17/04/2015

A Obscena Senhora D - Hilda Hilst

(info, sinopse, etc.)

Por essa, eu não esperava. Fui toda faceira e desavisada "lá, lá, lá, vamos ler um livrinho antes de dormir? Dizem que essa senhora fala sobre umas putarias chiques, talvez seja divertido, lá, lá", daí, terminada a leitura horas depois, encontrei-me completamente em frangalhos e com os olhos ardendo de tanto chorar. Hilda, menina, o que foi que você aprontou aqui?

"um dia me disseram: as suas obsessões metafísicas não nos interessam, senhora D, vamos falar do homem aqui agora."
(pois a mim, Hillé, interessam muito.)

Fiquei embasbacada com a prosa da Hilda Hilst nesse livro; um fluxo de consciência frenético, sonoro e poético. Aliás, foco no termo "fluxo", pois, a despeito da aparente "loucura" (até parece), o texto evolui com uma fluidez impressionante.

Apesar do choque causado pela incrível qualidade do texto, foi mesmo o teor do que ele explora - o turbilhão de devaneios metafísicos - que me pegou totalmente desprevenida, pois ousaria dizer que, de uns tempos pra cá, a mesma lucidez que toma conta da Senhora D tem consumido-me na surdina. Há pouco menos de três anos, tive um fracassado encontro íntimo à luz de velas com a Morte (felizmente? infelizmente? "That is the question.") e, olha, é o tipo de coisa que faz a gente pensar um pouco em umas ~paradas~, sabe? Como se não bastasse, ano passado perdi um membro da família e, por deus, foi uma das experiências mais insanas pelas quais já passei. É, de fato, como disse Hamlet: "O estar preparado é tudo". Eu não estava. Nem estou? Ainda? 
"(...) um homem, apenas o sexo saudável, um que não amolece diante do sangue, do cheiro, que vê vida e morte tudo natural, naa tuu rall, tudo é muito natural, morrer ó morrer faz parte da vida, mocinha, que bobagem, óóóóóhhh"
(Gostei tanto desse trecho. Aprendi na prática que esse discurso pronto é mesmo simples só na teoria,) 

Pausa no draminha, pois o livro também traz uns, digamos, alívios cômicos muito bons.
"pai, tu sabe qual é o cúmulo da paciência?
não, idiotinha, qualé?
é cagá na gaiola e esperá a bosta cantá. que cara, pai, que cara que tu faz pra mim, eu não pedi pra nascê, tu é que me fez, e passarinho que come pedra sabe o cu que tem."
A passagem na qual ela filosofa sobre o cu, por exemplo, é um grande momento. 
"Ai Senhor, tu tens igual a nós o fétido buraco? Escondido atrás mas quantas vezes pensado, escondido atrás, todo espremido, humilde mas demolidor de vaidades, impossível ao homem se pensar espirro do divino tendo esse luxo atrás, (...)"
Hilda, acho que nos reencontraremos em breve. 












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