29/11/2020

The Awakening (O Despertar) - Kate Chopin


Olá, Vivian Gornick; tudo bem? Será que você teria um tempinho pra conversar comigo sobre The Awakening? Acabei de lê-lo pela primeira vez. 


Hello, Daniela. Claro, com prazer. 
Escrevi brevemente sobre ele em meu livro The End of The Novel of Love. 

Eu sei!, e é por isso que decidi finalmente ler essa obra da Kate Chopin. 
*Não resisto e tenho de bancar a fangirl: Gornick, adorei seu livro The Odd Woman and the City! Ah, por favor, diga a Leonard que mandei-lhe um abraço.

Oh, fico feliz que tenha gostado do meu livro. E darei o recado (só não sei como ele reagirá). 
Bem, e o que achou de The Awakening? Kate Chopin era bem popular na época, com uma carreira consolidada há uma década, porém esse livro, em particular, provocou escândalo; acusado, dentre outras coisas, de veneno moral, mais Zola que o Zola, forte demais para as crianças...

Pois é; inclusive, tive de apelar ao Google algumas vezes durante a leitura, a fim de confirmar o ano de publicação, pois quanto mais avançava, menos eu acreditava que tinha nas mãos um livro escrito em 1899. Aparentemente não há, neste caso, unanimidade entre leitores; mas eu gostei bastante de The Awakening.

A história é um melodrama simples, mas a escrita de Chopin é poderosa. As obras dela são muito marcadas pela abordagem do erotismo e sensualidade feminina, bem como pela compreensão de que, no casamento, há sempre uma oposição de desejos onde o papel do dominado, o papel daquele que se submete ao poder do outro, resta sempre à mulher. 

Entendo. Aquela cena da varanda, por exemplo, ilustra brilhantemente a patética luta de braço que por vezes se estabelece entre um casal. Ri um bocado; ao mesmo tempo que morri de raiva quando o marido solta um "pois agora quem vai ficar aqui fora sou eu", depois que a mulher se rende e entra pra dormir. Lendo comentários de leitores, descobri que uma galera acredita que o cara insistia para que ela entrasse porque queria transar, mas eu, tonta, não pesquei isso. Quando li, só enxerguei o lance do poder mesmo; a briga entre uma mulher que buscava espaço para ter vontade própria e um homem que precisava continuar mandando no recinto.

Claro; entretanto o tema do amor sexual é, sem dúvida, muito presente nos livros de Chopin, Daniela. O que acontece é que, até aquele ponto da bibliografia dela, essa temática tinha sido mais palatável para os leitores, uma vez que o sexo ocorria entre Creoles e Cajuns (ou seja: era o outro, e não o leitor), e surgia de modo apenas implícito. Em The Awakening, por outro lado, Chopin tornou isso explícito; escrevendo uma personagem branca e abastada que desperta sua sexualidade num relacionamento adúltero. 

Pronto; também não vi um despertar sexual nessa passagem do adultério, ao contrário do que largamente se comenta. Pra mim, Edna se exalta com a traição num nível mais primário, quero dizer, se empolga por finalmente perceber que não era obrigada a seguir as regras sociais impostas às mulheres. Em outras palavras: Edna acorda (opa!) para o fato de que só caberia a ela ditar o que fazer da própria vida, a partir da investigação de seus próprios desejos (> esse, porém, é o ponto onde ela escorrega). Parece óbvio, mas sabemos que, para muitas mulheres - sobretudo naquela época -, isso pode ser uma baita revelação.

Possivelmente sua leitura focou nesses aspectos porque The Awakening é um romance que discute, acima de tudo, o significado e a consequência de desejos dormentes. 


