12/06/2020

[alinhavando] Alejandra Pizarnik; Diarios [#04]

* Proposta do post: (1) anotar trechos, (2) devanear a partir das entradas de Pizarnik, (3) dar pitacos inúteis sobre o que ela discorre e/ou (4) estabelecer conexões. Uma conversa.

✒ Postagens anteriores: #01, #02, #03.
✒ Texto sinalizado com [📔], em verde + itálico entradas originais de Alejandra Pizarnik.

Cuaderno de Agosto de 1955

📔 "En una biblioteca pública. Acabo de hallar cuatro libros magníficos. Huelen a polvo y a magia. Adoro las viejas librerías. Lo que me deja consternada es la fecha de la impresión de los libros: Pensamientos de Pascal (1927). Diálogos de Leopardi (1931). Dostoievski por André Gide (1935)… Es decir: ¡antes de mi nacimiento! ¡Cuando estaba en la nada!"

Data da primeira edição de um livro, na ficha catalográfica, fazendo as vezes de memento mori? Nunca tinha pensado nisso e não me livrarei da associação. Lembro de ter sentido sensação parecida à descrita por Pizarnik quando me vi diante da linha temporal do cosmos, apresentada por Neil deGrasse Tyson. É o tipo de imagem que coloca uma pessoa em seu devido lugar.


No livro As Lembranças do Porvir (li recentemente), escrito pela mexicana Elena Garro, há uma alusão similar a essa premissa, quando o narrador diz que, para Martín Moncada, era assombroso que seus pais, personagens enigmáticos, não estivessem estado sempre no mundo. (Tradução: Iara Tizzot) É, a criança Moncada se surpreendia com a mortalidade dos pais. Numa página adiante, porém, As Lembranças do Porvir complicou-me os pensamentos com a frase "(...) a morte é o momento precioso em que o homem recupera plenamente sua outra memória." E se apenas esqueci que perambulava pelo mundo quando, digamos, Pizarnik escrevia os diários que hoje leio?


📔 "Leo el diálogo entre «la naturaleza y el alma» de Leopardi. ¡Este hombre es un descubrimiento para mí! Me identifico totalmente con él. Y me rebelo con él. Siempre es el mismo interrogante:
(...)
Un cruel espejismo me obliga a hallarle facciones humanas (à uma almofada com aspecto de flor, verde e roxa). (Recuerdo ese diálogo entre la Tierra y la luna, de Leopardi. La luna se siente ofendida porque los humanos le encuentran o proyectan facciones como las que ellos tienen; se ofende pues lo ve egoísta.)"

Em 2018, uma matéria no site Aeon me apresentou a Giacomo Leopardi e, naquela ocasião, fiquei tão fascinada com o que Tim Parks escreve sobre o autor, que prontamente adquiri no sebo uma edição do Ópusculos Morais (Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, 1992). Saltando para 2020, descubro que Pizarnik curtia a obra do filósofo e poeta italiano. Que conexão incrível. Após tanto tempo esquecido na estante, finalmente resgatei o livro de Leopardi da poeira (leitura em curso).

O Diálogo da Terra e da Lua, citado por Pizarnik, transcorre conforme a autora o descreve; quer dizer, um papo em que a Lua se aborrece porque a Terra só consegue imaginar uma realidade lunar a partir dos elementos que constroem a realidade humana. Incluo um trecho da bronca que a Lua dá na Terra (tradução: Vilma De Katinszky Barreto de Souza): "Na verdade tu me parece pior do que uma néscia, em pensar que todas as coisas em qualquer parte do mundo sejam semelhantes às tuas, como se a Natureza tivesse tido a intenção de copiar-te, ponto a ponto, em todos os lugares. Eu digo que sou habitada e tu daí concluis que os meus habitantes devem ser homens. Advirto que não são e tu, concordando que sejam outras criaturas, não duvides que tenham as mesmas qualidades e os mesmos problemas dos teus povos, (...)". No texto de apresentação da minha edição de Opúsculos Morais, Carmelo Distante explica que a obra de Leopardi com frequência aborda a relação do homem com a Natureza, criticando a presunção humana de supor que tudo existe para seu uso e consumo, ou mesmo alertando que a humanidade não tem nenhum privilégio em relação a outros animais. Ou seja, Leopardi também se empenhava em colocar o ser humano em seu devido lugar. O que Pizarnik não inclui na entrada é que a Lua admite, sim, ter algo em comum com a Terra: a infelicidade. Aliás, a infelicidade seria compartilhada não somente pela Terra e a Lua, mas por todo o Universo. Conforme escreveu Carmelo Distante na introdução, certos diálogos de Leopardi "(...) arrastam consigo o leitor à contemplação da infelicidade universal, da qual nada e ninguém pode escapar." Sem dúvida, é uma revigorante leitura para um domingo à tarde.

No mais, acrescentaria a contribuição que o autor italiano provavelmente traria à conversa da entrada anterior sobre a mortalidade humana. Na introdução do livro, é dito que Leopardi seguia uma concepção materialista do nascimento e da morte, segundo a qual somente a matéria que jamais teve princípio e jamais terá fim é imortal. Por outro lado, no Diálogo da Natureza e uma Alma (também mencionado por Pizarnik na entrada), a Natureza tenta acalmar os ânimos da Alma temente da infelicidade em vida mediante a lembrança de uma teórica mortalidade vinculada à glória post mortem. A Natureza explica à Alma que, tal qual ocorreu com Camões e Milton, após a morte ela poderá ser celebrada e elevada aos céus pelos homens de bom senso, e os fatos da sua vida transmitidos com grande esforço através da memória; por último todo o mundo civilizado estará repleto de seu nome. A Alma, certa de que a peculiar mortalidade não a proporcionará qualquer utilidade ou alegria no período post mortem, pede para trocá-la pelo nascimento na forma do mais imperfeito ser bruto e pela morte acelerada; tudo para reduzir o sofrimento em vida. 


📔 "Simpatizamos enseguida. A veces me extraño de las simpatías que inspiro. ¿Cómo es posible?"

