13/09/2020

Maybe all I need is a shot in the arm

Shannon Cartier Lucy; Naptime (2018)
01
No vídeo em que apresenta sua biblioteca para o canal Les Inrockuptibles (link aqui: X), Leila Slïmani compartilha uma singela história que marca a relação dela com Anna Karênina, de Tolstói, e com a própria literatura. A autora relembra ter sentido muita raiva ao ser chamada pro jantar por sua mãe; quando, no quarto, ela lia o livro russo, mais precisamente a página <SPOILER> em que era narrado o suicídio da personagem Anna Karênina. Slïmani explica que sua revolta decorria do fato de que, para ela, era inadmissível pensar em tais trivialidades - jantar?!-, quando Anna Karenina simplesmente acabara de morrer.

Durante este período de medidas de isolamento e distanciamento sociais, vivi algo similar ao relatado por Slïmani. Quando dei por mim, me peguei preocupada com as Irmãs Makioka (! - personagens do livro de Junichiro Tanizaki), consumida pelas seguintes reflexões e aflições: mas e quanto à visita anual das irmãs às cerejeiras do jardim sagrado no templo Heian, em Kyoto, no mês de abril?! E a tradicional foto das quatro debaixo da cerejeira localizada à beira do lago Hirosawa, com a montanha Henjoji ao fundo?! Não vai rolar?! Ah, não! Puxa vida, como estará Sachiko? Que pena. De início, me senti meio abestalhada, temerosa de ter virado uma Dona Quixote, entretanto lembrei das palavras de Slïmani e sosseguei — "Foi quando, pela primeira vez na vida, percebi que as pessoas não se dão conta da importância da literatura. Eu estava completamente alheia às trivialidades da vida."

Com a leitura de Os Judeus e as Palavras, também encontrei conforto no trecho em que Amós Oz e Fania Oz-Salzberger comentam que pouco importa se as personagens bíblicas, por exemplo, existiram ou não, porque todas vieram da vida real, vieram de linhas de textos cujas ideias transmitidas existiram e ainda existem. "Como leitores, sabemos que a ficção transmite verdades". Quer dizer, será que, neste exato momento, não há uma família japonesa desolada porque se viu impedida, pela pandemia, de seguir sua tradição de visitar as cerejeiras em flor? Pois meu pensamento está com ela. Por sinal, o último conto que li de Borges (Emma Zunz) igualmente tocou nesse assunto (≅ os detalhes das histórias são ficcionais, enquanto os sentimentos...), mas este é tema da próxima postagem da série de leitura de O Aleph.

02
Suponho que uma das coisas que torna momentos como este verdadeiramente difíceis é termos pessoas em nossas vidas com as quais nos importamos plenamente, não? O tal, digamos, "Sustentável (mas a que custo, meu deus!) Peso do Ser". Esse desvario cafona me ocorreu em resposta a uma cena tragicômica do belo filme Starlet (Uma Estranha Amizade; 2012), do diretor Sean Baker. A obra narra a gradativa amizade que se estabelece entre duas mulheres solitárias da Califórnia, uma jovem e uma idosa. A senhorinha resiste rabugenta às investidas persistentes da garota, sobretudo avessa ao cachorrinho que era carregado a tiracolo pra todo lado, tratado praticamente feito bebê. Quando as duas estão um tanto mais próximas, a jovem pede que a senhorinha fique de babá do cachorro, enquanto ela trabalha. O experimento não dá muito certo, pois o cão foge e a pobre senhora, totalmente exasperada, gasta horas procurando-o pelas ruas do bairro. Não demora, e logo o filme faz o que filmes fazem melhor; digo, entrega a famigerada imagem que fala por mil palavras:
Aos prantos, ela cambaleia desolada no meio da rua. A edição do filme é massa, visto que, desse ponto, corta diretaço para a senhora devolvendo o cachorro à moça, ao mesmo tempo que ordena-lhe que desapareça pra sempre e que não a aporrinhe mais os pacovás; sem qualquer explicação. E não é assim? Assim é.

03
Os meses de março e abril, em particular, foram marcados por suadeira nas mãos, angústia opressora e contínua leitura de artigos sobre a doença, tendo as notícias da Globonews como trilha sonora. Graças a essa rotina, acredito ter conseguido capturar uma imagem da melhor biblioteca de jornalista dentre aquelas que têm aparecido durante as atuais transmissões de TV. Falo do escritório/biblioteca de Miriam Leitão, antes do suposto upgrade:
Por onde começar??!! 
- Máquina de escrever fabulosa (quero);
- Pôster da Clarice Lispector;
- Outro pôster ali atrás de algum livro da editora Record?;
- Quadros... eu deveria saber de quem são, né? Vergonha; não sei (não sou das artes, me ajudaê);
- Carrinho mara de biblioteca (quero!);
- As Crônicas de Nárnia (! - #nãolinemlerei);
- Pilha de moleskines (?);
- Algum tipo de colírio para olhos (acho - é, também tenho aqui do lado);
- É uma calculadora, ali?!;
- E la pièce de résistance: a palmilha sobre a mesa (ou não é?). Como? Por quê? Um mini conto se aproxima. 

04
Boa musiquinha para a presente realidade, esta do Caribou. Saca o refrão em loop eterno:

She's going home
Baby, I'm home, I'm home, I'm home

(*Aliás, pera, canção das privilegiadas..., né? Ontem, loser; hoje, privilegiada. So it goes.)

05
(Dado que o tema é casa:) No começo do ano, eu estava em busca de um novo apartamento pra morar (caçada interrompida pela pandemia, claro) e, além dos requisitos óbvios (preço ok, dispensa de reformas etc), eu só fazia questão de uma coisinha: VARANDA. E pra quê, né? A real é que não se constroem mais varandas e, quando o fazem, a família classe média brasileira vai lá e taca-lhe uma janela pra fechar tudo, integrando a p* toda à sala. Eu vejo as fotos nos sites de imóveis e quero morrer. Quando tomada pelo espírito meio bastante porco do "há males que vêm pra bem", ouso trepidante conjecturar que, com alguma sorte, esse vírus fará a turma dar a devida importância às varandas. Quem envidraçou e tijolou sua varanda, não pôde postar, nas redes sociais, vídeos de cantoria e festinhas nesses espaços, não é meixmo? Bem feito. É peculiar, esse habitual anseio do brasileiro de separar-se a qualquer custo do mundo exterior, de ampliar e definir precisamente os limites do seu espaço privado. 