Exato!; creio que minha relação com o livro seguiu precisamente essa chave, Gornick. Por exemplo, acho peculiar que The Awakening seja alardeado como uma obra feminista; ou melhor, que Edna seja tomada por muitos leitores como uma espécie de heroína feminista – um conceito bem tonto, sejamos honestas. Durante a leitura, questionei recorrentemente o tal “Despertar” denunciado no título, pois defendo que Edna jamais acorda em definitivo; mas tão somente intercala entre sonhos. Essa personagem me remeteu a um trecho do O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, do qual destaco esta frase: “(…) a mulher tradicional é uma consciência mistificada e um instrumento de mistificação (...)”. Ou seja, o que tento dizer é que The Awakening seria uma ficção que retrata (super bem) o estrago que sociedades patriarcais, sexistas e machistas são capazes de fazer no processo de formação e amadurecimento psicológico das mulheres; mas o livro não consegue ir além disso. Edna permanece numa constante ameaça de despertar, sem jamais, no entanto, ser capaz de afinal encontrar a própria voz, descobrir quem realmente é e o que deseja, desvendar o mundo em que vive e seu lugar nesse mundo. Ela persiste alienada de si. Numa crítica sobre o livro, Patricia Yager menciona algo que parece-me bastante pertinente: "A compreensão mais radical de The Awakening é a de que Edna habita um mundo de possibilidades linguísticas limitadas; possibilidades limitadas de interpretar e de reorganizar sentimentos e, portanto, de agir."

Entendo seu ponto de vista, o qual, por certo, decorre do fato de que as mulheres, com mais frequência do que os homens, acordam do longo sonho da adolescência sem saber como chegaram ali. Para Kate Chopin, a mulher é uma metáfora da consequência desse sonho de vida que se prolonga por muito tempo. A sabedoria, quando chega, não acompanha-se do poder capaz de ativar desejos cronicamente dormentes. Mulheres, uma vez conscientes, com frequência permanecem congeladas, empaladas no conflito de Hamlet. 

Complicado, né? Acho que o livro é vigoroso na abordagem dessa questão. Aliás, tomemos as personagens Mademoiselle Reisz e Madame Ratignolle, que praticamente assumem as figuras do diabinho e anjinho sobre os ombros de Edna que, coitada, não percebe que aquelas não são as únicas narrativas possíveis para uma mulher (*mas é engraçado como a maioria das ficções atuais continua nos entregando apenas essas duas opções - a mãe/esposa exemplar X a fdp fodona). Edna falha em vislumbrar o terceiro caminho que apenas a ela caberia trilhar e, importante frisar, com as ferramentas que a realidade a apresentava (como diz o atual meme dos djóvens: “você que lute.”). Nesse contexto, a exasperação da personagem me contaminou um bocado, dado que me vi diante de uma mulher esmagada pelas habituais narrativas românticas que a sociedade nos impõe: de um lado, o papel da mãe e esposa exemplar despida de libido; do outro, o papel da mulher princesinha livre de responsabilidades e amada incondicionalmente por quem quer que escolha. Em suma, defendo que The Awakening é muito mais uma obra sobre construção de identidade e, por que não, liberdade; ambos sob a perspectiva da mulher. 

A propósito, preciso registrar que aquela mesma crítica escrita por Patricia Yaeger me alertou para algo mega importante que eu não tinha atinado (embora óbvio): os homens da história representam o terceiro vértice (os outros dois, aquelas duas personagens citadas) contra o qual Edna ricocheteia. Yaeger destaca diversas passagens nas quais, no contato com os homens da história, a protagonista retrocede em seu despertar, acanhando-se diante do universo masculino com o qual não se identifica, mas que a define tal qual a um objeto. Quando ela ensaia iniciar e aprofundar o processo de auto-investigação, um homem costumeiramente se materializa para dizer-lhe o que ela pensa, sente, deseja. 

Bom, Edna é uma personagem marcadamente Americana: indivíduos modernos divididos em si mesmos. Eles afirmam desejar uma vida real, mas, no fundo, não querem. Não entendem que, para se ter uma vida, é preciso agir, consciente e deliberadamente, em nome de um eu uno, integrado. Nesse sentido, Lily Bart, personagem de Edith Wharton, e Isabel Archer, personagem de Henry James, são ambas modelos daquilo que atormenta Edna Pontellier. Wharton e James escreveram romances inteligentes porque ambos autores tinham consciência daquilo que suas personagens sabiam apenas de modo imperfeito: a paralisia do eu dividido. Kate Chopin, por sua vez, sabia apenas tanto quanto Edna: não o suficiente. 

