12/05/2015

É isto um Homem? - Primo Levi

(info, sinopse, etc.)
(Tradução: Luigi del Re)

Atendendo à "necessidade de contar "aos outros", de tornar "os outros" participantes, (...), impulso imediato e violento (...)", como meio de "liberação interior", Primo Levi relata fragmentariamente em É isto um Homem? o período em que fora um dos judeus ("Meu nome é 174.517") aprisionados e submetidos a trabalho forçado em Auschwitz - fev/1944 a jan/1945.

O autor italiano expõe os fatos dos quais foi vítima e testemunha de uma maneira bastante honesta, explícita e direta; dispensando desnecessários floreios ou manipulações de apelo meramente dramático. A narrativa é vívida e pungente, sendo impossível ao leitor permanecer indiferente à leitura. Algumas palavras, com todos os significados, sentimentos e sensações que carregam; permanecerão especialmente gravadas na minha memória em associação a esse livro:

sede, fome, cansaço, dor, frio, aniquilação.

Dentre as inúmeras atrocidades praticadas naquele campo de concentração, Levi relata algumas que impressionaram-me pelo requinte esdrúxulo da crueldade: 1. ter que tomar banho com as esparsas posses apertadas entre os joelhos para que não fossem furtadas, 2. a "cerimônia da troca de sapatos", onde precisava-se escolher no olho, em meio ao amontoado de calçados e da multidão, um sapato (não o par) que servisse, sem possibilidade de troca; 3. uma vez internado na enfermaria com diarréia, ter que "provar" diariamente, na frente do enfermeiro, a persistência do quadro.

Outros eventos narrados, por sua vez, são marcados por tamanha desumanidade, que tenho mesmo dúvidas se meu cérebro conseguiu assimilar a real magnitude daquilo que li; sendo a "grande Seleção de outubro de 1944" um deles. Segundo Levi, essa "seleção" foi a ocasião em que os alemães, "precisando reduzir o número de judeus no campo", determinaram quem seria mandado à câmara de gás:
"(...) trancou a porta, entregou a cada um a ficha indicando matrícula, nome, profissão, idade e nacionalidade, mandou que todos se despissem, (...) Cada um de nós, ao sair, nu, da peça do ar frio de outubro, deve passar correndo entre uma porta e outra, na frente dos três; entregar a ficha ao SS e entrar pela outra porta, a do dormitório. O SS, na fração de segundo entre as duas sucessivas passagens, com uma olhadela de frente e outra de costas, julga a sorte de cada um e por sua vez entrega a ficha ao homem à sua direita ou à sua esquerda - e isso é a vida ou a morte de cada um de nós." 
"Em Birkenau, a chaminé do Crematório não parou de largar fumaça nos últimos dez dias."
Os relatos e reflexões que Primo Levi compartilha em consonância com o título do livro são bastante surpreendentes, particularmente o capítulo chamado "Os submersos e os salvos", no qual ele encara esse fato histórico como uma "notável experiência biológica e social"
"Fechem-se entre cercas de arame farpado milhares de indivíduos, diferentes quanto à idade, condição, orientação, língua, cultura, hábitos, e ali submetam-nos a uma rotina constante, controlada, idêntica para todos e aquém de todas as necessidades (...) verificar o que é congênito e o que é adquirido no comportamento do animal-homem frente à luta pela vida."
Na minha inocente ignorância, admito que eu supunha ter havido plena solidariedade entre os aprisionados desses campos, visto que sofriam as mesmas violências, cometidas pelo mesmo algoz. Porém, a narrativa de Levi chama atenção ao fato de que, sob a pressão da necessidade e do sofrimento, "alguns instintos sociais são reduzidos ao silêncio". Levi destaca que todos eles estavam cruelmente sós na luta pela vida, e a diferença entre os que se salvavam e os que se afundavam restava, muitas vezes em:
"(...) sufocar toda dignidade, apagar todo vestígio de consciência, ir à luta, brutos contra brutos, deixar-se guiar pelas insuspeitadas forças ocultas que sustentam as estirpes e os indivíduos nos tempos cruéis. Muitíssimos foram os meios que imaginamos para não morrer: tantos quantos são os temperamentos humanos. (...) era praticamente impossível sobreviver sem renunciar a nada de seu próprio mundo moral(...)"
E foram essas reflexões que deram ao título do livro uma implicação ainda mais impactante para mim, pois revelaram-me que a pergunta - válida para nazistas e judeus - não relaciona-se apenas às notórias brutalidades cometidas pelos alemães nesses campos, mas também à hedionda situação que obrigava um indivíduo a despir-se de sua moral e essência humana, cedendo a algum grau de aniquilação interna, a fim de garantir uma mínima chance de sobrevivência.
"Os personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade ficou sufocada, ou eles mesmos sufocaram, sob a ofensa padecida ou infligida a outros. Os SS maus e brutos, os Kapos, os políticos, os criminosos, os "proeminentes" grandes e pequenos, até os Häfltinge indiscriminados e escravos, todos os degraus da hierarquia insensata determinada pelos alemães estão, paradoxalmente, juntos numa única íntima desolação."

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