16/01/2019

[Alinhavando] Espio eu, espia você, na espiada da solidão

by Tom Gauld
A julgar pela tirinha acima ⤻, suspeito de que Tom Gauld e eu compartilhamos de uma mesma, digamos, birrinha literária. Falo da implicância relacionada aos tediosos lugares-comuns que batem ponto em praticamente todas as resenhas de determinados livros. Listarei algumas amostras que usualmente me aporrinham os pacovás:

(1) Dom Casmurro, Machado de Assis > (Luís Boça:) Capitu traiu ou não o Bentinho? Nooossa,                                                                                                        Machado é gêêênio, meu, por deixar essa                                                                                                       dúvida.   [😒]                                                                           
(2) A Metamorfose, Kafka > (pernalonga de batom:) <cof, cof>; Kafka sequer escreve que Gregor                                                          Samsa se transforma em uma barata, ok?  [😒]

(3) Lolita, Nabokov >  - fala galera! baita história de amor, a desse livro, hein?! 
                                    - errado! é pedofilia! 
                                    - é obsessão! 
                                    - não, ele a ama, sim. 
                                    [😒]

(4) Os Miseráveis, Victor Hugo > (pernalonga de batom:) cof, cof; a história nem se passa durante a                                                              Revolução Francesa, seus tontos, ok?    [😒]

Pronto, é a isso aí que a chatonilda aqui se refere. Naquela tirinha, Tom Gauld utiliza como premissa justamente outro exemplar dessa minha lista negra, o qual servirá para catapultar os voos delirantes desta postagem.

Quando um leitor comenta sua experiência de leitura do livro Frankenstein, escrito por Mary Shelley, ou algum crítico resenha a obra, qual chavão recorrentemente dá o ar da graça? Correto:

- Pra começo de conversa, Frankenstein é o nome do cientista. Fique esperto!   [😒]

De tanto ouvir essa lenga-lenga, li o livro pela primeira vez ano passado já completamente ciente dessa informação. ~Só que~, né? É; só que percebi que euzinha nunca tinha atentado em lançar ao colega leitor/crítico a pertinente questão: "- tá, mas então qual é o nome da criação de Victor Frankenstein?" Embora, de antemão, eu não tenha tido essa perspicácia; a leitura do livro evidenciou por que nenhuma resenha ou crítica menciona o nome daquela personagem: ela não tem nome. Pequeno Frankie não apenas relega aquilo que cria, como nem mesmo se digna a dar-lhe um nome. Simples assim. Quer dizer, talvez não seja assim tão simples, tendo em vista que, efetivamente, as personagens do livro reservam à criação de Frankenstein uma série de alcunhas bastante carinhosas. Incluo breve compilação:
       MONSTER          DAEMON          THE WRETCH          DEVIL          
   
CREATURE         THE BEING          FIEND          THE OBJECT 
Cada vez que meus olhos se deparavam com um desses termos, minhas pálpebras tremiam, a testa franzia, minha bunda se inquietava na cadeira e meu pescoço inclinava-se em um ângulo de trinta graus à direita. Aquelas palavras e expressões não pareciam fazer sentido, uma vez que todas elas recusam enfaticamente a discussão daquilo que, pra mim, não estava nada claro:

O que era aquela criação? 

Meu espírito teimava em não aceitar aquelas formas de tratamento que negavam a pergunta que reverberava com crescente intensidade, à medida que minha leitura avançava:

É... humano? É um ser humano? 
O que é ser humano? O que me torna humana?

Se eu tivesse bagagem filosófica suficiente, adoraria me divertir desenvolvendo a contento essa reflexão, no entanto não a possuo. Portanto, alerto que saltarei na escuridão abissal. Mas calma. Minha ambição não é insensata a ponto de ousar responder, de forma mal ajambrada, as inquietações metafísicas que me foram patrocinadas por Mary Shelley. Não; focarei minhas divagações somente em uma particularidade da narrativa; um elemento que, hipoteticamente, é peça do quebra-cabeça que soluciona o enigma de nossa humanidade. Especificamente, desejo falar desta cena:

Em solidariedade com a Daniela desmemoriada do futuro, farei uma breve recapitulação resumida dessa passagem, a qual corresponde ao instante em que a criatura (por ora, na falta de um nome melhor, permanecerei usando "criatura") está viva neste mundo há apenas poucos dias, ou seja, ela sente-se bastante desnorteada. Após ser enjeitada pelo bocó Frankie, a personagem vaga sozinha e a esmo por florestas, penando para proteger-se do frio e acalentar a fome. Durante essas andanças, acidentalmente acaba cruzando pela primeira vez com pessoas de um pequeno povoado que, assustadas diante do aspecto grotesco da criatura - "eight feet in height, and proportionately large, (...) yellow skin scarcely covered the work of muscles, (...) watery eyes, (...) shrivelled complexion and straight black lips, (...) uneartly ugliness" -  a agridem violentamente; uma segunda rejeição. Na fuga que se segue, a criatura esbarra com um velho casebre de madeira e teto baixo que, embora mal a acomode, serve-lhe como conveniente refúgio e esconderijo. A imagem inserida acima ilustra o evento mágico: através de um pequeno buraco presente na parede daquele minúsculo espaço, a criatura consegue observar a rotina de uma família que morava na casa contígua. Ao longo de todo um inverno, a criação de Frankie permanece vivendo ali, acompanhando na surdina a vida dos De Lacey. 

