16/09/2021

[OFF-TOPIC] Here I am now, entertain me; a denial, a k-drama


Venho por meio deste
confessar que me meti com drogas pesadas: dramas coreanos. Na tentativa de ilustrar o efeito nefasto da experiência, repasso os cálculos aproximados: no período de 07 dias (dos quais quatro foram dias úteis de trabalho), assisti a insanos 36 episódios; do que resulta um total de +- 46 horas vendo k-drama — MEU.DEUS. O potencial aditivo dessas tranqueiras é tão alto que, no futuro, evitarei começar um possível novo draminha no meio de uma semana normal. Dada a singularidade do fenômeno, anotarei neste post alguns comentários sobre as séries a que assisti: Pousando no Amor e Vincenzo. Exceto por duas prévias investidas frustradas, este foi meu primeiro contato com k-dramas, portanto obviamente não sou expert no assunto — ou seja, dificilmente escreverei alguma novidade para quem manja do tema. Bora lá!

📺 Primeiro, delato a culpada pela minha derrocada (rimou!): uma amiga disse ter visto Pousando no Amor e se lembrado de mim. Quando li a mensagem, pensei (admito envergonhada) "como assim um troço com esse título brega remete à minha pessoa?". Superada a momentânea crise identitária, e considerando-se que a amiga é querida e me conhece bem, dei uma chance pra série e, já no primeiro episódio, fui fisgada. Então, ficou a lição: amiga que traz recomendações certeiras é coisa pra se guardar dentro do coração. (De verdade, a lembrança dela me deixou bastante feliz; e já agradeci-lhe efusivamente.) No entanto, ressalto que Vincenzo foi escolha minha (creio que ela jamais veria, mas insistirei), e: QUE CAZZO, É MELHOR AINDA!!!!!!!

📺 Essas produções são empestadas de clichês e fan services, mas os roteiristas os usam de um jeito super esperto, sem se levarem muito a sério (rolam diversas piadas meta no Pousando no Amor) e sem fazer com que eu me sinta uma tonta (ok, talvez um pouquinho). Houve várias cenas em que eu conseguia enxergar os roteiristas piscando pra mim; de modo que adoraria conhecer o processo criativo deles — tipo, de onde desencavaram a ideia de bolar um John Wick mafioso, ítalo-coreano, com cara de bebê, que xinga em italiano, veste ternos impecáveis e é aporrinhado por um pombo?! (Vincenzo) Gênios! [*Compartilho que, num vídeo com o roteirista e a diretora de Vincenzo - link aqui -, obtive informações valiosas.] No mais, vale destacar que esses k-dramas também parecem adotar uns tropes algo específicos, que despontam reiteradamente, o que me faz suspeitar da existência de um check-list de cenas que sempre devem constar em qualquer trama coreana. Ah, e teorizo existir esta regra de ouro: não importa qual seja a história, sempre deve haver ao menos um romance. Vou reclamar? Claro que não. (**Contudo, fiquei apoquentada quando o roteirista de Vincenzo me lembrou que ele é um homem hétero de ~40 anos?, casado, escrevendo romance para uma série de TV. Oh, boy; que cazzo.) Dito isso, registro uma importante crítica negativa: a criatividade e engenhosidade dos roteiristas se sustentam apenas durante +- a primeira metade das séries, enquanto os episódios restantes são pura encheção de linguiça recheada com um loop de reciclados expedientes narrativos do início. Por exemplo, Pousando no Amor é, nos primeiros ~8 episódios, uma comédia romântica gostosinha e divertida de ver, daí a narrativa descamba para um romance dramalhão com muita choradeira, e fica difícil suportar (o casal secundário salvou minha vida). Tanto é que, embora eu tenha começado Pousando no Amor super animada, concluí a série com certa birra e uma sentimento amargo no cuore. No fim das contas, persiste-se assistindo no esquema de maratona simplesmente por causa da enorme curiosidade para saber como as sandices acabam; não importando que seja fácil imaginar como será.

