10/04/2021

[DROPS] God save Channel 4


Postagem curtinha apenas para registrar dois programas do canal britânico Channel 4, as descobertas acidentais que me proporcionaram momentos de pura felicidade nesta semana. (pois é!, feito e tanto, não?! merece o registro, com certeza.)

(1) Grayson's Art Club
Assisti aos seis episódios da segunda temporada do clube de arte apresentado por Grayson e Philippa Perry, nos quais um tema é semanalmente proposto para a criação de uma obra de arte (vale qualquer coisa: pintura, desenho, fotografia, escultura, colagem, bordado, performance...). Visto que essa temporada foi exibida durante a pandemia, todos os temas escolhidos relacionam-se, de alguma maneira, ao nosso fatídico momento histórico:

E01: Família
E02: Natureza
E03: Comida
E04: Sonhos
E05: Trabalho
E06: Viagem

O programa é espetacular; amei demais. A dinâmica é mais ou menos a seguinte: os próprios Grayson e Philippa (que casal bacana) compartilham seus processos para criar suas obras da semana, enquanto os telespectadores membros enviam seus trabalhos baseados no tema, alguns dos quais são selecionados por Grayson para uma exposição posterior. Ao longo de cada episódio, Grayson conversa com as pessoas cujas obras foram selecionadas (mais alguns convidados) e, puxa vida, rolam muitas histórias bonitas e inspiradoras. E os trabalhos??!! Fiquei abestalhada com a criatividade e diversidade - e qualidade! No curso de desenho que eu havia começado no início de 2020, o que mais me encantava eram justamente as distintas interpretações para uma mesma tarefa lançada pela professora. Enfim, trata-se de um programa que, imagino, é bastante feliz ao propor a criação de uma comunidade interligada pela arte, forma singela de tentar aliviar o peso desses tempos tão dolorosos. 

(2) Drawers Off
Se me contassem que um canal de tv exibe um troço desse, eu jamais acreditaria; mas afirmo que existe, pois eu vi. Então a produção junta um grupo de desenhistas super amadores e, a cada episódio, um deles faz as vezes de modelo vivo aos colegas (daí a sacadinha do nome) que dispõem de uma hora para nos agraciar com suas fabulosas artes. O programa é de uma ingenuidade desconcertante (mas rola um prêmio massa de £1000; opa!); obviamente adorei.

🎨

Bateu tremenda saudade das minhas aulas de desenho (presenciais, em grupo) de 2020, e fiquei super desejosa de participar de um clubinho de arte. Lembrei de um projeto compartilhado por Ricardo Luís Silva numa das lives da Banca Tatuí, ano passado (link aqui). Conforme contou, o grupo por ele liderado caminha junto pelas ruas de São Paulo, da 00h às 05h (!💜), a fim de fazer algum registro (o forte é a fotografia) relacionado a um tema previamente escolhido. Gostei muito da proposta, sobretudo porque os temas são bem abstratos, tais como "alma", "zonzo", "craca". Ah, e depois, Ricardo edita o material para a publicação de livros. (Por sinal, essas lives da Banca Tatuí igualmente me alegraram neste último ano. Agradeço à equipe e aos participantes.)

Bom, continuemos com o Clubinho de Arte do Eu Sozinha. Estou pensando em tentar criar algo para aqueles seis temas do Grayson's Art Club. Se rolar (sim, pois minha faísca de criatividade não acende nem fósforo), trarei o resultado pra cá. 

18/03/2021

Alejandra Pizarnik; Diarios [#05]

* Proposta do post: (1) anotar trechos, (2) devanear a partir das entradas de Pizarnik, (3) dar pitacos inúteis sobre o que ela discorre e/ou (4) estabelecer conexões. Uma conversa.


✒ Postagens anteriores: #01#02#03, #04.
✒ Texto sinalizado com [📔], em verde + itálico entradas originais de Alejandra Pizarnik.

Cuaderno del 22 de Agosto al 
1 de Septiembre de 1955

📔 "Lunes pasado y presente vertido en la taza de un café bebido en el bar Florida. La mirada del OTRO que está frente a mí impide el saludable esparcimiento de mi incoherencia."