Por meio da observação - como ocorre com bebês -, a criatura desenvolve uma série de habilidades que fomentam questionamentos acerca da sua humanidade. Ela domina a linguagem oral e escrita, aprende a ler ("Paradise Lost, Plutarch’s Lives, and The Sorrows of Werter"!!) e, de jeito encantador, mostra-se capaz até de comover-se com a música tocada pelo idoso e cego senhor De Lacey. Ademais, são passagens do livro em que a criatura claramente exibe ao leitor sentimentos complexos e essencialmente humanos: empatia, compaixão, solidariedade, tristeza, medo da morte, amor à literatura, raciocínios éticos e morais, “I knew I possessed no money” > consciência de classe??!! (Eita! rs). A despeito de tudo isso, meu foco permanecia recuado no exato local da partida: a criatura é tomada pelo ímpeto de espiar pessoas, ela se interessa pela vida de outros seres, ela deseja romper sua solidão e socializar com o outro. Por alguma razão, minha mente insistia obsessivamente nesse componente primordial da narrativa de Shelley, supondo que aquilo era uma significativa chave capaz de abrir, se não todos, pelo menos um dos cadeados que ocultam a humanidade daquele ser. 


Sufocada por tais pensamentos, ao acaso assisti a uma entrevista que Nélida Piñon concedera a Raphael Montes no programa Trilha de Letras, do canal TV Brasil (disponível aqui) e, no meio do papo, a autora me mandou esta:


Claro que, ao escutar essa resposta, desgarrei-me prontamente do abraço de Morfeu, saltei da cama e esbravejei para as paredes do quarto: "- Estão vendo, estão vendo?! É ISSO! Obrigada, Piñon." Meu deus, mas era precisamente isso o que o ser criado pelo bobo Frankie me revelava. Logo como seria possível negar-lhe a humanidade? Negar tratar aquela criatura feito um ser humano? Negar-lhe um nome?! Como?!!

Na sequência, minha memória "subitamente" catapultou à consciência a obra "Etant Donnés: 1. La Chute d’Eau, 2. Le Gaz d’Éclairage / Sendo Dados: 1) a cascata; 2) o gás de iluminação", última e enigmática criação de Marcel Duchamp; a qual desponta aqui como espécie de imagem especular do episódio criado por Shelley que ora discuto. A obra de Duchamp constitui-se de uma porta maciça de madeira com dois pequenos buracos através dos quais o observador pode inspecionar o que há do outro lado: um corpo de mulher estirado no chão sobre ramagens, seu tronco e pernas escancaradas, a vulva desnuda e sem pelos. 


Evidentemente, aquilo que a criatura espia através do buraco do casebre é bem mais, hum, ~singelo~ e menos bizarro do que a ilusão ótica montada pelo francês, porém o impulso consciente para o ato voyeurístico explorado nas versões de Shelley e Duchamp é correlato. Nesse sentido, decidi catar o livro Arte e Psicanálise, escrito por Tania Rivera, a fim de recordar o que a psicanalista e professora havia discutido ali a respeito de Sendo Dados; e arquivo aqui este trecho:
(* P.S.: li um artigo (link aqui) sobre a teoria de que a estrutura montada por Duchamp opera tal qual uma câmera escura que projetaria a imagem invertida do rosto do artista na parede oposta. Praticamente, +-, um... espelho?)

Ah tá, então, logicamente, terei de enfrentar a metafísica do olhar. *Medo*. Infelizmente, não manjo nadinha das teorias de Merleau-Ponty, Sartre e Lacan, portanto me lasquei. Li somente ~uns textinhos aí~  (nem é tãããoo complicado, mas basta chegar no Lacan, e o caldo desanda) e vejamos quão feio será meu tombo.

Bem, Rivera lembra que "olhar é se olhar", "o quadro faz o olhador". Ok. Pois é propriamente a partir da contínua observação da família De Lacey que, pela primeira vez, a própria criatura finalmente também é instigada a se perguntar (grifo meu):


É a partir da contemplação da dinâmica daquela família que a criatura adquire consciência de sua existência, é quando ela tenta compreender sua essência enquanto ser vivo, sendo obrigada a confrontar-se. Ainda em concordância com o texto de Rivera (*acho* rs), trata-se do instante em que a criatura é tomada por grande estranhamento e perturbação; sobretudo quando o outro, tão melhor e diferente, não a aceita como um igual. Isto é: terceira rejeição. Talvez seja possível até fazer chacota com a famigerada frase de Sartre "O inferno são os outros". O mero ato de espiar anonimamente o outro já coloca a criatura, seguindo o raciocínio de Rivera, na posição de olhada/espiada (sentido filosófico/psicanalítico) por aquele que a recusa. Coitada.



Durante a leitura posterior do livro A Cidade das Palavras, Alberto Manguel inesperadamente também me ofereceu um trecho que serviu para iluminar minhas reflexões:


Daí, as coisas ficam complicadas para a personagem de Shelley, dado que os outros não a reconhecem. A consciência da criatura indiscutivelmente se desenvolve a partir da observação da família De Lacey (formação do eu), porém, tão logo ela sai do anonimato para expor-se à percepção do outro, ela é repelida. Digo, naquela passagem, eventualmente a criatura toma coragem para sair da toca, contudo o senhor cego é o único que a percebe e a acolhe. Os demais, contrapostos à aparência hedionda, são incapazes de enxergar além e negam-lhe o reconhecimento. “(...) saber que existimos supõe o reconhecimento dos outro que percebemos (...)”: sendo assim, em tal contexto, a criatura prosseguiria existindo? Para não dar spoiler explícito, refiro meramente que o final do livro responde a contento essa dúvida.

