02/03/2015

Pedro Páramo - Juan Rulfo

(info, sinopse etc: aqui)
(Tradutor: Eric Nepomuceno)

Pedro Páramo encarna a velha e famigerada (para latino-americanos, suponho) figura do coronel das cidades do interior. Nessa realidade, a vida de tudo e de todos gira em torno de dom Pedro; as coisas acontecem em função dele, pessoas nascem e morrem através dele, ele representa, enfim, a figura do deus onipotente e onipresente na história da cidade de Comala. Não à toa, até o padre da região surge atormentado pela consciência de que o deus a quem julgava responder havia sido sorrateiramente substituído por Pedro Páramo. Resta evidente que o livro não poderia receber outro título.


"Ah, que felicidade! Graças, meu Deus, por me dar dom Pedro!"  E acrescentou: "Mesmo que depois eu odeie."
Tratando-se de realismo fantástico, há na narrativa elementos, digamos, estranhos e/ou sobrenaturais que são explorados de forma brilhante e que eliminam completamente uma possível obsolescência do tema abordado no livro. Dei sorte de ter iniciado a leitura sem qualquer conhecimento prévio da exata questão fantástica recorrida, pois a graça está na descoberta. Registro apenas que fui inventar de começar a leitura à noite, antes de dormir, e o resultado foi um dos piores pesadelos dos quais consigo me lembrar.

O que mais se destaca nesse livro é, sem dúvidas, a prosa e a exploração da forma, pois praticamente não há uma trama propriamente dita. A narrativa ora nos leva ao tempo presente na companhia da personagem que, como o leitor, visita Comala pela primeira vez, ora parece nos catapultar para dentro da memória de um ser que testemunhara os eventos passados, entregando-nos apenas flashes pregressos e "aleatórios" de cenas isoladas. Ao leitor, portanto, cabe tentar juntar as peças para delinear a história. Pode parecer complicado, mas o mérito da escrita de Juan Rulfo parece-me estar exatamente em fazer com que essa estrutura funcione do ponto de vista formal, porém sem prejudicar a compreensão e o prazer da leitura, no que o elemento fantástico contribui enormemente.
"(...) se eu escutava somente o silêncio era porque ainda não estava acostumado ao silêncio; talvez porque minha cabeça viesse cheia de ruídos e de vozes.  (...) E aqui, onde o ar era escasso, ouviam-se melhor essas vozes. Ficavam dentro da gente, pesadas. (...) Esta cidade está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você caminha, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risos. Umas risadas já muito velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso. Você ouve tudo isso. Acho que vai chegar o dia em que esses sons se apagarão."
Blanca Helga

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