Talvez seja um deslize cometido por quem depende de dicionário, contudo, ainda que a tradução esteja errada, repare só: "saudável propagação de minha incoerência". Adorei. Bem que a internet, em seus primórdios, pôde ser utilizada, com mais segurança, para a propagação de nossas incoerências. Hoje, doida é quem continua propagando-as por aqui - exato, feito eu. Mas, conforme assinala Pizarnik, a propagação é saudável, e a internet está ao alcance tão fácil da mão... Ou encontro outro espaço ou deixo as incoerências se acumularem, o que possivelmente resultaria numa explosão (fatal?).

A poeta não explica, porém, de que forma a propagação de sua incoerência ocorre numa cafeteria; nem porque, exatamente, o olhar do outro a impede. Teorizo que transcorra como qualquer difusão. Para que aconteça, é necessário encontrar-se num meio cuja concentração de incoerência seja menor do que a de nosso interior (logo, se o local tem muita gente incoerente, não ocorre rs). Além disso, é preciso que nossa membrana esteja suficientemente permeável, estado encontrado quando escrevemos? Dançamos? Cantamos? Choramos as pitangas para a terapeuta? Meditamos? Tomamos um café, pensativas, numa cafeteria? Decerto o olhar do outro, citado por Pizarnik, afeta negativamente a permeabilidade da membrana.


📔 "Mi almita gime contra el sol, enemigo de la angustia auténtica. El sol, como buen canalla que es, haciendo dorar los objetos, impidiéndome darles el color que a mí se me ocurra. Sí. El sol nos engaña a todos. El sol es una vil ilusión de felicidad. Lo odio más que nunca."

Em postagem anterior, eu já tinha destacado esse sentimento da autora em relação ao sol; naquela ocasião, estabelecendo um paralelo com um trecho lindo de um conto do autor Bruno Schulz. Registro outra dessas entradas porque, dia desses, ouvi um comentário sobre o conto O Búfalo, de Clarice Lispector, que me remeteu à poesia da dupla Pizarnik + Sol. Li o conto de Lispector para entender melhor e dele transcrevo isto: "Mas isso é amor, é amor de novo", revoltou-se a mulher tentando encontrar-se com o próprio ódio mas era primavera e dois leões se tinham amado."

Mas num dia de 1955, o sol, com sua vil ilusão de felicidade, brilhava e dourava os objetos, e Pizarnik não pôde encontrar-se com sua própria tristeza. 


📔 "Es lo que pensaba cuando caminaba por los kioscos de libros del Cabildo. La plaza en que están instalados es pequeñita y miserable. Sólo tiene unos arbolillos filosos y míseros. (Me pregunto para qué los han puesto.) Para que haya verde. Para que haya creación. Miro un arbolillo y le prometo crear, crear y crear. Ser como la naturaleza, creadora como ella. (...) llamada. ¡He de crear! Es lo único importante en el mundo. Agregar algo. Dejar algo. En el kiosco veo un librito: Fausto de Goethe. ¿Qué importa que Goethe haya muerto? Allí está el testimonio de la realidad de su existencia. La muerte no puede contra él. Nada puede. Ni la guerra ni el avance atómico. Ni los burgueses en sus Cadillacs ni el portero que barre la vereda. ¡Oh, crear! ¡He de crear! Es lo único importante. Es lo único que queda. ¡Crear y nada más! ¡He de tapar el fracaso de mi vida con la belleza de mi obra! ¡Crear!"

Embora não seja filósofa, nem estudante de filosofia (manjo bulhufas, apesar da enorme curiosidade), ousarei lançar a pergunta: não é possível afirmar que essa visão da Pizarnik de 1955 é bastante platônica?! Li O Banquete (para o projetinho particular/do blog Immerse your soul in love) e, bom, esse papo da poeta me catapultou direto para aquele discurso de Sócrates acerca do amor. Afinal, aqui Pizarnik expressa seu labor de amor, na medida em que sua natureza deseja perdurar, deseja eternizar-se e imortalizar-se mediante a procriação de seu espírito na beleza. Viajei? 


