14/10/2015

O senhor das moscas - William Golding

"- Talvez (...) haja um bicho. (...) talvez sejamos nós. (...) Poderíamos ser uma espécie de... Qual é a coisa mais suja que há?
(...) 
- Que está fazendo aqui sozinho? Não tem medo de mim? (...) Que engraçado achar que o Bicho é algo que podem caçar e matar! (...) Você sabe, não é? Sou parte de você? (...) Sou a razão por que ninguém pode ir embora? Por que as coisas são o que são?"

Já consumi tanta obra derivada do tema principal e da premissa de O Senhor das Moscas, que a empreitada de tentar conceder ao livro uma leitura despida de vícios e prejulgamentos - oferecendo-lhe os descontos e a contextualização dos quais faz merecidamente jus - revelou-se difícil. Não sei se a culpa foi minha, mas a verdade é que estava convicta a respeito do que iria encontrar - como ocorre com alguns clássicos - e, infelizmente, não acho que a conclusão dessa leitura tenha me contradito em grande extensão.

O espírito - digamos assim - do livro lembrou-me bastante de "O coração das trevas", do Joseph Conrad, com muitas ressalvas, claro, tais como: (1) no lugar da África, temos uma ilha do pacífico, (2) a II Gerra Mundial/Pós-Guerra substitui o contexto do colonialismo inglês, e (3) Golding é beeeem menos sutil e mais ambicioso no número de temas explorados com sua história - se piscarmos os olhos por um segundo durante a leitura, corremos o risco de perder uma metáfora, uma alegoria, um símbolo; os quais saltam explicitamente de todas as páginas do texto, quase que de todos os parágrafos. 

O que mais me agradou foram, como esperado, algumas questões e reflexões que não antecipei encontrar na obra. Por exemplo:

➻ Passagem da infância para a dura e amarga vida adulta.
As referências que Golding faz relacionadas ao choque que a brutalidade dessa fase da vida representa foram muito engraçadas. 
"A ilha estava ficando cada vez pior. - Estou com medo. (...) Que será de nós - Não sei, Ralph. Precisamos continuar, é tudo. E é isso que os adultos fariam."
- Amiguinhos da ilha, a vida adulta é só essa desgraceira mesmo e, de fato, só piora: quebram nossos óculos na cara dura, e ainda somos obrigados a engolir o choro.
Oh, Piggy, you were doomed from the start.
Que alegria, ser um adulto:
"Descobriu que compreendia o aborrecimento daquela vida, onde todo caminho era improvisado e uma parte considerável do tempo em que se estava desperto era passado olhando onde pisar. Parou, de frente para a praia, lembrando-se daquela primeira exploração entusiasmada, como se fizesse parte de uma infância mais brilhante, e sorriu sarcasticamente."

 ➻ Política! Reuniões! Votações! Bases aliadas!
(infol sinopse, etc.)
(tradutor: Geraldo Galvão Ferraz)
Quem nunca estressou-se/aporrinhou-se com uma reunião de qualquer natureza - o epítome da vida em uma sociedade democrática -, que atire a primeira pedra. Ri muito com o cúmulo da pauta colocada em votação pelas crianças: "existe fantasma?", "existe bicho?". Fez-me lembrar de ~certas propostas~ governamentais (não só brasileiras) esdrúxulas de plebiscito.

Much paranoia!
Há modo mais eficaz para estabelecer poder e impor submissão? Gostei muito da forma com que Golding explorou essa premissa: o "Bicho" era o que Jack precisava para submeter definitivamente os meninos à sua liderança. Ao longo da História, esse "Bicho" já recebeu muitos nomes diferentes e, diante da atual discussão "terrorismo x privacidade", ainda parece ser relevante. Fiquei aqui pensando com meus botões: Edward Snowden seria, em parte, o Simon da nossa presente realidade? Posso estar exagerando, eu sei. Ou não? Devaneios...

➻ Provocação quanto ao tipo de ordem/liderança a que os indivíduos sujeitam-se com menos resistência.
"- Viu? Eles fazem o que eu quero."
A afronta de Jack impõe, de fato, a reflexão: por que foi tão difícil convencer os bostinhas a manter uma simples fogueira, mas não a agredir e matar um ser humano?

No ínicio do livro, Golding parece ter respondido, parcial e antecipadamente, a essa pergunta:
(momento de um discurso exageradamente otimista e sem fundamento, proferido por Ralph) "- A Rainha tem um mapa daqui. - Novamente voltaram os sons de alegria e de melhor disposição. - E mais cedo ou mais tarde um navio chegará aqui. (...) seremos salvos.
O grupo orientara-se para a segurança através das suas palavras. Gostavam dele e agora o respeitavam. Espontaneamente, começaram a bater palmas e logo a plataforma estava tomada por aplausos."
 É assim que se faz política. ¯\_(ツ)_/¯ 

➻ O horror de encontrar-se na posição em que não mais se identifica o propósito de coisa alguma.
Achei fascinantes as passagens nas quais Ralph dá-se conta, apavorado, de que começava a escapar-lhe a razão pela qual precisavam manter a fogueira acesa. Os trechos parecem sugerir que a preservação, pelo Homem, de seus objetivos racionais e de sua conduta civilizada é um esforço consciente e permanente, em confronto direto com nossas tendências naturalmente selvagens. Parece-me assustadoramente pertinente.

➻ A edição que li traz um comentário na contracapa de Oscar Pilagallo: "(...) o livro tem uma moral, que bem pode ser a defesa, pelo avesso, dos valores cristãos que moldaram a sociedade ocidental."  Felizmente esse subtexto religioso escapou-me, confesso, durante a leitura (instinto selvagem x pecado original; bem x mal, blá, blá, blá...). 

Fiquei pensando: e se houvesse um(a) professor(a) sobrevivente com os moleques? Será que já não existe algum episódio de "Tales from the crypt" ou de "The Twilight Zone" com esta premissa: um adulto ilhado com um bando de pivetes selvagens? O horror!!

Lendo Contos | 60 Stories → Come back, Dr. Caligari - Donald Barthelme

(info, sinopse, etc.)
Iniciei, super na maciota, a leitura do Sixty Stories, de Donald Barthelme, e concluí os cinco contos que os editores selecionaram da primeira coletânea dele: Come back, Dr. Caligari (1964).

Bom, a seguinte sigla resume magistralmente bem minha experiência geral de leitura: WTF?!!  Eu caí de (sem?) paraquedas no universo desse autor e, olha, o tombo foi feio.  Não sabia nada sobre o estilo dele e surpreendi-me desbaratinadamente com a prosa super experimental; repleta de surrealismo, absurdos, non-sense e provocação. Como eu usualmente gosto de textos que me fazem sentir feito uma imbecil (desde que não resvalem explicitamente para o pedantismo e presunção vazios, claro), minha impressão inicial com o Barthelme foi bastante positiva. 