Outro parágrafo do texto do argentino apareceu na sequência para me chacoalhar mais fortemente:


“Os monstros não continuam monstros para sempre (…) porque são muito parecidos conosco e capazes dos mesmos atos.”??!! Caramba, será que eu estava tão intrigada com o comportamento da criatura que, solitária e rejeitada, espia isolada o outro, em decorrência de enxergar nela meu duplo? Para resgatar os termos de Rivera: o livro de Shelley funcionava como um espelho através do qual eu via, na circunstância da criatura, minha imagem refletida??!! Aquela personagem me olhava de volta? Sim, só podia ser isso, afinal a própria criatura sentiu algo semelhante ↴: (!!!!!!!!!!!!!!!!)



Depois de muito matutar, obtive várias respostas tão satisfatórias, quanto assustadoras; entretanto escolho expor aqui somente uma delas. Lançarei uma teoria potencialmente estapafúrdia a princípio, ou não: a narrativa de Mary Shelley de uma criatura que espia anonimamente o outro é uma alegoria da nossa moderna relação com a internet, nomeadamente com as redes sociais. Rola ou não rola? Desconfio que sim. Em vez de apelar para o constrangimento de expor (~demais~) minha experiência particular circulando nesse mundão virtual de meu deus, atinei que eu poderia desenvolver a teoria a partir do relato pessoal que Olivia Laing insere no livro The Lonely City. Nessa obra, a autora britânica discorre sobre o período em que mudara-se para Nova York após o término de um relacionamento, fase durante a qual, afogada em solidão e dor, ela recorrera intensamente às redes sociais. Conjuntura explicada, bora lá passar (mais) vergonha derrapando no sabão.


De saída, imagino que vale chamar atenção para o próprio caráter imagético da coisa toda. Localizei esta foto (*editada via recorte) que Magnus Wennman tirou do filho que acessava a net antes de dormir:

 By Magnis WennmanVia National Geographic

Pode haver certo exagero, admito, no entanto não parece claramente que o celular/tablet/notebook substituiu o esconderijo cujas paredes contêm um buraco? Esses dispositivos tecnológicos não assumiram o papel da interface que ao mesmo tempo aproxima e separa um observador de um observado? Laing, aqui ↴, praticamente descreveu o cafofo da criatura de Shelley:


O feixe de luz que parte de um ponto isolado inundando a cara abobalhada do internauta (urgh, que palavrinha tosca, né?) igualmente parece ser familiar àquele que atravessa o buraco do covil para iluminar o voyeur em Frankenstein. Ainda que Shelley não tenha descrito detalhadamente a cara da criatura hipnotizada pelos De Lacey, aposto que não era uma fisionomia diferente do que Laing esboça:

Hum, "looking half-dead" e "solitary", é? Sei, sei; tipo uma criação horrenda do Dr. Frankenstein, né? 
Tô ligada, Dona Laing.


A relação de quase vício, o impulso obsessivo de persistir checando o outro é similar entre a criatura e internautas. Segundo já referido aqui, a criatura não fica só uns diazinhos praticando o stalker maroto; ela permanece três meses "entretida" com a brincadeira voyeurística. E não é só isso: gasta o dia inteirinho nessa empreitada.

Detalhe curioso: interessantíssima a relação entre as palavras "strangers" (Laing) e "friends" (Criatura), sim? Quantas vezes, na internet, caímos no mesmo equívoco da criatura: chamar de "amigo", aquele que, no frigir dos ovos, felizmente/infelizmente não passa de um estranho? 


Na solidão do apartamento minúsculo de NY, Laing diz que a internet a fazia sentir-se como “an absent, ardent witness to the world.” Ora, mas é justamente o contexto da criatura de Shelley; um ser solitário que, ao ser agraciado(?)/amaldiçoado(?) com a vida, é atirado às cegas em um mundo hostil e incompreensível. Logo, haveria modo mais seguro de explorá-lo, além daquele em que está protegida por quatro paredes que a ocultam dos humanos agressores? E, para muitos de nós, hoje, a internet oferece exatamente isso. Ou não?




Outro tópico bacana discutido por Laing corresponde à seguinte indagação: por que ela insistia obsessivamente naquilo? O que tanto nos atrai para o buraco na parede? Rivera, na análise de Sendo Dados, inclui uma frase do alter ego de Duchamp, Madame Rrose, que pode ser útil nessa ruminação: "Um buraco é feito para ver, não para ser visto". O dispositivo está não mão e serve (em parte) pra isso, então a gente olha, ué. (E é olhado de volta...?) Confere? Entretanto Laing não para aí e elenca uma série de pontos relevantes:

(1)
Laing e criatura encontraram, no celular e buraco respectivamente, uma maneira de estabelecer contato com o outro e, simultaneamente, preservar a identidade e privacidade.


