29/03/2015

Ms. Marvel Vols. 01 e 02 (#01-11) - G. Willow Wilson

(info, sinopse, etc.)
Não posso avaliar Ms. Marvel com a propriedade de quem lê habitualmente quadrinhos de super-heróis (não domino nada do assunto), mas digo que gostei bastante dessa leitura.

O primeiro volume (No Normal) nos apresenta Kamala Khan, uma americana de 15 anos habitante de New Jersey e filha de imigrantes paquistaneses; narrando os eventos que a transformaram na Ms. Marvel; enquanto o segundo volume (Generation Why) insere Kamala em um primeiro grande desafio, contra seu primeiro vilão.  

Achei o roteiro e a narrativa do volume 1 muito bons e devo tê-lo lido com um sorriso abobalhado no rosto do começo ao fim, particularmente em cenas como esta:

Ou esta:

Os temas do primero volume são bem próximos aos sentimentos e à realidade dos adolescentes, é verdade, porém creio que não seja difícil para um adulto (euzinha, pelo menos) ainda conseguir se relacionar ou empatizar de alguma maneira. Aproveitando a brecha que o mote "super-herói x identidade secreta" oferece, o roteiro de No Normal discute questões como crises de identidade, sensação de deslocamento, a ilusão de que "se eu fosse a (o) fulana (o) popular, minha vida seria MUITO melhor". E a personagem de Kamala permite, ainda, uma maior complexidade dessas questões por conta do conflito de ser criada por uma tradicional família muçulmana e, simultaneamente, viver em meio à cultura americana. 

No segundo volume, por sua vez, a história ganha um tom demasiadamente cartunesco e adolescente que já não me atraiu tanto; chegando a um ponto no qual me distancio exageradamente do público-alvo do quadrinho. Não tenho mais lá muita paciência, por exemplo, para o subtexto egocentrista adolescente "os adultos nos desprezam, mas NÓS somos o futuro":

É preciso destacar, porém, que os primeiros fascículos de Generation Why trazem uma participação especial bem legal que não pode ser desprezada: SPOILER!

Parabéns à Marvel pelo louvável empenho em tentar trazer uma melhor representação da diversidade para seus quadrinhos. 

02/03/2015

Pedro Páramo - Juan Rulfo

(info, sinopse etc: aqui)
(Tradutor: Eric Nepomuceno)

Pedro Páramo encarna a velha e famigerada (para latino-americanos, suponho) figura do coronel das cidades do interior. Nessa realidade, a vida de tudo e de todos gira em torno de dom Pedro; as coisas acontecem em função dele, pessoas nascem e morrem através dele, ele representa, enfim, a figura do deus onipotente e onipresente na história da cidade de Comala. Não à toa, até o padre da região surge atormentado pela consciência de que o deus a quem julgava responder havia sido sorrateiramente substituído por Pedro Páramo. Resta evidente que o livro não poderia receber outro título.


"Ah, que felicidade! Graças, meu Deus, por me dar dom Pedro!"  E acrescentou: "Mesmo que depois eu odeie."
Tratando-se de realismo fantástico, há na narrativa elementos, digamos, estranhos e/ou sobrenaturais que são explorados de forma brilhante e que eliminam completamente uma possível obsolescência do tema abordado no livro. Dei sorte de ter iniciado a leitura sem qualquer conhecimento prévio da exata questão fantástica recorrida, pois a graça está na descoberta. Registro apenas que fui inventar de começar a leitura à noite, antes de dormir, e o resultado foi um dos piores pesadelos dos quais consigo me lembrar.

O que mais se destaca nesse livro é, sem dúvidas, a prosa e a exploração da forma, pois praticamente não há uma trama propriamente dita. A narrativa ora nos leva ao tempo presente na companhia da personagem que, como o leitor, visita Comala pela primeira vez, ora parece nos catapultar para dentro da memória de um ser que testemunhara os eventos passados, entregando-nos apenas flashes pregressos e "aleatórios" de cenas isoladas. Ao leitor, portanto, cabe tentar juntar as peças para delinear a história. Pode parecer complicado, mas o mérito da escrita de Juan Rulfo parece-me estar exatamente em fazer com que essa estrutura funcione do ponto de vista formal, porém sem prejudicar a compreensão e o prazer da leitura, no que o elemento fantástico contribui enormemente.
"(...) se eu escutava somente o silêncio era porque ainda não estava acostumado ao silêncio; talvez porque minha cabeça viesse cheia de ruídos e de vozes.  (...) E aqui, onde o ar era escasso, ouviam-se melhor essas vozes. Ficavam dentro da gente, pesadas. (...) Esta cidade está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você caminha, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risos. Umas risadas já muito velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso. Você ouve tudo isso. Acho que vai chegar o dia em que esses sons se apagarão."
Blanca Helga