01/02/2024

Livro ⇋ Filme: são dois pra lá, dois pra cá

Breves registros de três pontes erguidas entre livros lidos e filmes vistos; elementos isolados de cada obra que me fizeram oscilar de uma para a outra. 

[spoilers!]

Livro: Kokoro (1914), de Natsume Soseki [Tradução (Penguin): Meredith McKinney]
Filme: Happy Hour (2015), de Ryûsuke Hamaguchi

No filme Happy Hour, o filho de uma das quatro amigas engravida a namorada e, na minha memória, era certo que os pais dos adolescentes tinham decidido em comum acordo que a garota abortaria. No entanto, revi a cena antes de escrever este post e recordei que o desenrolar do imbróglio é um tanto mais truncado e constrangedor. Desconheço se é a conduta social prescrita para tais casos no Japão, mas o fato é que a mãe e a avó do moleque visitam os pais da menina para se desculpar e sorrateiramente entregar um envelope com ¥500.000,00 (indenização? pagar aborto?). Dito isso, o que na verdade me interessa é a conversa entre mãe e filho que sucede à transação peculiar. Enquanto caminham lado a lado na rua, Sakurako lhe diz, de um jeito sereno e espontâneo:
— Nada pode desfazer o que você fez. (...) Então você deverá conviver com isso. Talvez você jamais conseguirá ser feliz pelo resto de sua vida. (...) Nossa, eu lhe disse algo horrível.
Quando assisti a essa passagem pela primeira vez, as palavras da personagem me marcaram muito, pois, por razões pessoais (e por que mais?), me sinto atraída a narrativas que exploram eventos (grandiosos ou banais) capazes de afetar em definitivo os caminhos futuros de uma vida inteira. Quando ouvi Sakurako, soube exatamente ao que ela se referia, por outro lado não sei se o garoto foi capaz de depreender o que ouvira naquele momento. A propósito, trata-se de um eventual aspecto terrível dessas ocorrências, quero dizer, podem surgir numa fase da vida em que sequer dispomos de arsenal para apreendê-las. Claro, cabe ressalvar a impossibilidade de determinar até que ponto a mãe não estaria falando de si mesma, numa espécie de projeção — dado o contexto do filme, é bastante possível, sobretudo porque Sakurako estava se remoendo pela vergonha que acabara de passar e ressentida pelo marido tê-la abandonado naquela dolorosa situação. 

Enquanto lia Kokoro, o pungente presságio materno no filme de Hamaguchi voltou a me fazer companhia, pois me impressiona o quanto ele ajuda a entender a trajetória e escolhas do Sensei, personagem no livro de Soseki. À primeira vista, o suicídio do amigo K — do qual Sensei sente-se culpado — desponta como o ponto de virada na vida da personagem, o instante a partir do qual nada jamais seria o mesmo, porém teorizo que o crucial divisor de águas surgiu lá atrás, quando o jovem e órfão Sensei percebera-se traído pelos parentes que dele caberiam cuidar. Sensei afirma ter aprendido cedo que seres humanos são horríveis e inescrupulosos; portanto quanto mais afastado de todos, melhor. O discurso da personagem sugere um trauma profundo decorrente dessa experiência, do que resulta uma resistência notável para se relacionar. Nesse contexto, conjecturei que o dramático suicídio de K foi lido por Sensei como a brutal revelação de que ele tratara o amigo de forma tão (ou mais) vil quanto aqueles seus parentes no passado, constatação que o posicionou numa encruzilhada: é fácil se afastar das pessoas, porém como se afastar de si mesmo? No fim, Sensei escolhe a única maneira possível. Tomando emprestadas aquelas palavras de Sakurako, eu comentaria: Sensei se deu conta de que fez algo horrível e que então jamais seria feliz; sentindo-se incapaz de conviver com aquilo pelo resto de sua vida. E instiga o quanto a narrativa de Soseki expõe que o próprio Japão atravessava um momento histórico crítico que redefiniria para sempre os rumos do país, com o fim da era Meiji e com a crescente influência ocidental. Poderia o Japão ser feliz e conviver com isso?