(2)
A criatura fez o que pôde para convencer Frankenstein a criar para ela uma companheira, pois padecia de uma solidão profunda. O mais cruel é que, quanto mais ela vislumbrava os laços de amizade e carinho que unia os integrantes da família De Lacey, mais ela ansiava também possuir aquilo e fazer parte de um núcleo social afetuoso. (*desejo* da teoria de Lacan??) Ou seja, o sistema de contemplação anônima aparentemente funciona como um círculo vicioso: apela-se a ele por conta da solidão e, à proporção que ele é empregado, mais sozinho o indivíduo se sente. Penso que o mesmo pode ocorrer com certa frequência nas redes sociais.


(3)
É aquilo: o ato de espiar permite a objetificação do outro e nos liberta do horror da consciência do nosso ser, da nossa condição. É, porém, um suspiro breve, uma anestesia transitória. A pegadinha é que, como discutido anteriormente, olhar é ser olhado. Com as espiadelas, a consciência de quem somos (especialmente mediante comparação àquele outro) eventualmente nos invade feito um tsunami impiedoso; e a criatura de Shelley testemunha isso.


(4)
Reiteradamente, Laing reforça que, embora a internet permita que permaneçamos ocultos, podemos escolher nos revelar. Aquela citação do livro do Manguel destaca exatamente que ver o outro não nos é suficiente: queremos ser vistos, percebidos e acolhidos. Desse maneira, nada mais natural do que ansiar a revelação e a inclusão no diálogo virtual. Equivalente percepção ocorreu à criatura que, sim, tencionava apaixonadamente interagir com os De Lacey. Aqui, porém, há uma distinção: nas redes sociais, é possível uma exposição controlada, selecionar o que será exposto ao olhar do outro. A situação da criatura, por sua vez, não permitia isso: ela teve de se exibir com todos os defeitos à mostra, notadamente os exteriores. Para alguém que já tinha sido tão rejeitada e agredida, foi um ato que exigiu tremenda vulnerabilidade. As redes sociais, assim, aparecem como facilitadores que atenuam a vulnerabilidade necessária para que possamos interagir com o outro.

Persistindo na cena em que a criatura se revela para a família, cabe uma comparação com a dinâmica virtual que poderá afigurar-se exagerada, contudo a lançarei de qualquer jeito. Primeiro, o que menciona Laing:


Quer dizer, é pouco provável que a internet tivesse ajudado a família De Lacey a enxergar além da aparência física da criatura (um feito que, ironicamente, só o cego conseguiu). Também nas redes sociais, é trabalhoso enxergar um ser humano por trás dos minúsculos ícones, sobretudo quando o que mais salta aos olhos, atualmente, são os números (de: seguidores, inscritos, visualizações, comentários, likes, acessos...).

Para arrematar, largarei o apoio gentilmente oferecido por Laing e progredirei sozinha com a intenção de registrar desvarios particulares relacionados a peculiares diferenças que identifiquei entre a criatura de Shelley e o internauta, todas largamente promovidas, teorizo, pelo ~capitalismo selvaaaaaaaagem~  que infestou a rede.

Inegavelmente, a criatura do livro acompanha cenas genuínas. Os De Lacey não sabem que estão sendo observados e não encenam para o observador. Por esse ângulo, a criatura é um voyeur que, de fato, invade a privacidade do outro. Trata-se de uma agressão. Na internet, por sua vez, é (quase?) tudo uma performance (variavelmente, para vender alguma coisa: ideia, produto, serviço...), é (quase?) tudo artificialmente arquitetado para um observador cuja presença não apenas é conhecida, como é mais do que bem-vinda, visto que a presença dele costuma implicar, direta ou indiretamente, 🤑grana💰. Aliás, com relativa boa vontade, é possível identificar uma inversão na relação vítima x agressor. Durante a contemplação, a criatura em Frankenstein não era observada por ninguém (aqui, falo do olhar no sentido banal, não filosófico/psicanalítico), entretanto a internet está dominada por algoritmos e sistemas I.A. de corporações econômicas/políticas que monitoram tudo e todos. Por conseguinte, é o internauta observador quem sofre uma injúria, pois a invasão ocorre paradoxalmente na privacidade dele. No meio virtual, privacidade virou artigo de luxo. [P.S.: sim, até pensei em viajar na pira "Inteligência Artificial e Algoritmos, então, seriam seres humanos?", porém pisei no freio, porque a cota de sandice deste post foi extrapolada vários parágrafos atrás.]

Além do mais, ainda que não tenha fontes para comprovar, afirmaria que, nos dias atuais (especialmente com a feroz pejotização), quase (?) todo mundo permanece conectado unicamente com a finalidade de ganhar dinheiro direta (influenciadores digitais p. ex.) ou indiretamente (networking, divulgação de trabalho, marketing pessoal etc). Há um mar de gente que quer/precisa ser observada por conta da necessidade de 🤑 (o sistema está organizado assim), enquanto observar (conotação: perceber, reconhecer, dialogar, enxergar além do avatar, disposição para criar laços/comunidade etc”) o outro sem esperar 💰 em troca, "que é bom" (é?), nada. Prevalecem débeis relações baseadas na convenção "me segue, que eu te sigo", aparentemente.