📺 Finalmente entendo melhor os ânimos exaltados das fãs da BTS, pois me dei conta de que os coreanos, quando inventam ser bonitos, não brincam em serviço. Poxa, lembrei agora que minha mãe, vendo comigo o filme Parasita, até comentou o quanto o Sun-kyun Lee é charmoso (lembra, mãe?). Enfim, não nego que me agarrei nesses dois k-dramas sobretudo porque queria continuar olhando os rostos perfeitos dos dois galãs. Na moralzinha, espie estes dois tontos — Hyun Bin (esq) e Song Joong-ki (dir):
Um dos tropes reiterados, inclusive, é o de fazer as próprias personagens da série falarem toda.fucking.hora o quanto esses caras são bonitos. Até a câmera se apaixona por eles, dados os inúmeros e generosos close-ups de seus rostos. Uma vez que a beleza dos atores é óbvia (ninguém em sã consciência precisa ser convencida desse fato); não entendo por que recorrem tanto a isso — irrita um bocadinho, pessoal. Suspeito tratar-se de mais uma situação em que os roteiristas nos dão uma piscadela (e riem da gente!), pois sabem que estamos suspirando por esses palhaços. O Song Joong-Ki, em particular, me deixou desconfortável, porque achei que estava hipnotizada por um moleque de aparentes 22 anos, no entanto o sujeito tem inacreditáveis 36 anos. OI? O Hyun Bin, para quem eu dava uns 28 anos, tem 39. É possível notar que os atores usam base iluminadora (bb cream?), corretivo, hidrante labial (gloss incolor?), marcam a sobrancelha etc; o que, porém, não desfaz o impacto dessa genética. Jesus, multiplicai esses genes pelo mundo, é o que peço. E me ajudai a esquecer o Song Joong-ki, por favor, pois, conforme dito pela atriz Jeon Yeo-bin, o rosto dele é uma escultura. [*Tentarei desenhá-lo, sim ou com certeza? A ver como me sairei — se conseguir, aparecerá no blog.]

📺  A presença de um núcleo forte para alívio cômico das tramas é aparentemente mandatória. O problema é que o roteiro, diversas vezes, pesa demais a mão nesse recurso. Não foram poucos os momentos em que me senti assistindo a um filme dos Trapalhões ou a um episódio do Chaves — Pousando no Amor se destaca a passos largos nesse vacilo. E o estranho (que até reforça a hipótese do check-list de roteiro) é que há typecasting, quero dizer, um mesmo ator aparece em séries distintas interpretando uma personagem "engraçadinha" com as mesmíssimas características. Achei tão embaraçoso, que me consolei acelerando a velocidade de exibição (usei sem dó em Pousando no Amor). Para não soar tão amarga, afirmo haver diversos momentos em que o humor é excelente; principalmente quando usado com parcimônia, em momentos breves e criativos. As inesperadas piadinhas com o próprio país, aliás, são ótimas. Rolou imitação de cena do filme Parasita, protagonista gritando "Coreia de Merda!", um ítalo-coreano (acostumado com euro) tirando sarro de ali existir cédula única no valor de 50.000 e a formidável fala "...o Bong Joon-ho e a BTS se esforçaram tanto pela nossa imagem, daí vem canalhas como esses arruinar nossa reputação."  (Todos exemplos citados são de Vincenzo.)

📺 Voltando aos onipresentes romances: dá para acreditar que, numa série intitulada Pousando no Amor, rolam, em 16 episódios, somente quatro selinhos entre o casal protagonista? As personagens passam o tempo inteiro a se encarar e a chorar. Sexo, então, não deve surgir de jeito nenhum em k-dramas, nem mesmo a mera sugestão. Ainda ignoro se trata-se de uma escolha deliberada de roteiro, em face do perfil da audiência, ou se há algum tipo de censura televisiva. Porém, destaco que Vincenzo conta com uma bela cena de beijo que me pegou totalmente desprevenida, a qual garantiu um lugarzinho no meu cânone pessoal. P.S.: ao recordar que, neste ano, vi numa série da HBO (= White Lotustotalmente excelente) um ator enfiar majestosamente a cara na bunda do coleguinha de cena, caí na gargalhada. Como pode, né? Eita, lembrei que, em série britânica (Cucumber), vi até close-up de pênis. É, agora sei que não posso esperar esse tipo de coisa dos k-dramas; e tudo bem. Hum, mas será que todos seguem realmente o esquema "para toda a família"? A pesquisar. Acrescento que, numa entrevista, o Song Joon-ki me chamou atenção para o fato de que, em Vincenzo, é a mina quem toma a iniciativa, o que, segundo ele, não é comum nas séries coreanas. Intrigante.

