31/05/2015

O País das Neves - Yasunari Kawabata

(info, sinopse, etc.)
Tradução: Neide Hissae Nagae
"Atravessava-se um longo túnel e lá estava o País das Neves. A noite assumiu um fundo branco. O trem parou num entroncamento (...)  
O céu das montanhas mais distantes ainda guardava os resquícios da vermelhidão do pôr-do-sol. Por isso, bem ao longe, os contornos da paisagem através do vidro da janela ainda continuavam nítidos, mas já sem cor, e as montanhas infinitamente monótonas pareciam ainda mais triviais. Por não haver nada de mais atraente, tudo aquilo tornava-se um imenso fluxo de emoção anuviada, obviamente porque ele imaginava o rosto da menina flutuando nesse quadro. Não era possível ver o outro lado da janela na parte em que a figura dela se refletia, mas como a paisagem do entardecer se movia ao redor do contorno da moça, o rosto dela também lhe parecia translúcido. Se o era ou não, ele não foi capaz de distinguir, pois lhe parecia que a paisagem do crepúsculo que continuava a passar por trás do seu rosto estava em frente a ele.  
Como o interior do trem não era muito claro, aquele espelho não era tão nítido quanto deveria ser. Ele não refletia bem as imagens. Por isso, enquanto Shimamura olhava compenetrado, foi se  esquecendo da existência do espelho e começou a pensar que a moça flutuava na paisagem do entardecer."
Primeiramente, desejo compartilhar a seguinte informação (relevante ou não, eis a questão): O País das Neves renderia um excelente drinking game, cujo desafio consistiria em entornar uma dose de bebida alcoólica (qual? isso fica a critério dos jogadores, mas sem qualquer originalidade sugere-se saquê) toda vez que aparecerem durante a leitura as palavras "neve" e "montanha" - variantes inclusive. ALERTA: o nível desse jogo é avançado; há alto risco de coma alcoólico para participantes menos experientes.

Sério mesmo: essa obra traz a maior concentração das palavras "neve" e "montanha" por página quadrada. Por algum tempo, tentarei passar longe de qualquer livro que remotamente aluda a tais palavras.

Contudo, por mais irritante que tenha sido, não acho difícil compreender a recorrência desses termos descritivos. A reiteração parece ser intencional em consonância com a monotonia dominante e sufocante daquele cenário montanhesco e enevoado. Pela influência extremamente marcante e intensa que exerce sobre as personagens e, suponho, sobre a própria história do Japão, é uma Natureza de ambígua imponência - oprime, mas também acolhe e fascina - que exige o devido destaque. Na tentativa de melhor compreender o comportamento das personagens que acompanhei no livro, conjecturei inclusive que o que elas revelam de inércia, apatia e contido desespero seja simplesmente um reflexo simbólico daquele meio.

O plot da história, conduzido por personagens bem pouco empáticas, não despertou-me grande entusiasmo. Shimamura, um jovem senhor casado, pai de família e aparente digníssimo exemplar do homem hetero-cis-classe-alta de Tóquio; visita anualmente o País das Neves - o livro relata-nos três visitas -, região de turismo sazonal alavancado por resorts de esqui e casas termais, para encontrar-se com a gueixa Komako. Shimamura, todo trabalhado no "first world problems" pseudo-existenciais*, não entende ao certo por que comete-se àquelas visitas conjugais; enquanto Komako, sem poder dar-se ao luxo de fazer visitinhas por aí quando bem quer, prende-se romanticamente (?) àquele homem frio (opa, olha a neve), distante e indiferente de uma maneira pouco compreensível. Há ainda uma terceira mulher no meio desse imbróglio - aquela da citação inicial do post, refletida no vidro do trem que leva Shimamura ao País das Neves - , mas ela representa um papel tão enigmático e complexo, que eu não ousarei tecer qualquer hipótese.
"- Foi tudo muito difícil para mim, não percebe? É diferente de alguém como o senhor, que vive como bem entende!
- Quem é que vive como bem entende? - murmurou Shimamura sem forças."
*Certo, certo; eu sei que é ridículo reduzir os conflitos internos de Shimamura dessa maneira, porém é bem difícil conseguir enxergar além disso, especialmente vendo-o interagir com a população pobre e pouco afortunada daquela região e da qual Komako surge como representante. Tentando conceder-lhe algum desconto, admito que consigo empatizar especialmente com a crença dele na aparente inutilidade de quase tudo na vida - o "esforço em vão"

Citando mais alguns trechos interessantes, destacaria o ótimo paralelo estabelecido entre estes dois:
"Nos tempos de estudante, começou (Shimamura) a gostar de danças japonesas e de shosagoto. (...) Mas no momento em que era assediado por jovens mestres da dança japonesa, subitamente voltou-se para a dança ocidental. (...) Não era apenas um interesse pelo estrangeiro e pelo desconhecido. A alegria que descobriu aí vinha do fato de não poder vê-los ao vivo. (...) Ele não assistia à arte da dança ao vivo, assistia à ilusão da dança de sua própria imaginação proveniente de textos e fotos ocidentais. É como idolatrar uma paixão nunca vista."
 
"(...) Shimamura foi surpreendido ao saber dos registros que ela (Komako) fazia de cada romance lido desde os seus quinze ou dezesseis anos, que já atingiam dez cadernos de anotações.
-Você registra suas impressões, então?
- Não sou capaz de escrever impressões ou coisa parecida. Escrevo apenas o título, o autor, o nome das personagens e a relação entre elas.
- De que adianta deixar registro sobre essas coisas?
- De nada.
- É um esforço em vão.
- É mesmo.
(...)
O seu jeito de falar, porém, dava a impressão de que ela tratava de alguma literatura estrangeira distante e soava triste como a vida de um mendigo sem ambições. Shimamura ficou imaginando que as elucubrações sobre a dança ocidental que ele próprio fazia, sustentado por fotos e textos dos livros ocidentais, não eram muito diferentes."
(- indireta recebida, Shimamura.)