Por tudo isso, tentar apaziguar a solidão através de redes sociais não soa como uma soturna piada?        Sei lá, às vezes penso que o espaço virtual virou um melancólico circo onde a maioria performa conscientemente para um outro observador que não costuma existir, posto que o outro provavelmente também está ocupado performando para um outro observador que não costuma existir, posto que...< ad infinitum > Muito pessimista, não é? Veja bem; eu acabei de descobrir que sou uma monstra criada pelo Dr. Frankenstein; então que tal um descontinho camarada? 😕

 by Mike Campau

05/12/2018

[Alinhavando] Alejandra Pizarnik; Diarios [#01]

Segunda temporada da série "Dialogando com Diários" (S1 - Susan Sontag, [Diários 1947-1963]); agora interagindo humildemente com o diário de Alejandra Pizarnik (Editora Lumen, 2004), autora argentina que tive a felicidade de conhecer graças às novas edições de seus poemas publicadas em 2018 pela Editora Relicário. A proposta consiste em (1) anotar trechos particularmente tocantes, (2) devanear a partir das entradas da escritora, (3) dar pitacos inúteis sobre o que ela discorre e/ou (4) estabelecer conexões. Detalhe relevante: estou lendo em espanhol. Pergunta: eu manjo de espanhol? Resposta: não. Portanto será uma longa leitura auxiliada por um portunhol fluente, dicionários e Google Tradutor, havendo reais chances de tropeços ao longo do caminho. ¯\_(ツ)_/¯

* Texto sinalizado com 📔, em verde + itálico = entradas originais de Alejandra Pizarnik.

*Alerta de Gatilho*
Muitas entradas escritas por Pizarnik são dolorosas e extremamente depressivas. 

Cuaderno de Septiembre de 1954 

24 de Septiembre 

📔 "Un nuevo día lleno de sol. Despego mi ventana y la luminosidad cae en la habitación. Luz amarilla y vital. Me da miedo por sus ansias fugitivas. No me acompaña en las horas de estudio, no me sonríe en mi encierro benéfico; todo lo contrario; me llama junto a sí, al paseo matinal, lleno de árboles y seres que caminan."

Essa presença da luz do dia como aparente entidade viva que invade nossas casas, nossa intimidade, para nos incitar à fuga e chamar (quase ordenar!) para o passeio matinal - para a vida? - remeteu-me diretamente ao artifício similar concebido por Bruno Schulz no conto Agosto (coletânea Lojas de Canela). Naquela ocasião de meu primeiro contato com esse incrível escritor, os trechos da brincadeira metafórica com a luz solar que a todos inebria me causou forte impressão por conta da enternecedora beleza. Creio haver semelhança, porém simultaneamente existe uma diferença crucial: a escritora argentina lamenta o antagonismo entre seu ânimo e o da luz; enquanto o polonês celebra o entusiasmo compartilhado pela luminosidade e suas personagens. Esta é a citação de Schulz a que me refiro:

Tradutor: Henrik Siewierski

📔“De lejos, de muy lejos, venían los latidos de un perro. Se le ocurrió ubicar a ese perro en la cima de un planeta, Saturno, rodeado de los anillos de fuego (amarillo).”

Não resisti e arrisquei converter essa divertida imagem em uma colagem no biblio journal:


Na continuação da frase, Pizarnik sinaliza que tentava se esquivar do sofrimento psíquico no universo da imaginação, do irreal – através da escrita, da leitura, dos sonhos –; embora sugira que a dor a acompanhava inclusive por aquelas bandas. Parece corresponder ao grave estágio da depressão em que o indivíduo não consegue sequer realizar as atividades usualmente prazerosas e potencialmente terapêuticas.

📔 "Los aullidos se acercaban, lo que motivaba el alejamiento del planeta fantaseado. A medida que se acerca lo comúnmente llamado real, se aleja (o se expulsa) la fantasía. En verdad no sabía qué preferir: si lo real o lo irreal. En cualquiera de ambos, se hallaba triste. Dejó correr el hilo esperanzado de su imaginación, mientras suspiraba inquisitiva y semirresignada."

No romance History (La Storia), escrito por Elsa Morante (por sinal, uma favorita de Elena Ferrante), esbarrei com uma valiosa expressão que imediatamente incorporei ao meu vocabulário, constatando agora que talvez ela também pudesse ter sido adotada por Pizarnik: The Paralysis of Unhappiness – A Paralisia da Infelicidade. Quando meus olhos a avistaram nas páginas da italiana, exclamei um eureka! repleto de alívio. Quantas vezes pelejei para explicar à terapeuta que os problemas do trabalho me paralisavam fora dele... Daí, trombo, em uma obra de ficção, com um rico garoto judeu e anarquista que, ao juntar-se (voluntariamente) aos camaradas operários no piso de uma fábrica insalubre, acaba acometido pela Paralisia da Infelicidade. Minha terapeuta não entendeu, porém a revelação de que uma escritora italiana sabe perfeitamente do que falo é confortante. Literatura é, por certo, a única terapia possível; não tem jeito.
Tradutor (italiano → inglês): William Weaver
Misturando minhas palavras às de Pizarnik e Morante: às vezes o real é suficientemente corrosivo - uma irrealidade contranatural de total infelicidade - a ponto de destruir até o subterfúgio construído, do que resulta uma paralisia devastadora. 