📺 Palavrão coreano também não rola (acho que, no máximo, ouvi um "merda"); o que me fez questionar se sabem o que, afinal, é dito em italiano (na série Vincenzo).

📺 Correndo o risco de bancar a chata, denuncio que as músicas usadas na trilha sonora de Pousando no Amor são absurdamente cafonas — chuto ser regra em doramas de romance (caí num pleonasmo?). Bastava soar as primeiras notas musicais, e eu queria me enfiar debaixo da mesa, tamanho era o constrangimento. Vincenzo, por sua vez, usa uma trilha instrumental muito legal, feita especialmente pra série, que em nada ofende os ouvidos. Aproveito para, novamente, firmar um paralelo com White Lotus (é, não a superei), série que brilhantemente usa a trilha sonora quase como uma personagem, quiçá como a própria narradora da história. Enfim, tudo isso para mandar um recado aos produtores: valorizem as trilhas sonoras e deem-lhe a devida atenção, pois ela fará ou destruirá seus trabalhos. 

📺 As múltiplas publicidades inseridas em cenas aleatórias são surreais e embaraçosas. [É comum em séries gerais da Netflix? Não sei dizer.] Alguém já viu uma CEO milionária lanchando no Subway?! Ora, nem eu, pé-rapado que sou, como no Subway, gente. E mafioso europeu rico — italiano, ainda mais! —  bebendo café instantâneo, alguém já viu? Ah, e o tanto de frango frito que comem não pode ser normal (além do mais: tenham pena dos bichos, pessoal!) Dá vontade de socar a fuça dos atores, a cada cena de publi; não minto. No entanto, me esforço para relevar, visto que essas produções coreanas, inegavelmente caprichadas, aparentam ter custo elevado.

📺  Um estranho trope reiterado, e que talvez revele algo acerca da cultura coreana (bastante capitalista?), são cenas de makeover, nas quais a personagem sai triunfalmente de um provador de loja chique. Não entendo o porquê dessa bobagem. Do que eu preciso é de mais cenas em que personagens saem arrasadas de um provador, abaladas pela experiência traumatizante, isto sim. 

📺 Esses dois k-dramas se lambuzam daquele clichê do Vilãozão mala que enche o saco a série inteira, o qual considero um porre gigantesco. Entretanto reconheço que a vilã* secundária de Vincenzo é bem interessante, possivelmente porque as decisões dela não são motivadas por simplórios sentimentos de inveja/rancor/birra direcionados ao protagonista herói/anti-herói. Bom, tomara que esse clichê não seja outra regra dos k-dramas (porém desconfio que seja).

* Dúvida: será mesmo que, na Coreia, é permitido atuar como promotor de justiça e, simultaneamente, exercer  a advocacia?! Se for, revejam aí, coreanos. 

📺 A propósito, as cenas de luta em Vincenzo são espetaculares! Fiquei impressionada. 

📺 Os espaços e paisagens da Coreia aparecem pouco em cena (detalhe: em Vincenzo, descobri que houve intenso uso de CGI, inclusive para reproduzir os cenários da Itália), no entanto essa impressão pode simplesmente resultar do fato de que Seul é uma cidade modernosa com muito concreto, sem destacada personalidade. [*Perdão, Coreia, mas é o que pareceu.] Para aproveitar a rivalidade Japão X Coreia (esses k-dramas apontam que a treta segue firme e forte), digo que, nessas duas séries, não surgiram os belos cenários que habitualmente vejo em produções gravadas no Japão. Em outras palavras, os dois draminhas não me deixaram com vontade de visitar a Coreia. [Não que eu tenha condições de ir pra lá assim tão facilmente, veja bem. Fiz o registro apenas porque, quando vejo séries ambientadas em outros países (fora do eixo EUA/UK), adoro reparar no cenário local, do que costumeiramente resulta a vontade de conhecer o lugar. Por exemplo, depois de Shtisel, decidi que me esforçarei para conhecer Israel antes de morrer.]