Adendos:
(1) Shizu, esposa de Sensei, bem poderia ser escalada como a quinta amiga no filme de Hamaguchi; mais uma mulher japonesa solitária e infeliz no casamento, joguete de dois homens tolos.

(2) A primeira terça parte de Kokoro, da qual destaco a descrição de como o narrador avista Sensei pela primeira vez na praia de Kamakura e a construção da amizade entre ambos, traz uma carga homoerótica que me remeteu demais ao filme Me Chame pelo seu Nome (Luca Guadagnino, 2017). O começo do livro, com sua narrativa ambígua e complexa, é pra mim a melhor parte formal da obra.


Livro: Demian (1919), de Herman Hesse [Tradução: Ivo Barroso]
Filme: Happy Hour (2015), de Ryûsuke Hamaguchi

Agora, pinço o memorável workshop em grupo do qual as amigas de Happy Hour participam, cuja proposta era auxiliar o encontro de equilíbrio na vida e propiciar formas profundas de conexão. [Puxa, poderia ter salvado o pobre Sensei?] Trata-se de uma passagem com meia hora de duração e, enquanto assistia, me questionava como o Hamaguchi conseguia segurar minha atenção naquela "patacoada" — sim, pois eu nunca participaria de um troço daqueles, por exemplo. No entanto, me vi hipnotizada durante toda a cena (se duvidar, é minha favorita do filme). Teorizo que o sucesso do diretor consiste justamente em filmar o processo durante todo seu tempo natural de transcurso (agrega delicado realismo) e sem interferência; digo, a câmera de Hamaguchi não julga nem sentimentaliza nada (armadilha da qual um cineasta americano, teorizo, não escaparia). Afunilarei essa cena do workshop para citar o exercício da dinâmica pertinente a esta postagem: em duplas, encostam-se as testas e, enquanto um pensa numa palavra, o outro deve tentar recebê-la por telepatia ou coisa que o valha. Segundo o coach, não é transmissão de pensamento, mas um exercício de atenção e foco no outro. Bom, encerrados os exercícios, uma das amigas — aquela mesma mãe do garoto, aliás — compartilha sua opinião a respeito da experiência:
"Ouvimos os intestinos um do outro e tocamos nossas testas. Não sabia o que estávamos fazendo, mas eu estava tentando ouvir o outro e o outro tentava me ouvir. Foi uma sensação boa."

Essa cena é relevante porque uma das propostas do filme é um estudo sobre amizades e relacionamentos, focado no quanto desconhecemos aqueles que julgamos conhecer bem, inclusive uma melhor amiga. E, por conseguinte, o quanto é possível sentir-se cada vez mais solitário mesmo em relacionamentos que, ao menos na superfície, parecem sólidos feito pedra. 

O livro de Hesse me obrigou a rever a cena do workshop porque Demian garante que, se observarmos uma pessoa com suficiente atenção, acabaremos por saber mais a seu respeito do que a própria pessoa. Mediante observação atenta do outro, Demian afirma ser possível predizer o que o indivíduo sente e pensa em determinado momento e assim antecipar o que fará. Generoso, Demian não omite as pegadinhas do fenômeno: não é fácil, requer exercício, é preciso querer e parar de se ocupar consigo mesmo. Então, seria o exercício da testa e da "transmissão de pensamento" propostos pelo coach em Happy Hour assim tão estapafúrdio? No filme, ninguém acertou a palavra no pensamento do colega, contudo chegaram perto. Quer dizer, fiquei matutando que a dificuldade não está exatamente em conhecer e compreender o outro, mas sim em conceder plena e generosa atenção para alguém que não a si próprio.

Adendo:
(1) Quando já estava imersa nesse papo furado, calhei de ver a conversa que Caetano Veloso teve com Paul Preciado durante a Flip de 2020 e não pude deixar de reparar na atenção de Preciado e nas anotações que ele fazia das referências literárias mencionadas por Caetano. Por deus, achei incrivelmente sexy. Atinei que, durante meus desvarios, ainda me escapava o quanto o exercício da atenção é atraente. [*Como ninguém me dá bola, nem lembrava mais dessa; coitada de mim.] Para retomar uma das temáticas no filme do Hamaguchi e até no livro do Soseki: a chave da infelicidade em muitos casamentos parece ser a falta de atenção.