Frustrada com a realidade imobiliária, não pude evitar que meus olhos marejassem diante deste inesperado poema da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen:

Varandas

É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste — quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha

Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade
 — Sophia de Mello Breyner Andresen

Não posso contar com arquitetos, engenheiros e imobiliárias; porém ainda posso contar com os poetas.

06
Por falar em poesia, 
a mesa de bar, tema é,
no Slam da Pandemia.
Dr. Fauci ou Carioca do Leblon?
Água ou Chandon?
Garçom, sobe o som!
Durante uma das trilhas que fiz numa viagem do ano passado (contei aqui: X), um moço do grupo se destacou por seu desconsolado praguejo: - Puta merda, tanta praia bonita pra tomar uma cerveja gelada, e eu aqui nesse perrengue. A fala dele não só alimentou ainda mais minha crise de riso provocada pela inusitada situação em que me encontrava (botando os bofes pra fora, cercada pela natureza inebriante), como também despertou certo desalento embalado por aquela assombrosa pergunta de Esperando Godot, do Beckett: We always find something, eh Didi, to give us the impression we exist? (Nós sempre achamos alguma coisa, hein Didi, para nos dar a impressão de que existimos?) Por que esse something é, pra tanta gente, o álcool? Isso me deixa destrambelhada, admito com não pouco embaraço. Ora, lá estávamos nós cercados pela, como disse deliberadamente, natureza inebriante, e mesmo assim não era suficiente. Toda aquela beleza articulada com o esforço do corpo não bastava para que o moço se convencesse de que ele estava vivendo amarradão. Não entendo; e simultaneamente estou ciente de que (1) minha reação é despropositada e (2) não tenho direito de julgar. Que as pessoas tenham encontrado um something, já é motivo para se contentar, de fato. Acho. Ou será que o álcool, na real, somente faz as pessoas esquecerem que estão à procura de um something? Caí num pleonasmo? Que confuso. Ah, e sim, meu lugar de fala é o da pessoa que não bebe. Quer dizer, curto um vinhozinho com uns queijos espertos talecoisa (#pequeno-burguesa), sabe como é, contudo a parada, pra mim, se encerra aí. Chata muito? Opa, provavelmente; mas como hoje estou disposta a ser gentil comigo mesma, argumento que apenas prefiro ficar bêbada mediante outros meios — e não; não tô falando de remedinhos.

The Hills erect their purple heads,
The Rivers lean to see
Yet Man has not, of all the throng,
A curiosity.
— Emily Dickinson

Em meio a esse conflito alcoólico, os filmes do Sang-soo Hong, que andei vendo nestes dias, só pioraram minha desorientação. Em todas as obras desse cineasta sul-coreano a que assisti, o álcool se faz presente de um modo determinante que, a princípio, me desconcerta. Em linhas gerais, a entrada do álcool nas narrativas dele serve para desarmar as inibidas e formais personagens que, então, finalmente desembucham o que de fato estão sentindo. Ou seja, o esforço exigido pela rígida performance social é posto de lado e os nós desatam, quando a galera de Hong começa a encher a cara. Pô, só eu® fico meio deprimida diante dessa dependência humana? Busquei no google artigos/críticas/análises acerca dessa presença do álcool nos filmes do cara, mas não localizei nada legal. No entanto, a entrevista que ele concedeu ao site Sofilm me ofereceu respostas valiosas, algumas das quais listo a seguir (grifos são meus):

Q- Como começou a beber? R- Eu tinha 15 ou 16 anos. Cerca de 10% dos meus colegas de turma bebiam nessa idade, (...) Os meus amigos tinham problemas familiares, todos eles. Assim, quase todos os dias, depois das aulas, nos encontrávamos para beber juntos. (...) Bebíamos muito. Realmente, muito.

↦ Q- Por que bebia tanto? R- (...) Eu estava... (longo silêncio) solitário. Eu era muito reservado. Não tinha amigos fora do meu gangue alcoólico. (...) Eu estava muito desorientado, sem objetivos ou planos para a vida. (...) Eu não sonhava com nada. Esse período de alcoolismo brutal durou dois anos (...) entre os 15 e os 17 anos. Depois comecei a beber menos, mas ainda não tinha nenhum objetivo! (...) Só queria esquecer.

↦ Q- Gostava de ler e escrever? R- Sabe, beber é algo tão poderoso, que apaga qualquer relação que se possa ter com qualquer outra coisa, apaga toda a sua energia. Mas no fundo, me senti dividido entre essas duas experiências: beber e escrever. Embora não pudesse escrever com frequência, estava sempre interessado em livros.

↦ Q- Quando bebe com os seus amigos, de que falam? R-  (...) o que faço é propor um jogo alcoólico para entornar todas. Se o jogo durar uma hora, todos acabam bêbados e não há mais necessidade de falar. Nos sentimos próximos, nos amamos, e não há necessidade de dizer bobagens pelas quais se arrepender no dia seguinte.

Q- No entanto, nos seus filmes, esses momentos frequentemente levam a situações embaraçosas, em que as pessoas falam demais. R- Sim, mas na minha vida isso só acontece quando bebo toda a noite, conversando até o amanhecer. É aí que se acaba fazendo besteira. E nem sequer é sincero, são bobagens que não se ancoram na realidade; um produto do cérebro fora de si. É por isso que eu gosto de jogos, porque não lhe dão tempo para falar. Tudo o que permitem é se embebedar, se sentir bem com as pessoas e ir para casa feliz.

↦ Q-  Então, costuma beber com os seus alunos? R- Tento evitar. (..) gastei tanta energia com eles! As conversas nunca acabam! Não suporto. Estão ansiosos por tudo, durante todo o dia, têm muitas perguntas sobre a vida.


Minha hipótese do álcool servir para promover o esquecimento da pergunta formulada pela peça de Beckett parece ter sido corroborada pelas respostas de Sang-soo. Interessante. E o que ele menciona a respeito da enorme capacidade do álcool de bloquear qualquer relação que possamos ter com outras coisas na vida me tocou em especial, pois parece ser o cerne do que me inquieta na relação firmada por muitos com essa droga. A sensação é que, para realmente diversas pessoas, nenhuma ocasião será de efetiva celebração feliz com o outro, a menos que envolva bebida alcoólica. Por que sentem-se (creio) desse jeito? Também preciosa é a opinião dele de que o álcool não desperta a expressão de nenhuma verdade interior do indivíduo, mas apenas um monte de idiotices. Gosto disso, sobretudo porque desmonta a leitura que fiz de seus filmes. E, claro, para quem aprecia demais o silêncio, torna-se mais fácil entender a enorme valoração social do álcool, a partir do momento em que Sang-soo me diz que o que ele busca com a bebida é a possibilidade de não falar nada e ser feliz com os amigos de que gosta. Um brinde a isso, senhor Sang-soo.