📺 A língua, por sua vez, me intriga; e me interessa bastante entender como funciona. A partir das intensas 46 horas durante às quais expus meus ouvidos ao coreano (a propósito, a sonoridade do idioma me agrada), consegui captar que ele teoricamente adota uma sintaxe particular (predicados / complementos / adjuntos iniciam as frases?) e não fui sequer capaz de identificar como falam o Bom dia, Boa noite, Obrigada. Sendo honesta, mal compreendo a pronúncia dos nomes das personagens (não é exatamente como lemos em português). A única palavra que aprendi e que ficou gravada na cabeça foi, inesperadamente, 엄마 (Eomma) - Mãe. Se isso reflete algo sobre o país, é a pergunta que fica. 

E surpreendeu reparar que, ao que parece (não tenho certeza), eles têm dificuldade para falar inglês, o que reforçaria uma suposta peculiaridade do coreano em relação a outros idiomas. Antes dessa experiência, eu chutaria, sem pestanejar, que a Coreia seria como países nórdicos, onde virtualmente todos falam inglês fluentemente, porém identifiquei indícios de que estou enganada. 

📺 Considerando-se o que escrevi, talvez esteja difícil entender por que curti tanto assistir a essas duas séries. Em linhas gerais, atribuo o sucesso ao mencionado uso astuto dos clichês de gênero, de forma que, mesmo quando o roteiro desanda, a narrativa tende a invadir a categoria "tão ruim, que fica divertido". Restou a sensação de que os k-dramas serão magníficas opções para os dias em que eu queira ver uma série leve sem grandes pretensões, um romancinho clichezento bem feito, um ator bonito ou engatar uma maratona viciante. 

📺 Para fechar, colo a página que Vincenzo e o pombinho Inzaghi ganharam no journal; acompanhados de um trecho do belo livro A Praça do Diamante, da autora catalã Mercè Rodoreda. Em Vincenzo, o pombo funciona como surreal elemento cômico, enquanto Rodoreda disse ter recorrido aos pombos para conferir à sua narrativa um clima kafkiano asfixiante — no livro, em consonância com o contexto histórico da trama (Guerra Civil Espanhola), os pombos não são, de fato, tão engraçados. Fascinada com o potencial narrativo desses bichinhos. 

É isso. Se panz, esta postagem terá uma segunda parte, com novos k-dramas. Tchau!

22/08/2021

Lendo Contos| O Aleph - Jorge Luis Borges / #06 - Emma Zunz

 (Editora Companhia das Letras / Tradução: Davi Arrigucci Jr.)


Aline Aimée, do ótimo canal (no You Tube) Chave de Leitura, disponibilizou resenhas em vídeo para cada um dos contos da coletânea O Aleph, de Jorge Luis Borges. Aproveitando a chance de poder contar com alguém para enriquecer minha experiência de leitura, decidi tentar incluir neste diarinho postagens em resposta aos vídeos da Aimée. Um clube de leitura formado por duas leitoras, mais ou menos. A sequência proposta para os posts é a seguinte:

Leio o conto > Escrevo e registro minhas impressões gerais  >
> Assisto ao respectivo vídeo da Aline Aimée > Complemento as impressões com as novas informações.

Se eu manjo de Borges? Claro que não. Dele, li somente Ficções, e já foi suficiente para que eu me apaixonasse pelo autor. Isso me impedirá de passar vergonha (mais uma vez) neste blog? Deveria, porém nem vai. ¯\_(ツ)_/¯   Ah, e o ritmo de leituras/postagens será indefinido.