Registrando qualquer coisa, muito brevemente*, sobre os cinco contos:
(* sim, pois mesmo que quisesse, eu não teria capacidade nenhuma de destrinchar os textos. A verdade é que tenho muito mais perguntas do que respostas.)

Margins
Henry Grant - 1969
(fonte)
Sem qualquer apresentação prévia, somos arremessados no meio de um papo entre dois pedintes nas ruas de NY; um branco, o outro negro e ex-presidiário.

Fundamentando-se em um livro de embasamento científico duvidoso, o branco tenta convencer o negro - aparentemente um ávido leitor do cânone literário - de que ele precisava alterar as margens, a formatação e a caligrafia da sua placa como um primeiro passo para mudar a si mesmo.

Ousando especular, eu chutaria que, além da ~sacadinha~ "margens textuais x marginalizados x marginália" e da provocação quanto aos estereótipos sociais; Barthelme parece também alfinetar a inflexível exigência de padrões formais estáticos e rígidos na literatura, bem como o consequente distanciamento daquilo que seria a verdadeira essência do texto. Pela leitura dessa primeira coletânea, não restam dúvidas de que Barthelme desafia sem medo essa imposição.

 A shower of gold
Dos cinco contos selecionados dessa coletânea, esse foi meu favorito. Ele é completamente absurdo e surreal; com direito a:
1. programa de TV intitulado "Who am I?", que busca participantes com a seguinte chamada:
"We'll pay you to be on TV if your opinions are strong enough or your personal experiences have a flavor of the unusual."

2. presidente dos EUA invadindo abruptamente, montado em um trenó, o apartamento de um cidadão;
3. invasão de apartamento número 2; dessa vez por um "cat-piano player".
(fonte)
 Me and miss mandible
Premissa muito boa: você faz cagada no trabalho e no casamento, daí te mandam de volta para a escola - ensino fundamental - em uma tentativa de começar do zero sua transformação em um cidadão exemplar. A piada é que você parece persistir inevitavelmente nos mesmos erros.

For I'm the boy
Aviso que, desse ponto, as coisas vão ficando cada vez mais confusas e as relações/traições conjugais fixam-se, aparentemente, como um tema de particular interesse do autor, naquela época.

O conto trata-se de um papinho no carro entre três amigos que voltavam do aeroporto, onde um deles havia despedido-se da mulher de quem divorciara-se. Talvez haja uma referência ao Ulysses de James Joyce, mas como ainda não encarei esse calhamaço, fiquei só na especulação.

Curiosamente, assim como em Margins, mais uma vez os homens terminam resolvendo as coisas na base da porrada. 

 Will you tell me?
Dos cinco, acho que atingimos o "WTF" máximo aqui. De uma maneira beeeem mais ou menos, pareceu-me uma espécie de versão em prosa cínica, pós-modernista e surreal do poema A Quadrilha, do Drummond. (sim, posso ter chutado para fora.)

08/10/2015

Angel - Elizabeth Taylor

(info, sinopse, etc.)
Esse foi mais um livro sacado dos excelentes catálogos da NYRB e da Virago; embora eu tenha lido a edição brasileira traduzida por Aulyde Soares Rodrigues, publicada em 98 pela editora Mandarim. Agrupei acima imagens das múltiplas capas disponíveis no mercado para ressalvar que a disparidade preliminarmente confusa que despertam resta completamente dissipada após a leitura do livro que, de fato, é bem peculiar (no muito bom sentido, adianto).

Elizabeth Taylor
De antemão, seguem duas notas relevantes sobre a obra:
1. essa  Elizabeth Taylor não é a famosa atriz dos olhos violetas; mas sim a escritora britânica homônima que publicara entre as décadas de 40 e 70. Angel, especificamente, foi publicado em 1957;
2. ao contrário do que o título e a capa brasileira (em especial) sugerem, também não se trata de um daqueles ~romanções~ de banca. Ou trata-se? Bem, eis aí uma interessante questão, a qual retomarei adiante.

Inspirando-se em grande parte na vida de Marie Corelli, famosa romancista inglesa das eras Vitoriana e Eduardiana, Taylor cria a personagem epônima Angélica Deverell; a Angel, cuja trajetória  parece recriar em grande extensão aquela de Corelli.

No início do livro, Angel é uma adolescente de 15 anos que vive sufocada entre dois mundos: de um lado, a pobreza do bairro e casa em que mora com a mãe viúva; do outro, os mistérios sedutores da rica família da Casa Paraíso, de cujas histórias a tia, criada daquela casa, é porta-voz. Aliás, a sombra daquela mansão parece ter-lhe roubado até mesmo o direito a um nome próprio, considerando-se que ela fora batizada de Angélica como uma deturpada homenagem à herdeira homônima da Casa Paraíso.

Como escapismo da realidade considerada degradante, Angel tinha por hábito sonhar acordada, recorrendo a realidades paralelas idealizadas com o glamour digno (na sua concepção) dos muros da Casa Paraíso. Logo no início do livro, ela tem a fascinante ideia, quase uma epifania, de canalizar toda essa imaginação fértil para a escrita de um livro que, ainda em sua fantasia, a tornaria rica e famosa. Por mais improvável que isso possa parecer, o fato é que sua artimanha dá certo: ainda adolescente, Angélica Deverell consegue o feito de publicar seu primeiro livro - Lady Irania - que torna-se um estrondoso e imediato sucesso, catapultando-a à posição de grande escritora best-seller.

Mediante tal premissa, Elizabeth Taylor explora, em tom muitas vezes cômico e quase de paródia, o mercado editorial dos romances populares do final do século XIX e primeira metade do século XX (então publicados por editoras precursoras da atual Harlequin). Algumas passagens do livro ilustram bem a, digamos, comédia por trás daquele universo literário*:

Quanto ao perfil da escritora:
"(...) prosa ornamental, com tantos crescendos e aliterações (...), composição era vulgarmente rebuscada (..). a linguagem empolada, a extravagância, extremamente tedioso, (...)"
"- Você lê muito, Angélica?
- Não, eu nunca leio. (...) Não acho interessante."
 "Poderia perfeitamente, ela pensou, imaginar o que acontecia lá dentro, nos bares, no teatro e na prisão. A experiência era um recurso da imaginação, jamais seria, Angel estava certa, tão bela nem tão terrível." (lembrando que ela começa a escrever ainda adolescente, sem nenhuma experiência de vida.)
Quanto aos editores:
"Nós publicamos para eles, infelizmente, para o "exército do ganha-pão", como diz meu sócio. Eles decidem. (...) Para eles, encobrimos o que é real demais, minimizamos o que é por demais vívido e retiramos uma boa parte do que, de acordo com nosso gosto, preferíamos deixar. "
Quanto à dinâmica crítica x leitores x escritores de tais romances:
"Quanto mais os críticos riam, maiores eram as filas nas livrarias para comprar os livros de Angel; a força de seu romantismo capturava as mentes simples; as situações absurdas encantavam os sofisticados; sua indignação fervente quando uma fúria passageira a fazia afastar-se da história, com denúncias e irrelevâncias, levava alguns leitores a uma concordância solene e outros a acessos de riso."
"Seu ressentimento mórbido com a menor crítica era uma carga penosa para a autora de uma obra tão sujeita a constantes zombarias e ofensas. (...) da legião dos que ridicularizavam seus livros, "os macacos confusos", como ela chamava, "aqueles que zombariam de Shakespeare por serem incapazes de escrever outro Hamlet."
 "(...) parte do estado de excitação dentro do qual o livro fora criado parecia saltar das páginas (...) os leitores menos sofisticados eram transportados para muito além da crítica das inexatidões e das improbabilidades."
* Ou seja: Taylor direciona seu olhar ao mercado editorial do início do século XX e ainda acaba acertando, com pequena margem de erro, igualmente o cenário literário atual.
...

Porém, extrapolando ainda mais essa excitante paródia literária, acho que pode-se dizer que a verdadeira essência do livro é mesmo a protagonista que, não à toa, intitula ironicamente a obra, visto que, de angelical, ela não tem nada (adendo: se admitirmos que a capa brasileira não tenta ludibriar o leitor quanto a proposta da obra, mas sim reforçar essa ironia do título; fica mais fácil aceitá-la). Taylor narra toda a vida de Angélica Deverell, uma espécie de anti-heroína tão detestável quanto fascinante, e que efetivamente desperta sentimentos bastante dúbios no leitor. Angel é uma precoce escritora que habita permanentemente, como já mencionado, uma realidade delirante que ela própria cria a fim de satisfazer as necessidades de sua imaginação megalomaníaca e de proteger-se das brutalidades reais da vida. Sua personalidade é do tipo tóxica, arrogante, narcisista e histriônica. Esta passagem ilustra bem o efeito que a presença de Angel causava nas pessoas:
"Não estou mais rindo dela (de Angel) (...). Na verdade tenho um pouco de medo. Hermione a imaginava sentada no fundo do mar, fazendo encantamentos, contando os corpos dos afogados. Pediu a uma criada para acender mais velas, pois a sala, de repente, pareceu tristonha. Faltava alegria e ela sentia-se gelada."
Ao mesmo tempo, como não admirar uma mulher confiante e determinada que, com uma inegável dedicação ao seu trabalho, consegue mudar para uma direção muito melhor o rumo de sua própria vida em pleno final de século XIX? Voltando à questão inicial desse post: o livro é um romance de banca? Acho que, em consonância com o tom cômico, pode-se dizer que Taylor parece propor um "romance de banca às avessas", no qual a trajetória de uma heroína execrável, mas também admirável, presta-se como metalinguagem crítica para o gênero satirizado.

Através da personagem Angel, a autora também levanta uma série de questões bastante provocativas sobre a relação "escritor x escrita":

      - O tipo de literatura produzida por escritores como Angel é menor? É imprestável e irrelevante?

      - O quanto de Angélica Deverell existe em todo e qualquer escritor? 

      - A escrita é uma arte cujo exercício exige, inevitavelmente, um pouco de paranoia, obsessão,                     excentricidade, vaidade, arrogância, solidão? 

      - E, como o final do livro parece questionar: para o escritor, vale a pena o sacrifício?

Em sentido correlato, a premiada escritora britânica Hilary Mantel, grande admiradora do livro, assim já o descreveu: "Elizabeth Taylor’s tender, funny, exquisitely stylish novel keeps us on Angel’s side, even though we are appalled by her narcissism and shocked into laughter by her self-delusion. She is a monster, but a delicious monster, and the novel poses, for writers, questions that don’t date. That’s why I’m so drawn to the book and have loved it for years; there’s a bit of Angel in every writer, I fear."  

Enfim, foi um livro que me surpreendeu muito positivamente. 
...

Em 2007, a obra foi adaptada para o cinema por François Ozon, mas creio que nem o Fassbender fez compensar o tempo que despendi assistindo ao filme. Achei o roteiro péssimo, a atuação da Romola ficou bem pouco convincente (para quem leu o livro, pelo menos) e, de modo indefensável, o filme é inegavelmente chato. ¯\_(ツ)_/¯

Segue o trailer:


28/09/2015

Um, nenhum e cem mil - Luigi Pirandello


E não é que, às vezes, pode ser vantajoso conhecer de antemão as sinopses dos livros?  Explico: como já li no início desse ano "Acontecimentos na Irrealidade Imediata", do Max Blecher; acho que teria sido mais astucioso ter reservado a leitura de "Um, nenhum e cem mil" (tradução de Maurício Santana Dias) para outro momento, visto que ele também explora as noções de realidade e identidade. 

De qualquer modo, o prejuízo não foi grande, pois a prosa do Pirandello é completamente diferente daquela que encontrei na obra de Blecher. O estilo do italiano, nesse livro, é muito mais informal e coloquial, utilizando a voz de um narrador protagonista que dialoga diretamente, de forma muito instigante e prazerosa, com o leitor.

E considerando-se que, do meu parco arsenal de leituras, eu consegui estabelecer de forma imediata - quase em déjà vu - três diálogos literários bastante próximos; esse tema parece ser mesmo frequentemente explorado na Literatura:


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20/09/2015

[Mad Men Reading List] Lady Chatterley's Lover - D. H. Lawrence


A New York Public Library montou uma listinha de 25 livros que apareceram na série Mad Men, e fiquei com vontade de encarar alguns* daqueles títulos. Começo com Lady Chatterley's Lover porque, além de ter sido um dos primeiros que apareceram na série (S01E03 - Marriage of Figaro), meu exemplar fora aquirido exatamente depois que assisti à ótima cena em que a obra é discutida (ou seja, dei-me conta de que meu livro estava pegando poeira na estante há cerca de sete anos!). 

1. Queda e declínio do império romano? Sério, Sally?;  2. Desculpa, mas tenho preguiça eterna de Mark Twain;  3. Dois pés atrás com Thomas Pynchon ; etc, etc. )

Vou me intrometer no papo das secretárias da Sterling Cooper Agency para registrar algumas impressões de leitura:


-  err, not quite. 

Ao contrário do que eu supunha, o livro de D. H. Lawrence não se propõe a simplesmente narrar uma boa história sem ignorar a vida sexual das personagens, ou, de outro modo; não trata-se apenas de demonstrar que há, sim, espaço na Literatura para tratar abertamente de sexo. A verdade é que o livro nos apresenta a um autor disposto a defender certa bandeira valendo-se da temática sexual como principal munição.

Em Lady Chatterley's Lover, Lawrence prega contra a industrialização (como executada) e contra a estratificação social. Ele acusa a sociedade de sua época de futilidade e superficialidade, afirmando que ela constituía-se de indivíduos que só pensavam em dinheiro e sucesso, de modo que, em tal transformação, até o sexo havia sido colocado em segundo plano, tornando-se mais uma ocasião para performance social. Em contrapartida e com algumas ressalvas, ele parece mesmo sustentar uma proposta do tipo "conectemos com nossas emoções, vamos voltar para a natureza, preservar o belo e transar livremente e com intensidade; a estratificação da sociedade é uma falácia, só dinheiro não traz felicidade, yada, yada, yada." (base para o futuro o movimento hippie?...) Imagino tratar-se de um discurso compreensível para aquele período entre guerras, mas acabei achando o tom recorrentemente enfadonho.

A própria paraplegia do Clifford, um aristocrata inglês pseudo-intelectual aspirante a grande escritor, aparece também para que Lawrence espezinhe os colegas escritores, insinuando que seriam um bando de intelectualoides narcisistas despidos de qualquer paixão, produzindo uma arte vazia, egocêntrica e sem sentimento.

Que o autor defenda um ponto de vista valendo-se do sexo como argumento, tudo bem; o problema, a meu ver, está em executar tal premissa de modo excessivamente explícito e artificial. Lawrence injeta as suas próprias convicções nos pensamentos e falas de personagens completamente insípidas e mal desenvolvidas, o que acaba tornando a narrativa muito pouco convincente, aproximando-a muito de uma obra panfletária. A caracterização das personagens me pareceu tão pobre, que eu simplesmente não conseguia engolir de modo contundente que aquelas pessoas pensavam mesmo naquilo. O autor usa um discurso indireto livre peculiar, às vezes parecendo flertar com múltiplos fluxos de consciências, e que eu não conseguia comprar por completo: "não, não, Lawrence, isso é coisa só sua; e não dessa personagem".

...


- With a bit of a struggled contextualization, I suppose I can too.

Muito barulho por nada. É realmente impressionante que tenha permanecido censurado nos EUA até a década de 60. 

...



- Exactly!

...



- Maybe they should, yes; but would they like what they'd find? I doubt it.

Veja bem, há diversas passagens nas quais o Sr. Lawrence expõe os homens como figurinhas meio, digamos, ridículas. Eles aparecem como indivíduos inseguros, "(...) too sensitive in the wrong place.",  que precisam ser tratados como bebês pelas mulheres.

Uma das minhas passagens favoritas é aquela em que Connie, completamente alheia ao ato sexual, dá uma espiada consciente na posição e nos movimentos executados pelo seu amante e acaba dando-se conta de que aquilo era um bocadinho deplorável:

"(...) her spirit seemed to look on from the top of her head, and the butting of his haunches seemed ridiculous to her, and the sort of anxiety of his penis to come to its little evacuating crisis seemed farcical. Yes, this was love, this ridiculous bouncing of the buttocks, and the wilting of the poor insignificant, moist little penis. This was the divine love! After all, the moderns were right when they felt contempt for the performance; for it was a performance. It was quite true, as some poets said, that the God who created man must have had a sinister sense of humor, creating him a reasonable being, yet forcing him to take this ridiculous posture, and driving him with blind craving for this ridiculous performance. Even a Maupassant found it a humiliating anticlimax. Men despised the intercourse act, and yet did it."

Outra deliciosa pérola do livro: o marido da Mrs. Bolton, traumatizado após testemunhar a esposa em trabalho de parto, só transava praticando coito interrompido, pois estava certo de que o perrengue do parto não era coisa de Deus. Como ela mesma afirma: (depois do parto) "I had a bad time, but I had to confort him." 

...



- But isn't it possible that that's what it really is, Joan? Tell me, what do you talk about, when you talk about marriage?

O D.H. Lawrence acaba propondo discussões ainda válidas (?) sobre o casamento. 

- A mais trivial de todas: qual o papel do sexo no casamento? Existe casamento sem sexo? E casamento só com sexo, sem nenhum diálogo? Basta ter algum/qualquer sexo, ou é preciso que ambos estejam satisfeitos em uníssono? Existe isso: ambos plenamente satisfeitos?

- O casamento resiste à ausência de filhos? Lawrence parece sugerir, p. ex., que o instinto maternal é forte o suficiente para determinar - mais cedo ou mais tarde - as condutas femininas... (Connie cede pela primeira vez aos encantos do futuro amante quando se emociona com os pintinhos de uma galinha! -- pelo amor de deus...)

- E difícil não parar para refletir acerca do discurso de Clifford Chatterley. Ele confidencia abertamente à esposa que não se importaria que ela mantivesse casos extraconjugais e nem mesmo em criar, como seu, um filho bastardo; desde que ela procedesse de modo discreto e respeitoso. Para Clifford, o casamento era um pacto eterno firmado entre duas pessoas no qual o companheirismo e o respeito mútuo era o que devia ser preservado. Mas, claro, cabe incluir na reflexão: será que ele também pensaria isso, se não fosse paraplégico?
“It would almost be a good thing if you had a child by another man,” he said. (...)
“But what about the other man?” she asked.
“Does it matter very much? Do these things really affect us very deeply? ... You had that lover in Germany... what is it now? Nothing almost. It seems to me that it isn’t these little acts and little connections we make in our lives that matter so very much. They pass away, and where are they? Where ... Where are the snows of yesteryear? ... It’s what endures through one’s life that matters; my own life matters to me, in its long continuance and development. But what do the occasional connections matter? And the occasional sexual connections specially. If people don’t exaggerate them ridiculously, they pass like the mating of birds. And so they should. What does it matter? It’s the life-long companionship that matters. It’s the living together from day to day, not the sleeping together once or twice. You and I are married, no matter what happens to us. We have the habit of each other. And habit, to my thinking, is more vital than any occasional excitement. The long, slow, enduring thing ... that’s what we live by ... not the occasional spasm of any sort. Little by little, living together, two people fall into a sort of unison, they vibrate so intricately to one another. That’s the real secret of marriage, not sex; at least not the simple function of sex. You and I are interwoven in a marriage. If we stick to that we ought to be able to arrange this sex thing, as we arrange going to the dentist; since fate has given us a checkmate physically there.”

... 



- A lot? Do they? Hum, that's not the impression I had.

Talvez por conta da censura, não sei, mas eu acreditava que iria encontrar algo mais, sei lá, eroticamente interessante? Estimulante? Excitante? Achei as descrições meio nhé.

Mas, porém, contudo, entretanto, todavia; cabe admitir que a descrição do Oliver Mellors - o digníssimo amante da Senhora Chatterley - permitiu que ele se materializasse fixamente na minha imaginação como o irmão gêmeo do Michael Fassbender; daí, já era: até sonho rolou e, quanto a isso, não digo mais nada.



...



- Totally agree, Joan.

Este aqui, por exemplo, é sem dúvidas um grande momento do livro: 
(He said) "That's got such a nice tail on thee. That's got the nicest arse of anybody. (...) It's a bottom as could hold the world up, it is. (...) An' if tha shits an' tha pisses, I'm glad. I don't want a woman as couldna shit nor piss."

Este também não fica atrás (no pun intended):
(...) the erect phallus (...). How strange! she said slowly. How strange he stands there! So big! and so dark and cock-sure! (...) So proud! And so lordly! Now I know why men are so overbearing! (...) A bit terrifying! But lovely really! And he comes to me! (...) And now he's tiny, and soft like a little bud of life! (...) so innocent (...) you must never insult him, you know. He's mine too. (...) And she held the penis soft in her hand."
Ah, e achei o primeiro  parágrafo do livro bastante provocativo (bem no espírito, suponho, daquele período histórico):
"OURS IS ESSENTIALLY A tragic age, so we refuse to take it tragically. The cataclysm has happened, we are among the ruins, we start to build up new little habits, to have new little hopes. It is rather hard work: there is now no smooth road into the future: but we go round, or scramble over the obstacles. We’ve got to live, no matter how many skies have fallen."
... 




- Too late. 

Traçando um paralelo com os tempos  atuais, essa  fala  é  bem  curiosa. Como  superficial ponto de partida: diz aí, por exemplo, quem nunca viu pelo menos um(a) passageiro(a) lendo 50 Tons de Cinza no ônibus/metrô sem demonstrar qualquer constrangimento? Será que disparou o radar de algum  tipo errado? Intrigada.

Seda - Alessandro Baricco

(info, sinopse, etc. / Ed. Rocco 97 traduzida por Elia Ferreira Edel)
"(...) era um daqueles homens que adoram assistir à própria vida, considerando desnecessária qualquer ambição de vivê-la. Daqueles que observam o próprio destino da mesma forma que observam um dia de chuva. (...) Sua vida chovia diante de seus olhos, espetáculo tranquilo."


Honestamente? Concedo-me o direito de registrar minha relação com essa leitura exclusivamente por meio de gif (algo sempre tentador, aliás). Nada mais a declarar.

(Mentira, pois: 1: É preciso ressaltar que minha experiência parece ser exceção entre os leitores da obra. Quem gosta de narrativas poéticas, melancólicas, reflexivas, líricas, minimalistas, sei lá, deve dialogar melhor com ela; 2: Detestei a personagem principal - Hervé Joncour; 3. Como é possível que esse tenha sido o segundo livro que leio explorando bicho-da-seda?! O primeiro foi Middlesex, do J. Eugenides. Peculiar. Bom, talvez seja a tentativa de explorar um símbolo mais instigante, em detrimento das manjadas borboletas; correto?)

16/09/2015

O amante - Marguerite Duras

(info, sinopse, etc.)

Peguei esse livro no escuro: não sabia nada sobre a história (nunca tinha visto a adaptação cinematográfica) ou sobre a própria Marguerite Duras (eu sei, eu sei). Como consequência, o título acabou tornando-se dissimulado, pois a obra é bem mais do que a suposta mera descrição romantizada de um caso amoroso.

O texto tem caráter autobiográfico e traz Marguerite Duras recordando seu passado, notadamente sua adolescência durante o início da década de 30 em Saigon, no Vietnam; onde morava com a mãe e dois irmãos. O pai havia falecido quando ela ainda era criança, pouco tempo depois da decisão de mudar-se com a família para a colônia francesa. Aliás, "Duras" foi escolhido pela autora, pois seu sobrenome de família era, na verdade, Donnadieu.

Aos 15 anos de idade, durante a travessia do rio Mekong, ela conhece o amante do título, um chinês de 27 anos filho de um rico empresário da região. Essa cena é descrita em detalhes - o que vestiam, as expressões corporais, a sequência de ações, a simbólica limusine preta do amante - e torna-se icônica; uma das "imagens" referidas pela escritora (e que parece ter ficado linda no filme).
Fonte
O relacionamento dos dois inicia-se de forma rápida e intensa, marcando o início da vida sexual da adolescente. Retomando o que falei no início, o livro é mais do que o simples relato desse caso. O amante surge na narrativa como a representação dos precoces, mas necessários, amadurecimento e libertação da personagem em relação à pobre e difícil vida em família. De forma ressentida e com severas palavras, ela expõe em destaque no livro a espinhosa relação com a mãe, a qual é retratada como uma mulher fraca, doente (depressão? t. bipolar?) e distante, incapaz de lidar com questões financeiras e que, acima de tudo, acobertava em predileção explícita os atos do irmão mais velho; por sua vez descrito como um rapaz violento, ocioso, drogado e viciado em jogatina. A mágoa da personagem surge ainda mais exacerbada ao entender que o irmão mais novo, que tanto amava, era a grande vítima daqueles dois. É um forte rancor familiar que entremeia toda a obra. Imagino que, àqueles que estudam Psicologia, o livro seja um verdadeiro deleite.

A estrutura narrativa reflete o exercício da retomada de memórias. O texto é bastante fragmentado, não havendo linearidade temporal entre os fatos descritos. Os parágrafos aparecem destacados uns dos outros, como flashes de lembranças ou breves momentos de digressões e reflexões comuns em tal processo. A autora frequentemente utiliza as expressões "a imagem" e "fotografia" - como aquela em que conhece o amante -; possivelmente no sentido de que, deste passado distante, persistem apenas momentos estáticos capturados na memória e que, como fotos, tentam eternizar aquilo que já não existe mais. Os tempos verbais e os sujeitos também se misturam e se confundem de forma recorrente, o que causou-me certo estranhamento inicial. Há momentos em que a personagem (a própria Duras) surge como a narradora em primeira pessoa valendo-se dos tempos verbais pretérito e presente, o qual, porém, alterna-se entre a representação do "presente" de quem se lembra e o "presente" de quem vive este passado rememorado (ora temos a Duras atual escritora, ora temos a Duras adolescente). Simultaneamente, há trechos em que essa mesma narradora em primeira pessoa vale-se do tempo verbal futuro, o qual representa o "futuro" da adolescente e o "passado" da atual escritora. Mais intrigante ainda são as passagens em que a autora parte para a terceira pessoa, falando de si mesma como "a menina" ou "a criança", o que parece sugerir uma incapacidade de reconhecer-se por completo naquela garota. Ficou confuso, mas isso é culpa apenas da minha incapacidade expositiva, pois a leitura do livro faz-se de maneira bem fluida. 

Em vista do peculiar estilo narrativo, não temos o quadro completo e detalhado da infância e adolescência da personagem, porém a escrita, extremamente rica e poética, deixa transparecer o quão impactantes foram. Em consonância à intenção confessada nas páginas iniciais, Duras revela seus sentimentos mais profundos no texto, sendo difícil manter-se completamente impassível.


                                          "Muito cedo, foi tarde demais em minha vida." 

Fonte

14/09/2015

Lolly Willowes (Sylvia Warner) & The Vet's Daughter (Barbara Comyns)

(sobre Lolly Willowes)    (sobre The Vet's Daughter)
Descobri esses títulos através da NYRB - New York Review Books, editora de cujo catálogo gosto e no qual confio bastante; e, sem que eu tivesse antecipado o íntimo diálogo que travariam, afortunadamente os li em sequencia. Foi possível identificar inúmeras e interessantes semelhanças entre eles, mas também algumas diferenças cruciais.

Tentando traçar um paralelo pontual e sumário, mencionaria o seguinte:

  Certa proximidade surge a partir das próprias autoras. Barbara Comyns (1909 - 1992) e Sylvia Townsend Warner (1893 - 1978) são britânicas, e acho que não seria extrapolação considerá-las relativamente contemporâneas entre si. Pelo pouco que consegui descobrir,  as duas escritoras parecem ter sido mulheres fascinantes. 

(fonte das informações: Goodreads)
  Quanto à narrativa, alguns elementos:


 A vida das duas protagonistas caracteriza-se por certas circunstâncias que, em suas bases e essências, podem ser consideradas algo próximas:

  The Vet's Daughter: Alice vive sob a sombra de um pai que aparece como uma figura masculina extremamanete violenta, autoritária, fria e amedrontadora. A mãe, mera empregada dentro de sua própria casa, chega a confessar-lhe que o marido casou-se com ela simplesmente pelo dinheiro. As duas vivem em um permanente clima de terror e medo, o qual Barbara Comyns constrói em sua prosa de modo bastante singular. O livro lembra uma espécie de conto de fadas gótico, no qual o trabalho do pai como veterinário - a casa da família apresenta-se com caveiras de macacos, cachorros deformados, um papagaio que ri nas situações mais inapropriadas - contribui para criar uma atmosfera meio ~David Lynchiana~ (existe isso?). Não sei apontar exatamente o segredo, mas o fato é que lê-se o livro com a certeza constante de que uma merda enorme vai acontecer na próxima virada de página. 


  Lolly Willowes: Quando o pai falece, o irmão de Laura - um advogado casado, conservador, religioso, pai de família - faz com que ela abandone a vida plenamente realizada que levava no interior para ir morar com sua família em Londres  - afinal, como poderia uma digníssima representante dos Willowes viver solteira e sozinha em uma casa do interior? Fora de qualquer cogitação. 
Laura passa a viver em um ambiente sufocante, no qual tentam casá-la a todo custo, mas sem sucesso. Ela vê-se obrigada a adaptar-se a uma rotina que não lhe pertence e a aceitar resignadamente a violência contra sua liberdade e individualidade: ela não é mais a Laura Willowes, mas sim a Tia Lolly, um mero agregado familiar acolhido no puxadinho da casa. 


→  No decorrer de ambas as narrativas, elementos mágicos e sobrenaturais surgem nas vidas das duas personagens. Observando algumas opções de capas desses livros, é possível inferir de quais fenômenos estou falando:


   (RESPOSTA: bruxaria, pacto com o diabo - gato como mensageiro - , levitação!)


  E é a partir desse ponto que os livros se distanciam de modo bastante relevante.

Laura não se assusta com a novidade sobrenatural. Ela mostra-se capaz de acolher aquele elemento mágico como algo que a distingue de modo especial; algo que a fortalece para a retomada das rédeas da própria vida; da sua independência e identidade.

Alice, por sua vez, não sabe lidar com a estranha habilidade. Talvez por ser muita mais nova que Laura - tendo a mente ainda plenamente lapidada pela sociedade/pai quanto ao papel que lhe "cabe" -, ela não consegue enxergar a distinta aptidão como algo positivo ou vantajoso para confrontar quem quer que fosse, até mesmo o pai. 


→  Há  uma   frase  de  Alice que   delineia  muito  bem  esse   ponto  em  que  as duas protagonistas se separam por caminhos diferentes (tradução livre minha):
(Alice) "Por favor, Deus, não deixe que isso aconteça comigo. Pai, não me obrigue a fazer isso. Eu não quero ser peculiar e diferente. Eu quero ser uma pessoa ordinária. Eu me caso com Henry Peebles e parto para que nunca mais você tenha que me ver - mas não me obrigue a fazer essa coisa terrível."
Embora não apareça explicitamente no livro de Sylvia Warner, é fácil deduzir, com mínima margem de erro, que Laura Willowes mandaria a seguinte contrapartida:

(Laura):  Eu não quero ser ordinária e normal, eu quero ser peculiar.


  Concluo refletindo a respeito de uma proposta que  pode  ser  assimilada  a  partir dessas leituras: que tal lutarmos contra o patriarcado com uma bruxaria e levitação de cada vez?




13/09/2015

My Uncle Napoleon - Iraj Pezeshkzad

(info, sinopse, etc.)

Encarei a leitura desse livro sob a influência da epifania avassaladora promovida pelo discurso da Chimamanda Adichie no Ted Talks - The danger of a single story.

Especificamente, foi assim: 1. uma moça inglesa apresenta o livro em um daqueles vídeos de Book Haul do You Tube (YT)  -  eu: "- hum, capa bem legal." - , 2. ela diz que o autor é iraniano  -  eu: "- say what?"  -  e 3. diz também que é uma popular comédia naquele  país -  eu: "- say whaaat?".  Ou seja: a lição da Chimamanda me deu um tapa na cara (- Pois é, os iranianos têm, sim, senso de humor, veja só. Dá para largar mão dos estereótipos e preconceitos, faz favor?) A vergonha e constrangimento foram tamanhos, que na mesma hora adquiri um exemplar.

O livro foi publicado em 1973 e, até onde pude compreender, parece ser mesmo um grande sucesso no país; tendo ganhado, inclusive, uma famosa adaptação para a TV iraniana - segue videozinho do YT:




Pelo que li em resenhas, a obra de Iraj Pezeshkzad também parece ser muito bem recomendada pela autora Azar Nasifi no seu livro "Lendo Lolita em Teerã"  (já na listinha de leitura).

Apelando para a salada de referências na tentativa de explicar sucintamente a história, eu diria que trata-se de uma espécie de Dom Quixote iraniano narrado através de uma prosa que lembra com algumas ressalvas o estilo do Ariano Suassuna, mais umas leves pitadinhas de Romeu e Julieta e, não sei, uns programinhas globais  talvez (novelinha + zorra total). Pois é.

Trata-se de uma comédia de costumes, uma sátira na qual as personagens são super caricatas e, não à toa, quase todas têm pelo menos um bordão repetido ad infinitum.  Rolam muitas piadas com peido, sexo, castração de maridos, chifres conjugais, brigas e fofocas familiares, tiros na bunda, trocadilhos infames e por aí vai.

A paranoia quixotesca do tio iraniano relaciona-se à história do próprio Irã: tendo - segundo ele próprio alega, veja bem - atuado nas lutas da Revolução Constitucional Iraniana, o tio patriarca da família vive de relatar peripécias megalomaníacas e heroicas durante tais conflitos. Com o advento da segunda guerra mundial, ele então passa a crer piamente que os ingleses retornarão para se vingar dele, restando contar com a ajuda de Hitler para se safar. (I know!!) Aliás, é dessa relação com os ingleses que surge sua admiração pela figura de Napoleão Bonaparte (razão do apelido).

Para ser bem honesta, comigo não funcionou muito.  O livro tem mais de 500 páginas e a fórmula tornou-se enfadonha e sem graça bastante rápido. Foram pouquíssimos os trechos em que efetivamente ri. De qualquer jeito, vale retomar a lição da Chimamanda: só por ter descoberto que, sim, iranianos também fazem piadas de teor escatológico e sexual, acho que já valeu a pena. Menos um estereótipo canhestro na minha vida. 

(olha aí o tio Napoleão.)
E há um bordão do qual não me esquecerei muito facilmente (pertencente ao Sancho Pança iraniano):

"Mash Qasem (...) every time we asked him a question he would first say, “Why should I lie? To the grave it’s ah . . . ah . . . !” 
And as he said “Ah . . . ah” he’d show four fingers and later on we realized he meant that since the grave was very close, only the width of four fingers away, one mustn’t tell lies."

You get so alone at times that it just makes sense - Charles Bukowski

(info, sinopse, etc.)

Já faz um tempinho que terminei essa leitura, portanto as impressões não estão mais tão frescas. De qualquer modo, gostaria de deixar algo registrado sobre o livro.

11/09/2015

Os Miseráveis - Victor Hugo / Diário de Leitura - ENCERRADO


¯\_(ツ)_/¯ 

Bom, falhei apenas no registro do diário, pois a leitura do livro foi concluída dentro do prazo programado. Como a preguiça  indisposição para escrever ainda persiste em certo grau, deixo apenas o registro de que foi uma sensacional experiência de leitura. Adorei. 

08/07/2015

Os Miseráveis - Victor Hugo / Diário de Leitura #04

Estou lendo Os Miseráveis pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com entradas semanais.

Detalhes relevantes: é meu primeiro contato com Victor Hugo, nunca li nenhuma adaptação literária de Os Miseráveis e nunca vi suas adaptações a musicais ou filmes. Da narrativa, só conheço mesmo os nomes de algumas personagens famosas e o contexto histórico aproximado. Também já sei que há uma minuciosa descrição do sistema de esgoto parisiense (medo) e que encontrarei muito drama, com risco de lágrimas. 

Programação inicial: ~ 150 páginas/semana
Duração total estimada: 13 semanas
Início da leitura: 08/06/2015
Fim: 06/09/2015
Posts anteriores: #01, #02, #03

SEMANA #04
(Págs. 486 a 632.  Cosette - Livro Primeiro ao Quarto.)

Sobrevivi à descrição da batalha de Waterloo, e nem doeu (muito). 


Terminada a longa descrição do confronto, Victor Hugo oferece uma interessante reflexão acerca do que a derrota de Napoleão e a Restauração representaram em termos práticos; não apenas para a França, mas também para a Europa. Essa passagem acaba corroborando, de maneira ainda mais explícita, a minha impressão de que Os Miseráveis é, praticamente, um amplo ensaio político, sociológico e histórico disfarçado de romance ficcional.
"Que foi Waterloo? Uma vitória? Não. Uma partida. Partida ganha pela Europa e paga pela França. É inútil colocar aquele leão lá. (...) Waterloo (...) é intencionalmente uma vitória contrarrevolucionária. (...) é o status quo contra  a iniciativa, é o 14 de julho de 1975 atacado pelo 20 de março de 1815, é o toque de combate das monarquias  contra a indomável sublevação francesa. (...) Não vejamos em Waterloo senão o que realmente existe em Waterloo. Nenhuma liberdade intencional. A contrarrevolução era involuntariamente liberal, do mesmo modo que, por um fenômeno correspondente, Napoleão era involuntariamente revolucionário. A 18 de junho de 1815, Robespierre foi apeado de seu cavalo."
(via)
O capítulo XV - Cambronne, no qual Victor Hugo filosofa sobre o que esconde-se por trás do "Merde!" que o soldado francês rendido exclama diante do general inglês, é uma das coisas mais fantásticas que já li. Por favor, não subestimemos o poder catártico inerente ao ato de mandar alguém à merda.

"Dizer essa palavra e morrer em seguida que pode haver de maior?! (...) Fulminar com essa palavra o trovão que o esmaga é vencer. Dar essa resposta à catástrofe, falar assim ao destino, construir essa base para o futuro leão, (...) ser irônico à beira do sepulcro; (...) afogar em apenas duas sílabas a coligação europeia, (...) Essa palavra de titânico desdém, Cambronne não a lança somente ao rosto da Europa, em nome do Império; seria muito pouco; lança-a ao passado, em nome da Revolução. Nós a ouvimos, e reconhecemos em Cambronne a velha alma dos gigantes."

E, com outras palavras, Victor Hugo também reforça a emblemática frase do livro de Tomasi de Lampedusa, O Leopardo - "Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude.":
"Esse 1815 foi uma espécie de abril triste. (...) o direito divino escondeu-se por trás de uma Carta, as ficções tornaram-se constitucionais, os preconceitos, as superstições e as segundas intenções, com o artigo 14o. no coração, envernizaram-se de liberalismo. Simples troca de pele de serpentes."

Será mesmo possível que o execrável Thénardier vai se dar bem em cima do oficial frânces Pontmercy que, coitado, acreditou que ele o salvava da cova, quando apenas o roubava? (Registrando aqui para acompanhar o desenrolar dessa passagem nas próximas páginas.)


Victor Hugo, depois do judiciário, lança agora sua mordaz ironia crítica também à imprensa francesa, desmascarando sua hipocrisia e incompetência. A-DO-RO.
"O segundo artigo, (...) do Journal de Paris (...): 
(...) Jean Valjean, (...) foi desmascarado e preso, graças ao zelo infatigável do Ministério Público. Tinha por concubina uma mulher de rua, morta de susto por ocasião de sua captura. (...) acusado de roubo a mão armada. (...) ficou estabelecido, pelo hábil e eloquente órgão do Ministério Público, que o roubo fora cometido com a cumplicidade de outros malfeitores. (...) foi condenado à pena de morte. O criminoso recusou-se a pedir clemência, mas o Rei, em sua inegável bondade, dignou-se comutar-lhe a pena para trabalhos forçados por toda a vida."

"(...) crê-se que o diabo, desde tempos imemoriais, escolheu a floresta para aí esconder seus tesouros. (...) um homem negro, (...) que se reconhece logo porque, em vez de boné ou de chapéu, tem dois chifres enormes na cabeça. (...) Então a gente vê que não passa de um pacato camponês; parece negro por causa do crepúsculo, (...)"


Eita; mas não faz isso, Victor Hugo. Haja contextualização para te defender.


Há momentos em que a trajetória narrada para o Jean Valjean caracteriza-o quase como um ser divino sobrenatural. Sem muitas explicações, ele, um cara de 55 anos de idade (dos quais 19 passados em trabalhos forçados), aparece e desaparece miraculosamente do nada. O Javert, por sua vez, seria seu nêmesis, a entidade demoníaca no pólo oposto.

Victor Hugo, às vezes, pesa realmente a mão na polarização das personagens (que reflete-se até na descrição física): ou são extremamente boas - beirando a santidade -, ou são extremamente más - beirando o diabólico. É algo que me incomoda um pouquinho, mesmo ciente de que isso era comum nos romances daquela época.


De fato, estes são temas muito recorrentes na narrativa:

acaso, destino, providência divina, "estava escrito nas estrelas", "Deus está no comando".


Eu já sabia que ia para o inferno, mas, sabe como é, sempre resta um resquício de esperança escondidinho no íntimo quanto à possibilidade de salvação. Porém, depois de ler a passagem sobre a vida miserenta da pobre Cosette, não me resta mais qualquer esperança de burlar o destino fatídico. 

Explico-me: no trecho em que Victor Hugo vivamente descreve o enorme perrengue da garotinha de oito anos para conseguir carregar, por várias léguas de distância, um galão de água à noite, no meio do breu (é; tome-lhe drama), como é que eu reajo quando diz-se que ela, desesperada, exclama "Ó meu Deus, meu Deus!" ?  Isso mesmo; assim:


Não tenho salvação, tenho? O pior: sempre que eu me lembro da cena, eu rio! Se estou rindo agora mesmo? É possível, é possível. 


Engraçado que, de certo modo, Victor Hugo provoca a sensação de que existe uma palavrinha mágica capaz de resolver uma quantidade enorme de problemas: ~DINHEIRO~. O Valjean, qualquer coisinha é: "pois tome cá tantos francos" = problema resolvido. Caberia encarar Os Miseráveis também como uma crítica contra o capitalismo? Devaneando aqui.


Victor Hugo estava inspirado quando descreveu a Mme. Thénardier:

"Era o ideal do carregador de mercado vestido de mulher."

"...era como o produto do enxerto de uma donzela em uma peixeira." 

"mastodonte."

"aquela montanha de ruídos e carne movia-se."


O Brasil aparece no livro! Quero dizer, mais ou menos: Victor Hugo cita um grupo de saltimbancos que possuíam "(...) um desses temíveis abutres do Brasil que o nosso Museu Real não conseguiu adquirir senão depois de 1845 (...) os naturalistas chamam-no, creio eu, de Caracara polyborus (..)", ou seja, um carcará.

(via)

Houve uma passagem um tanto datada e controversa envolvendo identidade de gênero e o papel da mulher na sociedade:
"Uma boneca é das mais imperiosas necessidades e, ao mesmo tempo, um dos mais encantadores instintos da infância feminina. (...) imaginar que alguma coisa é alguém, aí está todo o futuro da mulher. (...) Uma menina sem boneca é quase tão infeliz e quase tão impossível quanto uma mulher sem filhos."

Sinto muito, Harry, mas a Cosette já dormia embaixo da escada antes de você lançar a modinha.
"Tratava-se da parte inferior dos degraus. Ali, rodeada por toda espécie de cestas e trastes velhos, no meio da poeira e das teias de aranha, havia uma cama, se é que poderemos chamar de cama uma enxerga esburacada, com as palhas à mostra e um cobertor rasgado. Não havia lençóis e estava colocada diretamente no chão. Ali dormia Cosette."
E, comparada a de Cosette, sua acomodação era até bem confortável, Harry.


Estabelecendo um paralelo com o comentário que fiz no DL #02 quanto ao analfabetismo que era ressaltado nos miseráveis: será que a passagem na qual Valjean ensina Cosette a ler e escrever é um sinal de que o destino da garotinha será feliz e, também respondendo à minha pergunta, diferente ao de sua mãe? Cenas dos próximos capítulos.
"Jean Valjean começou a ensiná-la a ler. Por vezes, enquanto fazia a menina soletrar, pensava que fora com a ideia de fazer mal que havia aprendido a ler nas galés. Agora ensinava a ler a uma criança. Então o velho grilheta sorria com o sorriso pensativo dos anjos."

O Javert achou mesmo Valjean?! Gente...