Opa, já li obras desses dois autores (e gostei muitíssimo), mas não as que você citou; providenciarei essas leituras. No entanto, acho curioso que, pra você, Chopin encontrava-se num patamar similar ao da própria personagem que concebera; pois eu não tinha pensado nisso. Em relação à escrita da autora, além da simplicidade que você mencionou, eu destacaria o aspecto cinematográfico; concorda? Até descobri que o livro já foi adaptado pro cinema, porém as críticas que li não me animaram a assistir. Poxa, nas mãos de uma boa diretora, estou convicta de que o livro resultaria num filme belíssimo. Como não ficaria na telona, aquele trecho do passeio de barco? E a cena do nado no mar, à noite? A cena do reencontro acidental dela com Robert, naquele espaço descrito feito um conto de fadas? O final, então; com a mulher nadando nua e fundindo-se com o mar?... É, talvez eu dê uma chance à adaptação que temos. 

Veja, é que, em minha opinião, Chopin atinge apenas flashes de percepção (intensos, porém tênues), construindo uma prosa lamacenta e abstrata. A sintaxe da autora é sofisticada, mas o discurso tão direto revela-se primário. Chopin percebe a dura verdade do eu inviolado sob a perspectiva de uma mulher adulta, com desejos sexuais; porém falha no momento de situar isso num mundo plenamente imaginado. Desse modo, não resta espaço para transformar insight em sabedoria. 

Hum, entendi. E quanto ao final, Gornick? Confesso que, quando o li, me senti uma leitora super desatenta, pois não antecipei aquele desfecho. Caramba, a autora tinha dado todas as pistas! Apesar disso, é uma cena que gera muita discussão entre leitores e acadêmicos, né? 

Sim, é verdade. Na tentativa de interpretar o motivo do desconforto que o livro me provoca, passei por algumas hipóteses. Primeiro, imaginei que Edna morre porque assume-se enquanto ser sexual (castigo). Depois, supus que a personagem olha o abismo, enxerga o vazio da vida, e por isso deseja morrer. Por fim, após minha última releitura, percebi, pela primeira vez, o quanto Edna é simplesmente alimentada pela fantasia; ela move-se apenas rudimentarmente pela vida. 

Compreendo e concordo plenamente com sua última hipótese. Há quem veja naquele fim um ato planejado e deliberado da personagem, mas eu o encaro como um mero acidente, por mais estúpido que soe. Por coincidência, durante minha leitura recente do famigerado O Mal-estar na Civilização, do Freud, esbarrei com uma frase que sintetiza perfeitamente o julgamento que faço do que ocorre no final com Edna: “A satisfação irrestrita de todas as necessidades se apresenta como a maneira mais tentadora de conduzir a vida, mas significa pôr o gozo à frente da cautela, trazendo logo o seu próprio castigo.”

Persistindo na cena final, também vale acrescentar que essa imagem da mulher nadando no mar, carregada de sensualidade e liberdade, parece não ter caducado na literatura, pois também a encontrei no livro contemporâneo Outline (Esboço), da Rachel Cusk. Já leu, Gornick? É fascinante, pois Cusk escreve a respeito do mesmíssimo desejo de uma mulher em seguir nadando e nadando em direção ao infinito do mar, porém com uma diferença crucial: ao contrário de Edna Pontellier, a narradora de Outline sabe tratar-se de uma ilusão (embora isso não promova o pleno desenlace desse ímpeto, é bem verdade). 

Colarei um breve destaque do que Cusk escreve em Outline, a fim de permitir a preciosa comparação: “I felt that I could swim for miles, out into the ocean: a desire for freedom, an impulse to move (…) into ever expanding wastes of anonymity. I could swim out into the sea as far as I liked, if what I wanted was to drown. Yet this impulse, this desire to be free was still compelling to me: I still, somehow, believed in it, despite having proved that everything about it was illusory.” 

Para recordar, o que escreve Chopin: "She turned her face seaward to gather in an impression of space and solitude, (...) As she swam she seemed to be reaching out for the unlimited in which to lose herself." 

Ocorre-me agora que talvez esse lance de nadar e nadar no oceano até afogar-se seja simbolicamente equivalente a “comer a massa branca da barata” (Lispector), “dissolver as próprias margens com o mundo” (Ferrante). Cynthia Wolff, na crítica psicanalista que escreveu sobre The Awakening, chama atenção aos desejos orais de Edna Pontellier (ela cita vários trechos e frases que remetem à relação de Edna com comida, da relação com o mundo externo através da boca), destacando o quanto o narrador conecta os desejos de Edna em termos de completude, incorporação e fusão às tentativas iniciais de definição de identidade. Wolff explica que, quando o primitivo sentimento do ego de buscar um preenchimento mediante a fusão com o infinito permanece intenso na vida adulta, ele pode ser irresistível e aniquilador. De outro modo: quando o verdadeiro Eu permanece tanto tempo dormente, é possível que o enorme vazio só se satisfaça mediante a fusão com o mundo externo, uma totalidade que representa a aniquilação do Ego. 