No geral, não foi uma leitura muito prazerosa. Gostei das imagens inicialmente construídas, mas estas logo perderam o ar de novidade e a capacidade de impressionar. A prosa extremamente poética (haiku em prosa), do tipo contemplativa e sublime, também não é o tipo de coisa que costuma me agradar especialmente. E as personagens, além de morosas em demasia, persistem ainda ao fim do livro como grandes enigmas. 

Deixando a rabugice de lado, digo que gostei muito do que o livro sutilmente revela a respeito da vida das gueixas - nada glamorosa (no interior, pelo menos) - e da Natureza tão estranha àquela com a qual convivo; bem como de conhecer um pouquinho mais sobre a realidade e algumas tradições do Japão. O livro - na edição da Estação Liberdade, tradução de Neide Hissae Nagae - traz algumas notas de rodapé explicando alguns termos que aparecem no texto e, simultaneamente, eu também joguei algumas coisas no Google para melhor compreender aquele universo tão particular. Das novas descobertas proporcionadas pelo livro de Kawabata, destaco a música tradicional japonesa que as gueixas costumam tocar com o Shamisen - instrumento de três cordas que aparece na imagem do vídeo abaixo. 



Aliás, sinto que devo fazer a pergunta: até que ponto meu pouco conhecimento sobre o Japão contribuiu para a relação que estabeleci com O País das Neves? Fiquei com a forte sensação de que Kawabata intensamente explora e propõe reflexões sobre a história e dinâmica da sociedade japonesa com esse livro - p.ex.: evolução das tradições e cultura diante da influência estrangeira, relação estabelecida entre as realidades vividas pelos habitantes da capital e interior do país, enaltecimento da Natureza do Japão pelo seu tratamento digno de uma personagem. E o Nobel assim justifica sua premiação:
Prize motivation: "for his narrative mastery, which with great sensibility expresses the essence of the Japanese mind."
Pode não ter sido uma leitura incrível, mas com certeza me deixou com vontade de ler mais literatura japonesa.

"A senhorita não apreciou meu livro? 
Olha só minha cara de ganhador do Nobel super preocupado."

27/05/2015

Rat Queens - Vols. 1 e 2 (#1-10) - Kurtis J. Wiebe; Ilustradores: Roc Upchurch, Stjepan Sejic

               

[narrador da sessão da tarde]: "Em um universo fantástico medieval (?), na cidade de Palisade, as quatro amigas:

formam o "adventure company" Rat Queens: em troca de dinheiro - e diversão, é claro -; elas resolvem qualquer problema: desde invasão de Ogros até infestações de Goblins. Prepare-se para muitas aventuras e confusões."

O primeiro volume apresenta ao leitor o universo e as personagens, começando a narrativa do arco maior da história; enquanto o segundo encerra esse arco e revela em mais detalhes o passado de cada uma das quatro Queens, construindo essas personagens a partir da premissa metafórica não exatamente original "elas lutam contra seres fantásticos, mas precisam, antes, vencer a batalha contra seus próprios monstros interiores".

O texto do Kurtis Wiebe é repleto de ironia, palavrões, drogas e piadinhas fáceis internet-friendly, e as ilustrações não economizam em imagens de violência, sexo e nudez (até frontal masculina, veja só). É puro escracho feito para garantir entretenimento rápido; sendo o maior chamariz a aparente proposta de apresentar uma fantasia protagonizada por personagens femininas fortes e independentes.


Eu me diverti bastante com o primeiro volume, mas acho que a qualidade cai um bocado no segundo: o humor perde o fôlego e parece forçado, a narrativa fica completamente mal engendrada e, o horror dos horrores, há uma troca de ilustrador com a qual não consigo me adaptar, pois fica a sensação de que aquelas não são mais as personagens que eu acompanhava.

Mas calma, já que a cereja do bolo na troca do ilustrador Roc Upchurch é que Rat Queens, um quadrinho cujo marketing é feito em cima de uma alegada representação feminina positiva e empoderadora, teve de substituí-lo - um rufar de tambores, por favor - porque ele fora preso por crime de violência doméstica. A piada está prontíssima, mas é tão sarcástica e execrável, que eu simplesmente não consigo lidar.

24/05/2015

O Leopardo (O Gattopardo) - Tomasi di Lampedusa

(info, sinopse, etc.)
(Tentando afastar qualquer má impressão inicial, já gostaria de desculpar-me - e a culpa nem é minha, mas ok - por esta capa medonha aí à esquerda. Seria fascinante, se não fosse lamentável, a quantidade de capas horrorosas que esse pobre livro possui - sendo honesta, a capa da edição que li é ainda pior: esta aqui (tradução de Rui Cabeçadas). É preciso relevá-las, pois creio mesmo que a obra não merece tamanha injustiça. Feita a advertência, prossigo com as ruminações.)

Soube da existência desse livro com um tweet que trazia uma listinha de obras apreciadas por Mário Vargas Llosa. Revirei toda a internet e, pasmem, não achei a bendita fonte. (existiu ou não existiu?) Só consegui recuperar a informação de que Llosa já foi agraciado com o prêmio literário Tomasi di Lampedusa e que O Leopardo figura na obra teórica dele A verdade das mentiras. Como não resisto a livros sugeridos por outros autores, nem pensei duas vezes: comprei-o na mesma hora. 

O Leopardo é um romance histórico ambientado no então Reino das Duas Sicílias, durante o período final do Ressurgimento Italiano liderado pelos conservadores liberais, do qual resultara a unificação da Itália  - com alguns bons saltos, a narrativa engloba meio século: maio de 1860 a maio de 1910. Ao mesmo tempo, uma resenha do Good Reads - aqui - compartilha um interessante comentário de E. M. Forster, segundo o qual O Leopardo não seria um romance histórico, mas sim um romance que transcorre durante um determinado período da História. Tal distinção, embora sutil, parece mesmo pertinente, pois Lampedusa não se preocupa em documentar e esmiuçar cada um dos relevantes acontecimentos históricos dessa fase; mas, sim, vale-se da narrativa acerca de uma família aristocrata siciliana para apenas personificar os componentes cruciais daquelas transformações em curso.