Olha, eu super estou tentando me afastar temporariamente dos passarinhos, mas eles insistem em me fazer companhia. (- Obrigada por não desistirem de mim, amiguinhos!) Na continuidade da leitura daquela coletânea de contos escrita por Angela Carter – a citei no recente post “To ring, or not to ring, that is the question” -, por exemplo, dei de cara com dois contos em que a autora inglesa igualmente utiliza a metáfora do pássaro engaiolado que canta pela liberdade (em linhas bem gerais, uma alusão à condição social de muitas mulheres). Em seguida, eis que esses bichinhos alados tão simpáticos surgiram também nos diários de Pizarnik; e o mais surpreendente é que, assim como eu, ela concentra-se no anseio de voo, e não no canto. Espie:

📔“La visión de un ave grisácea contoneándose humanamente sobre una frente roja, despabiló su doliente deseo. El ave es mi alma. El ave no se siente fuerte, teme caerse, no puede echarse a volar. ¡Ayúdala! ¿Cómo? Y ¿por qué? Porque es tu ave. Elevó los ojos y sonrió al dibujo que, pegado en la pared, representaba lo que ella quería: el ave inaugurando el vuelo.”

Sinto-me um tanto baratinada com o quanto me identifico com as palavras dessa mulher.

Ah, e aproveito a oportunidade para registrar no blog esta piadinha da série Portlandia, porque a carapuça está me servindo com perfeito caimento - Put a bird on it!!:



📔“(…) sensación de no ser más que un corpúsculo rebelde en el cosmos descomunal.”

Esse tipo de pensamento me causa uma vertigem alucinante. No último mini-documentário que vi sobre a missão Apollo 8 da Nasa, o discurso dos astronautas relacionado ao confronto direto com a visível e irrefutável insignificância do planeta de mármore azul que simplesmente flutua na infinita imensidão negra me deixou extremamente ansiosa. [-Mas e eu, então; que sou um mero grãozinho de areia dentro desse balão que boia no nada?!] Sempre que minha mente envereda-se pela reflexão de que sou um corpúsculo rebelde no cosmos descomunal un corpúsculo rebelde en el cosmos descomunal, tenho a sensação de que o chão onde piso desaparece.

Este é o doc, dirigido por Emmanuel Vaughan-Lee e disponibilizado no canal The Atlantic:


No desenvolvimento do texto, a escritora inclui outra inspirada descrição daquilo que ela efetivamente é (e somos, sim?) no contexto cósmico. Aqui:

📔"Soy un trozo de humo solidificado. Soy un residuo que alguien olvidó en el Olimpo."

Curiosamente, imagino que a própria Lua diria isso de si mesma, especialmente depois do que é mencionado a respeito dela no vídeo anexado acima. ⤴


Por falar em Lua, Pizarnik associa o satélite natural terrestre ao plano dos sonhos, à realidade onírica. O sol, como inferi naquele trecho da luz, resta associado à vida real. E, como ela, lamento profundamente minha incapacidade de engatar psicodélicos sonhos lúcidos. Voilà:

📔"Tocó su rostro proveniente de allá, de la región desconocida plena de sueños que ahora no recordaba. Intentó atraer alguna señal que le permitiese el acceso consciente a ese mundillo nocturno del que acababa de surgir tan pálida como un habitante imaginario de la luna, cansada como una guerrillera valerosa; aspiró fuertemente sintiendo que su cuerpo se llenaba de un olor vivificante, olor de las mañanas, olor de café y de sol. Poco a poco sus ojos se abrían hacia el extraño arco iris matinal. Sus ojos eran el verde que faltaba para completar el prisma cotidiano."


Retornando à luminescência, gostei da maneira como Pizarnik conecta nossa percepção da diária alternância luz/sombra à passagem do tempo: 

📔 "(...) El cuarto se hundía lentamente en una gris penumbra equilibrada por la luz breve del velador. (...) Su habitación se había introducido en las penumbras mientras ella estuvo elucubrando su fobia dominical. Se irritó. Nunca podía palpar realmente el cambio de luces y sombras de los días. Era como contemplar un reloj para comprobar empíricamente la velocidad del tiempo."

Trouxe à memória aquelas animações aceleradas, frequentemente exibidas em documentários/séries para transformar a passagem do tempo em imagem. Exemplo:


No mesmo conto Agosto, Schulz também brinca poeticamente ao descrever sombras:

Hum, percebo que tenho grande afeição a essa temática “luz x sombra”. Acho que é hora de sacar da estante o livro do Junichiro Tanizaki, Em Louvor da Sombra. Epa!, acho que temos algo em comum, Monsieur Hugo! Sua dualidade luz x sombra, em Os Miseráveis, é carregada de uma simbologia que não se assemelha àquela explorada por Pizarnik e Schulz, entretanto o tema se faz presente, sim. Poxa, faz tempo que não nos falamos, hein? Como está, caro amigo? Continua zangado comigo?

Voltando ao que Pizarnik compartilha naquela passagem, acredito que sei do que ela escreve. Infelizmente, tenho certa familiaridade com o estado psíquico que faz com que treze horas ininterruptas sejam investidas dormindo, ao fim das quais o despertar ocorre a contragosto; um desentendimento entre o corpo que recusa-se a prolongar o sono e a mente que tenciona o apagão eterno. No momento dessa emersão à consciência, a distinção visual das nuances luminosas do quarto revela-se inútil para a localização temporal. Não raro, sobrevém a suspeita de que o tempo, só de pirraça, permaneceu suspenso durante o anestésico refúgio no palácio de Morfeu.

De fato, é mais ou menos isso que a escritora relata posteriormente:

📔 "8 y 1/2 h. Mi cuerpo no quiere levantarse, sino seguir durmiendo. Entreabro los ojos, aspirando los objetos de la habitación. Los cierro de nuevo, suspirando. ¡Cuántas cosas pierdo! ¡Cuántas sensaciones, vivencias, aprendizajes! ¡Todo por morir un poco más! ¡Todo por vivir menos, en ésta, mi dolorosa e irreal realidad! Y esa voz que te grita vives y no te veo vivir."