Livro: The Last Samurai (2000), Helen DeWitt
Filme: Anatomia de uma queda (2023), de Justine Triet

Quando terminei de ver Anatomia de uma Queda, fiz uma ronda rápida pelo Letterboxd/Reddit e fiquei abestalhada de ver a galera — e a própria diretora, por sinal — comentando que o filme era notadamente um estudo sobre relacionamento conjugal e familiar, focado no que acontece com aqueles que ficam após a morte de um membro da família. Tipo; oi? Vá lá, em certa medida encontra-se isso no filme, porém estou convicta de que a maior personagem e temática de Anatomy of a Fall é a Linguagem, a Palavra; tanto no contexto micro (família) quanto macro (sociedade, adotando-se a instituição da Justiça como recorte). Justamente por isso, aliás, considero estupenda a escolha de trazer o cachorro para a abertura e encerramento do filme, um bicho mais feliz do que qualquer ser humano jamais será. E por quê? Ora, pelo simples motivo de que esse animal não vive soterrado por palavras que não explicam nada e que mais servem para confundir e alimentar fantasias descabidas, neuroses e paranoias — para alegria de psiquiatras idiotas feito aquele do morto. [*É, talvez eu persista sob forte influência do Roland Barthes]. Feito o desabafo, não pretendo defender meu ponto de vista com chata e aborrecida análise — até porque sei que muitos concordam —, contudo desejo pinçar um elemento desse tema. 

O filme de Triet nos apresenta a um casal no qual o marido é francês e a esposa é alemã, ambos vivendo com o filho na França e se comunicando entre si em Inglês. Na famosa cena da briga, a esposa nos diz que a escolha do Inglês seria um meio termo mediante o qual ambos fariam uma concessão. Enfim, isso aí nem me interessa tanto, mas sim isto aqui: em nenhum momento do filme a mulher fala em Alemão (somente em Inglês ou Francês). Li entrevistas da diretora nas quais resta sugerido que a ausência do Alemão (e predomínio do Francês) resultaria de mero estratagema legal para garantir o financiamento do filme, porém decido ignorar esse fato e prosseguir com minhas divertidas elucubrações. A atriz Sandra Huller, em entrevista ao SAG-AFTRA Foundation, diz que sua atuação pretendeu personificar uma mulher que não cede facilmente a momentos de fúria ou desespero, sobretudo em consideração ao filho que dela dependia. Penso que a atriz foi exitosa no intento — é fantástica a inversão dos habituais papéis na cena da briga: é o marido quem assume o posto de "chorão descompensado", enquanto a mulher mantém a pose plácida —, e, pra mim, a certeza de que Sandra é uma mulher em pleno domínio de suas emoções sustenta-se pela constatação de que ela jamais apela para o Alemão, sua língua materna. A mulher não esbraveja um palavrão sequer em Alemão e, quando breve e justificadamente desaba naquela cena do carro, também não solta uma mísera lamúria em Alemão. Nos momentos em que se angustia ao perceber que não se faz entender, é ao Inglês que ela naturalmente recorre, e não ao Alemão. Além disso, dado que o tribunal garantia a presença de tradutor juramentado, por que ela não escolheu se expressar em Alemão? Então, sim, constatar que aquela circunstância dramática não é suficiente para fazer Sandra sucumbir ao conforto e aconchego da língua materna me deixa perplexa diante dessa mulher. Outra hipótese bastante digna de nota seria algum tipo de trauma relacionado às origens, contudo o roteiro não oferece mais elementos; exceto a menção do desejo de retornar para Londres, e não para a Alemanha. Entretanto, minha absoluta ignorância acerca do Alemão me impossibilita desenvolver a hipótese mais instigante para a ponte que registro com o livro de DeWitt: a "personalidade" do idioma alemão, com suas particularidades linguísticas, seriam rejeitados, antagonizados pela personagem? Em outras palavras: qual é a característica do idioma alemão que a personagem se recusa a preservar em si mesma? E ainda: qual é a característica do Inglês que ela deseja incorporar? A propósito, estou quase certa de que o filme omite a língua na qual Sandra escreve seus livros de ficção; uma pena — deve ser em Inglês. Que ela traduza do Alemão, portanto, parece provar que a escrita de ficção não paga os boletos. 