Interessante. Em entrevistas, Chopin reiteradamente afirmara que, em seu processo criativo, ou a escrita vinha toda de uma vez ou não vinha; o que tomo como a mais relevante informação que temos acerca da autora. Chopin parecia encarar isso como a prova de um talento inato, e não como o amadorismo que de fato é. Afinal, o que é a vida de um escritor, senão contínua revisão? De que outro modo pode um escritor aprofundar seu trabalho, criar um mundo no livro; e não apenas uma brecha pela janela aberta? Nesse sentido, pode-se afirmar que a própria Kate Chopin nunca avançou para além do começo. A vida da autora constrói-se como uma sequência de despertares. 

Eita, talvez você tenha pegado pesado, Gornick. (Se bem que é exatamente o que Simone de Beauvoir fala nos trechos aos quais esse livro me remeteu.)


Não é minha intenção. Na verdade, as preocupações de Chopin eram aquelas de dois dos grandes autores de sua época, e ela foi capaz de tomá-las para si num grau admirável. 


Entendi. Enfim, fiquei feliz por ter lido The Awakening. Se panz, talvez eu ainda tenha um tanto de Edna Pontellier para solucionar em mim, e o livro me ajudou a permanecer atenta quanto a isso.

No mais, não posso perder a piada: este poderia ser mais um caso "Os Simpsons previram", não tivesse o livro de Chopin chegado primeiro*: Mulheres, temos de pensar nas criancinhas; pra que esse egoísmo de pensar em si própria? (*claro, a pegada histórica desse apelo é bem mais longa que a do livro de Chopin...)

"Think of the children, Edna. Oh think of the children! Remember them!"  

Obrigada demais pelo papo, Gornick.


You're welcome; Daniela.

22/11/2020

And I draw a line to your heart today #02

Opa, saiu nova fornada de desenhos feios. YAY! Pior que é, sim, motivo para celebrar, pois minha vida teve tanta reviravolta em plena pandemia, que acabei desenhando nada nestes últimos meses. Daí, por causa desse ~detalhe bobo~, nem as habituais marmotas estavam saindo, quando sentei para desenhar de novo; o que me pôs num estado de pânico e melancolia. Poxa, era como se eu tivesse abandonado a estaca 0.5, de volta à estaca -50. O estrago na hora de aquarelar, então, nem se fala. Não tem jeito: tem que desenhar/aquarelar sempre; pois essa merda não é como andar de bicicleta. Enfim, ainda preciso retornar aos desenhos que queria demais ter conseguido fazer (falhei feio), no entanto ouso dizer que estou contente com essa nova leva. Estão perfeitos? Nem de longe; mas para uma pessoa sem talento e sem qualquer domínio da técnica feito eu, deram pro gasto. O meu, pelo menos. E curti tanto o resultado/ potencial do lápis de cor, que já fiz um upgrade no meu conjuntinho - calma; não chegamos num set da Caran d'Ache, mas um passo de cada vez, certo? Ah, incluí uma aquarela que fiz em 2020, porém mais antiga, inspirada numa das mais espetaculares e lindas cenas de dança do cinema, de um dos meus filmes favoritos do ano (In Bloom, 2013). Link para assistir/rever (*o contexto é crucial): X

Até os próximos traços (espero), ♪ to keep us safe 𝇥.

Referência: Helena Bonham Carter, filme A Room with a View 

Referência: cena linda do filme Ratcatcher (O Lixo e o Sonho; 1999), da Lynne Ramsay 

Referência: Rihanna no Met Gala 2015

Referência: Lika Babluani na incrível cena de dança do filme In Bloom (2013); da Nana Ekvtimishvili

Referência: Valérie Mairesse no filme L'une chante l'autre pas (Uma canta, a outra não - 1977), 
da Agnés Varda.

Referência: Regina King no Emmy 2020