O leopardo do título é o animal que representa o brasão dos Salinas e, por extensão, presta-se como metáfora daquele que é o chefe dessa tradicional e nobre família: o Príncipe Fabrizio Corbera. Nesse contexto, Fabrizio é o próprio leopardo, ele é a essência máxima do livro, o símbolo da nobreza e aristocracia italiana em decadência, cuja morte lenta e progressiva cedia espaço à burguesia em ascensão. Lampedusa não poupa esforços na descrição magnânima do grande nobre. De ascendência materna germânica, Fabrizio tinha 45 anos, dois metros de altura, "imenso e forte", loiro de olhos azuis, "seus dedos podiam dobrar como papel as moedas de um ducado", um intelectual de renome nas áreas da matemática e astronomia. Em outras palavras: o Príncipe - ou seja, a própria nobreza italiana - era ~pura magia~. Algumas dessas descrições são simplesmente hilárias, principalmente as recorrentes evocações de coisas tremendo em resposta à passagem de Fabrizio - nada permanece imune à presença do príncipe.
"(...) o príncipe (...), fazendo gemer o divã sob o seu peso, adormeceu tranquilamente."
" o príncipe levantou-se: sob o impacto de seu peso de gigante, o soalho estremecia."
"despiu-se e meteu-se na água; ao receber aquele volume imenso, a água transbordou um pouco. (...) ele, já fora da água (...) erguia-se inteiramente nu, como o Hércules de Farnese, e ainda por cima fumegante, com a água escorrendo-lhe em torrentes (...) tal como o Ródano (...). O espetáculo do príncipe em estado adamítico era inédito (...)"
É o Príncipe quem oferece, também, uma impactante versão para um famigerado adágio popular:
"Aqui quem decide sou eu; já havia decidido, quando ainda nem sequer o sonhavas."
A representação construída por essa personagem é fantástica e avassaladora. Embora a narrativa seja em terceira pessoa - um narrador que, volta e meia, dá indícios de estar no futuro dos eventos (Lampedusa escreve o livro na década de 50) - , é mediante a percepção do Príncipe Salinas, de suas reflexões sobre as mudanças em evolução, de sua melancólica consciência quanto ao fim de sua linhagem e de sua relevância, que acompanhamos a lenta exposição dos fatos. É, sem dúvidas, uma personagem extremamente marcante.
"O príncipe estava deprimido: "Tudo isso não devia durar, mas vai durar e sempre; o sempre humano, bem entendido, um século, dois séculos...; depois será diferente mas pior. Nós fomos os leopardos, os leões; os que hão de substituir-nos, os chacais, as hienas; e todos nós, leopardos, chacais e ovelhas continuaremos considerando-nos o sal da terra."
A narrativa de Lampedusa destaca-se pela construção de diálogos certeiros, carregados de simbologia e, principalmente, pelas impressionantes descrições. Os cenários são vividamente delineados para o leitor, a tal ponto que mesmo objetos inanimados parecem ganhar vida por intermédio das palavras do autor. A leitura propicia, sem dúvidas, uma excursão praticamente presencial às residências dos Salinas e à região da Sicília. Tanto é assim que, assistindo à adaptação cinematográfica do livro dirigida por Luchino Visconti e ganhadora da palma de ouro de Cannes, a sensação de déjà vu foi inegável: todas as imagens criadas em minha mente graças às descrições de Lampedusa estavam em perfeita sintonia com a belíssima arte e cenários do filme. 

Gostaria, ainda, de destacar uma singela personagem: Bendicò, o cachorrinho dos Leopardos (olha só a ironia). Há uma certa lição que já aprendi faz tempo (- você não me pega, Lampedusa), qual seja:


De posse dessa preciosa informação, permaneci então muito atenta aos rumos de Bendicò, mas, mesmo assim, não consegui antever o papel que ele assumiria até o desfecho da história. (Ok, Lampedusa, você venceu nessa.) SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER → 
 [À nobre linhagem de Fabrizio, restaram apenas a morte, o empalhamento e a lata do lixo. Caramba.]

E falando em desfecho, o paralelo criado por Lampedusa entre a cena inicial e a final do livro, destacando especialmente como ocorreu a evolução da intimidade histórica entre a Nobreza e a Igreja, ficou incrível.  A frase inicial da obra ganha muito mais força com o final.
"Nunc et in hora mortis nostrae. Amen."
O livro equivale inegavelmente ao próprio Príncipe Fabrizio; mas se fosse preciso escolher uma única de suas frases para resumir a essência derradeira, não há dúvidas de que eu ficaria com a seguinte fala de Tancredi - o jovem sobrinho do príncipe e símbolo de uma "nova nobreza", a amostra da velha que conseguiu adaptar-se aos "novos tempos":
"- Se nós não estivermos lá, eles fazem uma república. Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude. Expliquei-me bem?"
Não muito bem. Explica de novo, Sr. Delon Tancredi. Por favooooooor (ʃƪ ˘ ³˘)~♥.

On the pleasure of hating - William Hazlitt

photo by @mashamitovich

Sem rodeios: eu nutro alguns ódios. ¯\_(ツ)_/¯  Minha lista de coisas/pessoas odiadas é longa e, para espanto próprio, só cresce. Não me orgulho disso e, se prestar como defesa, afirmo praticar apenas o ódio passivo, o que significaria dizer que - parafraseando o Woody Allen - o sentimento serve apenas para alimentar um tumor interior. Então, quando a foto acima surgiu compartilhada pelo instagram da Penguin UK, minha curiosidade foi imediatamente atiçada.