LINKS:
- Minhas postagens:
   #01 - o imortal,
   #02 - o morto,
   #03 - os teólogos,
   #04 - história do guerreiro e da cativa- Playlist de vídeos da Aline Aimée - Chave de Leitura - #LendoOAleph: link 1
- Vídeo da Aline Aimée sobre emma zunz: link 2

** RISCO DE SPOILERS **

[Impressões pessoais após a leitura do conto:]

A primeira leitura de Emma Zunz me deixou no vácuo, causando-me a sensação de um ponto fora da curva borgiana (daquela que ora conheço; claro). Daí, optei por deixar o conto encostado, relendo-o vez ou outra, na esperança de que meu inconsciente o digerisse e me regurgitasse algo — ou, como habitualmente ocorre, na esperança de que eu esbarrasse numa obra que me ajudasse a melhor compreendê-lo. Hoje me dou conta de que um ano e meio já se passaram (!) e: nada. Ou quase nada. Não nego persistir um bocado encafifada com Emma Zunz, mas decidi que é hora de embarcar no esforço de organizar as ideias, sobretudo porque as recentes leituras/reflexões que fiz acerca de romances policiais (ajuda recebida de Georges Perec + Todorov) me sopraram que os paralelos que costurei, desde a primeira leitura, com outros dois romances é um ponto de partida bastante legítimo. 

Não sei se a ausência de romances policiais/thrillers entre minhas leituras justifica, mas é fato que não costumo me deparar com passagens literárias que descrevem personagens executando o plano de assassinato de outro ser humano. Possivelmente por isso — também não sei se justifica — certas imagens de Lolita e Ruído Branco, relativas exatamente a tais descrições, ficaram gravadas em minha memória, feito cicatriz. Logo, não me surpreendeu ser transportada de volta, pelas mãos de Emma Zunz, aos instantes nos quais Humbert assassina Clare Quilty e Jack (quase) assassina Mink. Dessa maneira, refleti em conjunto as experiências dessas três personagens e, a seguir, listarei algumas questões relevantes que pude identificar. [Disclaimer: faz muito tempo que li Lolita e Ruído Branco; portanto, ao apelar às minhas lembranças, é possível que eu incorra em imprecisões.]

(1) Os momentos preliminares, que prenunciam o bote
Chama atenção o quanto os autores investem na longa descrição — minuciosa, sem pressa; em flagrante oposição ao estado psíquico da/o assassina/o — daqueles instantes que antecedem o assassinato; resultando numa dramaticidade e suspense que, comicamente, me remetem à forma com que documentários sobre animais narram, sei lá, o leão se preparando para matar a zebra. Ora, o conto de Borges, sendo um tanto estrita, constrói-se apenas mediante tal artifício descritivo. Aliás, é muito provável que esse aspecto formal — do qual resultam imagens tão cinematográficas e vinculadas a sentimentos de intensa excitação — seja o efetivo responsável pela marcação das cenas de Lolita e Ruído Branco em minha memória de leitora. Além disso, é curioso que Nabokov tenha escolhido o período diurno para ambientar a preparação de Humbert, pois a noite, escolhida por Borges e DeLillo, aparenta ser um momento mais seguro para que o autor consiga provocar no leitor a almejada tensão/expectativa.

Outra noção marcante dessas descrições corresponde ao perfil dos caminhos por onde as personagens passam antes de proferir o golpe final; espécies de labirintos oníricos escondidos nos espaços urbanos. No livro Crime Fiction (The Cambridge Companion), Laura Marcus comenta que, segundo Chesterton (queridinho de Borges, por sinal), a ficção detetivesca é a poesia da cidade inscrita em hieróglifos urbanos; o que, na opinião de Marcus, abriria esse gênero na direção de duas ordens: aquela em que razão e lei prevalecem e, em oposição, aquela marcada pelo enigma e o fantástico. No conto de Borges, Emma Zunz serpenteia pelo porto [lembrei da segunda temporada de The Wire (HBO), ambientada no porto de Baltimore! coincidência? duvido], por bares e vielas; Jack (Ruído Branco) dirige por vias escuras, desérticas, locais que, dada a descrição de DeLillo, sequer lembram este mundo. Opa!, fisgarei essa deixa para lançar uma pergunta: o plano de assassinato exige que as personagens adentrem noutra realidade?? Ou mesmo que construam outra realidade na qual entrar? Suponho ser exatamente isso. O crítico Floyd Merrell explana bem o processo de construção da nova realidade, no qual incorre Emma Zunz (traduzo livremente):
"... Emma Zunz é bastante pragmática. Ela reconstrói sua realidade de modo que passe a atender a seus propósitos. Ela deseja vingar o pai, cuja morte decorreu largamente das ações exploradoras e repressoras do chefe. Então ela perde a virgindade para um marinheiro e, depois, atira no chefe do pai, contando à polícia que o morto a havia estuprado e que, portanto, ela meramente se defendeu. A realidade de Emma é dolorosamente real, (...) ela usa seu mundo da melhor forma que conhece, conformando-se a ele, ao mesmo tempo em que rebela-se contra suas injustiças, a fim de atingir seu objetivo."

