12/05/2015

A pena e a lei - Ariano Suassuna

(info, sinopse, etc.)


"Cheirosa: Nesse seu terceiro ato tem Cristo?
Cheiroso: Tem.

Cheirosa: E ele se passa no céu, é?

Cheiroso: É por ali por perto!
Cheirosa: Pois vão dizer que você não tem mais imaginação e que só sabe fazer, agora, o "Auto da Compadecida"!
Cheiroso: Isso é fácil de resolver: na próxima peça, em vez do personagem ser sabido, é besta, e, no terceiro ato, em vez de tudo se passar no céu, se passa no inferno. Aí eu quero ver o que é que eles vão dizer!"


No início do livro, Suassuna explica que A Pena e a Lei  foi montada através de uma espécie de colagem de outras três pequenas peças de um ato que ele havia previamente escrito e engavetado; o que é fácil perceber durante a leitura, pois, embora as personagens sejam sempre as mesmas, cada um dos três atos que a compõem trazem histórias com começo, meio e fim. 

Os atos da peça são os seguintes:

1. A inconveniência de ter coragem - "(...) nele se demonstra, de modo insofismável, que a coragem é coisa improvável e carga pesada neste mundo de surpresas e disparates."

Basicamente, traz a história do personagem sabido dando uma de sabido, só pra pagar de besta no final. É um bom primeiro ato, porém pareceu-me o mais fraco dos três.

(Espera, deixa só eu guardar esta preciosidade para uso futuro: insofismável. Certo, continuando...)

2. O caso do novilho furtado - "(...) mostraremos: letra a: que os homens tem que viver com medo da polícia e do inferno; letra b: que, se não houvesse a justiça, os homens se despedaçariam entre si; letra c: que existem casos em que a justiça acerta seus julgamentos..."

Aqui, as coisas ficam mais interessantes. Com diálogos excelentes, Suassuna explora certas, digamos, peculiaridades eventuais da justiça: um suborninho aqui, uma testemunha maliciosamente desacreditada ali, uma prova documental meio que adulterada acolá, etc.

3. Auto da virtude da esperança - "(...) vamos ver se consigo acentuar a extraordinária significação da virtude da esperança. Sempre me impressionou a tremenda importância que se dá ao desespero! Está certo, mas, se é assim, se o desespero é coisa tão grave, a esperança deve ser algo de virtude maravilhosa, pois é o contrário dele."

Esse ato é o que acontece perto do céu; sendo construído através da repetição de uma mesma fórmula narrativa que gradativamente incorpora cada uma das diversas personagens da peça até chegar no clímax decisivo. Há, nesse ato, uma metáfora formidável para Deus: ele é o dono do mamulengo!

Ousei também brincar com uma das ótimas piadas do terceiro ato, imaginando como seria o meu diálogo, fosse eu uma das personagens:
"Eu: Quer dizer que morri, foi? Só porque eu estava começando a pegar o jeito da coisa. Mas me diga: eu morri de que, hein?
Tinhoso: Você morreu de trouxa, colega.
Eu: E foi? É, eu sempre fui meio trouxa."
Mesmo sendo possível antecipar, em linhas gerais, o que Suassuna oferece em seus trabalhos - visto que ele possui um humor bastante particular e despretensioso, repleto de referências à cultura nordestina - o riso costuma ser garantido pra mim, e, aqui, não foi diferente: chorei de rir literalmente. 

(via)

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