhos, somos como Eduard e Charlotte e Ottilie e o Capitão; escolhemos possibilidades que o Destino (como um pai autoritário) já escolheu para nós.

Tenso - e divertido! Esse papo me traz à memória aquela peça do Pirandello, a Seis personagens à procura de um autor; especificamente as passagens em que as personagens se exasperam enquanto tentam fazer o diretor compreender que, o que para ele é somente uma ilusão (criada por um autor), para elas é a única realidade, a qual "acontece agora,
             acontece sempre".

Pois eu me lembrei ainda de Nathaniel Hawthorne, que registrou rapidamente esta ideia para um conto em um de seus assombrosos cadernos de anotações: “uma pessoa a escrever uma narrativa, e descobrindo que esta toma uma forma que contradiz suas intenções: que os personagens agem de modo diferente do que ele pensou: que fatos não previstos ocorrem;e que advém uma catástrofe que ele se empenha em vão em impedir. Ela pode lançar uma sombra sobre seu destino – pois ele fez de si próprio um dos personagens."

Nossa, que medo (→ não tem jeito, esse é o sentimento que sempre aparece quando penso nesse assunto). Aliás, esse tema, juntamente a todo o dramalhão que encerra o livro (= "O&E - R.I.P. 🕇"), me remeteu bastante a Shakespeare. A patacoada Eduard & Ottilie emana fortes vibrações Romeo & Juliet (ainda que o Romeo de Goethe seja um marmanjo com barba na cara) e o lance de um suposto "destino escrito nas estrelas"/"ser humano agindo conforme sua natureza" é algo muito recorrente nas obras do bardo (até onde eu tenha percebido, nas peças que li). Poxa, em King Lear Shakespeare questiona até o papel da Astrologia em nossas ações e destinos! A prova tá na mão: "How long have you been a sectary astronomical?"

Não me surpreende que tenha notado isso. Numa de suas muitas cartas a Wilhelm von Humboldt, Goethe sugeriu que as línguas nacionais refletem o caráter nacional, e que os escritores ingleses compartilham com os alemães as mesmas formas de pensar e a mesma percepção do que é precioso. Isso explicaria por que Shakespeare é parte da tradição alemã, embora não explique por que Goethe nunca se tornou parte da tradição inglesa.

Sei. Não estou plenamente convicta, porém minha impressão é que Goethe
também não é muito presente pelas bandas literárias de cá (= Brasil).
É que Goethe precisa ser acolhido culturalmente: não livro por livro, mas sim mergulhando em sua vasta influência, em seu alcance oceânico, em suas ondas ressoantes, em suas vistas do mundo que alcançam o horizonte. "Vou goethizar vocês um bocado", disse-me um de meus professores. Nietzsche, em geral pouco generoso em seus elogios, escreveu em Humano Demasiado Humano: "Goethe não é apenas um ser humano grande e bom, mas uma civilização em si." Se é assim, As Afinidades Eletivas, escrito nos últimos anos de sua vida, pode ser lido como um manual de etiqueta da civilização goethiana.

Fanboy detected! No entanto, já que você menciona o livro como um manual de etiqueta para civilizações, eu teria uma pergunta a fazer: é realmente preciso que uma civilização que se preze ocupe-se com tantas obras e reformas?! Manguel, a galera desse livro faz a alegria da turma dos engenheiros, arquitetos, paisagistas, mestres de obras, pedreiros...

(risos) A paisagem física do romance de Goethe se torna a paisagem das emoções dos personagens; eles tentam domesticar a natureza assim como tentam planejar suas afinidades num verdadeiro diagrama. O jardim de Charlotte, por exemplo, é um símbolo fácil demais de seu experimento no mundo humano.

Ah, saquei. É como disse o inglês amigo de Eduard: “(...) o prazer de criar e ordenar tudo aquilo”. Também estava em meus planos lançar uma pergunta sobre a marcante presença de árvores nas obras de Goethe, as quais são recorrentemente adotadas pelas personagens como forma de marcar não apenas a passagem do tempo, mas a delas próprias no mundo. Werther fez isso, e Eduard repetiu o recurso narrativo (refiro-me aos plátanos que ele plantou, coincidentemente, no dia em que Ottilie nasceu, lembra?) Feito uma completa tonta, eu estava supondo que isso era coisa do século XIX, até que, numa de minhas perambulações pelo meu bairro, esbarrei com isto aqui:
Assim como o Eduard do século XIX, um brasileiro do século XXI plantou uma árvore e fez questão de registrar para todo o mundo o feito. Eduard e Bernardo existiram, e duas árvores são a prova.

Pois sabe que Goethe também tem sua própria árvore com simbologia similar? Um carvalho, pra ser mais preciso, sob cuja sombra ele se encontrava com sua amada Frau von Stein. Em 1939, porém, esse carvalho passou a lançar sombra sobre a lavanderia e a cozinha do campo de concentração de Buchenwald. A Lei de Proteção da Natureza do Terceiro Reich manteve o carvalho de pé.