Tantas linhas investidas nessa lenga-lenga, e mal mencionei o livro da Helen DeWitt. A narrativa de The Last Samurai explora bastante o fascínio por idiomas, e gosto do quanto o texto defende que o aprendizado de línguas não é questão de inteligência, mas sim de disciplina e sobretudo obstinação. Também há na obra um forte subtexto que rejeita a ideia do aprendizado como mera empreitada utilitária, ressaltando o inerente prazer no processo. O livro me tocou tanto nesse aspecto, que cheguei a sonhar que estava tendo aulas para aprender Japonês (tomara que sirva para me chacoalhar, porém duvido — minha obstinação evaporou). Entretanto, a ponte com o filme de Triet decorreu de uma  reflexão específica que Sibylla faz a respeito da escolha de idiomas na construção de ficções. No início do livro, a personagem acredita que os parâmetros geográficos e temporais de uma história devem ditar o idioma na obra, ou seja, uma personagem chinesa deveria falar em chinês, uma brasileira, em português etc. No entanto, após ler um livro de Shoenberg sobre música — Theory of Harmony — Sibylla se dá conta do quanto seu pensamento era simplório, pois equivaleria dizer que um pintor só poderia pintar o céu de azul, o sol de amarelo e a grama de verde. A personagem percebe que um exercício de escrita ficcional mais rico e interessante deveria partir das características linguísticas de um idioma e das relações dos idiomas entre si, os quais então ditariam os demais elementos da ficção, inclusive trama e personagens. Pode-se dizer que Sibylla propõe que se aplique à escrita procedimentos que já são corriqueiros em outras artes, como a música e a pintura. Transcrevo a reflexão (arrisco tradução livre):
"Talvez um escritor pensaria nas monossílabas e falta de inflexão gramatical do Chinês, e em como isso soaria ao lado das adoravelmente longas palavras finlandesas, repletas de duplas consoantes e vogais longas em 14 casos ou o adorável Húngaro cheio de prefixos sufixos; e apenas após pensar nesses termos pensaria então numa história sobre húngaros ou finlandeses com chineses"

Quando vi Anatomy of a Fall, pensei que Triet flertou com essa proposta, em especial quando seu roteiro constrói uma personagem alemã que não se expressa em Alemão. Quer dizer, a ausência de uma língua se fazendo presente para pintar uma imagem. Além do mais, falamos de uma imagem concebida mediante a relação entre o Inglês e o Francês — para não falar na relação com a linguagem especial do adorável cachorro.

Adendos:
(1) Sim, o Hamaguchi poderia ter aparecido em dose tripla neste meu post, pois ele aplicou essa estratégia em Drive my Car (2021). As cenas de ensaio da peça de Tchekhov, nas quais cada ator e atriz falam em uma língua, são disparadamente do que mais gosto nesse filme.

(2) Curiosamente, há nesta temporada do Oscar outro filme que se lança no jogo de idiomas: Past Lives (Vidas Passadas, 2023), de Celine Song. Na minha opinião, a singeleza e doçura do casal protagonista casa bem com a sonoridade do coreano (cheio de vogais e ritmo melódico) contraposta à dureza e saturação da paisagem nova-iorquina. Entretanto o filme de Song, ao contrário do de Triet, argumenta que não se pode escapar da língua materna, a qual nos assombra para sempre, ainda que somente em sonhos. Será que Sandra sonha em Alemão? Taí, se me concedessem o direito de fazer uma pergunta a Sandra (na cena inicial da entrevista), com certeza seria esta: que idioma preenche seus sonhos?

[Pior sou eu (?) que, conforme contei, calhei de sonhar num idioma que sequer falo.]