                                            — Floyd Merrell; The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges 

É importante ressaltar que, conforme a leitura desse trecho crítico aponta, os assassinos são sujeitos ativos nesse processo de remodelação da realidade; quero dizer, são eles próprios quem deformam a realidade (ou: constroem a nova realidade), para que ela passe a se alinhar aos seus interesses prementes naquele instante específico — que, no caso dessas três personagens, relaciona-se ao ímpeto da vingança. E, como estamos falando de Borges, é óbvio que esta nova realidade pertence, igualmente, a um Tempo diverso: "Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações desconexas e atrozes,...".

Acrescento que, ao folhear Ruído Branco antes de escrever este post (o li em 2019), reencontrei uma passagem que me fez reparar noutro aspecto peculiar: esses assassinatos ocorrem em espaços fechados; digo, Emma, Humbert e Jack entram (ou invadem, como queira) uma casa, a fim de cometer o planejado assassinato. Esse movimento de passagem, do aberto para o fechado, também me parece significativo para a hipótese de transição entre realidades distintas. Transcrevo o intrigante trecho de Ruído Branco ao qual me refiro:
"By coming in here, you agree to a certain behavior," Mink said.

"What behavior?"

"Room behavior. The point of rooms is that they're inside. No one should go into a room unless he understands this. People behave one way in rooms, another way in streets, parks and airports. To enter a room is to agree to a certain kind of behavior. It follows that this would be the kind of behavior that takes place in rooms.

                                                                         — Don DeLillo; White Noise (Ruído Branco) 

Ou seja, a narrativa de DeLillo, mediante essa fala de Mink, propõe que entrar num quarto, um espaço fechado, implica assumir um comportamento diferente daquele em espaços abertos. Então, ao penetrar nesses espaços, as personagens assassinas continuam a ser a mesma pessoa? Estaríamos falando, assim, de outra realidade E de outra identidade? Opa!, agarro essa segunda deixa para fixar o próximo item desta lista.

(2) "(...) quem sabe; já era a que seria." — Borges; Emma Zunz.
Quando Humbert confronta Quilty, ele se apresenta como o pai de Dolores, acusando-o de tê-la raptado e estuprado; em outras palavras, Quilty torna-se o único responsável pela desgraça que ocorrera na vida de Lolita. Humbert, naquele instante, deixa de ser Humbert; não tem mais culpa de coisa nenhuma, passando a ser apenas um papai que sofre e vinga a violência cometida contra a filha amada. Acredito que Humbert e Quilty se aproximam a um Duplo, porém com a notável ressalva de que é Humbert quem força esse Duplo ao se posicionar artificiosamente no polo oposto ao de Quilty, na tentativa de que deixem de corresponder a uma identidade em tudo equivalente. 

Minha leitura de Emma Zunz seguiu caminhos similares àqueles que percorri a partir da cena de Nabokov. Embora a narrativa de Borges não permita acessar o íntimo de Emma, teorizei, mediante os subsídios textuais fornecidos, que a notícia do falecimento do pai inundou a personagem de sentimentos de culpa: se Emma tivesse revelado a verdade acerca do crime pelo qual o pai fora injustamente acusado, será que ele teria se suicidado? Quer dizer, penso que a personagem entrou na paranoia de questionar se ela poderia ter evitado a morte do pai. Seguindo esse raciocínio, especulo que, para matar Loewenthal, Emma precisa projetar toda essa culpa nele — à semelhança do que fez Humbert. Inclusive, antes de efetivamente apertar o gatilho, ela já está convicta de que fora Lowenthal quem a estuprara, no entanto o leitor sabe que a decisão de transar com o marinheiro foi única e exclusivamente dela.

"Diante de Aaron Lowenthal, mais que a urgência de vingar o pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje por ela sofrido."