📔 El vendedor me habla. Dado mi acento, supone que soy europea. Me habla de «nuestra alta cultura». «Sí. Usted que es extranjera debe notarlo.» ¿Cómo explicarle que soy argentina? ¿Cómo explicarle mi extraño acento? ¿Por qué explicárselo? (..) edad; manifiesta la diferencia enorme entre una muchacha europea de diecinueve años y una argentina. ¡Qué inadaptada me siento!

Não sabia que ela falava espanhol com sotaque; o que avalio tenha contribuído para o recorrente tema da duplicidade, da cisão, em seus poemas. Por sinal, me dou conta de que nunca tentei localizar vídeos dela (imagem? som?) no You Tube. Deixe-me pesquisar rapidinho agora, volto já. <alguns minutos depois> É, parece não haver nada, porém encontrei um documentário (verei com calma depois - link: X), no qual consta um trecho em que Antonio Requemi (amigo) afirma que, embora se comentasse que Pizarnik fosse gaga; ela de fato não era; mas tão apenas arrastava a pronúncia da última sílaba das palavras. Essa informação sobre a autora me deixou pensativa. 


📔 "En la facultad encuentro a Susana Santalla. ¡Qué adorable es! Le digo de mi libro. Queda encantada. Me da su número de teléfono para que le avise cuando salga a la venta. Me asombra su cordialidad. Es perfecta. ¡Y esa alegría por algo que no entra en sus intereses!"

É tão raro encontrar pessoas que se alegram genuinamente, sem quaisquer interesses secundários, pelas conquistas de outra pessoa; que o assombro é inevitável.


📔 "Cuando caminaba hacia la escuela, un soplo de esperanza me inundó. Me vi caminando, sintiendo, mirando. Y me dije: ¡Soy feliz porque estoy viva! ¡Soy feliz de poder caminar y desplazarme hacia donde quiero! ¡Soy feliz porque no estoy muerta, porque soy joven, porque crearé belleza, porque debo a la vida mucho, porque siento que me llama algo muy grande!"

Desconcerta ler isso hoje, em 2021. (...) É, prefiro não comentar nada, somente deixar registrado.


📔 "¿Por qué no me ubico en un lugarcito tranquilo y me caso y tengo hijos y voy al cine, a una confitería, al teatro? ¿Por qué no acepto esta realidad? ¿Por qué sufro y me martirizo con los espectros de mi fantasía? ¿Por qué insisto en el llamado? ¿Por qué me analizo? ¿Por qué no me olvido de mi alma y no estrujo el pañuelito húmedo leyendo Cuerpos y almas? ¿Por qué no me visto con elegancia y paseo por Santa Fe del brazo de mi novio? ¡Ah! Sé que la vida es muy breve. Sé que no soy eterna. Pero, en realidad, no veo la muerte. La veo lejana. Digo cuarenta años pero no los veo. Veo un espacio inmenso. Veo millares de días. Sé que hay tiempo. Sé que amo mi alma. Me amo a mí. Amo mi cuerpo y lo besaría todo porque es mío. Amo mi rostro tan desconocido y extraño. Amo mis ojos sorprendentes. Amo mis manos infantiles. Amo mi letra tan clara. (¡Qué extraño que mi letra sea legible!)"

"Amo (...), amo (...), amo (...)" > Destaco para me convencer de que não me embananei ao postular que o espírito de Pizarnik é repleto de amor, nos moldes da definição platônica. 

Seria realmente mais tranquilo seguir a narrativa pronta, em vez de escrever uma narrativa própria? Um marido, uma casa, filhos, passeios de fim de semana com a família e..."pronto"? Sei não, Pizarnik; acho que tranquilidade é uma falácia. No máximo, dispomos de um tico de arbítrio para escolher o tipo de desassossego com o qual lidaremos na vida. E o legal é que fazemos a escolha como naqueles programas de TV onde, presos numa cabine à prova de som, somos obrigados a responder, de pronto, "sim" ou "não" às propostas que nos são apresentadas. Moleza viver, né?