Por conta da provocação fácil, astuta e super atual do título, imaginei logo que fosse um lançamento recente, mais um caça-níquel de editora nos moldes daqueles livros vendidos pela Urban Outfitters. Só que imaginei errado, pois a verdade é que o ensaio que intitula o livro da foto foi escrito em 1826 (!), pelo inglês William Hazlitt. Como o texto já está em domínio público, saquei-o para leitura.

Mr. Hazlitt me pareceu bastante ponderado e perspicaz nas observações que faz sobre o ódio. Ao contrário (de novo) do que o título me fizera supor, ele não desenvolve nem uma ode exultante em defesa das delícias do ódio, nem uma crítica sarcástica aos que odeiam; mas apenas discorre comedidamente sobre como o ódio opera no ser humano.

1.
Hazlitt, presumo, não faria pouco caso da capciosa artimanha que lancei através do mencionado "ódio passivo". Ele afirma que o homem é capaz, sim, de aprender a reprimir a exteriorização dos instintos odiosos, mas isso ocorre muito antes de que se consiga abrandar os sentimentos coléricos.
"The spirit of malevolence survives the practical exertion of it. We learn to curb our will and keep our overt actions within the bounds of humanity, long before we can subdue our sentiments and imaginations to the same mild tone. We give up the external demonstration, the brute violence, but cannot part with the essence or principle of hostility."
2. 
Ele conjectura, de forma ainda mais audaciosa, que a Natureza é feita de antipatias sem as quais a vida seria, basicamente, uma chatice. Ainda que perverso e corrosivo, o ódio representa uma fonte inesgotável de prazer, traz perspectiva para a justa valorização do que realmente importa.
"Nature seems (the more we look into it) made up of antipathies: without something to hate, we should lose the very spring of thought and action. Life would turn to a stagnant pool, were it not ruffled by the jarring interests, the unruly passions, of men."
Com certa vergonha, inclino-me a concordar um pouco com Hazlitt. Que atire a primeira pedra aquele que, honestamente, negar jamais ter se deliciado com um mísero xingamento odioso que seja.

3. 
Ele argumenta a favor do conceito de que, inevitavelmente, o Tempo faz com que odiemos: 

Amigos,
Hazlitt é meio cruel, é verdade, ao comparar velhas amizades a um pedaço de carne fria e ruim servida repetidamente: assim como o estômago a recusará, também nós o faremos em relação às velhas amizades. Ele alega que, com o tempo, os defeitos dos amigos tornam-se intoleráveis e as qualidades, com a exposição contínua, perde o encanto. As pequenas contradições e irritações provocadas pelo relacionamento acumulariam-se gradativamente e apenas o ódio permitiria o alívio.

Nesse ponto, já não concordo exatamente com o autor. Penso que os argumentos dele servem, na verdade, para demonstrar apenas que amizades exigem dedicação para serem construídas e preservadas. Se o ódio explícito surgir com o tempo, é porque  nunca sequer existiu amizade genuína.

Opiniões, 
Esse trecho do ensaio é fantástico. É possível não odiar as velhas opiniões que defendíamos e que, com o tempo, demonstraram ser completamente equivocadas? Como não odiar a lembrança de uma convicção passada que nos fez agir feito imbecis? E eu diria mais: felizes aqueles que as odeiam, pois diminuem as chances de repetí-las. Ou não?

e... Livros!
Sim, Hazlitt crê que nos cansamos, passado um tempo, até de livros favoritos. Particularmente, não acho que seja um destino irremediável, mas a possibilidade parece mesmo existir. É exatamente por essa razão que tenho muito receio de reler livros que amei ler no passado.

Comicamente, percebemos que já no século XIX praticava-se a premissa hipsteriana do "desprezo aos autores populares".  Oh, the irony. 
"The popularity of the most successful writers operates to wean us from them, by the cant and fuss that is made about them, by hearing their names everlastingly repeated, and by the number of ignorant and indiscriminate admirers they draw after them: - we as little like to have to drag others from their unmerited obscurity, lest we should be exposed to the charge of affectation and singularity of taste. There is nothing to be said respecting an author that all the world have made up their minds about: it is a thankless as well as hopeless task to recommend one that nobody has ever heard of."
Embaraçosamente, assumo nutrir esse tipo de ódio por alguns autores amados pelo mainstream. Ou melhor: seria mais mero desdém, pois há só 1 ~certo autor~ que realmente o-dei-o e cujo nome jamais revelarei nesse blog.

4.
Há uma breve assertiva que creio resumir bem uma possível teoria para a existência dos odiadores: 
"(...) we avoid the sight, and are uneasy in the presence of, those who remind us of our infirmity, (...)"
Em outras palavras: tendemos a odiar aqueles que nos fazem lembrar nosso próprios defeitos. E, complementando tal ideia, Hazlitt diz preferir ter amigos com defeitos que ele possa ridicularizar, pois assim pode deliciar-se com a autoindulgêcia promovida às custas da chacota desdenhosa dos vícios alheios. 

Ou seja, o exercício do ódio representaria o esforço de buscar desferir contra terceiros o ódio que, de outro modo, recairia sobre si mesmo. É, talvez seja isso realmente. Importante ressalvar, porém, que não parece haver garantias quanto ao sucesso desse recurso. 
"Even our strongest partialities and likings soon take this turn. "That which was luscious as locusts, anon becomes bitter as coloquintida;" and love and friendship melt in their own fires. We hate old friends: we hate old books: we hate old opinions; and at last we come to hate ourselves."
5.
E aqui, a coisa fica séria:
"Love turns, with a little indulgence, to indifference or disgust: hatred alone is immortal."
A Sandy já dizia que "o que é imortal, não morre no final"; então... 