Pizarnik se pergunta como alguém pode simpatizar com ela, e infelizmente me identifico com esse sentimento, o qual pode levar um indivíduo a abraçar com vigor o eremitismo. Dia desses li um conto super engraçado da Lydia Davis, intitulado Kafka Cooks Dinner, no qual um cara (o próprio Kafka?)  tenta superar a ansiedade provocada pelo jantar que cozinhará para uma garota. No meio das ruminações, o cozinheiro kafkiano solta esta lamúria digna daquela de Pizarnik: "She would have been so much happier dining with another man."/ "Ela teria sido tão mais feliz jantando com outro cara."  Tive dó, mas ri um bocado.


📔 "17h: Me voy. Reviso los libros de los puestos del Cabildo. Compro cuatro. 17.30: Cruzo a la biblioteca. 18: Al café Bolívar. Leo. (Siento paz, mucha paz.) Entra una compañera."

Um dia na vida de Pizarnik: revisar livros, comprar quatro livros, cruzar a biblioteca, ir para um café, ler, encontrar-se com um amigo e sentir paz. Logo se vê que ela e Patti Smith poderiam ter sido boas amigas.


📔 "En el Atelier había dos cuadritos confeccionados por los indios del Brasil. Los materiales empleados eran puramente naturales: alas de mariposas, plumas de diversas aves, raíces secas de algunas plantitas y semillas ajadas. Representaban paisajes de la selva. El colorido tenía un exotismo maravilloso. Sentí deseos de poseerlos."

O Brasil nas páginas do diário de Pizarnik! Aproveitei para pesquisar artes indígenas brasileiras, acerca das quais sei tão pouco (vexame), porém não consegui localizar nada semelhante à obra descrita pela autora. 


📔 "Despierto angustiada después de una noche llena de sueños desagradables y fantasías voluptuosas. Todo esto me indica hasta qué punto no acepto enfrentar la realidad del «medio». Sólo me consuela pensar en el material literario que puedo obtener de estas veleidades de mi cerebro. Pero también está la sensación de pérdida de energía de la imaginación."

Pizarnik espera que os sonhos desagradáveis possam servir-lhe de material literário, mas teme que a façam perder a imaginação. Recordei uma breve frase de Borges que talvez ajude esclarecer isso: "Os sonhos são um trabalho da memória, a imaginação é um ato da memória, um ato criador da memória." Afirmar que Sonhos e Imaginação estariam indissoluvelmente conectados pela Memória me faria cair no golpe da falácia lógica?


📔 "en la librería P. estuve mirando un número de la Revista de Psicoanálisis. Había un artículo sobre la creación literaria de M. Spira. Sí. Diana, una paciente, escribe un poema (bastante bueno) y a M. Spira no se le ocurre hacer nada mejor que cortarlo en trocitos y decir «Es un ojo éste, aquél, una frente ésta, aquélla», que en lenguaje profesional viene a ser: este verso se refiere a una transferencia X, aquél a un sentimiento de culpa por el hermano. ¡Y sigue así! Mon dieu! Mon dieu! ¿Y qué me da para vivir saber que Vallejo haya sido neurótico, que Leopardi fue leptosomático, que Van Gogh estuvo internado? ¡Nada! ¡Nada! Destrozo mi frente. Arte puro. (Las señoras elegantes de la revista Sur. esas señoras, ¿hubiesen recibido a Van Gogh en sus reuniones?)"

Quando aparecem por aí, tais reduções psicanalíticas de uma obra artística também me despertam certa preguiça. No entanto, a partir do pouco que li sobre o assunto, me parece que hoje há correntes que não mais estabelecem relações assim tão tacanhas entre arte e psicanálise, nos termos criticados por Pizarnik. Resgatei uma breve citação de Tania Rivera (Livro Arte e Psicanálise) que toca sucintamente nessa questão: "É uma preocupação bem diferente com o conteúdo das obras que leva alguns autores a usarem — de forma um pouco ligeira, às vezes — noções psicanalíticas para traçar comentários de um determinado trabalho, ou ainda relacioná-lo à vida de seu autor (...). O pressuposto de que há uma relação direta entre uma vida e uma determinada obra talvez seja sempre fácil de ser confirmado, e isso se deve à maleabilidade e multiplicidade inerente a toda interpretação. No texto lido por Anna Freud na cerimônia de entrega do Prêmio Goethe da cidade de Frankfurt em 1930, que Freud recebeu tanto pelo valor científico quanto pelo alcance literário de sua obra, este declara existir entre a vida e a obra de um grande homem uma rica rede a ser tecida através da interpretação. Essa perspectiva simplifica ao extremo, porém, as múltiplas questões levantadas pela criação artística, tanto em seus aspectos histórico-sociais quanto em seus aspectos psíquicos."


📔 "Del Diario de Katherine Mansfield: «La vida no parece más que arena y serrín».
(...) Observan el libro que llevan mis manos: Diario de K. Mansfield. D. no la conoce. Me extraño. G. sabe de su vida, adaptándola en dos segundos a un proceso psicoanalítico que transforma el título del libro: Diario de una neurótica, por K. Mansfield."

Pizarnik registra o que aparenta ser outro exemplo concreto de redução psicanalítica de uma obra. 

Dia desses, li um livro atraída pelo seguinte belo título: "Dear friend, from my life I write to you, in your life."/ Querida amiga, de minha vida escrevo para você, em sua vida." Durante a respectiva leitura, me surpreendi quando a autora, a chinesa Yiyun Li, refere que o título que me encantou é, na verdade, uma frase extraída do diário de Katherine Mansfield. A respeito da frase, Li comenta (tradução minha): "Chorei quando li essa frase. Ela me lembra do garoto que anos atrás não parava de escrever relatos de seus sonhos em cartas. Ela também me faz perceber por que não quero parar de escrever. Os livros que escrevemos - passado, presente e futuro - não estão tentando dizer a mesma coisa: "Querida amiga, de minha vida escrevo para você, em sua vida"? Que longo é o caminho de uma vida para outra, mas por que escrever, senão por essa distância (...)? A mim, isso basta para que eu rejeite a redução do diário de K. Mansfield ao mero diário de uma neurótica, assim como jamais o faria em relação ao diário de Pizarnik.