📔 "Es muy tarde. Estoy excitada. Deseo un cuerpo junto al mío. ¡Cualquiera! Cualquier sexo, cualquier edad. ¡Eso es lo de menos! Basta un cuerpo a quien tocar y que me toque. ¡Mi sangre galopa! ¡Ah! Deseo fervientemente. Me disuelvo en deseos eróticos. Nada de amor. No. Nada de eso. ¡Sí! Lo que yo quisiera es vivir mi vida diurna entre libros y papeles y pasar las noches junto a un cuerpo. Ése es mi ideal. ¿Es lascivo? ¿Es lujurioso? ¿Es estúpido? ¿Es imposible? ¡¡¡Es mío!!! Y con eso basta. Pero ¿dónde conseguir ese ser? Tendría que ser alguien como yo, que desee lo mismo que yo. ¡No existe! ¡Sé que no existe! Mi locura es única. ¡Mi originalidad! ¡Mi extremismo! ¿Qué será de mí? ¡No lo sé! ¡Sólo sé que no puedo más! ¡Que me muero de impotencia!"

Estúpido?! De dia, entre livros e papéis; de noite, ao lado de um corpo sensual? Pô, Pizarnik, claro que não; bem que eu gostaria. Err, porém esse papo aí de "teria de ser alguém como eu" é um tanto narcisista demais, não? Freud deve ter levantado do túmulo, depois dessa. Para aproveitar o tema, no entanto, registro um casal que costumeiramente me desperta perguntas correlatas: Gisele Bündchen & Tom Brady.


📔 "Me doy cuenta que no puedo seguir estudiando en la facultad. La chica de quinto año me enumeró los pensadores que más se estudian: Aristóteles, S. Tomás, Kant, etc. ¿Cómo forzar mi mente hacia ellos? Se me ocurre seguir Letras. ¿Cómo esperar cinco años para analizar a Faulkner? ¿Y por qué analizarlo? ¿Por qué leer a Molière? ¿Por qué leer a Góngora? Me hacen llorar de hastío. Comparemos a Vallejo y a Góngora. Sí. Ya sé que son dos cosas muy distintas. ¡No! ¡No puedo! ¡No puedo! Recuerdo que cuando [ilegible] comenzó a analizar a Baudelaire, traté de leer Las flores del mal ¡y no pude! ¿Cómo leer a Hegel si una sola frase suya me hace sentir ratón o tizne arrebatado por el viento de los siglos?"

"Cinco anos para analisar Faulkner?" (😬😁) Turma das Letras e Filosofia, foi a Pizarnik que escreveu, eu somente transcrevi no meu diarinho. Talvez eu tenha lido isso em boa hora, pois cogito uma segunda graduação num desses dois cursos, entretanto sempre empaco na pergunta: não seria uma nova cagada na minha vida? Quando penso que significaria ter de estudar a obra de XVHUvhv NJONLNKN**, a de JOUHUH NHIUHIU** (**: nomes cortados pelo Departamento Jurídico do blog), nossa, sinto um fastio tremendo. Que autores me fariam estudar por cinco anos, a fim de poder analisá-los a contento? (...)


📔 "Sin embargo, debo estudiar para decir que estudio. De lo contrario no valdré nada. Mi madre quiere que estudie. Quiere que tenga un título. (Sonrío despreciativa.) ¡Qué me importan los títulos! Digo que quiero ser escritora. ¡Bah! Son cosas al margen dicen. ¡Al margen!"

Num cenário em que a educação tornou-se um mercado muito bem abocanhado pelo capitalismo, esse "estudar para dizer que estudo" rende reflexões interessantes, no entanto o departamento jurídico do blog recomendou que eu ficasse calada.


📔 "de un libro de Azorín. Me retracto públicamente por mi desprecio hacia él. Es muy bueno. Tan claro. Tan simpático y limpio. ¡Tiene una tortura espiritual tan elegante!"

"Tortura espiritual elegante." Outra expressão preciosa.