26 de Septiembre

📔 "Entro en una librería desconocida. Me dirijo a los anaqueles coloreados, llena de curiosidad y tensa de emoción. La esperanza de hallar «algo nuevo» es quebrada por la voz del empleado que me pregunta qué títulos busco. No sé qué decirle. Al fin, recuerdo uno. No está. Hubiese querido seguir mirando, pero sentía sobre mí el peso de esa mirada comerciante, tan estrecha y desaprobadora ante alguien que «no sabe» lo que quiere. ¡Siempre lo mismo!"

Antecedendo esse trecho específico, surge a confissão de que o futuro angustia Pizarnik, ponto em que ela dispara a assustadora pergunta: "¿qué será de mí?". No livro The Gift of Therapy, Irvin Yalom menciona que a figura do paciente que não sabe o que quer é bastante comum na prática clínica. A piada é que, ainda segundo Yalom, há casos tão ~complicados~, que até o terapeuta precisa se segurar para não perder as estribeiras e deixar transparecer a tal desaprovação social referida por Pizarnik no trecho que transcrevi acima. Nas palavras de Yalom:


Nem preciso confessar os motivos pelos quais essa informação ficou incrustada em minha memória, né? Estou segura de que Chidi, pelo menos, dispensa explicações.


No mais, curti a correlação que Pizarnik estabelece entre o frequente desnorteio perante a vida e a experiência da visita a livrarias. Aliás, a última (e deliciosamente maluca) animação japonesa a que assisti - The Night is Long, Walk on Girl - brinca proximamente com a metáfora que ela apresenta:




Por fim, confabulei que talvez eu possa utilizar a alegoria de Pizarnik em meu benefício próprio;
digo, usá-la para fazer as pazes com minhas dúvidas. Tal qual a caça ao livro, a caça ao tesouro vital (= decisões/respostas saturadas de certeza) pode ser alegre e exultante. Será? Os caminhos possíveis para a vida são muitos, ok; mas o desafio das escolhas precisa ser necessariamente sofrido? Se panz, o barato do jogo da vida é justamente este: o contínuo processo de "escolha-erro-acerto-escolha-acerto-erro-escolha...". 

Ah, e para conectar essas divagações aos acontecimentos recentes de minha realidade: lamentável que 600 livrarias tenham fechado suas portas no país, consequentemente inviabilizando a mágica pesca para tantos leitores. (* Para não bancar a hipócrita, é imperioso reconhecer que talvez eu tenha contribuído para essa conta - ou, no mínimo, não cooperei na prevenção. Neste ano, por exemplo, estimo ter comprado apenas 01 livro em livraria física. E foi para presentear uma amiga. Adianta usar a falta de carro como desculpa? Oh well.)


📔 "Acá, entre el cansancio y el humo, entre el Miedo y las ansias inmortales, me digo: he de escribir o morir. He de llenar cuadernillos o morir."

No dia anterior àquele em que li essa frase da Pizarnik, eu havia me deparado com uma construção / proposição relativamente parecida em um conto de Ernest Hemingway, entremeado de elementos autobiográficos. O americano escreveu:

Desde que constatei, com o livro The Lonely City, escrito por Olivia Laing, que até artistas relacionados às artes visuais variavelmente sucumbem à arte da escrita, fiquei ainda mais tentada a desvendar este grande mistério: o que instiga uma pessoa a escrever? Que impulso doido é esse? E, por favor, o famigerado papinho “Ãin, mas nem consigo me ver não escrevendo; Ãin, escrever é como respirar” não me serve pra nada, porque as considero falas clichês vazias de significado (pelo menos, para meus propósitos). Sim, eu escrevo umas groselhas neste espaço, contudo quem disse que eu sei por quê? Enfim, tenho estado especialmente atenta, durante minhas leituras, a trechos que abordam essa questão que tanto me intriga e fascina. Nos casos de Pizarnik e Hemingway, a escrita parece representar uma rota de fuga da realidade fatual, ou, de outra forma, um artifício aniquilador da realidade opressora. Por meio da escrita, a autora argentina refugia-se do real no mundo imaginário; o americano, por sua vez, consegue apagar determinados elementos do real, espécie de descarrego pela palavra.

Na entrada de 28/09/1954, entretanto, Pizarnik acrescenta este dado:

📔 "Compruebo que no es posible escribir bajo el «dolor puro». Hace unos instantes me sentía tan, pero tan angustiada que, cuando traté de concretar por escrito mis emociones, la pluma resbaló de mis dedos llorosos."

Ou seja, novamente ela reforça que, por vezes, a depressão era tão intensa, que paralisava sua escrita. A Paralisia da Infelicidade! Não disse?!


📔 "(...) porque yo no pedí nacer en forma de signo de interrogación (...)"

Nascer em formato de ponto de interrogação… Não é esplêndido?! Penso que, se eu juntar essa ideia ao bordão da personagem Settembrini, do livro A Montanha Mágica (Thomas Mann), chegarei à definição perfeita da minha pessoa: um ponto de interrogação que leva uma vida horizontal.

Uma interrogação horizontal! 


📔 "(...) el viento es un trozo de oxígeno disfrazado de fantasma, (...)"