A assertiva destacada acima, ao mesmo tempo em que força a pergunta, lança a resposta óbvia: e como, com que recurso esses assassinos conseguem remodelar a realidade e a identidade; passando a experimentar um outro tempo? Elementar, meu caro Uátson: via relato, narrativa, ficção. [Vale lembrar que Humbert, "convenientemente", é um tonto das letras, não é?]
"Relatar com alguma fidelidade os fatos daquela tarde seria difícil e talvez improcedente. Um dos atributos do inferno é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e talvez os agrave. Como tornar verossímil uma ação quase desacreditada por quem a executava, como recuperar aquele breve caos que hoje a memória de Emma Zunz repudia e confunde?"
Eu sei, eu sei; ninguém aguenta mais esse papo de narrativa, mas suspeito de que o fastio geral é mera decorrência da plena ciência de estarmos diante de um fato incontornável da vida humana (e inumana até). O crítico Roberto González Echevarría discute diretamente a confluência entre crime e narrativa, na obra de Borges (traduzo livremente): "Tanto no crime quanto na ficção há um esforço para esconder os mecanismos da mentira que, com todas suas conotações morais, funciona como o incentivo. Emma executa o que acredita ser um crime perfeito, do mesmo modo que um escritor busca escrever uma história perfeita." (The Cambridge Companion to Jorge Luis Borges)

Persistindo nessa reflexão, esta frase do conto borgiano me atrai em particular:

'...e o singular alívio de estar afinal naquele dia. Já não tinha de tramar e imaginar, dali a algumas horas chegaria à simplicidade dos fatos."
Quer dizer, esse processo de elaboração, via narrativa, de uma outra realidade e identidade é exasperante, não é algo que ocorre facilmente, sem dor alguma. — Escritores que o digam, imagino. — A propósito, o momento do assassinato faz com que o leitor compartilhe com a personagem assassina do mesmo alívio: a vítima morreu, encerrou o suspense e tensão, o fim da história chegou e, assim, ninguém precisa sofrer acompanhando/elaborando uma narrativa. Entretanto a cena de Ruído Branco subverte, até certo ponto, precisamente isso e, na verdade, é o que mais me marcou. Explico: disparados os tiros, ao ver o corpo ensanguentado à sua frente, Jack parece ser lançado para fora da realidade e identidade que construíra a fim de conseguir matar Mink. Em outras palavras, os disparos não trazem a Jack o alívio, mas sim o desespero de perceber que acabara de atirar contra um ser humano que, em consequência, morreria rapidamente, caso ele não fizesse algo para ajudar. Essa súbita mudança de chave no comportamento de Jack me surpreendeu bastante. 

Na sequência, cabe colar o trecho final de Emma Zunz:
"Com efeito, a história era incrível, mas se impôs a todos, porque substancialmente era verdade. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que sofrera; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios."
Considerando-se o estereótipo do judeu religioso e avarento ao qual recorre Borges no conto*, talvez parecerá provocação minha trazer Amós Oz para esta conversa, no entanto não é (acho). Em Os Judeus e as Palavras, Amós e Fania, ao comentar a eterna discussão acerca da veracidade do que está escrito nos textos bíblicos, escrevem algo de tocante perspicácia, que dialoga demais com o parágrafo final de Emma Zunz, transcrito acima:
"Mas os autores existiram, e sua linguagem existiu. Quem inspirou essas histórias? De onde vieram os heróis e heroínas, os enredos e fábulas, os diálogos e expressões? Da vida real, foi daí que vieram. De linhas de textos.
Um arqueólogo poderá se preocupar com o fato de os relatos bíblicos serem mera "ficção", mas nós viemos de um lugar diferente. "Ficção" não nos assusta. Como leitores, sabemos que ela transmite verdades."
 
                         — Amós Oz, Fania Oz-Salzberger; Os Judeus e as Palavras (Tradução: George Schlesinger)

Ou seja, toda ficção se sustenta numa verdade.
 