📔 "Mi sexo gime. Lo mando al diablo. Insiste. Insiste. ¡Qué molesto es! ¡Cómo lo odio! Sexo. Todo cae ante él. Fumo para ver si se calma. Produce un alegre cosquilleo que recorre mi cuerpo. Dan deseos de tocarlo, de mirarlo, de ver de dónde sale ese latir tan independiente de mi querer. ¡Es tan dueño de sí! Cruzo las piernas. Se calma un tanto. Sexo. El eterno sexo. Digo que lo odio, pero algo lo quiero ya que lo mimo tanto. ¡Al diablo! Hablo de él como si sería [sic] algo verdaderamente independiente de mí. Vuelve a aletear."

"Fumo pra ver se me acalmo, (...) Cruzo as pernas" hahahahaha, por essa, não esperava*. Mas, ó, aaaaacho que a galera do pompoarismo diria que, se cruzar direitinho, ~resolve~. (que baixaria, blogueira.) [* Eita, por que eu não esperava?! As poetas devem estar praguejando "nós também transamos, sua tonta!"]


📔 "Quisiera ser hombre para tener muchos bolsillos. Hasta podría tener siempre un libro en un bolsillo. La ropa femenina es muy molesta. ¡Tan ceñida e incómoda! No hay libertad para moverse, para correr, para nada. El hombre más humilde camina y parece el rey del universo. La mujer más ataviada camina y semeja un objeto que se utiliza los domingos."



📔 "Además hay leyes para la velocidad del paso. Si yo camino lentamente, mirando las esculturas de las viejas casas (cosa que aprendí a mirar) o el cielo o los rostros de los que pasan junto a mí, siento que atento contra algo. Me siguen, me hablan o me miran con asombro y reproche. Sí. La mujer tiene que caminar apurada indicando que su caminar tiene un fin. De lo contrario es una prostituta (hay también un «fin» [sic]) o una loca o una extravagante. Si ocurre algo, alguna aglomeración o un choque, y me acerco, compruebo que no hay una sola mujer. Hombres."

As recorrentes entradas no diário da poeta sobre as delícias de ser mulher numa sociedade machista e patriarcal chamam atenção. Esse lance de não poder caminhar sem um propósito me pega principalmente em viagens. Nem sei quantas vezes fui importunada ou objeto de piada de homens, nas oportunidades em que banquei a flâneur. Lembrei daquele causo já compartilhado no blog, sobre os moços que fizeram questão de reduzir a velocidade do carro em que estavam, a fim de gritar pra mim "isso é hora de correr, sua imbecil?" Nhé, mentalizo* um palavrão e toco a caminhada.  (*: a raiva maior, se duvidar, é causada pela falta de coragem de verbalizar; por ter de engolir o revide.)


📔 "Arturo me presentó a unos amigos suyos: «Ésta es Alejandra, la niña más dotada del mundo. Tiene todo lo que Dios puede conceder a un ser humano… y sin embargo, está siempre triste». (...) Uno de ellos dijo que mi tristeza se manifiesta más en los labios que en los ojos."

À primeira vista, confesso que me pareceu poético, porém logo me perguntei se essa "tristeza manifestada nos lábios" não seria uma versão daquela aporrinhação que mulheres escutam bastante de homens: "ãin, por que você não sorri mais? tão linda quando sorri."


📔 "Es terrible. Los libros de filosofía podrán ayudarme a pensar, pero me inclino a las obras de imaginación. Son más reales. De los ensayos e interpretaciones ni hay que hablar. Sencillamente, no debo leerlos."

Poxa, ensaio é legal, Pizarnik. Eu, pelo menos, curto bastante; desde que o/a ensaísta tenha uma escrita com a qual eu dialogue, é lógico. Aquele livro de ensaios da Jia Tolentino (Falso Espelho), por exemplo, super hypado recentemente, me pareceu tão sem graça, com tantas reflexões banais sobre a internet, que sequer me animei para terminar de ler o primeiro ensaio. Esse comentário da poeta também me fez lembrar da resistência que sinto ao tal "Non-Fiction November", basicamente uma leitura coletiva apenas (ou sobretudo) de livros de não-ficção, durante o mês de novembro; organizada por influenciadores literários gringos. Meu problema nem é com a proposta em si, mas com o subtexto que pesco no discurso de divulgação adotado pela galera: leitores, é hora de parar de ler livros de historinhas; leiamos livros de verdade, para finalmente aprendermos COISAS! Puxa, não aguento.