Estou perplexa, Manguel.
Joseph Roth, inclusive, registrou um comentário repleto de raiva e ironia que parte o coração de qualquer um: "Até agora, nenhum interno do campo de concentração foi açoitado no carvalho sob o qual se sentavam Goethe e Frau von Stein, que ainda está vivo, graças à Lei de Proteção da Natureza. Certamente que não; eles têm sido açoitados em outros carvalhos, que não faltam nessa floresta."

Confesso que não sei o que pensar sobre isso. Fatos da Segunda Guerra sempre me desnorteiam; me fazem perder o senso da realidade. Lamentável que Goethe, indiretamente, tenha se metido nesse horror.
Mas pergunto se AAE está, anacronicamente, parodiando isso. Digo, será que se pode ler o romance como uma apoteose cínica da arte da jardinagem, a arte que floresceu no século XVII e se transformou numa ecologia corrompida - que poderia até ser chamada de visão suprematista da natureza - refletida, quase um século e meio depois, na preocupação de Hitler com "o modelo da natureza"?

Puxa, será?! Pior que lembrei que jardins são espaços simbolicamente recorrentes e importantes na obra de Tchekov, porém, como Janet Malcolm assinala no livro Lendo Tchekov, os jardins dele são exatamente desse tipo organizadinho, áreas em que a natureza é domada. Nas palavras da autora: "Tchekov era mais um poeta da paisagem domesticada do que do sublime, mais atraído pelo encanto das sombras oferecidas por um velho jardim do que pela grandiloquência intocada da natureza em estado puro.". Um adendo, Manguel: nunca imaginei que, ao discutir um livro famoso por sua abordagem sobre o amor, eu falaria sobre a relação simbólica do ser humano com árvores, plantas e jardinagem. 😃🌳🌷

É justo, contudo ainda é possível prosseguirmos nesse tema. Do diário de Ottilie, por exemplo, temos isto: "Ninguém caminha sob palmeiras impunemente, e o modo como a pessoa se comporta deve sem dúvida modificar-se num lugar onde elefantes e tigres fazem sua morada." Lembra dessa entrada? Acho a frase irônica, já que foi sob palmeiras (quando eu trabalhava para uma editora no Taiti nos anos 70) que decidi ser fiel a mim mesmo e assumir minha vida de leitor-escritor.

Esse diário da Ottilie, "solto" no meio da história, é um recurso
narrativo curioso. Há muitas pérolas ali.
Tem alguma favorita?
Nossa, várias! No entanto, esta é particularmente especial: "Não importando a maneira como estejamos postados, sempre nos imaginamos vendo alguma coisa. Creio que o homem sonha apenas para não cessar de ver. Poderíamos conceber a ideia de a nossa luz interior exteriorizar-se, de modo que não careceríamos de nenhuma outra." Definitivamente essa foi outra passagem do livro que me ajudou a compreender meu inconsciente, pois até então eu não entendia como ou por que eu havia escrito três postagens em meu blog a respeito do ato de observar: pessoas, arte, animais. Sem querer, bolei uma espécie de "Trilogia da Observação" e, graças à Ottilie, agora eu sei +- por que isso aconteceu.

Ottilie faz uma descrição precisa da consciência humana, de sua terrível vigilância, semelhante à de Argus, dá ao romance como um todo o seu páthos: quatro personagens, o autor e, por extensão, o leitor estão constantemente conscientes de suas ações, e observam a si próprios avançar em direção ao fim sem ser capazes de se iludir ou de desviar o olhar.
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😉. A conversa está ótima,
Daniela, porém tenho de ir.
Puxa, mas ainda tinha tanta coisa pra discutirmos, Manguel! A questão Matrimônios x Divórcios, a hipocrisia das Lápides desprezadas x Criptas de Eduard/Ottilie, o bebê com a cara do Capitão e os olhos da Ottilie... Aliás, aproveitarei essa piadinha goethiana com a cara do bebê pra soltar uma última groselha: será que Bentinho vê a cara de Escobar no próprio filho apenas porque Capitu, na verdade, pensava em Escobar enquanto transava com o marido? E tipo; se minha mente estiver entretida com fantasias eróticas envolvendo o Adam Driver enquanto transo com meu namorado, eu serei enquadrada na Lei da Traição?! Se a resposta for positiva, temo que o problema carcerário no Brasil atingirá proporções ainda mais catastróficas. Xi, e um bebê com a carinha do Adam Driver; já pensou? Que lindinho seria! #zero.ironia

 (risos) Daniela, sua pergunta é fascinante,
entretanto realmente não tenho mais tempo. 
Ah, que pena. Mas beleza.
Muito obrigada pelo papo tão legal.
Também gostei de nossa conversa.
Até o próximo livro.
Até, Manguel.
Tchau.

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Disclaimer e Créditos:
(1) As falas de Alberto Manguel foram extraídas de sua obra Os Livros e os Dias (Companhia das Letras, Tradução José Geraldo Couto);
(2) Os trechos de As Afinidades Eletivas foram extraídos da edição que li: Companhia das Letras/Penguin Companhia, Tradução Tercio Redondo.