Que dei meus últimos tostões
Por esse vinho, estão lembrados?
E seus eflúvios inspirados
Geraram tolas percepções,
Mas também verve e poesia,
E discussões, sonho, alegria!
— Alexandr Pushkin; Eugênio Oneguin 
    (Tradutor: Dário M. C. Alves)

O livro de Montaigne afinal saiu da estante, e, ao espiar o índice, tive a alegria de dar de cara com um ensaio intitulado Sobre a embriaguez. Bom, eis que saí da leitura com um aliado e tanto, pois não é que o grande ensaísta meio que concorda comigo?! Rá!, tomem essa, bebuns dos infernos. Montaigne considera a embriaguez um vício grosseiro e brutal, que destrói e entorpece o corpo. No ensaio dele, porém, consta uma lista de causos históricos que contradizem o cineasta Sang-soo Hong no que diz respeito à eficácia do álcool em fazer a turma da mesa de bar vomitar seus segredos mais íntimos. Vale ressaltar que, para Montaigne, é importante reconhecer que uns vícios são piores que outros e, nesse sentido, embora covarde e estúpido, o álcool não seria o pior e mais prejudicial à sociedade. <Aqui, admito que discordamos, porém deixo esse debate para outra ocasião. Fora que o cara fala do contexto social do século XVI; é bom lembrar.> Para não me restringir a um tolo ataque ao álcool (sequer é minha intenção), acrescento o que, segundo Montaigne, Platão afirmara acerca da embriaguez: "(...) a embriaguez é uma prova boa e segura da natureza de cada um, ao mesmo tempo que é capaz de dar às pessoas de idade a coragem de se divertirem em danças e na música, coisas úteis e que não ousam empreender em estado normal". Claro que tem seu valor, portanto. Mas tem uma pegadinha: na cartilha platônica, a bebida está liberada só após os quarenta anos. É, já suspeito quais seriam as reflexões de Platão sobre a bebedeira nos filmes do Sang-soo, sobretudo se ele fosse informado de que o cineasta começou a entornar garrafas de soju com quinze anos. 

Emet
(...)
Eu sei, também tenho ido a bares e outros lugares
igualmente reais. E tenho tido
uma vida ou mais. Mas é tempo de falares
tu, livro. Eu tenho dito.
 — Manuel António Pina


Sensação de que paguei de chatonilda ao abordar esse tema; e o pior é que nem precisava, uma vez que tudo que tentei concatenar aqui a respeito do álcool já foi dito de forma muito mais divertida pelos senhores Robert Eggers e Max Eggers, no filme O Farol (2019).

- Boredom makes men to villains, and the water goes quick, lad, vanished. The only med'cine is drink. Keeps them sailors happy, keeps 'em agreeable, keeps 'em calm, keeps 'em...
- Stupid.
- Curse me if there ain't an old tar spirit.

Mas assim, né?; não trabalhamos com intransigências, veja bem. Pra que essa besteira? Tipo, se este cara aí 👇 me chamasse pro bar, eu negaria? A resposta é: claro que não. Me liga, Lenny Bruce

"(...) Samuel Johnson (...) Tarde da noite, quando saía à procura de conversa de 
taberna, experimentava o alívio de ver suas próprias necessidades refletidas 
na companhia que encontrava: aqueles que bebiam e falavam do Homem e de Deus 
até que a luz despontasse, porque também nenhum deles queria ir para casa."

                                                                          - Vivian Gornick, The odd woman and the city

07
Uma de minhas grandes recentes descobertas (não foi a vacina, desculpa) foi constatar que, quando o assunto é cagar em locais públicos (sim, neste blog, basta um toque na barra de rolagem, e passamos do álcool à caganeira ¯\_(ツ)_/¯), o mundo conta com dois tipos de roteirista de série de TV. Esta, sim, uma escolha difícil. Ladies and Gentlemen, it's time for... THE POOP BATTLE!
De um lado, temos o querido fdp Larry David que, na S10 de Curb Your Enthusiasm (HBO), inventa abrir uma cafeteria cujos banheiros para o público não têm privadas. O mais novo empresário da Califórnia se recusa a ter de lidar com o cocô alheio em seu empreendimento. Ah, então o cliente quer cagar após o cafezinho? Pois vai ficar querendo; porque, no banheiro da cafeteria do Larry, não vai rolar.

Do outro lado, o querido entregador de maconha Ben Sinclair, na S04 de High Maintenance (HBO), nos apresenta a um pobre profissional de Mensagens ao Vivo (é esse o termo?) que, mega apertado enquanto trampa nas ruas de NY, é resgatado por uma cafeteria. O rapaz, ao sair aliviado do banheiro, agradece ao barista e se desculpa de ter defecado no sanitário do estabelecimento. A reação do barista? Abre um sorriso simpático, dizendo-lhe pra deixar de bobagem, porque está ciente do aperreio que é querer fazer cocô, quando se trabalha na rua. No universo de Sinclair, o cocô é livre.

E aí, quem leva o POOP TROPHY? Meu eu constipado que trava-me o esfíncter retal tão logo ponho os pés fora de casa fica com o Larry David; enquanto meu eu consciente de que um intestino saudável requer alívio imediato onde quer que se esteja e que, para isso, é importante ajudarmos uns aos outros, fica com o Ben Sinclair. Complicado.

Pra que escolher um, né? Amo esses dois cagões.

08
E pensar que, no começo do ano, eu estava aqui desejando bastante transa pra todo mundo, hein? How the turntables...

12/06/2020

[alinhavando] Alejandra Pizarnik; Diarios [#04]

* Proposta do post: (1) anotar trechos, (2) devanear a partir das entradas de Pizarnik, (3) dar pitacos inúteis sobre o que ela discorre e/ou (4) estabelecer conexões. Uma conversa.

✒ Postagens anteriores: #01, #02, #03.
✒ Texto sinalizado com [📔], em verde + itálico entradas originais de Alejandra Pizarnik.

Cuaderno de Agosto de 1955

📔 "En una biblioteca pública. Acabo de hallar cuatro libros magníficos. Huelen a polvo y a magia. Adoro las viejas librerías. Lo que me deja consternada es la fecha de la impresión de los libros: Pensamientos de Pascal (1927). Diálogos de Leopardi (1931). Dostoievski por André Gide (1935)… Es decir: ¡antes de mi nacimiento! ¡Cuando estaba en la nada!"