📔 "Que hoy conocí a un compañero, D. Martínez, que tiene la libretita de teléfonos llena de nombres grandes: Borges, Mallea, V. Ocampo, etc. D. M. es poeta. Ni grande ni pequeño. Hace años que lucha por imponerse y lo ha conseguido. Pero hay en todo esto un fondo de suciedad que me azquea [sic]. Algo que no puedo superar. No puedo admitir que mi relación cordial con Vicente Barbieri sea un puente para llegar a relacionarme con otros y luego otros y luego vendrá la consagración y la codiciada libretita telefónica. Se me ocurre que debo tener una concepción del artista un tanto retrógada. Que ya no hay lugar para el solitario, neurótico y bohemio artista (romántico). Que ahora un artista es un ser sociable y reflexivo como cualquiera que no lo es."

Esse lance de networking é um troço muito embaraçoso e entendo o desconforto de Pizarnik. Fiquei pensando no que seria da poeta caso estivesse viva hoje, vendo-se obrigada a bater ponto nas redes sociais e a interagir assiduamente com o público e com "a galera que importa", a fim de abrir espaço para seu trabalho artístico. Monetização das relações sociais. Que triste. Por outro lado, suponho que existam redes de contatos profissionais um bocadinho mais saudáveis, baseadas em compatibilidades genuínas e na promoção do crescimento mútuo. Sonho de tola?


📔 "Hablé de mis tentativas literarias. Siempre las haré, pero nunca llegarán al acto. No escribiré nunca nada bueno, pues no soy genial. No quiero ser talentosa, ni inteligente ni estudiosa. ¡Quiero ser un genio! ¡Pero no lo soy! Entonces ¿qué? Nada. Alejandra, ¡nada! (...) que me quite esta sensación de fracaso literario que no soporto. 

Hay mujeres locas y mujeres de talento, pero ninguna tiene esa locura del talento que se llama genio.
 SIMONE DE BEAUVOIR"

Numa das entrevistas concedidas para promover Adoráveis Mulheres, a diretora Greta Gerwig diz que sua frase favorita do filme (e do livro escrito por May Alcott) é aquela dita pela personagem Amy, interpretada pela talentosa Florence Pugh:


"Quero ser genial ou nada!". A resposta da Gerwig me atraiu porque, quando eu assisti ao filme, a carapuça da fala me serviu direitinho. Basta fechar os olhos e aguçar os ouvidos, para que eu escute minha versão jovem vociferar palavras similares àquelas de Amy. O resultado? Ah, sim, virei nada. ¯\_(ツ)_/¯  Será que toda jovem passa pela fase de aspirar à genialidade? Em princípio, acho essa ambição saudável e essencial para viabilizar a realização de um projeto sonhado para a vida. No caso da Pizarnik de 19 anos (1955), esse sentimento era intenso, uma vez que ser estudiosa, inteligente e talentosa não a contentariam. 

Na continuidade desse devaneio, eu estava prestes a questionar se também não seria benéfico ter em mente que a poucos resta o papel de gênio e que o "nada" (que sequer é nada, exatamente) é uma possibilidade real para a maioria (visando amenizar uma decepção futura, sabe?); entretanto aquela citação de Beauvoir, inserida por Pizarnik na entrada, me salvou de mais essa vergonha. Para entender melhor o contexto e o sentido do enunciado, pesquei da estante O Segundo Sexo (nunca li) e, durante a leitura, tomei uma bofetada tão certeira na cara, que está latejando até agora. A respectiva citação faz parte do segundo volume, quarta parte, capítulo intitulado A Mulher Independente; e sua tradução para o português é a seguinte (tradutor: Sérgio Milliet): "Há mulheres loucas e mulheres de talento: nenhuma tem essa loucura no talento, que chamam gênio." Assim isolada do texto, a frase pode levar desavisados a supor que Beauvoir concorda com a tese de que mulheres não possuem gênio criador; mas não se trata disso. Na verdade (e resumindo bastante), Beauvoir teoriza que as limitações de criação da mulher se relacionam sobretudo às pressões/restrições sociais que a cercam e à tradição que mistifica sua consciência e nega-lhe a liberdade. Quer dizer, Beauvoir denuncia que toda a possibilidade de realização de uma obra genial (ou simplesmente uma obra) é recusada à mulher; que acaba precisando despender tanta energia para libertar-se, que não sobram forças para aproveitar a vitória e romper amarras no instante da criação artística. Naquela citação do diário, Beauvoir está identificando dois tipos de dinâmicas que costumam aparecer nesse jogo de forças: 1. a da mulher que abraça sua singularidade, enquanto rejeita a disciplina para o rigoroso domínio da técnica (a loucura sem talento), e 2. a da mulher que escolhe dominar a técnica e a expressão com vigor viril, enquanto abafa sua singularidade (o talento sem loucura). Ou seja, naquela frase, Beauvoir diz que a genialidade exigiria tanto a disciplina para dominar as técnicas do ofício pretendido, quanto o pleno acolhimento da singularidade - a loucura no talento. Portanto, lido o texto de Beauvoir, imagino que a vigorosa ambição do tipo "quero ser genial ou nada!" seja exatamente do que as mulheres precisam, a fim de garantir a determinação e a disciplina necessárias para que tenham uma chance real de sair do domesticado papel de amadoras e de profissionais que morrem à beira da genialidade. 