6.
Finalmente, destaco o que, pra mim, foi o ápice do ensaio e o sentido mais aguçado do título: Hazlitt chama atenção ao fato de que muitos credos, ideias, doutrinas, religiões e morais - tão revestidos de grande virtuosismo e boas intenções - prestam-se,  não raro, como meros instrumentos para o exercício opressor e cruel do ódio.
"The pleasure of hating, like a poisonous mineral, eats into the heart of religion, and turns it to rankling spleen and bigotry; it makes patriotism an excuse for carrying fire, pestilence, and famine into other lands: it leaves to virtue nothing but the spirit of censoriousness, and a narrow, jealous, inquisitorial watchfulness over the actions and motives of others. What have the different sects, creeds, doctrines in religion been but so many pretexts set up for men to wrangle, to quarrel, to tear one another in pieces about, like a target as a mark to shoot at? Does any one suppose that the love of country in an Englishman implies any friendly feeling or disposition to serve another bearing the same name? No, it means only hatred to the French or the inhabitants of any other country that we happen to be at war with for the time. Does the love of virtue denote any wish to discover or amend our own faults? No, but it atones for an obstinate adherence to our own vices by the most virulent intolerance to human frailties. This principle is of a most universal application. It extends to good as well as evil (...)"
Hazlitt, não o odeio; porém, como você mesmo talvez replicasse, pode ser só uma questão de tempo. -‿◦

17/05/2015

Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis


O Woody Allen já leu, a Susan Sontag já leu, o Philip Roth já leu, o Tufão já leu, mas eu ainda não li Memórias Póstumas de Brás Cubas (MPBC) e eu - agora, sim; finalmente! - também já li.୧(﹒ᴗ﹒)୨      

Sinto-me, contudo, um pouco desconfortável para tecer comentários sobre um clássico tão relevante como esse, porque, adianto logo, a leitura não foi uma experiência completamente prazerosa ou recompensadora. De qualquer modo, apelo ao irrefutável direito de não ser fã incondicional de um clássico para poder seguir em frente com este post.

Como percebe Tufão, a prosa machadiana em MPBC se esbalda na sátira e em refinada ironia para sutilmente (ok, às vezes explicitamente) criticar a sociedade brasileira do século XIX. Em linhas gerais, a narrativa abre-nos os olhos para o que de mais tosco a distinguia (distingue?): afetação, pequenez, hipocrisia, futilidade, mesquinharia, pseudo-intelectualidade, falso moralismo. Por essa perspectiva, é até muito lógico que Brás Cubas trate o legado humano como uma miséria. 

A ironia máxima, creio, é que justamente o narrador-personagem, nosso defunto-autor, seja um representante-mor dessa sociedade espezinhada; repleto, o próprio, daquilo que ele julgava lastimoso nas pessoas. Inclusive, essa é a razão pela qual escolho atribuir a ele, e não a Machado de Assis, o tiquinho de presunção e condescendência irritantes que entremeiam a narrativa, como nestes trechos (supostamente engraçados, mas não muito pra mim):
" (...) se alguma dama tem seguido estas páginas, fecha o livro e não lê as restantes. Para ela extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor."
(- Brás Cubas, meu querido, a verdade é que sua vida amorosa foi a parte mais enfadonha do livro.)
"O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar tudo."
(- No shit, Sherlock?! Essa é uma típica passagem na qual deve-se rir da chacota, mas eu só consegui ficar puta; o que deve revelar muito sobre mim.) 

Enfim, para ser explícita, o que tento dizer é que Brás Cubas é um babaca. Simples assim. E não, não duvido de que meu desgosto pelo personagem possa ser atribuído à certa identificação indesejada e pouco saudável. 

Foi também peculiar observar a escravidão negra aparecendo casualmente como mero adorno próprio da época retratada. Claro, essa exposição também  pode ser encarada como uma crítica; a qual, aos olhos de um leitor no século XXI, adquire ainda maior expressão. Foi bastante repulsivo, por exemplo, constatar que um ser humano já fora tratado como mais um dos objetos de partilha de uma herança. 

Creio realmente que, caso a obra contivesse apenas as digressões e os devaneios aleatórios de Brás Cubas, eu a teria apreciado muito mais, pois foram essas as passagens de que mais gostei (quando queria, nosso narrador conseguia ser super intrigante e engraçado). Inusitadamente, fiquei imaginando que Cubas teria se saído muito bem desenvolvendo uma série inteira de livros similar àquela do Knausgård.
"(..) um dia (...) pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim que é possível crer. (...) Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te. 
Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. (...) minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra pra mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: amor da glória."
 E os capítulos VII - O delírio e VIII - Razão contra a Sandice foram grandes favoritos:
"- Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga. (...) levo na bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. (...) eu não sou somente a vida, sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada."
"- Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério...    - Que mistério?
- De dois - emendou a Sandice -; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.
A Razão pôs-se a rir." 
Brás Cubas, deve-me um leve piparote, é verdade, mas dispenso-o da obrigação, pois ~sou legal~.

"Tantos sonhos, meu caro Borba,
 tantos sonhos, e não sou nada."

12/05/2015

É isto um Homem? - Primo Levi

(info, sinopse, etc.)
(Tradução: Luigi del Re)

Atendendo à "necessidade de contar "aos outros", de tornar "os outros" participantes, (...), impulso imediato e violento (...)", como meio de "liberação interior", Primo Levi relata fragmentariamente em É isto um Homem? o período em que fora um dos judeus ("Meu nome é 174.517") aprisionados e submetidos a trabalho forçado em Auschwitz - fev/1944 a jan/1945.

O autor italiano expõe os fatos dos quais foi vítima e testemunha de uma maneira bastante honesta, explícita e direta; dispensando desnecessários floreios ou manipulações de apelo meramente dramático. A narrativa é vívida e pungente, sendo impossível ao leitor permanecer indiferente à leitura. Algumas palavras, com todos os significados, sentimentos e sensações que carregam; permanecerão especialmente gravadas na minha memória em associação a esse livro:

sede, fome, cansaço, dor, frio, aniquilação.