Data da primeira edição de um livro, na ficha catalográfica, fazendo as vezes de memento mori? Nunca tinha pensado nisso e não me livrarei da associação. Lembro de ter sentido sensação parecida à descrita por Pizarnik quando me vi diante da linha temporal do cosmos, apresentada por Neil deGrasse Tyson. É o tipo de imagem que coloca uma pessoa em seu devido lugar.


No livro As Lembranças do Porvir (li recentemente), escrito pela mexicana Elena Garro, há uma alusão similar a essa premissa, quando o narrador diz que, para Martín Moncada, era assombroso que seus pais, personagens enigmáticos, não estivessem estado sempre no mundo. (Tradução: Iara Tizzot) É, a criança Moncada se surpreendia com a mortalidade dos pais. Numa página adiante, porém, As Lembranças do Porvir complicou-me os pensamentos com a frase "(...) a morte é o momento precioso em que o homem recupera plenamente sua outra memória." E se apenas esqueci que perambulava pelo mundo quando, digamos, Pizarnik escrevia os diários que hoje leio?


📔 "Leo el diálogo entre «la naturaleza y el alma» de Leopardi. ¡Este hombre es un descubrimiento para mí! Me identifico totalmente con él. Y me rebelo con él. Siempre es el mismo interrogante:
(...)
Un cruel espejismo me obliga a hallarle facciones humanas (à uma almofada com aspecto de flor, verde e roxa). (Recuerdo ese diálogo entre la Tierra y la luna, de Leopardi. La luna se siente ofendida porque los humanos le encuentran o proyectan facciones como las que ellos tienen; se ofende pues lo ve egoísta.)"

Em 2018, uma matéria no site Aeon me apresentou a Giacomo Leopardi e, naquela ocasião, fiquei tão fascinada com o que Tim Parks escreve sobre o autor, que prontamente adquiri no sebo uma edição do Ópusculos Morais (Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, 1992). Saltando para 2020, descubro que Pizarnik curtia a obra do filósofo e poeta italiano. Que conexão incrível. Após tanto tempo esquecido na estante, finalmente resgatei o livro de Leopardi da poeira (leitura em curso).

O Diálogo da Terra e da Lua, citado por Pizarnik, transcorre conforme a autora o descreve; quer dizer, um papo em que a Lua se aborrece porque a Terra só consegue imaginar uma realidade lunar a partir dos elementos que constroem a realidade humana. Incluo um trecho da bronca que a Lua dá na Terra (tradução: Vilma De Katinszky Barreto de Souza): "Na verdade tu me parece pior do que uma néscia, em pensar que todas as coisas em qualquer parte do mundo sejam semelhantes às tuas, como se a Natureza tivesse tido a intenção de copiar-te, ponto a ponto, em todos os lugares. Eu digo que sou habitada e tu daí concluis que os meus habitantes devem ser homens. Advirto que não são e tu, concordando que sejam outras criaturas, não duvides que tenham as mesmas qualidades e os mesmos problemas dos teus povos, (...)". No texto de apresentação da minha edição de Opúsculos Morais, Carmelo Distante explica que a obra de Leopardi com frequência aborda a relação do homem com a Natureza, criticando a presunção humana de supor que tudo existe para seu uso e consumo, ou mesmo alertando que a humanidade não tem nenhum privilégio em relação a outros animais. Ou seja, Leopardi também se empenhava em colocar o ser humano em seu devido lugar. O que Pizarnik não inclui na entrada é que a Lua admite, sim, ter algo em comum com a Terra: a infelicidade. Aliás, a infelicidade seria compartilhada não somente pela Terra e a Lua, mas por todo o Universo. Conforme escreveu Carmelo Distante na introdução, certos diálogos de Leopardi "(...) arrastam consigo o leitor à contemplação da infelicidade universal, da qual nada e ninguém pode escapar." Sem dúvida, é uma revigorante leitura para um domingo à tarde.

No mais, acrescentaria a contribuição que o autor italiano provavelmente traria à conversa da entrada anterior sobre a mortalidade humana. Na introdução do livro, é dito que Leopardi seguia uma concepção materialista do nascimento e da morte, segundo a qual somente a matéria que jamais teve princípio e jamais terá fim é imortal. Por outro lado, no Diálogo da Natureza e uma Alma (também mencionado por Pizarnik na entrada), a Natureza tenta acalmar os ânimos da Alma temente da infelicidade em vida mediante a lembrança de uma teórica mortalidade vinculada à glória post mortem. A Natureza explica à Alma que, tal qual ocorreu com Camões e Milton, após a morte ela poderá ser celebrada e elevada aos céus pelos homens de bom senso, e os fatos da sua vida transmitidos com grande esforço através da memória; por último todo o mundo civilizado estará repleto de seu nome. A Alma, certa de que a peculiar mortalidade não a proporcionará qualquer utilidade ou alegria no período post mortem, pede para trocá-la pelo nascimento na forma do mais imperfeito ser bruto e pela morte acelerada; tudo para reduzir o sofrimento em vida. 


📔 "Simpatizamos enseguida. A veces me extraño de las simpatías que inspiro. ¿Cómo es posible?"

Pizarnik se pergunta como alguém pode simpatizar com ela, e infelizmente me identifico com esse sentimento, o qual pode levar um indivíduo a abraçar com vigor o eremitismo. Dia desses li um conto super engraçado da Lydia Davis, intitulado Kafka Cooks Dinner, no qual um cara (o próprio Kafka?)  tenta superar a ansiedade provocada pelo jantar que cozinhará para uma garota. No meio das ruminações, o cozinheiro kafkiano solta esta lamúria digna daquela de Pizarnik: "She would have been so much happier dining with another man."/ "Ela teria sido tão mais feliz jantando com outro cara."  Tive dó, mas ri um bocado.


📔 "17h: Me voy. Reviso los libros de los puestos del Cabildo. Compro cuatro. 17.30: Cruzo a la biblioteca. 18: Al café Bolívar. Leo. (Siento paz, mucha paz.) Entra una compañera."

Um dia na vida de Pizarnik: revisar livros, comprar quatro livros, cruzar a biblioteca, ir para um café, ler, encontrar-se com um amigo e sentir paz. Logo se vê que ela e Patti Smith poderiam ter sido boas amigas.