Como o orgulho pede que eu ainda tente me defender, o farei destacando que, de início, eu tinha em mente aquela temática explorada pelo livro O Náufrago, de Thomas Bernhard. Nessa obra (faz tempo que a li, ressalto), o austríaco examina os intensos sentimentos de frustração e derrota que se apossam de pianistas no instante em que se dão conta de que não são, nem jamais serão (não importa o quanto se dediquem), um virtuose. O confronto com aquele "nada" da fala de Amy gera um sofrimento profundo, e o trauma pode ser intransponível para o indivíduo. Mas é complexo, né? Persistirei no universo musical proposto por Bernhard, para perguntar a mim mesma se Mozart/Beethoven/Maria Callas/Nina Simone/Glenn Gould/Coltrane teriam chegado aonde chegaram, caso tivessem pensado, no meio do caminho, "ãin, isso provavelmente não dará certo e nem serei grande, mas tô de boas". É aquela coisa: No creo en genios, pero que los hay, los hay


📔 "Me desespera no saber pintar. Ni dibujar. Siento que las cosas me gritan rogándome que las reviva en un lienzo blanco. Pero ¡no sé!, ¡no sé!"

Usei a deixa para pesquisar os desenhos e pinturas de Pizarnik, mas parece que não há um acervo on-line bem organizado dessa produção. A melhor fonte localizada foi a mini galeria (link: aqui) reunida pelo site alejandrapizarnik.blogspot.com

A exasperação de Pizarnik com seus desenhos me obriga a mais uma vez resgatar a marcante angústia de Lily Briscoe, a pintora personagem de Virginia Woolf, no livro To The Lighthouse (Ao Farol): "She could see it all so clearly, so commandingly, when she looked: it was when she took her brush in hand that the whole thing changed. It was in that moment’s flight between the picture and her canvas that the demons set on her who often brought her to the verge of tears and made this passage from conception to work as dreadful as any down a dark passage for a child.". Por coincidência, agora atravesso a fase em que descubro que também não serei um gênio do desenho e aquarela. Faz parte. ¯\_(ツ)_/¯ Naquela breve leitura do capítulo de O Segundo Sexo, motivada pelo diário de Pizarnik, acabei esbarrando com a honesta descrição de minha presente situação: "(...) a mulher, para compensar as falhas de sua existência, se volta para o pincel ou para a pena: é tarde demais; carecendo de uma formação séria, não passará de amadora."   E a parte mais legal é quando Beauvoir diz que a culpa é minha, por ser uma narcisista preguiçosa.😬 Errada, ela não está; e agradeço-lhe por ter me ajudado a economizar umas quatro sessões de terapia. Para fechar, acrescentarei apenas que essa frase de Beauvoir (e o teor daquele respectivo capítulo lido) me lembrou outra correlata, que aparece na série Nada Ortodoxa (Unorthodox), da Netflix (*desculpa para trazer a Shira Haas de volta ao blog):
"Noutras circunstâncias, talvez as coisas tivessem sido diferentes pra você."


📔 "Finalmente, aparece Picasso llevando a Guernica. Lloro más fuerte. Picasso me obliga a aferrarme a la Vida. ¡Y es mucho más cómodo rechazarla! No puedo decir que el hombre es nada cuando sé que allí está Picasso."

Surgiu um espelho poético. Para Szymborska, enquanto a mulher de Vermeer derramar o leite na tigela, o mundo não merece o fim. Para Pizarnik, enquanto existir a obra de Picasso, ela não pode afirmar que o ser humano é nada.


📔 "D. M. me invitó a participar en un concurso literario, de cuyo jurado forma parte. Se me ocurre que no debo intervenir, pues D. M. es pseudoclasicista y dijo que mis poemas «son muy buenos, pero un tanto osados». ¡Osadía! Escribo como puedo. Jamás sería capaz de escribir un soneto ni una apología al jardín de esa plaza. Jamás sabría componer un alejandrino ni calcular una rima. No lo lamento, pues D. M. tampoco «sabría» hacer ninguno de mis poemas."

Já pensou se Pizarnik tivesse escrito poemas sobre o jardim da praça, a fim de ser considerada menos ousada? Provavelmente eu sequer teria cruzado com o nome dela em minha vida. Ousada? Que adjetivo esquisito para se falar de uma obra poética.


📔 "Cada cual se forja su mundo. Mi mundo es esta habitación. Fuera de ella está lo desconocido, lo indiferente, que no tengo deseos de explorar. Acá es donde siento la limitación. Acá es donde veo lo vano de los esfuerzos humanos. De pronto, me asalta la idea de vivir. Me pregunto si vivo. No sé qué es vivir. Además, al estar acá, respondo a mis necesidades. Necesito de esta soledad llena de libros, de música, de humo y café. ¡Vivir! Supongo que «vivir la vida» significa gozarla. Pues mi goce es este.
Em momentos de isolamento."

Neste momento de pandemia contra a qual o isolamento e distanciamento sociais são nosso principal recurso, essa discussão acerca do que significa viver parece ter sido atualizada. Há quem diga que aqueles que não estão tendo dificuldades com a nova rotina social são pessoas que já estavam acostumadas a não viver. Será que as coisas são assim tão simples? Será que o vírus roubou dias de vida daqueles que não sucumbiram a ele?  Não tenho resposta e pedirei uma ajudinha ao Rilke:
Tradução: José Paulo Paes

(P.S.: o fato de Rilke estar cheio de perguntas me traz uma paz tremenda.) Não sei se há relação exata, contudo essa reflexão me fez regressar a um dos breves relatos compartilhados por Sophie Calle no incrível True Stories (Des histoires vraies, 1994). Previamente a um almoço, a artista combina com um amigo (uma precaução, pois o moço era inteligente) que o tema da conversa seria "O que te faz levantar de manhã?". No dia do encontro, as respostas super elaboradas na ponta da língua de Calle não sobrevivem à primeira resposta do homem: o cheiro de café me faz levantar de manhã. Ao fim do encontro, Calle rouba a xícara como memória daquele momento.


📔 "Dicen que T. E. Lawrence leía 6 libros por día. ¡Eso es vivir!"

Opa, Pizarnik pensou numa possível definição para o que seria viver: ler seis livros por dia. Pode ser um bom motivo para levantar da cama. 


📔 "Pasó una hora. 22 h. Pienso en ÉL y una oleada de cálida euforia envuelve mi imaginación. Me siento como inspirada por algo fantástico y deseo hacer cosas increíbles. Si en estos momentos escribiera, creo que saldría algo bueno."