Dentre as inúmeras atrocidades praticadas naquele campo de concentração, Levi relata algumas que impressionaram-me pelo requinte esdrúxulo da crueldade: 1. ter que tomar banho com as esparsas posses apertadas entre os joelhos para que não fossem furtadas, 2. a "cerimônia da troca de sapatos", onde precisava-se escolher no olho, em meio ao amontoado de calçados e da multidão, um sapato (não o par) que servisse, sem possibilidade de troca; 3. uma vez internado na enfermaria com diarréia, ter que "provar" diariamente, na frente do enfermeiro, a persistência do quadro.

Outros eventos narrados, por sua vez, são marcados por tamanha desumanidade, que tenho mesmo dúvidas se meu cérebro conseguiu assimilar a real magnitude daquilo que li; sendo a "grande Seleção de outubro de 1944" um deles. Segundo Levi, essa "seleção" foi a ocasião em que os alemães, "precisando reduzir o número de judeus no campo", determinaram quem seria mandado à câmara de gás:
"(...) trancou a porta, entregou a cada um a ficha indicando matrícula, nome, profissão, idade e nacionalidade, mandou que todos se despissem, (...) Cada um de nós, ao sair, nu, da peça do ar frio de outubro, deve passar correndo entre uma porta e outra, na frente dos três; entregar a ficha ao SS e entrar pela outra porta, a do dormitório. O SS, na fração de segundo entre as duas sucessivas passagens, com uma olhadela de frente e outra de costas, julga a sorte de cada um e por sua vez entrega a ficha ao homem à sua direita ou à sua esquerda - e isso é a vida ou a morte de cada um de nós." 
"Em Birkenau, a chaminé do Crematório não parou de largar fumaça nos últimos dez dias."
Os relatos e reflexões que Primo Levi compartilha em consonância com o título do livro são bastante surpreendentes, particularmente o capítulo chamado "Os submersos e os salvos", no qual ele encara esse fato histórico como uma "notável experiência biológica e social"
"Fechem-se entre cercas de arame farpado milhares de indivíduos, diferentes quanto à idade, condição, orientação, língua, cultura, hábitos, e ali submetam-nos a uma rotina constante, controlada, idêntica para todos e aquém de todas as necessidades (...) verificar o que é congênito e o que é adquirido no comportamento do animal-homem frente à luta pela vida."
Na minha inocente ignorância, admito que eu supunha ter havido plena solidariedade entre os aprisionados desses campos, visto que sofriam as mesmas violências, cometidas pelo mesmo algoz. Porém, a narrativa de Levi chama atenção ao fato de que, sob a pressão da necessidade e do sofrimento, "alguns instintos sociais são reduzidos ao silêncio". Levi destaca que todos eles estavam cruelmente sós na luta pela vida, e a diferença entre os que se salvavam e os que se afundavam restava, muitas vezes em:
"(...) sufocar toda dignidade, apagar todo vestígio de consciência, ir à luta, brutos contra brutos, deixar-se guiar pelas insuspeitadas forças ocultas que sustentam as estirpes e os indivíduos nos tempos cruéis. Muitíssimos foram os meios que imaginamos para não morrer: tantos quantos são os temperamentos humanos. (...) era praticamente impossível sobreviver sem renunciar a nada de seu próprio mundo moral(...)"
E foram essas reflexões que deram ao título do livro uma implicação ainda mais impactante para mim, pois revelaram-me que a pergunta - válida para nazistas e judeus - não relaciona-se apenas às notórias brutalidades cometidas pelos alemães nesses campos, mas também à hedionda situação que obrigava um indivíduo a despir-se de sua moral e essência humana, cedendo a algum grau de aniquilação interna, a fim de garantir uma mínima chance de sobrevivência.
"Os personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade ficou sufocada, ou eles mesmos sufocaram, sob a ofensa padecida ou infligida a outros. Os SS maus e brutos, os Kapos, os políticos, os criminosos, os "proeminentes" grandes e pequenos, até os Häfltinge indiscriminados e escravos, todos os degraus da hierarquia insensata determinada pelos alemães estão, paradoxalmente, juntos numa única íntima desolação."

A pena e a lei - Ariano Suassuna

(info, sinopse, etc.)


"Cheirosa: Nesse seu terceiro ato tem Cristo?
Cheiroso: Tem.

Cheirosa: E ele se passa no céu, é?

Cheiroso: É por ali por perto!
Cheirosa: Pois vão dizer que você não tem mais imaginação e que só sabe fazer, agora, o "Auto da Compadecida"!
Cheiroso: Isso é fácil de resolver: na próxima peça, em vez do personagem ser sabido, é besta, e, no terceiro ato, em vez de tudo se passar no céu, se passa no inferno. Aí eu quero ver o que é que eles vão dizer!"


No início do livro, Suassuna explica que A Pena e a Lei  foi montada através de uma espécie de colagem de outras três pequenas peças de um ato que ele havia previamente escrito e engavetado; o que é fácil perceber durante a leitura, pois, embora as personagens sejam sempre as mesmas, cada um dos três atos que a compõem trazem histórias com começo, meio e fim. 

Os atos da peça são os seguintes:

1. A inconveniência de ter coragem - "(...) nele se demonstra, de modo insofismável, que a coragem é coisa improvável e carga pesada neste mundo de surpresas e disparates."

Basicamente, traz a história do personagem sabido dando uma de sabido, só pra pagar de besta no final. É um bom primeiro ato, porém pareceu-me o mais fraco dos três.

(Espera, deixa só eu guardar esta preciosidade para uso futuro: insofismável. Certo, continuando...)

2. O caso do novilho furtado - "(...) mostraremos: letra a: que os homens tem que viver com medo da polícia e do inferno; letra b: que, se não houvesse a justiça, os homens se despedaçariam entre si; letra c: que existem casos em que a justiça acerta seus julgamentos..."