📔 "En el Atelier había dos cuadritos confeccionados por los indios del Brasil. Los materiales empleados eran puramente naturales: alas de mariposas, plumas de diversas aves, raíces secas de algunas plantitas y semillas ajadas. Representaban paisajes de la selva. El colorido tenía un exotismo maravilloso. Sentí deseos de poseerlos."

O Brasil nas páginas do diário de Pizarnik! Aproveitei para pesquisar artes indígenas brasileiras, acerca das quais sei tão pouco (vexame), porém não consegui localizar nada semelhante à obra descrita pela autora. 


📔 "Despierto angustiada después de una noche llena de sueños desagradables y fantasías voluptuosas. Todo esto me indica hasta qué punto no acepto enfrentar la realidad del «medio». Sólo me consuela pensar en el material literario que puedo obtener de estas veleidades de mi cerebro. Pero también está la sensación de pérdida de energía de la imaginación."

Pizarnik espera que os sonhos desagradáveis possam servir-lhe de material literário, mas teme que a façam perder a imaginação. Recordei uma breve frase de Borges que talvez ajude esclarecer isso: "Os sonhos são um trabalho da memória, a imaginação é um ato da memória, um ato criador da memória." Afirmar que Sonhos e Imaginação estariam indissoluvelmente conectados pela Memória me faria cair no golpe da falácia lógica?


📔 "en la librería P. estuve mirando un número de la Revista de Psicoanálisis. Había un artículo sobre la creación literaria de M. Spira. Sí. Diana, una paciente, escribe un poema (bastante bueno) y a M. Spira no se le ocurre hacer nada mejor que cortarlo en trocitos y decir «Es un ojo éste, aquél, una frente ésta, aquélla», que en lenguaje profesional viene a ser: este verso se refiere a una transferencia X, aquél a un sentimiento de culpa por el hermano. ¡Y sigue así! Mon dieu! Mon dieu! ¿Y qué me da para vivir saber que Vallejo haya sido neurótico, que Leopardi fue leptosomático, que Van Gogh estuvo internado? ¡Nada! ¡Nada! Destrozo mi frente. Arte puro. (Las señoras elegantes de la revista Sur. esas señoras, ¿hubiesen recibido a Van Gogh en sus reuniones?)"

Quando aparecem por aí, tais reduções psicanalíticas de uma obra artística também me despertam certa preguiça. No entanto, a partir do pouco que li sobre o assunto, me parece que hoje há correntes que não mais estabelecem relações assim tão tacanhas entre arte e psicanálise, nos termos criticados por Pizarnik. Resgatei uma breve citação de Tania Rivera (Livro Arte e Psicanálise) que toca sucintamente nessa questão: "É uma preocupação bem diferente com o conteúdo das obras que leva alguns autores a usarem — de forma um pouco ligeira, às vezes — noções psicanalíticas para traçar comentários de um determinado trabalho, ou ainda relacioná-lo à vida de seu autor (...). O pressuposto de que há uma relação direta entre uma vida e uma determinada obra talvez seja sempre fácil de ser confirmado, e isso se deve à maleabilidade e multiplicidade inerente a toda interpretação. No texto lido por Anna Freud na cerimônia de entrega do Prêmio Goethe da cidade de Frankfurt em 1930, que Freud recebeu tanto pelo valor científico quanto pelo alcance literário de sua obra, este declara existir entre a vida e a obra de um grande homem uma rica rede a ser tecida através da interpretação. Essa perspectiva simplifica ao extremo, porém, as múltiplas questões levantadas pela criação artística, tanto em seus aspectos histórico-sociais quanto em seus aspectos psíquicos."


📔 "Del Diario de Katherine Mansfield: «La vida no parece más que arena y serrín».
(...) Observan el libro que llevan mis manos: Diario de K. Mansfield. D. no la conoce. Me extraño. G. sabe de su vida, adaptándola en dos segundos a un proceso psicoanalítico que transforma el título del libro: Diario de una neurótica, por K. Mansfield."

Pizarnik registra o que aparenta ser outro exemplo concreto de redução psicanalítica de uma obra. 

Dia desses, li um livro atraída pelo seguinte belo título: "Dear friend, from my life I write to you, in your life."/ Querida amiga, de minha vida escrevo para você, em sua vida." Durante a respectiva leitura, me surpreendi quando a autora, a chinesa Yiyun Li, refere que o título que me encantou é, na verdade, uma frase extraída do diário de Katherine Mansfield. A respeito da frase, Li comenta (tradução minha): "Chorei quando li essa frase. Ela me lembra do garoto que anos atrás não parava de escrever relatos de seus sonhos em cartas. Ela também me faz perceber por que não quero parar de escrever. Os livros que escrevemos - passado, presente e futuro - não estão tentando dizer a mesma coisa: "Querida amiga, de minha vida escrevo para você, em sua vida"? Que longo é o caminho de uma vida para outra, mas por que escrever, senão por essa distância (...)? A mim, isso basta para que eu rejeite a redução do diário de K. Mansfield ao mero diário de uma neurótica, assim como jamais o faria em relação ao diário de Pizarnik.


📔 "Que hoy conocí a un compañero, D. Martínez, que tiene la libretita de teléfonos llena de nombres grandes: Borges, Mallea, V. Ocampo, etc. D. M. es poeta. Ni grande ni pequeño. Hace años que lucha por imponerse y lo ha conseguido. Pero hay en todo esto un fondo de suciedad que me azquea [sic]. Algo que no puedo superar. No puedo admitir que mi relación cordial con Vicente Barbieri sea un puente para llegar a relacionarme con otros y luego otros y luego vendrá la consagración y la codiciada libretita telefónica. Se me ocurre que debo tener una concepción del artista un tanto retrógada. Que ya no hay lugar para el solitario, neurótico y bohemio artista (romántico). Que ahora un artista es un ser sociable y reflexivo como cualquiera que no lo es."

Esse lance de networking é um troço muito embaraçoso e entendo o desconforto de Pizarnik. Fiquei pensando no que seria da poeta caso estivesse viva hoje, vendo-se obrigada a bater ponto nas redes sociais e a interagir assiduamente com o público e com "a galera que importa", a fim de abrir espaço para seu trabalho artístico. Monetização das relações sociais. Que triste. Por outro lado, suponho que existam redes de contatos profissionais um bocadinho mais saudáveis, baseadas em compatibilidades genuínas e na promoção do crescimento mútuo. Sonho de tola?


