14/02/2015

A room with a view - E. M. Forster

Sobre o livro: clicar aqui

Para um livro tão curtinho, confesso que precisei de um tempo considerável para me sentir confortável com a prosa particular de Forster. Trata-se de um texto que segue à risca a premissa "show, don't tell", trazendo descrições bastante engenhosas e sofisticadas; constantemente recorrendo a uma ironia mordaz e tão sutil que, em uma leitura desatenta, pode passar despercebida.

Também demorou um pouco até que eu embarcasse na história, porém o arrebatamento aconteceu e, nas últimas páginas, eu já estava inclusive cedendo à tentação da leitura em voz alta, o que costuma ser um ótimo sinal.

Resenha do 3 Panel Book Review

Forster expõe e, por consequência, critica diversas idiossincrasias da sociedade inglesa do início do século XX; dentre as quais inevitavelmente destaca-se a dinâmica dos gêneros e a posição ingrata reservada ao sexo feminino (inúmeras vezes, infligida pelas próprias mulheres). Algumas passagens interessantes:
"Conversation was tedious; she wanted something big, and she believed that it would have come to her on the wind-swept platform of an electric tram. This she might not attempt. It was unladylike. Why? Why were most big things unladylike? Charlotte had once explained to her why. It was not that ladies were inferior to men; it was that they were different. Their mission was to inspire others to achievement rather than to achieve themselves."
 
"Mrs. Honeychurch exclaimed: "Beware of women altogether. Only let to a man. (...) Men don't gossip over tea-cups. If they get drunk, there's an end of them--they lie down comfortably and sleep it off. If they're vulgar, they somehow keep it to themselves. It doesn't spread so."
 
"...nothing roused Mrs. Honeychurch so much as literature in the hands of females. She would abandon every topic to inveigh against those women who (instead of minding their houses and their children) seek notoriety by print. Her attitude was: "If books must be written, let them be written by men..."

E a minha favorita (que, aliás, dedico ao Sr. Balzac):
"Why will men have theories about women? I haven't any about men."

O comportamento do inglês ~turistando~ pela Europa - Florença, especificamente - também foi comicamente explorado pelo autor, rendendo trechos capazes de acalentar o turista brasileiro já tão espinafrado por sua conduta quando em terras gringas.

De  forma simplista, suponho que seja justo considerar o livro uma história de amor (comédia romântica?); porém acho que a obra vai além, pois não trata-se apenas da mocinha envolta em uma aventura amorosa. Aqui, temos uma mocinha lutando de modo exasperado, consciente e inconscientemente, contra as forças antagônicas exercidas pelas imposições sociais e pelas escolhas que ela intimamente desejava consumar na vida.

 Nas palavras de Lucy:
"The world is certainly full of beautiful things, if only I could come across them." 
Um quartinho com uma bela vista, e não apenas uma acomodação confortável olhando para um terreno baldio, é realmente pedir demais da vida?

(via)
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Lido o livro, fui ver a adaptação cinematográfica de 1985. Com um elenco daqueles, não tinha como dar errado: o filme é sensacional. Parabenizo imensamente o culhão (no pun intended) de transpor para a tela a cena do lago tal qual descrita no livro.

E, para mim, o melhor: DANIEL DAY-LEWIS!

Primeiro, a genial descrição da personagem - Mr. Cecil Vyse:

"He was medieval. Like a Gothic statue. Tall and refined, with shoulders that seemed braced square by an effort of the will, and a head that was tilted a little higher than the usual level of vision, he resembled those fastidious saints who guard the portals of a French cathedral. Well educated, well endowed, and not deficient physically, he remained in the grip of a certain devil whom the modern world knows as self-consciousness ...A Gothic statue implies celibacy, just as a Greek statues implies fruition..." (eu acho que vi um gatinho... Mr. Forster, you're sassy.)


e Daniel Day-Lewis acertando na mosca:
(via)

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