Outra analogia fabulosa – vento como um tanto de oxigênio disfarçado de fantasma. Pizarnik me ofereceu a oportunidade perfeita para comentar uma resenha do novo livro da fotógrafa Rachel Cobb, Mistral, no qual ela se propôs a fotografar o invisível: o vento! W. Scott Wolsen, resenhista do artigo (disponível aqui), introduz o texto comentando um divertido enredo da antiga série de TV Mad About You, no qual Yoko Ono contrata o protagonista para que ele produza um documentário que inclua imagens dos ventos nos canyons de Nova Yorque. Sem surpresa, a empreitada fracassa, afinal como seria possível filmar o invisível? Pois Rachel Cobb foi lá e mostrou como é que se faz, conforme estas imagens extraídas da resenha podem comprovar:

Rachel Cobb, Wind Festival
Rachel Cobb, Wedding 02
Rachel Cobb, Evening Walk
Mediante feliz coincidência, encontrei, dentre as inscrições para o prêmio de melhor fotografia da National Geographic deste ano, uma foto de M. Engelmann que capta algo semelhante (especialmente com a Evening Walk). Na linda captura, observamos que os galhos das árvores na montanha alemã Schauinsland ficam inclinados na direção em que sopram os intensos ventos do oeste.

M. Engelmann
No entanto, bancando-se a crítica chata, é possível constatar que o mote da piada de Mad About You não foi prejudicado pelas fotos de Cobb e Engelmann, uma vez que os fotógrafos registraram os efeitos da ação do vento sobre seres/objetos/natureza, mas não o vento propriamente dito. Nesse estágio de meus devaneios, trouxe para a discussão o conto The Haunted House (A Casa Assombrada – falei dele aqui), de Virginia Woolf. Assim como ocorre com o vento, a narradora não consegue enxergar os fantasmas, mas somente o quê? Exato: os efeitos da ação dos fantasminhas - uma batida de porta, um copo que cai no chão etc. Por tudo isso, achei realmente encantadora a metáfora bolada por Pizarnik.


📔 "el reloj es un viejo que murió de un ataque al corazón y luego resucitó (para vengarse de los que se sentían molestos con el ruido de sus latidos)." 

O relógio é um homem velho que morreu de um ataque cardíaco e depois ressuscitou (para se vingar daqueles que se sentiam incomodados com o barulho de seu batimento cardíaco).
Nunca mais olharei para um relógio do mesmo jeito. Outra certeira.


28 de Septiembre

📔 ¿Quién me enseñó el nombre de Shakespeare? Nadie. Nací con este nombre grabado a priori en mi nebulosa. ¡«Esto» es eternidad!

Possível firmar conexão direta com Borges, é claro; visto que essa concepção permeia toda a obra dele. No conto O Imortal, conforme divaguei aqui no blog, Borges defende justamente o mesmo que Pizarnik aí: a imortalidade, da qual deriva a eternidade, provém dos livros. Você, passarinho, recorda-se de quando ouviu o nome do Bardo pela primeira vez? Será que Shakespeare já faz parte de nosso código genético?!

📔 "Una humilde mujer ha tocado el timbre. Viene a ofrecerse como sirviente. La miro: morena, mal vestida, grosera, con una horrible voz agudizada por el hambre (quizás). Le hablo. Para mí, su imagen no es más que una experiencia, es un «modelo» de la clase que representa. Nuestra conversación merece de mi parte la consideración de un juego empírico. Y, ¿cómo será para ella? ¡Ah! Es algo muy serio. Acá se debate su trabajar o no; su vivir o no; su subsistir o no… Creo que no fue posible hallar un golpe más brusco para mi angustia trascendental."

Esse tipo de autocrítica aparece recorrentemente nas palavras de Pizarnik. Ela faz chacota de si mesma, da dor que parece-lhe risível e simplória, considerando-se que a vida dela, quando analisada pela lupa da consciência, não oferece razões que justifiquem tamanha tristeza.

O confronto com outra mulher cujas aflições existenciais correspondem ao “será que arrumarei trabalho? será que terei o que comer amanhã?” efetivamente não aquieta o conflito interno da autora, segundo a narrativa acima. Perspectiva: a valiosa joia que também é uma merda.

A zombaria auto-depreciativa rende, inclusive, versos:

📔 (...) ¡Háblenme de gitanas sucias y despatriadas!
     ¡Háblenme de estrellas sin cielo!
     ¡Háblenme de flores sin pétalos!
     ¡Yo, sólo yo sufro! (...)

📔 "Atisbó su alma para comprobar el efecto que le producía esta palabra fatal: morir. No. Sólo nada. Su alma asentía en silencio. Ya no le importaba no ser. Quiso sonreír y el llanto sobrevino. ¡No ser! Y ahora, ¿acaso ella era? ¿Qué era? ¡Un grito de dolor! Un simulacro fastidioso de agonía humana que ocultaba un prosaico y pequeño fracaso: ¡el de su vida!

(...)

Trató de ocultarse, de sonreír aun cuando la falsedad de su alegría fuese conciente."


Sim, suponho que aqueles versos do poema O Quarto do Suicida, de Wislawa Szymborska

aludem justamente à ocultação referida por Pizarnik. Trata-se de processo extenuante e frágil, que costuma ruir diante das mais tolas pressões externas.


Para o primeiro caderno, foi isto aí. Super alto-astral, hein?