Em várias entradas dos diários, Pizarnik reitera a importância que confere à imaginação (almeja quase uma imaginação pura, digamos; desconectada por completo da memória) como principal ferramenta de seu processo de escrita (não surpreende que Aira goste dela). Nessa entrada específica, ela parece ter encontrado na felicidade a chave que supostamente abre sua imaginação literária. No ensaio O meu ofício, Natalia Ginzburg defende justamente a teoria de que a felicidade e a infelicidade nos levam a escrever de maneiras diferentes. Segundo Ginzburg, a felicidade fortalece nossa fantasia, enquanto a infelicidade estimula nossa memória, tornando-nos presos às lembranças do passado. Será que a onda contemporânea de livros de memórias e autoficções (termo odiado, eu sei) reflete os tempos atuais em que prevaleceria uma infelicidade? Ignoro, mas deixo o registro da especulação. É possível que Giacomo Leopardi não concordasse com a teoria de Ginzburg, dado que, naquele Diálogo da Natureza e uma Alma, a Natureza afirma que a argúcia do intelecto e a vivacidade da imaginação excluem uma grande parte do domínio sobre si próprio; criando mil dúvidas na deliberação e mil contenções na execução dos atos em causa própria. Ou seja, ainda que a imaginação permita a criação de obras de grande valor artístico e filosófico, ela também pode contribuir para a infelicidade em vida. 

Para dificultar o imbróglio, trarei Amós Oz para a conversa. Quando li o livro Como curar um fanático, tive a surpresa de descobrir que o autor israelense defende a imaginação como meio de adquirir imunidade ao fanatismo - "(...) necessitamos de imaginação, de uma profunda habilidade de imaginar o outro (...)". Embora reconheça que a literatura não é uma cura rápida e definitiva, Oz a encara como um recurso válido e importante contra o fanatismo. Retornei à perspectiva do autor não somente por causa dos vários comentários de Pizarnik em relação à imaginação, mas também porque o editor Luiz Schwarcz comentou, numa dessa lives da Companhia das Letras, que o cenário atual é de menor interesse por livros de ficção, em contrapartida à maior demanda por livros de não-ficção. Desde então, tenho matutado no que isso vai dar; se é que vai dar em alguma coisa; veja bem.

📔 "Arturo me dice que está loco. Que está internado en Vieytes y a veces sale para embriagarse y escribir. Me sube el llanto. Se me ocurre que es un verdadero poeta (los que sufren del dolor mundial)."

Essa imagem do poeta como o louco que sustenta nas costas a dor do mundo não já caducou? Se bem que a Beauvoir referiu, naquele mesmo capítulo de O Segundo Sexo, que "os indivíduos (...) que condecoramos com o nome de gênio são os que pretenderam jogar em sua existência singular a sorte de toda a humanidade (...), confundir seus problemas, suas dúvidas, suas esperanças com os da humanidade". A propósito, esse Arturo é um primo de Bioy Casares.


📔 "Un compañero de clase me muestra un poema suyo. Lo leo. Es superficial y vulgar. Le pregunto por qué no es más profundo."

Já que falamos de imaginação, imaginemos a cena: chego pro artistão e tasco na lata "Ei, por que as coisas que você escreve não são mais profundas, hein?". De que maneira o cara responderia isso? Pô, achei a pergunta meio cruel. Seria exagero compará-la à pergunta "por que você não é um gênio?"? Tipo, e se me perguntassem por que escrevo tanto groselha, em vez de escrever coisas mais profundas? É, acho que eu personificaria a grande Lispector: "E eu sei?". 


📔 "¿Y L.? ¿Qué te gustaba en L.? ¡Su rostro! (...) Oh, jamás podré gustar de nadie después de no haber podido amar a L.! ¡Cómo lo deseo! ¡Cómo lo extraño! Era lo máximo que podía exigir de un hombre en cuanto a cualidades. Y su rostro de estudiante francés torturado."

"Rosto de estudante francês torturado"?! Adorei. Não é a perfeita descrição da cara do Louis Garrel? Greta Gerwig acertou demais no casting desse ator em Adoráveis Mulheres.  

📔 "En la librería Letras, un hombre (corredor de libros) mostraba un bellísimo misal romano. El canto estaba pintado con oro rojizo. Era maravilloso. Le dije que «sólo por ese libro me haría católica». Todos rieron, la dueña, generalmente fría, no sabía qué decirme para manifestar su simpatía. Compruebo que en cualquier ambiente, una nota ingeniosa o chispeante sirve más que la erudición seca o las serenas virtudes morales. Sí. Todo reside en la simpatía (en cuanto a las relaciones sociales). Sin embargo, amo mis ojos lacrimosos y mis labios cerrados. ¡No quiero que desprecien mi angustia! ¡Alejandra!, ¿exiges darle validez universal?"

Puxa, agora fiquei com receio de desrespeitar a autora mediante o registro do diálogo que tenho estabelecido com seus diários. Não é em absoluto minha intenção, porém sei que o inferno está sem vaga pra gente bem-intencionada. Nesta postagem, registrei descobertas de coisas que compartilho com Pizarnik; no entanto parece haver muitas dissonâncias entre nós. Não sei, por exemplo, se a Pizarnik de 1955 curtiria meu esforço para encarar a vida com humor e leveza. (Se consigo fazer isso, já é outra história; mas que eu tento, eu tento.)


📔 "Me despierta la voz de mi tío diciendo que el Sr. V. ha muerto. Me levanto y encuentro a mis padres desayunando sanamente y comentando el suceso. Lo peor es que el tema carece de continuidad y las opiniones sobre la maldad de la muerte se mezclan a cierto asunto comercial de mi padre. Llego y me comunican la noticia. No contesto. Siento deseos de decirles que dejen de comer, que lloren, que «eso» nos espera a todos. Mi padre se levanta y quedo con mi madre. Me dice que no hay que pensar en la muerte, pues una se vuelve pesimista, que la vida es bella (parece [palabra ilegible]). Le contesto diciendo que salga a la calle y que si encuentra alegría y belleza que me avise, así no voy a pensar en la muerte. Se escandaliza. ¡A mi edad pensar en «eso»! (...) ¿Para qué tanta lectura? ¡Si después nada queda!"