📔 "Hablé de mis tentativas literarias. Siempre las haré, pero nunca llegarán al acto. No escribiré nunca nada bueno, pues no soy genial. No quiero ser talentosa, ni inteligente ni estudiosa. ¡Quiero ser un genio! ¡Pero no lo soy! Entonces ¿qué? Nada. Alejandra, ¡nada! (...) que me quite esta sensación de fracaso literario que no soporto. 

Hay mujeres locas y mujeres de talento, pero ninguna tiene esa locura del talento que se llama genio.
 SIMONE DE BEAUVOIR"

Numa das entrevistas concedidas para promover Adoráveis Mulheres, a diretora Greta Gerwig diz que sua frase favorita do filme (e do livro escrito por May Alcott) é aquela dita pela personagem Amy, interpretada pela talentosa Florence Pugh:


"Quero ser genial ou nada!". A resposta da Gerwig me atraiu porque, quando eu assisti ao filme, a carapuça da fala me serviu direitinho. Basta fechar os olhos e aguçar os ouvidos, para que eu escute minha versão jovem vociferar palavras similares àquelas de Amy. O resultado? Ah, sim, virei nada. ¯\_(ツ)_/¯  Será que toda jovem passa pela fase de aspirar à genialidade? Em princípio, acho essa ambição saudável e essencial para viabilizar a realização de um projeto sonhado para a vida. No caso da Pizarnik de 19 anos (1955), esse sentimento era intenso, uma vez que ser estudiosa, inteligente e talentosa não a contentariam. 

Na continuidade desse devaneio, eu estava prestes a questionar se também não seria benéfico ter em mente que a poucos resta o papel de gênio e que o "nada" (que sequer é nada, exatamente) é uma possibilidade real para a maioria (visando amenizar uma decepção futura, sabe?); entretanto aquela citação de Beauvoir, inserida por Pizarnik na entrada, me salvou de mais essa vergonha. Para entender melhor o contexto e o sentido do enunciado, pesquei da estante O Segundo Sexo (nunca li) e, durante a leitura, tomei uma bofetada tão certeira na cara, que está latejando até agora. A respectiva citação faz parte do segundo volume, quarta parte, capítulo intitulado A Mulher Independente; e sua tradução para o português é a seguinte (tradutor: Sérgio Milliet): "Há mulheres loucas e mulheres de talento: nenhuma tem essa loucura no talento, que chamam gênio." Assim isolada do texto, a frase pode levar desavisados a supor que Beauvoir concorda com a tese de que mulheres não possuem gênio criador; mas não se trata disso. Na verdade (e resumindo bastante), Beauvoir teoriza que as limitações de criação da mulher se relacionam sobretudo às pressões/restrições sociais que a cercam e à tradição que mistifica sua consciência e nega-lhe a liberdade. Quer dizer, Beauvoir denuncia que toda a possibilidade de realização de uma obra genial (ou simplesmente uma obra) é recusada à mulher; que acaba precisando despender tanta energia para libertar-se, que não sobram forças para aproveitar a vitória e romper amarras no instante da criação artística. Naquela citação do diário, Beauvoir está identificando dois tipos de dinâmicas que costumam aparecer nesse jogo de forças: 1. a da mulher que abraça sua singularidade, enquanto rejeita a disciplina para o rigoroso domínio da técnica (a loucura sem talento), e 2. a da mulher que escolhe dominar a técnica e a expressão com vigor viril, enquanto abafa sua singularidade (o talento sem loucura). Ou seja, naquela frase, Beauvoir diz que a genialidade exigiria tanto a disciplina para dominar as técnicas do ofício pretendido, quanto o pleno acolhimento da singularidade - a loucura no talento. Portanto, lido o texto de Beauvoir, imagino que a vigorosa ambição do tipo "quero ser genial ou nada!" seja exatamente do que as mulheres precisam, a fim de garantir a determinação e a disciplina necessárias para que tenham uma chance real de sair do domesticado papel de amadoras e de profissionais que morrem à beira da genialidade. 

Como o orgulho pede que eu ainda tente me defender, o farei destacando que, de início, eu tinha em mente aquela temática explorada pelo livro O Náufrago, de Thomas Bernhard. Nessa obra (faz tempo que a li, ressalto), o austríaco examina os intensos sentimentos de frustração e derrota que se apossam de pianistas no instante em que se dão conta de que não são, nem jamais serão (não importa o quanto se dediquem), um virtuose. O confronto com aquele "nada" da fala de Amy gera um sofrimento profundo, e o trauma pode ser intransponível para o indivíduo. Mas é complexo, né? Persistirei no universo musical proposto por Bernhard, para perguntar a mim mesma se Mozart/Beethoven/Maria Callas/Nina Simone/Glenn Gould/Coltrane teriam chegado aonde chegaram, caso tivessem pensado, no meio do caminho, "ãin, isso provavelmente não dará certo e nem serei grande, mas tô de boas". É aquela coisa: No creo en genios, pero que los hay, los hay


📔 "Me desespera no saber pintar. Ni dibujar. Siento que las cosas me gritan rogándome que las reviva en un lienzo blanco. Pero ¡no sé!, ¡no sé!"

Usei a deixa para pesquisar os desenhos e pinturas de Pizarnik, mas parece que não há um acervo on-line bem organizado dessa produção. A melhor fonte localizada foi a mini galeria (link: aqui) reunida pelo site alejandrapizarnik.blogspot.com

A exasperação de Pizarnik com seus desenhos me obriga a mais uma vez resgatar a marcante angústia de Lily Briscoe, a pintora personagem de Virginia Woolf, no livro To The Lighthouse (Ao Farol): "She could see it all so clearly, so commandingly, when she looked: it was when she took her brush in hand that the whole thing changed. It was in that moment’s flight between the picture and her canvas that the demons set on her who often brought her to the verge of tears and made this passage from conception to work as dreadful as any down a dark passage for a child.". Por coincidência, agora atravesso a fase em que descubro que também não serei um gênio do desenho e aquarela. Faz parte. ¯\_(ツ)_/¯ Naquela breve leitura do capítulo de O Segundo Sexo, motivada pelo diário de Pizarnik, acabei esbarrando com a honesta descrição de minha presente situação: "(...) a mulher, para compensar as falhas de sua existência, se volta para o pincel ou para a pena: é tarde demais; carecendo de uma formação séria, não passará de amadora."   E a parte mais legal é quando Beauvoir diz que a culpa é minha, por ser uma narcisista preguiçosa.😬 Errada, ela não está; e agradeço-lhe por ter me ajudado a economizar umas quatro sessões de terapia. Para fechar, acrescentarei apenas que essa frase de Beauvoir (e o teor daquele respectivo capítulo lido) me lembrou outra correlata, que aparece na série Nada Ortodoxa (Unorthodox), da Netflix (*desculpa para trazer a Shira Haas de volta ao blog):
"Noutras circunstâncias, talvez as coisas tivessem sido diferentes pra você."


📔 "Finalmente, aparece Picasso llevando a Guernica. Lloro más fuerte. Picasso me obliga a aferrarme a la Vida. ¡Y es mucho más cómodo rechazarla! No puedo decir que el hombre es nada cuando sé que allí está Picasso."

Surgiu um espelho poético. Para Szymborska, enquanto a mulher de Vermeer derramar o leite na tigela, o mundo não merece o fim. Para Pizarnik, enquanto existir a obra de Picasso, ela não pode afirmar que o ser humano é nada.


📔 "D. M. me invitó a participar en un concurso literario, de cuyo jurado forma parte. Se me ocurre que no debo intervenir, pues D. M. es pseudoclasicista y dijo que mis poemas «son muy buenos, pero un tanto osados». ¡Osadía! Escribo como puedo. Jamás sería capaz de escribir un soneto ni una apología al jardín de esa plaza. Jamás sabría componer un alejandrino ni calcular una rima. No lo lamento, pues D. M. tampoco «sabría» hacer ninguno de mis poemas."

Já pensou se Pizarnik tivesse escrito poemas sobre o jardim da praça, a fim de ser considerada menos ousada? Provavelmente eu sequer teria cruzado com o nome dela em minha vida. Ousada? Que adjetivo esquisito para se falar de uma obra poética.


📔 "Cada cual se forja su mundo. Mi mundo es esta habitación. Fuera de ella está lo desconocido, lo indiferente, que no tengo deseos de explorar. Acá es donde siento la limitación. Acá es donde veo lo vano de los esfuerzos humanos. De pronto, me asalta la idea de vivir. Me pregunto si vivo. No sé qué es vivir. Además, al estar acá, respondo a mis necesidades. Necesito de esta soledad llena de libros, de música, de humo y café. ¡Vivir! Supongo que «vivir la vida» significa gozarla. Pues mi goce es este.
Em momentos de isolamento."

Neste momento de pandemia contra a qual o isolamento e distanciamento sociais são nosso principal recurso, essa discussão acerca do que significa viver parece ter sido atualizada. Há quem diga que aqueles que não estão tendo dificuldades com a nova rotina social são pessoas que já estavam acostumadas a não viver. Será que as coisas são assim tão simples? Será que o vírus roubou dias de vida daqueles que não sucumbiram a ele?  Não tenho resposta e pedirei uma ajudinha ao Rilke:
Tradução: José Paulo Paes

(P.S.: o fato de Rilke estar cheio de perguntas me traz uma paz tremenda.) Não sei se há relação exata, contudo essa reflexão me fez regressar a um dos breves relatos compartilhados por Sophie Calle no incrível True Stories (Des histoires vraies, 1994). Previamente a um almoço, a artista combina com um amigo (uma precaução, pois o moço era inteligente) que o tema da conversa seria "O que te faz levantar de manhã?". No dia do encontro, as respostas super elaboradas na ponta da língua de Calle não sobrevivem à primeira resposta do homem: o cheiro de café me faz levantar de manhã. Ao fim do encontro, Calle rouba a xícara como memória daquele momento.


📔 "Dicen que T. E. Lawrence leía 6 libros por día. ¡Eso es vivir!"

Opa, Pizarnik pensou numa possível definição para o que seria viver: ler seis livros por dia. Pode ser um bom motivo para levantar da cama. 


📔 "Pasó una hora. 22 h. Pienso en ÉL y una oleada de cálida euforia envuelve mi imaginación. Me siento como inspirada por algo fantástico y deseo hacer cosas increíbles. Si en estos momentos escribiera, creo que saldría algo bueno."

Em várias entradas dos diários, Pizarnik reitera a importância que confere à imaginação (almeja quase uma imaginação pura, digamos; desconectada por completo da memória) como principal ferramenta de seu processo de escrita (não surpreende que Aira goste dela). Nessa entrada específica, ela parece ter encontrado na felicidade a chave que supostamente abre sua imaginação literária. No ensaio O meu ofício, Natalia Ginzburg defende justamente a teoria de que a felicidade e a infelicidade nos levam a escrever de maneiras diferentes. Segundo Ginzburg, a felicidade fortalece nossa fantasia, enquanto a infelicidade estimula nossa memória, tornando-nos presos às lembranças do passado. Será que a onda contemporânea de livros de memórias e autoficções (termo odiado, eu sei) reflete os tempos atuais em que prevaleceria uma infelicidade? Ignoro, mas deixo o registro da especulação. É possível que Giacomo Leopardi não concordasse com a teoria de Ginzburg, dado que, naquele Diálogo da Natureza e uma Alma, a Natureza afirma que a argúcia do intelecto e a vivacidade da imaginação excluem uma grande parte do domínio sobre si próprio; criando mil dúvidas na deliberação e mil contenções na execução dos atos em causa própria. Ou seja, ainda que a imaginação permita a criação de obras de grande valor artístico e filosófico, ela também pode contribuir para a infelicidade em vida. 

Para dificultar o imbróglio, trarei Amós Oz para a conversa. Quando li o livro Como curar um fanático, tive a surpresa de descobrir que o autor israelense defende a imaginação como meio de adquirir imunidade ao fanatismo - "(...) necessitamos de imaginação, de uma profunda habilidade de imaginar o outro (...)". Embora reconheça que a literatura não é uma cura rápida e definitiva, Oz a encara como um recurso válido e importante contra o fanatismo. Retornei à perspectiva do autor não somente por causa dos vários comentários de Pizarnik em relação à imaginação, mas também porque o editor Luiz Schwarcz comentou, numa dessa lives da Companhia das Letras, que o cenário atual é de menor interesse por livros de ficção, em contrapartida à maior demanda por livros de não-ficção. Desde então, tenho matutado no que isso vai dar; se é que vai dar em alguma coisa; veja bem.

📔 "Arturo me dice que está loco. Que está internado en Vieytes y a veces sale para embriagarse y escribir. Me sube el llanto. Se me ocurre que es un verdadero poeta (los que sufren del dolor mundial)."

