17/05/2015

Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis


O Woody Allen já leu, a Susan Sontag já leu, o Philip Roth já leu, o Tufão já leu, mas eu ainda não li Memórias Póstumas de Brás Cubas (MPBC) e eu - agora, sim; finalmente! - também já li.୧(﹒ᴗ﹒)୨      

Sinto-me, contudo, um pouco desconfortável para tecer comentários sobre um clássico tão relevante como esse, porque, adianto logo, a leitura não foi uma experiência completamente prazerosa ou recompensadora. De qualquer modo, apelo ao irrefutável direito de não ser fã incondicional de um clássico para poder seguir em frente com este post.

Como percebe Tufão, a prosa machadiana em MPBC se esbalda na sátira e em refinada ironia para sutilmente (ok, às vezes explicitamente) criticar a sociedade brasileira do século XIX. Em linhas gerais, a narrativa abre-nos os olhos para o que de mais tosco a distinguia (distingue?): afetação, pequenez, hipocrisia, futilidade, mesquinharia, pseudo-intelectualidade, falso moralismo. Por essa perspectiva, é até muito lógico que Brás Cubas trate o legado humano como uma miséria. 

A ironia máxima, creio, é que justamente o narrador-personagem, nosso defunto-autor, seja um representante-mor dessa sociedade espezinhada; repleto, o próprio, daquilo que ele julgava lastimoso nas pessoas. Inclusive, essa é a razão pela qual escolho atribuir a ele, e não a Machado de Assis, o tiquinho de presunção e condescendência irritantes que entremeiam a narrativa, como nestes trechos (supostamente engraçados, mas não muito pra mim):
" (...) se alguma dama tem seguido estas páginas, fecha o livro e não lê as restantes. Para ela extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor."
(- Brás Cubas, meu querido, a verdade é que sua vida amorosa foi a parte mais enfadonha do livro.)
"O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! é preciso explicar tudo."
(- No shit, Sherlock?! Essa é uma típica passagem na qual deve-se rir da chacota, mas eu só consegui ficar puta; o que deve revelar muito sobre mim.) 

Enfim, para ser explícita, o que tento dizer é que Brás Cubas é um babaca. Simples assim. E não, não duvido de que meu desgosto pelo personagem possa ser atribuído à certa identificação indesejada e pouco saudável. 

Foi também peculiar observar a escravidão negra aparecendo casualmente como mero adorno próprio da época retratada. Claro, essa exposição também  pode ser encarada como uma crítica; a qual, aos olhos de um leitor no século XXI, adquire ainda maior expressão. Foi bastante repulsivo, por exemplo, constatar que um ser humano já fora tratado como mais um dos objetos de partilha de uma herança. 

Creio realmente que, caso a obra contivesse apenas as digressões e os devaneios aleatórios de Brás Cubas, eu a teria apreciado muito mais, pois foram essas as passagens de que mais gostei (quando queria, nosso narrador conseguia ser super intrigante e engraçado). Inusitadamente, fiquei imaginando que Cubas teria se saído muito bem desenvolvendo uma série inteira de livros similar àquela do Knausgård.
"(..) um dia (...) pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim que é possível crer. (...) Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te. 
Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. (...) minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra pra mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: amor da glória."
 E os capítulos VII - O delírio e VIII - Razão contra a Sandice foram grandes favoritos:
"- Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga. (...) levo na bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. (...) eu não sou somente a vida, sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada."
"- Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério...    - Que mistério?
- De dois - emendou a Sandice -; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.
A Razão pôs-se a rir." 
Brás Cubas, deve-me um leve piparote, é verdade, mas dispenso-o da obrigação, pois ~sou legal~.

"Tantos sonhos, meu caro Borba,
 tantos sonhos, e não sou nada."

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