A irritação de Pizarnik com a indiferença percebida na resposta dos pais à morte do Sr. V reverbera bastante neste 2020. De fato, ouvi comentários semelhantes àquele da mãe da autora, segundo os quais falar dos óbitos por COVID-19 no país seria uma atitude pessimista e antipatriótica (quê?!). Nesse contexto, me alinho à raiva de Pizarnik. Ainda não aprendemos a falar sobre a morte, e apagar seu registro não parece ser a atitude correta, sobretudo no cenário de vidas humanas perdidas, pessoas em luto e um agente causador que circula de modo sustentado.

Por outro lado, o argumento que Pizarnik escolhe para confrontar a mãe -"saia de casa e, se encontrar alegria e beleza, me avise, assim não pensarei na morte" - me soa um tanto despropositado. Na música Rasga, há um trecho em que a cantora Urias lança a seguinte pergunta ao ouvinte:"Sabe quando você sai de casa com a certeza da beleza?" A pergunta me fisgou desde o instante em que a ouvi pela primeira vez, e estava ansiosa para usá-la numa futura piadinha autodepreciativa, na qual diria choramingando que a gata aqui não faz a mais remota ideia do que é sair de casa com a certeza da beleza, pois a gata sabe que não é bela. Graças ao início do isolamento social, finalmente notei que a pergunta de Urias, se destacada do contexto da canção, não especifica a beleza a que se refere, adquirindo uma poética ambiguidade. Sair de casa com a certeza da beleza. Sim, acho a reflexão bonita e admiro demais a construção da pergunta. Todo esse lero-lero serve apenas para explicar por que tendo a discordar do argumento da Pizarnik de 1955, pois sei o que é sair de casa com a certeza da beleza, a despeito da feiura que também encontrarei. Lá fora há beleza e há feiura, so it goes; cabendo-nos o esforço diário, na medida do possível, para ampliar a beleza e reduzir a feiura.

Leopardi, caso lesse essa minha groselhada, rolaria de rir. Este trechinho do Diálogo de um Vendedor de Almanaques e um Passante demonstra a tática com a qual ele zombaria da minha cara, sem que eu nem percebesse (Tradução: Vilma De Katinszky Barreto de Souza):

"Passante: Há quantos anos vendes almanaques?
Vendedor: Mais ou menos uns vinte anos, ilustríssimo.
Passante: A qual desses gostaria que fosse igual o próximo?
Vendedor: Eu? Não sei.
Passante: Não te lembras de nenhum ano em particular que te pareceu feliz?
Vendedor: Na verdade, não, ilustríssimo.
Passante: No entanto a vida é uma bela coisa. Não é verdade?
Vendedor: Isso sim."

Era um fanfarrão, esse Leopardi. Mas tudo bem; porque chamarei o Rilke para me dar um apoio moral e, com somente três versos, resumir toda minha conversa fiada:
Tradução: José Paulo Paes.

27/05/2020

Immerse your Soul in Love #02 - Bell Hooks

📌 Quando a gente se mete a falar de amor, bate um constrangimento, né? O consenso, sem dúvida, é que é papo de fracassado; sobretudo quando a "lorota" sai da boca de mulher. Por sinal, já que Fiona Apple abriu a temporada em que está liberado assumir a insegurança de sentir-se rejeitada pelas cool girls, compartilho que nem Shameika acredita mais no meu potencial, agora que inventei de groselhar sobre amor. Sou caso perdido? Olha, parece que não, porque ninguém mais, ninguém menos que Bell Hooks (her street credit!) solidarizou-se com meu embaraço, validou minha empreitada e ainda ampliou os horizontes de minha curiosidade amoureuse. Aqui, registrarei especificamente as partes legais do diálogo estabelecido entre All About Love e minha postagem inicial da série Immerse your Soul in Love

Pra começo de conversa, Hooks me diz para deixar de besteira, pois a real é que nós (tradução minha:) devemos encarar a confusão e decepção de que muito do que fomos ensinados a respeito da natureza do amor não faz o menor sentido quando aplicado na vida diária. E ela prossegue acalmando os ânimos ao me assegurar que, para se chegar ao amor, é preciso perder o medo de se arriscar; o que implica em falar a verdade, ser honesta(o) e não temer se revelar. Se é assim, então ter reconhecido que me sinto tal qual o gif do Travolta quando o assunto é amor e escrever sobre o tema me colocam no caminho certo. Joinha pra mim. Inclusive a própria autora comenta que, quando jovem, jamais imaginou que um dia teria coragem de falar/escrever abertamente sobre o amor, fora da segura e secreta intimidade. Isso me faz pensar no acerto do cineasta Baz Luhrmann, cujo roteiro de sua primeira (?) história de amor na telona - Strictly Ballroom - inclui o mote Viver com medo é como viver pela metade. Segundo Hooks, para largar mão do medo é preciso abraçar, acima de tudo, o amor pela vida. 