* [ADENDO] A caracterização de Loewenthal me intrigou e incomodou e, de fato, não consegui atinar por que Borges fez essa escolha narrativa. Questiono se esse artifício inadvertidamente (?) denuncia o antissemitismo disseminado, uma vez que me parece restar subentendido que o fato de Loewenthal ser um judeu avarento, quem sabe até criminoso, funciona como elemento que, para muitos (lamentável e infelizmente), torna a história verossímil, real. Sei lá, foi o máximo que consegui concatenar a respeito disso.

Pronto; encerro minhas groselhas aqui. Hora de dar play no vídeo da Aimée.

[Vídeo da Aline Aimée - Canal Chave de Leitura:]


[Comentários pessoais pós-vídeo:]

Opa, esse meu diálogo com Aimée ficou interessante, pois acabamos seguindo caminhos um tanto diferentes, ainda que tenhamos tocado em pontos comuns: em meus comentários, persegui muito mais os aspectos formais, numa reflexão a partir de romances policiais — em paralelo com outros dois romances—; enquanto Aimée destacou sobretudo os fundamentos psicanalíticos de Emma Zunz. Confesso que, embora seja impossível deixar de franzir a testa durante a leitura do trecho "Pensou (não pôde não pensar) que seu pai fizera com sua mãe a coisa horrível que agora lhe faziam.", esse lado psicanalítico e a sexualidade aparentemente mal resolvida de Emma Zunz não me instigaram durante (ou após) a leitura. Quer dizer, justamente num conto "de personagem", conforme disse Aimée, eu persisti focando nos elementos da engrenagem ficcional. ¯\_(ツ)_/¯

Elenco, a seguir, algumas novas reflexões proporcionadas pelo vídeo da Aimée:

⇰ Todo esse papo psicanalítico me fez perceber que deixei de mencionar outra conexão evidente entre Emma Zunz, Humbert e Jack: essas três personagens não apenas executam planos de vingança, como também se vingam de violências de natureza sexual. A distinção evidente é que, no caso de Emma, ela assume, simultaneamente, os papéis de "vítima" (questionável, eu sei) e vingadora — os outros dois vingam uma mulher (o caso de Humbert, então, nem se fala: na real, pensando nesses termos, o tonto deveria ter atirado nele mesmo);

⇰ Aimée questiona os motivos que fizeram Zunz submeter o próprio corpo àquela violência, e acredito que meus prévios comentários trataram disso: porque foi o artifício encontrado para cometer o crime perfeito, para montar a genial narrativa que evitaria sua prisão pelo assassinato de Loewenthal. Considerando-se os elementos textuais relacionados à sexualidade da personagem, não surpreende que esse tenha sido o caminho vislumbrado — conforme escreveu o crítico Floyd Merrell naquela passagem que transcrevi: "ela usa seu mundo da melhor forma que conhece."  No mais, quando Aimée comentou que teve a impressão de que Emma não julgava que a honra do pai seria motivo suficiente para matar Loewenthal, sendo necessário criar um outro; fui catapultada para o que eu escrevi em meus comentários sobre a peça Othello, de Shakespeare! É que, naquele post, escrevi justamente que, sob uma perspectiva moral, Iago parecia se sentir desconfortável por fazer tudo aquilo contra Othello motivado apenas por suas ambições, de modo que ele inventa (e força-se a nela crer) a história esfarrapada de que sua mulher o havia traído com Othello. Legal; amei essa conexão.

⇰ E eu que, inadvertidamente, mergulhei na aparente paranoia de Emma, pois nunca duvidei do suicídio do pai dela? Ai, jizuiz... Veja, "tomar por engano uma forte dose de Veronal" (veronal  = sedativo barbitúrico) não é uma descrição que sustenta bem a versão de morte acidental. (rimou!) O mais provável, diante dessa informação, é que ou o pai dela foi assassinado (um boa noite, Cinderela fatal) ou se suicidou. Contudo, reconheço que complica demais quando o narrador nos diz que "Emma leu..."; digo, entre o que ela leu e o que efetivamente estava escrito pode haver uma grande diferença realmente. No entanto, pensando com mais cuidado agora, a descrição da carta fala um bocado a favor de que o pai dela foi assassinado, hein. Se duvidar, é o próprio assassino quem redigiu a carta. EITA!


Curti essa experiência de leitura compartilhada; achei que ficou bastante rica. Mais uma vez, valeu, Aimée.