Essa imagem do poeta como o louco que sustenta nas costas a dor do mundo não já caducou? Se bem que a Beauvoir referiu, naquele mesmo capítulo de O Segundo Sexo, que "os indivíduos (...) que condecoramos com o nome de gênio são os que pretenderam jogar em sua existência singular a sorte de toda a humanidade (...), confundir seus problemas, suas dúvidas, suas esperanças com os da humanidade". A propósito, esse Arturo é um primo de Bioy Casares.


📔 "Un compañero de clase me muestra un poema suyo. Lo leo. Es superficial y vulgar. Le pregunto por qué no es más profundo."

Já que falamos de imaginação, imaginemos a cena: chego pro artistão e tasco na lata "Ei, por que as coisas que você escreve não são mais profundas, hein?". De que maneira o cara responderia isso? Pô, achei a pergunta meio cruel. Seria exagero compará-la à pergunta "por que você não é um gênio?"? Tipo, e se me perguntassem por que escrevo tanto groselha, em vez de escrever coisas mais profundas? É, acho que eu personificaria a grande Lispector: "E eu sei?". 


📔 "¿Y L.? ¿Qué te gustaba en L.? ¡Su rostro! (...) Oh, jamás podré gustar de nadie después de no haber podido amar a L.! ¡Cómo lo deseo! ¡Cómo lo extraño! Era lo máximo que podía exigir de un hombre en cuanto a cualidades. Y su rostro de estudiante francés torturado."

"Rosto de estudante francês torturado"?! Adorei. Não é a perfeita descrição da cara do Louis Garrel? Greta Gerwig acertou demais no casting desse ator em Adoráveis Mulheres.  

📔 "En la librería Letras, un hombre (corredor de libros) mostraba un bellísimo misal romano. El canto estaba pintado con oro rojizo. Era maravilloso. Le dije que «sólo por ese libro me haría católica». Todos rieron, la dueña, generalmente fría, no sabía qué decirme para manifestar su simpatía. Compruebo que en cualquier ambiente, una nota ingeniosa o chispeante sirve más que la erudición seca o las serenas virtudes morales. Sí. Todo reside en la simpatía (en cuanto a las relaciones sociales). Sin embargo, amo mis ojos lacrimosos y mis labios cerrados. ¡No quiero que desprecien mi angustia! ¡Alejandra!, ¿exiges darle validez universal?"

Puxa, agora fiquei com receio de desrespeitar a autora mediante o registro do diálogo que tenho estabelecido com seus diários. Não é em absoluto minha intenção, porém sei que o inferno está sem vaga pra gente bem-intencionada. Nesta postagem, registrei descobertas de coisas que compartilho com Pizarnik; no entanto parece haver muitas dissonâncias entre nós. Não sei, por exemplo, se a Pizarnik de 1955 curtiria meu esforço para encarar a vida com humor e leveza. (Se consigo fazer isso, já é outra história; mas que eu tento, eu tento.)


📔 "Me despierta la voz de mi tío diciendo que el Sr. V. ha muerto. Me levanto y encuentro a mis padres desayunando sanamente y comentando el suceso. Lo peor es que el tema carece de continuidad y las opiniones sobre la maldad de la muerte se mezclan a cierto asunto comercial de mi padre. Llego y me comunican la noticia. No contesto. Siento deseos de decirles que dejen de comer, que lloren, que «eso» nos espera a todos. Mi padre se levanta y quedo con mi madre. Me dice que no hay que pensar en la muerte, pues una se vuelve pesimista, que la vida es bella (parece [palabra ilegible]). Le contesto diciendo que salga a la calle y que si encuentra alegría y belleza que me avise, así no voy a pensar en la muerte. Se escandaliza. ¡A mi edad pensar en «eso»! (...) ¿Para qué tanta lectura? ¡Si después nada queda!"

A irritação de Pizarnik com a indiferença percebida na resposta dos pais à morte do Sr. V reverbera bastante neste 2020. De fato, ouvi comentários semelhantes àquele da mãe da autora, segundo os quais falar dos óbitos por COVID-19 no país seria uma atitude pessimista e antipatriótica (quê?!). Nesse contexto, me alinho à raiva de Pizarnik. Ainda não aprendemos a falar sobre a morte, e apagar seu registro não parece ser a atitude correta, sobretudo no cenário de vidas humanas perdidas, pessoas em luto e um agente causador que circula de modo sustentado.

Por outro lado, o argumento que Pizarnik escolhe para confrontar a mãe -"saia de casa e, se encontrar alegria e beleza, me avise, assim não pensarei na morte" - me soa um tanto despropositado. Na música Rasga, há um trecho em que a cantora Urias lança a seguinte pergunta ao ouvinte:"Sabe quando você sai de casa com a certeza da beleza?" A pergunta me fisgou desde o instante em que a ouvi pela primeira vez, e estava ansiosa para usá-la numa futura piadinha autodepreciativa, na qual diria choramingando que a gata aqui não faz a mais remota ideia do que é sair de casa com a certeza da beleza, pois a gata sabe que não é bela. Graças ao início do isolamento social, finalmente notei que a pergunta de Urias, se destacada do contexto da canção, não especifica a beleza a que se refere, adquirindo uma poética ambiguidade. Sair de casa com a certeza da beleza. Sim, acho a reflexão bonita e admiro demais a construção da pergunta. Todo esse lero-lero serve apenas para explicar por que tendo a discordar do argumento da Pizarnik de 1955, pois sei o que é sair de casa com a certeza da beleza, a despeito da feiura que também encontrarei. Lá fora há beleza e há feiura, so it goes; cabendo-nos o esforço diário, na medida do possível, para ampliar a beleza e reduzir a feiura.

Leopardi, caso lesse essa minha groselhada, rolaria de rir. Este trechinho do Diálogo de um Vendedor de Almanaques e um Passante demonstra a tática com a qual ele zombaria da minha cara, sem que eu nem percebesse (Tradução: Vilma De Katinszky Barreto de Souza):

"Passante: Há quantos anos vendes almanaques?
Vendedor: Mais ou menos uns vinte anos, ilustríssimo.
Passante: A qual desses gostaria que fosse igual o próximo?
Vendedor: Eu? Não sei.
Passante: Não te lembras de nenhum ano em particular que te pareceu feliz?
Vendedor: Na verdade, não, ilustríssimo.
Passante: No entanto a vida é uma bela coisa. Não é verdade?
Vendedor: Isso sim."

Era um fanfarrão, esse Leopardi. Mas tudo bem; porque chamarei o Rilke para me dar um apoio moral e, com somente três versos, resumir toda minha conversa fiada:
Tradução: José Paulo Paes.