A menção do filme de Luhrmann é a deixa perfeita para recordar que o âmago (palavra pomposa, visto que o assunto é sério) de minhas inquietações partiu da forma com que o amor é explorado nas obras de ficção que cruzam meu caminho. (vide post #01) Quando me deparo com o amor em filmes e livros, tendo a repetir as palavras de Mariah Carey no clipe Honey: "Lo siento, pero no te entiendo, no comprendo. No me abandonas, papito." Pois tivesse Hooks efetivamente lido aquele meu primeiro post, ela teria soltado um "Elementar, minha cara Daniela". A autora me explica que, como não há discussões públicas a respeito do amor (não somos educados nisso, não temos uma definição comum), o espaço é ocupado justamente pela cultura pop; ou seja, falamos de amor sobretudo mediante filmes, músicas, livros, séries de TV etc, os quais se encarregam da função de guias amorosos de nossas vidas. A trapalhada é que as obras de ficção costumam ser dominadas pela mensagem de que o amor é irrelevante e/ou sem sentido, com frequência fomentando a ideia de que, embora todos anseiem o amor, é a confusão que prevalece quando ele é praticado diariamente. Coincidência ou não <cof, cof>, a maioria dessas obras, pelo menos aquelas respeitadas como parte de um cânone, foram escritas por homens. Em seu trabalho como crítica de cultura pop, Hooks observa que o amor surge sempre como uma fantasia e, uma vez que a fantasia é domínio primariamente masculino, fica fácil entender por que homens têm sido os principais teóricos do amor. Claro, a fantasia também é um domínio feminino, contudo Hooks ressalta que a sociedade encara a fantasia feminina como mero escapismo, enquanto a capacidade de construção/elaboração da realidade é reconhecida como atributo exclusivo da fantasia masculina. A parada fica séria, e por isso divertida, quando a escritora problematiza obras de ficção que legitimam uma divergência natural entre o significado do amor para homens e mulheres; uma teórica distinção de linguagem que demandaria a adaptação do outro. Na opinião de Hooks, that's bullshit esse tipo de narrativa se populariza simplesmente porque não exige mudanças nas formas fixas como pensamos papéis de gênero, cultura e amor. 

Em dado trecho, All About Love aponta que, como reflexo do patriarcado, a televisão, o cinema e revistas rotineiramente nos dizem que homens de poder estão autorizados a fazer qualquer coisa e que é essa liberdade o que os torna homens. No ponto de vista de Bell Hooks, tais narrativas subentendem que honestidade é coisa de homem frouxo, enquanto a capacidade para desonestidade e indiferença ("- E daí?") separaria os homens dos moleques. Conforme Hooks, essa ética da dominação e violência perpetua-se na mídia porque os produtores têm intimidade apenas com essas realidades, e não com a realidade do amor. Além disso, é preciso reconhecer que cenas de violência e ação capturam muito mais a atenção do público do que imagens de paz e amor, o que também seria, na visão da autora, consequência de estruturas sociais patriarcais. 

Tá, mas qual a relevância disso tudo, certo? Bom, por coincidência, em meu último post de anotações sobre a leitura dos diários da poeta Alejandra Pizarnik, registrei a forma enérgica com que a autora argentina rejeita a possibilidade de que sua alma sofra influências negativas daquilo que ela escolhe ler, digo, ela nega que sua personalidade seja resultado, ainda que parcial, daquilo que lê. Na conversa firmada com Pizarnik a respeito desse imbróglio, posicionei-me a favor de uma teoria da via dupla: minha persona influencia os tipos de livros que escolho ler e, na contramão, os livros que leio potencialmente moldam minha persona. Essa controvérsia parece ter retornado com a leitura de All About Love, tendo em vista que Hooks acredita numa possível mudança de nossa imaginação cultural mediante narrativas que explorem novas representações do amor. Isso significaria pensar no impacto das obras, ou seja, pensar nas formas potenciais com que um filme ou livro, por exemplo, podem moldar uma cultura e influenciar o pensamento e ação das pessoas na vida diária. Ressalto, porém, que Hooks também escreve que o filme Esqueceram de Mim celebra a desobediência e a violência (oh, yeah), então talvez a posição dela sobre o tema seja meio radical? Honestamente, não sei; mas fica a nota. Por outro lado, de fato não posso discordar quando a autora lembra que obras ficcionais com famílias felizes e amorosas são costumeiramente acusadas de utópicas e inverossímeis. Vejo-me obrigada a voltar à pergunta promovida por Pizarnik: o que veio primeiro? Foram as famílias disfuncionais da realidade, ou as famílias disfuncionais da ficção? De supetão, quero responder que a disfunção na realidade veio primeiro, é claro; porém como ajustar essa resposta à convicção de que essas narrativas, ao consolidarem nosso presente modo de agir e pensar, dificultam qualquer esperança de transformações na realidade? Complicado. É igualmente crucial destacar que Hooks não faz uma defesa da censura, muito menos alega que problemas como violência doméstica sejam produtos direto da mídia. O pensamento da autora volta-se mais à necessidade de sermos críticos diante das narrativas que consumimos. Quando imagens de desumanização são vendidas como o puro suco do entretenimento, por exemplo, atos desumanos podem acabar tornando-se mais aceitáveis em nossas vidas diárias, dando amparo às reações do tipo "ah, a vida é assim mesmo; não há o que fazer".

📌 A seguir, listarei algumas respostas que Bell Hooks gentilmente ofereceu a questões específicas  documentadas no post #01, bem como a outras que rodopiavam na minha cabeça de vento:

(1) 
No Immerse you Soul in Love #01, eu disse que tinha me encantado (me encanto com tudo, que palhaça) com a seguinte fala de uma personagem do conto Do Amor, de Tchekov:"Sobre o amor, só foi dita uma única verdade indiscutível, a saber: que "grande é o seu mistério". Uh, o amor é um mistéééééééério. Hooks  me mandou tomar tento, visto que já somos toda hora bombardeadas por mensagens de que o amor é um mistério insolúvel. Ela chama atenção, por exemplo, para a grande quantidade de filmes nos quais casais supostamente apaixonados nunca conversam entre si (segura essa, Pessoas Normais/Normal People). Fiquei ensimesmada quando a autora me pediu para reparar no quanto as narrativas de apelo popular com frequência reforçam a mensagem de que o conhecimento torna o amor menos interessante e que é nossa ignorância o que o torna tão erótico e transgressor. Hooks vai além e diz que tais mensagens provêm de autores e produtores que, sem fazer ideia do que seja amor, trazem para cena somente suas visões mistificadas sobre o tema. Que cataploft levei, não? E o senhor Tchekov também, vamos combinar. Algum dia estarei pronta para bradar o bordão "mistério é o car*lho"? 

(2) 
Uma das perguntas explícitas anotadas no primeiro post foi esta: "o amor precisa ser tão complicado?" Hooks responde que esse lance de achar que, no amor, tudo é lindo e maravilhoso e perfeito e pura harmonia energizante é papo furado infantil criado por fantasias românticas. Autêntico conto de fadas. A propósito, Hooks me lembrou que a grande Toni Morrison já dizia que a noção de amor romântico foi uma das invenções mais destrutivas na história do pensamento humano, dado trazer implícita a falácia de que, no amor, não temos escolha nem responsabilidades. A definição de amor defendida em All About Love é aquela da ação, da participação ativa, da prática, do cometimento mútuo voluntário. E daí, meus amigos, a coisa é difícil pra caramba. É um aprendizado que requer muita maturidade (detalhe: terapia para resolver trauminhas é bastante oportuna). Sobre essa temática, adorei esta citação de Rilke incluída no livro (tradução minha, do inglês): "Como tantas outras coisas, as pessoas confundiram o lugar do amor na vida, transformando-o em brincadeira e prazer porque julgaram que brincadeira e prazer são mais agradáveis do que trabalho; mas não há nada mais feliz do que o trabalho; e o amor, por ser a felicidade extrema, não pode ser nada além de trabalho..." Em resumo: sim, amor é trabalho, é complicado e pode ser permeado por momentos de dor e sofrimento. 

(3)
No conjunto das ficções do Immerse your Soul in Love #01, identifiquei um padrão meio macabro nas narrativas: à mulher, cabe o papel de morrer de amor; ao homem, o de eventualmente desejar a morte da mulher. Seria essa a tal harmonia energizante que citei acima? Pô, tremenda energia positiva. Avalio que Hooks me oferece um meio de desatar esse nó quando menciona o quanto é comum, em obras de ficção, encontrar o romance como um projeto do qual as mulheres são as planejadoras e arquitetadas. Não é interessante? A autora refere até que, não raro, são os homens que comportam-se como as próprias belas adormecidas, precisando ser resgatados para o amor, pelas mulheres. É o que ela chama de Paradigma do Líder. E quem usualmente morre no final das histórias? É o líder? Pois pronto.

(4)
Com essa leitura, percebi que talvez eu tenha sido amarga ao teorizar no post #01 que, depois de uma história de amor, só sobraria a doce memória que originaria uma história da carochinha pra contar. Bell Hooks me alertou para o seguinte (tradução minha): "Quando alguém conhece um amor verdadeiro, a força transformadora daquele amor persiste mesmo quando não se tem mais a companhia da pessoa com quem se viveu o profundo crescimento e cuidados mútuos." Logo, o fim de uma história de amor verdadeira nos deixa nas mãos não apenas o tempo pretérito, mas também o tempo presente. Gostei disso. De certo modo, o final do filme Retrato de uma Mulher em Chamas me fez pensar algo similar. (Aos que assistiram ao filme:)  Aquela história de amor transformou-se, para aquelas mulheres, numa reles memória do passado? Creio que as cenas finais da obra de Céline Sciamma representam a exata força transformadora atuante no tempo presente.

(5)
Dentre as perguntas não registradas no post #01, consta aquela que me fiz por conta de certas críticas ao filme Adoráveis Mulheres, de Greta Gerwig (adaptação do livro de May Alcott). Sinto comichão sempre que leio/escuto opiniões em cujas entrelinhas identifica-se a defesa de que a qualidade máxima da obra de Alcott/Gerwig prova-se pelo fato de que Jo March não se casa, de que ela e sua escrita se bastam. Estou convicta de que ainda necessitamos de mais narrativas que ajudem desconstruir o argumento de que a realização da vida de uma mulher passa exclusivamente pelo combo casamento+maternidade+vida doméstica, porém interrogo se, hoje, isso significa descartar todo e qualquer tipo de relacionamento em obras ficcionais. Hooks comenta que, em suas palestras, é comum identificar jovens mulheres resistentes ao conceito de amor como força transformadora. A autora afirma que, para tais mulheres, amor é coisa de românticas inveteradas, de gente ingênua e fraca. Hooks me parece sensata ao ressalvar que é preciso fazer uma distinção entre as relações de interdependência saudáveis, daquelas não saudáveis. Fácil, não é; mas vale desistir "só" por causa disso?

(6)
Quando li All About Love, o último filme da trilogia de Star Wars persistia muito vivo na cabeça, então peço perdão antecipado para admitir que li muita coisa no livro pensando na narrativa Kylo Ren/Ben Solo & Rey. Pelos ruídos que chegaram até mim, parece ter rolado acalorada discussão acerca do relacionamento dessas personagens, certa controvérsia para definir se corresponderia a uma história de amor ou à mera romantização de um relacionamento abusivo. Não cravarei uma resposta conclusiva (visto que sequer a possuo, de verdade), porém acredito que Hooks, neste trecho, toca num ponto que se aplica àquilo que marca a dinâmica entre Ben e Rey, sobretudo no episódio IX (tradução minha): "Quando nos comprometemos com o amor verdadeiro, nos comprometemos a mudar, a permitir sermos afetados por aquele que amamos de um modo que assegura nossa plena autorrealização. Esse comprometimento de mudança é uma escolha. Ele acontece mediante concordância mútua.(...) O amor verdadeiro é incondicional, mas para florescer ele requer o contínuo compromisso com mudança e esforço construtivos. (...) Sacrificamos nossos velhos eus (selves) para sermos mudados pelo amor e nos rendemos ao poder de nosso novo eu (self)." Poxa, lembrei agora de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, livro cuja história de amor exige que Elizabeth e Darcy mudem, a fim de que o relacionamento seja possível. 
*****
Ao final de All About Love, Hooks agradece aos autores cujas obras ajudaram-na a compreender a vida com maior complexidade, comparando-os a anjos. Achei um belo gesto e, claro, o aproveitarei para também agradecer a autora por ter me ajudado nesse doido entusiasmo de tentar entender, um pouquinho que seja, a vida (e a ficção).