Aqui, as coisas ficam mais interessantes. Com diálogos excelentes, Suassuna explora certas, digamos, peculiaridades eventuais da justiça: um suborninho aqui, uma testemunha maliciosamente desacreditada ali, uma prova documental meio que adulterada acolá, etc.

3. Auto da virtude da esperança - "(...) vamos ver se consigo acentuar a extraordinária significação da virtude da esperança. Sempre me impressionou a tremenda importância que se dá ao desespero! Está certo, mas, se é assim, se o desespero é coisa tão grave, a esperança deve ser algo de virtude maravilhosa, pois é o contrário dele."

Esse ato é o que acontece perto do céu; sendo construído através da repetição de uma mesma fórmula narrativa que gradativamente incorpora cada uma das diversas personagens da peça até chegar no clímax decisivo. Há, nesse ato, uma metáfora formidável para Deus: ele é o dono do mamulengo!

Ousei também brincar com uma das ótimas piadas do terceiro ato, imaginando como seria o meu diálogo, fosse eu uma das personagens:
"Eu: Quer dizer que morri, foi? Só porque eu estava começando a pegar o jeito da coisa. Mas me diga: eu morri de que, hein?
Tinhoso: Você morreu de trouxa, colega.
Eu: E foi? É, eu sempre fui meio trouxa."
Mesmo sendo possível antecipar, em linhas gerais, o que Suassuna oferece em seus trabalhos - visto que ele possui um humor bastante particular e despretensioso, repleto de referências à cultura nordestina - o riso costuma ser garantido pra mim, e, aqui, não foi diferente: chorei de rir literalmente. 

(via)

09/05/2015

O Nome da Rosa - Umberto Eco

(info, sinopse, etc.)
Tradução: Aurora F. Bernardini +
Homero F. de Andrade
Este livro é tão ambicioso, tão notável na maneira com que explora múltiplos temas complexos e fascinantes, que admito não saber nem por onde começar esta impressão de leitura. Feita a humilde confissão, e dado que este espaço presta-se simplesmente à procrastinação especulativa, ousarei escrever as habituais bobagens para mero registro particular. 

Começando do começo; a premissa do livro poderia ser simploriamente resumida deste modo: Sherlock Holmes Guilherme de Baskerville - um frade franciscano inglês, ex-inquisidor, admirador do empirismo de Roger Bacon - e Watson Adso de Melk - um jovem noviço beneditino, puro e inocente de coração - embarcam na investigação de um assassinato ocorrido em certa abadia beneditina da Itália, durante o século XIV. Voilà.

Até seria assim simples se, ao contrário de ater-se à escrita de um puro romance policialesco em homenagem a Sir. Arthur Conan Doyle, Eco não tivesse entremeado o plot com uma comprometida retratação histórica e com reflexões de natureza filosófica e teológica.

Pontuando confabulações sobre algumas questões que mais me chamaram atenção:

1
Mantendo o alinhamento à máxima "o começo é um bom começo", gostaria de mencionar a nota introdutória do livro, através da qual somos informados de que O Nome da Rosa (ONR) corresponde a uma mera versão dos manuscritos originais escritos por Adso acerca dos eventos ocorridos durante os sete dias daquela investigação.

O autor responsável por tal versão do século XX admite ter tido acesso apenas a uma tradução francesa escrita no século XIX e declara que, a despeito de todos os esforços empreendidos, jamais conseguira localizar, em nenhuma biblioteca ou acervo, qualquer vestígio da tal tradução francesa um dia lida (mas perdida) ou mesmo dos originais de Adso. Resultado: o autor pôde contar, no momento da produção de ONR, apenas com as memórias da leitura de uma tradução secular. 

Então, não bastassem os atravessadores entre o manuscrito original e os leitores finais, restaria ainda a primordial indagação: afinal, o texto de Adso (e o próprio Adso) existiu ou não existiu? E, sendo assim, qual seria a validade/veracidade daquilo que pretende-se ler?

Bem, ONR traz passagens cujos subtextos parecem rebater tais desconfianças com outras perguntas, tais como: os vários intermediários tornam a leitura do livro imprestável? Ou: a inexistência do suposto manuscrito de Adso tornaria, sem sombra de dúvidas, completamente irrelevante o livro lido?
"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro, não devemos nos perguntar o que diz, mas o que quer dizer (...) encerra uma verdade  moral, ou alegórica, ou anagógica, que permanece verdadeira (...), quanto à verdade literal (...) resta saber de que dado de experiência originária nasceu a letra."
Essa introdução já parece representar a primeira referência ao universo de Borges - dentre várias outras -, pois remete facilmente ao conto "tlön, uqbar, orbis tertius". Aliás, uma referência mais explícita ao autor argentino surge através da personagem ~Jorge de Burgos~; um beneditino  cego, "O homem venerando em idade e sabedoria (...)" que comportava-se como o guardião da biblioteca do mosteiro.

2.
Por falar na biblioteca... Posto que a apuração dos eventos submetidos ao escrutínio de Guilherme e Adso leva-os reiteradamente a ela, ONR traz diversas e apaixonantes considerações a respeito de livros e bibliotecas, celebrando seus encantos, poderes e magias. (aqui, Borges surge mais uma vez, na figura dos labirintos, espelhos, sonhos...);
"Até então pensara que todo livro falasse das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Percebia agora que não raro os livros falam de livros, ou seja, é como se falassem entre si. À luz dessa reflexão, a biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era então o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminho e pergaminho, uma coisa viva, um receptáculo de forças não domáveis por uma mente humana, (...)"
Como, naquele momento histórico, a influência e o poder da Igreja Católica amparavam-se ainda mais amplamente no rigoroso controle da interpretação dos escritos sagrados e laicos; Eco pôde lançar reflexões sobre a importância do livre acesso aos livros e à informação.
"O bem de um livro está em ser lido. Um livro é feito de signos que falam de outros signos, os quais por sua vez falam das coisas. Sem um olho que o leia, um livro traz signos que não produzem conceitos, e portanto é mudo."
X
"Por que nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por uma alma piedosa (...)"
3.
Citando alguns temas das interessantes discussões teológicas propostas pela narrativa:

- a figura do Diabo e as convenientes "atribuições demoníacas";
"Bem, talvez a única prova verdadeira da presença do diabo seja a intensidade com que todos, naquele momento, desejam sabê-lo em ação..."
- conceito de "heresia", "pecado";
"(...) as ideias eram confusas, ou alguém queria confundi-las em seu interesse próprio. E este é o mal que a heresia faz ao povo cristão, tornando obscuras as ideias e levando todos a se tornarem inquisidores em benefício próprio."
--- 
"Todas as heresias são bandeira de uma realidade da exclusão. Raspada a heresia, encontrarás o leproso. Toda batalha contra a heresia requer apenas isso: que o leproso continue como tal." 
-  relação estabelecida entre a razão/ciência e a religião;
"(...) existem duas formas de magia. Há uma magia que é obra do diabo e que visa a ruína do homem através de artifícios de que não é lícito falar. Mas há uma magia que é obra divina, lá onde a ciência de Deus se manifesta através da ciência do homem, que serve para transformar a natureza, e um de cujos fins é prolongar a vida humana. E esta é magia santa, a que os sábios deveriam se dedicar sempre (...)"
- a gentileza reservada pela religião às mulheres;
"(...) é através da mulher que o diabo penetra no coração dos homens!"
- perguntas aparentemente irrelevantes como "Cristo ria?" e "Cristo professava a pobreza?" podem ser mais complexas do que parecem...
"Mas a questão não é se Cristo era pobre, é se deve ser pobre a Igreja. E pobre não significa tanto possuir ou não um palácio, quanto manter ou abandonar o direito de legislar sobre as coisas terrenas."
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"O riso distrai, por alguns instantes, o aldeão do medo. Mas a lei é imposta pelo medo, cujo nome verdadeiro é temor a Deus." 
--- 
discussões de altíssimo nível:
"O evangelho diz que Cristo tinha uma bolsa!"
"...O que dizes então do fato de que Nosso Senhor, quando estava em Jerusalém, voltava toda noite à Betânia?"
"E se Nosso Senhor queria ir dormir na Betânia, quem és tu para controlar sua decisão?"
"Não, bode velho. Nosso Senhor volta a Betânia porque não tinha dinheiro para pagar uma hospedaria em Jerusalém!"
"...bode és tu! E o que comia Nosso Senhor em Jerusalém?"
"E dirias tu então que o cavalo que recebe aveia do patrão para sobreviver tem a propriedade da aveia?"
"Olha que estás comparando Cristo a um cavalo..."
"Não, és tu que comparas Cristo a um prelado simoníaco da tua corte, receptáculo de esterco!"
4. 
A dinâmica estabelecida entre Guilherme e Adso mostrou-se um artifício muito eficaz em tornar mais atraente o desenvolvimento dos temas filosóficos (além, claro, do mistério em torno dos crimes). O pobre noviço, então seguro das típicas certezas da juventude, teve suas ideações teológicas - e mesmo existenciais - postas à prova pelo convívio com o mestre franciscano experiente, ponderado e afeito ao uso da razão. A imersão real na vida do mosteiro, em meio às investigações do crime e das discussões religiosas da época (Igreja Católica/Papa x Movimentos Reformistas/Imperador), foi gradativamente desconstruindo boa parte das concepções de Adso; levando-o ao exasperado questionamento e revisão de boa parte daquilo que ele tomava como certo, óbvio, simples e caro.

O noviço parece perceber que, para a maioria de nossas indagações, não podemos contar com o luxo das respostas simples e diretas.
"Mas então vivemos num lugar esquecido por Deus", disse eu desanimado.
"E encontraste porventura algum em que Deus ter-se-ia sentido à vontade?", perguntou-me Guilherme, olhando-me do alto de sua estatura.
--- 
"Mas quem tinha razão, quem tem razão, quem errou?" perguntei perdido.
"Todos tinham a sua razão, todos erraram."
"E o senhor", gritei num ímpeto de rebelião, "por que não toma posição, por que não me diz onde está a verdade?"
Guilherme (...) abaixou-se sobre a mesa e me mostrou, através da lente, um instrumento de trabalho: "Olha; o que estás vendo
?"
"O instrumento, um pouco maior."
"É isso, o máximo que se pode fazer é olhar melhor."
5.
Achei particularmente cativante a passagem em que Adso recorre aos livros (claro!) para tentar entender o que viria a ser o tal "Amor". Como os textos encontrados tratam o Amor como uma doença (e quem discordaria?), seus autores sugerem  algumas maneiras peculiares para tratar desse mal:

- Primeira opção: "unir os dois amantes em matrimônio, e o mal estaria curado."; 
- Segunda opção: "banhos quentes" (?);
- Terceira opção (e mais inusitada): "recorrer à assistência de mulheres velhas e espertas que passam o tempo a denegrir a amada - e parece que as mulheres velhas são mais espertas que os homens nesta circunstância."
- Quarta opção: "conjugar o amante infeliz com muitas escravas."
- Quinta opção: "(...) tentar perder a confiança e a esperança de atingir o objeto amado, de modo que o pensamento dele se afastasse." (tenho larga experiência pessoal com esse método. é sofrido, mas funciona.)

6. Confesso ainda que, durante boa parte da leitura, não conseguia encontrar um sentido ou razão de ser para o título do livro. Foi preciso chegar até as últimas linhas, para que as fichas desabassem.

Se eu já não estivesse encantada com Adso, aquele final teria dado conta sozinho do serviço.


"Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade."