17/04/2015

Excellent Women - Barbara Pym

(info, sinopse, etc.)
Atraída por uma ótima matéria publicada na New Yorker sobre a autora - Barbara Pym and the New Spinster -, saquei essa obra para conhecê-la e, puxa, que idéia mais acertada. Esse livro é amor; ele é um chá da tarde britânico com biscoitinhos amanteigados num domingo frio e chuvoso.

"PERHAPS there can be too much making of cups of tea (...) Did we really need a cup o tea? (...)

‘Do we need tea?’ she echoed. ‘But Miss Lathbury …’ She sounded puzzled and distressed and I began to realize that my question had struck at something deep and fundamental. It was the kind of question that starts a landslide in the mind.
I mumbled something about making a joke and that of course one needed tea always, (...)"
Como o título da New Yorker sugere, Pym aborda com bastante ironia e bom humor a condição de Spinster na sociedade inglesa.
(via)

Trata-se de um romance de costumes ambientado no período pós-guerra (~50's) londrino narrado pela personagem Mildred Lathbury, uma senhora de trinta anos ~solteirona~ cuja vida alterna-se resumidamente entre o trabalho de meio expediente na Society for the Care of Distressed Gentlewomen (oh, the irony) e as atividades na igreja anglo-católica

Embora Mildred seja a protagonista e a narradora dos eventos, a verdade é que ela é bastante ordinária e que nada fora do trivial acontece de fato na vida dela. Todas as personagens recorrem a ela para resolver seus conflitos banais, afinal, sendo uma solteirona, Mildred "não deve ter mais nada pra fazer, mesmo".
"I told myself that, after all, life was like that for most of us—the small unpleasantnesses rather than the great tragedies; the little useless longings rather than the great renunciations and dramatic love affairs of history or fiction."
Barbara Pym (via)
O revigorante é que Mildred não fica lamuriando-se pelos cantos amaldiçoando a desgraça de sua condição. Embora transpareça certa melancolia e alguma esperança remota de ainda vir a casar-se, ela acaba mostrando-se relativamente bem resolvida com sua solteirice, sendo capaz de fazer piada de si mesma (ainda que autodepreciativas, por vezes) e das "sutis" absurdidades que escuta sobre sua situação. Ao contrário do que talvez fosse justo supor, ela não inflinge-se nenhuma crise existencial; ela apenas toca sua vida simples marcada por refeições solitárias (um pouco deprimentes, talvez), chás, costura, livros de receitas, compras de flores, atividades da paróquia e serviços domésticos.
"Then I went back to my flat and collected a great deal of washing to do. It was depressing the way the same old things turned up every week. Just the kind of underclothes a person like me might wear, I thought dejectedly, so there is no need to describe them."

(via)
O título do livro, o qual surge repetidamente em tom irônico ao longo do texto, corresponde à expressão habitualmente utilizada para referir-se às solteiras - ~ mulheres excelentes ~ -; uma mera condescendência preconceituosa travestida de elogio. 
"But my dear Mildred, you mustn’t marry, (...) I always think of you as being so very balanced and sensible, such an excellent woman. I do hope you’re not thinking of getting married?’ 
He stared across the table at me, his eyes and mouth round and serious with alarm. I began to laugh (...)"
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‘It’s not natural for a woman to live alone, without a husband.’  
‘No, perhaps not, but many women do and some have no choice in the matter.’ 
‘No choice!’ Mrs. Morris’s scornful laugh rang out. ‘You want to think of yourself a bit more, (...) 
‘Yes, I suppose you’re right,’ I said, smiling, for really she was right. It was not the excellent women who got married but people like Allegra Gray, who was no good at sewing, and Helena Napier, who left all the washing up."
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‘Esther Clovis is certainly a very capable person, ... an excellent woman altogether.’ 
You could consider marrying an excellent woman?’ I asked in amazement. ‘But they are not for marrying. (...) They are for being unmarried, and by that I mean a positive rather than a negative state.’ 
‘Poor things, aren’t they allowed to have the normal feelings, then?’ 
‘Oh, yes, but nothing can be done about them.’
Ainda que brevemente, a narrativa de Pym também explora a solteirice masculina, demonstrando que as coisas eram igualmente difíceis para os homens, embora o tratamento fosse um pouco diferente. Há o sujeito solteiro visto como um excêntrico anormal e o pastor que sofre pressão das beatas carolas para preservar a solteirice.
‘He isn’t married then? One of those … I mean,’ she added apologetically as if she had said something that might offend me, ‘One of the kind who don’t marry?’ 
‘Well, he isn’t married and as he’s about forty I dare say he won’t now.’
Os diálogos escritos pela Pym são fabulosos e muito engraçados. A autora teve a manha de colocar Mildred interagindo com um casal em que a esposa é uma antropologista e o marido um oficial da marinha envolvido nas atividades do WREN - Women's Royal Naval Service  (mulheres da marinha britânica) - e, claro, as realidades díspares renderam situações completamente hilárias.
‘My son is at a meeting of the Prehistoric Society,’ said the voice.

‘Oh, I see. I’m so sorry to have bothered you,’ I said. (...)

Everard Bone was at a meeting of the Prehistoric Society. It sounded like a joke."
A rotina da Mildred na paróquia também contribui com cenas e conversas pitorescas, retratando as peculiaridades das interações sociais nessa comunidade.

É mais um livrinho que ganha trilha sonora: Joan Jett and the Blackhearts, "Spinster". O título torna a escolha preguiçosa e a harmonização com o livro não é exatamente perfeita (a urgência da Joan não bate), mas acho que o sentimento ao término da leitura permite um sing-along ainda mais assertivo da música.

      


"My thoughts went round and round and it occurred to me that if I ever wrote a novel it would be of the ‘stream of consciousness’ type and deal with an hour in the life of a woman at the sink." 

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