📔 "Le pide «un sandwichito de salame sin corteza». Me estremezco de materialismo. ¡Salame! Hablar de literatura con un sándwich de salame en la mano. Y lo que más me choca es la falta de corteza. Un sándwich de salame «debe» tener corteza y ser tosco y crocante. De lo contrario, es como beber champagne mientras se come asado. ¡Oh, las pequeñas cositas!"

hahahahahha Xi, meio esnobe issaê, dona Pizarnik. (*amei*) Se ela souber que, enquanto leio os poemas dela, tomo coca zero e como uma porção de batata frita, estarei perdida. Além do mais, esse sanduba de salame harmoniza bem com algumas obras de latino-americanos: o Diário de Emilio Renzi (Piglia), o Deixa Comigo (Levrero).


📔 "Antes de la llegada de D. estuve oyendo un diálogo entre esas dos lesbianas que vienen todos los días. Hablaban de otra que las traiciona criticándolas y haciéndoles análisis psicológicos. Me asombra esa moralidad burguesa que manifestaban. En nada se diferenciaban de un vulgar matrimonio burgués. Quedé decepcionada."

Reitero: é a Pizarnik que escreveu, eu apenas transcrevo no diarinho; nada a declarar. Aliás, tenho sim. Perdão, é que acabo de notar uma conexão com certa birra progressiva que peguei daquela série Schitt's Creek. Preciso elaborar melhor, contudo ando me perguntando se ela não teria uma excessiva pegada  "all we are saying is give capitalism a chance". Ou: "heal the world, make it a better place, for the rich and the poor and the entire human race". Também me propus esta pergunta: Simply The Best, como trilha sonora de uma história de amor, não é meio estranho? Tipo, até ontem, essa não era uma música usada como trilha sonora por atletas olímpicos, por políticos em convenções partidárias, por coach de empresa, por gurus empreendedores? Ressignificaram* a música da Turner? Não entendo nada; mas o moço que interpreta o Patrick é tão fofinho, que relevo. Ah, mas que o romance David&Patrick é burguês, é sim; só não tenho certeza se isso é bom ou ruim. Nem bom, nem ruim? Sei lá. (*: quem ainda aguenta essa palavra, senhor? peço desculpas.)


📔 "Mi madre habla de enviarme a Francia. Mi tía me habla en francés. Recito un poema de Verlaine y canto la Balada de Guitry. Mi madre está orgullosa de mí, pues amenizo esta reunión familiar. Dice que vale la pena tenerme en casa, pues conmigo nadie se aburre. Entreveo su lucha respecto al famoso asunto del casamiento. Quiere convencerse. Quiere ver si puede convencerse. Quiere arrancarse las ideas burguesas. Sé que el éxito de su lucha depende de mí. Si estoy agradable, todo va bien. Si no… ¡Oh, soy una masa de contradicciones! Eres un ser humano, Alejandra. Iones negativos y positivos explotan en tu esfera."

A autora não escreve detalhes sobre a relação com a mãe (pelo menos até este caderno), no entanto entradas como essa (algo constantes; surgindo aqui, acolá) parecem revelar uma dinâmica complicada. No livro da Elena Garro (As Lembranças do Porvir - sim, de novo), encontrei uma frase que, embora simples, abarca um fato difícil de ser assimilado por muitos pais: "Ana costumava dizer: "os filhos são outras pessoas", assombrada de que seus filhos não fossem ela mesma." Por vezes, inclusive as filhas precisam tomar ciência e se convencer de que não são suas mães, de que não podem se responsabilizar pela felicidade de suas mães, à maneira da Pizarnik de 1955.


📔 "¿Qué haré hoy? Creo que volveré a Proust. Su mundo de princesas y duquesas es ideal para apartarse de esta masa llena de miedo y proyectos sangrientos."

Suspeitando de que 2021 será o ano em que lerei Proust, e a culpada será Pizarnik.