24/05/2015

O Leopardo (O Gattopardo) - Tomasi di Lampedusa

(info, sinopse, etc.)
(Tentando afastar qualquer má impressão inicial, já gostaria de desculpar-me - e a culpa nem é minha, mas ok - por esta capa medonha aí à esquerda. Seria fascinante, se não fosse lamentável, a quantidade de capas horrorosas que esse pobre livro possui - sendo honesta, a capa da edição que li é ainda pior: esta aqui (tradução de Rui Cabeçadas). É preciso relevá-las, pois creio mesmo que a obra não merece tamanha injustiça. Feita a advertência, prossigo com as ruminações.)

Soube da existência desse livro com um tweet que trazia uma listinha de obras apreciadas por Mário Vargas Llosa. Revirei toda a internet e, pasmem, não achei a bendita fonte. (existiu ou não existiu?) Só consegui recuperar a informação de que Llosa já foi agraciado com o prêmio literário Tomasi di Lampedusa e que O Leopardo figura na obra teórica dele A verdade das mentiras. Como não resisto a livros sugeridos por outros autores, nem pensei duas vezes: comprei-o na mesma hora. 

O Leopardo é um romance histórico ambientado no então Reino das Duas Sicílias, durante o período final do Ressurgimento Italiano liderado pelos conservadores liberais, do qual resultara a unificação da Itália  - com alguns bons saltos, a narrativa engloba meio século: maio de 1860 a maio de 1910. Ao mesmo tempo, uma resenha do Good Reads - aqui - compartilha um interessante comentário de E. M. Forster, segundo o qual O Leopardo não seria um romance histórico, mas sim um romance que transcorre durante um determinado período da História. Tal distinção, embora sutil, parece mesmo pertinente, pois Lampedusa não se preocupa em documentar e esmiuçar cada um dos relevantes acontecimentos históricos dessa fase; mas, sim, vale-se da narrativa acerca de uma família aristocrata siciliana para apenas personificar os componentes cruciais daquelas transformações em curso.

O leopardo do título é o animal que representa o brasão dos Salinas e, por extensão, presta-se como metáfora daquele que é o chefe dessa tradicional e nobre família: o Príncipe Fabrizio Corbera. Nesse contexto, Fabrizio é o próprio leopardo, ele é a essência máxima do livro, o símbolo da nobreza e aristocracia italiana em decadência, cuja morte lenta e progressiva cedia espaço à burguesia em ascensão. Lampedusa não poupa esforços na descrição magnânima do grande nobre. De ascendência materna germânica, Fabrizio tinha 45 anos, dois metros de altura, "imenso e forte", loiro de olhos azuis, "seus dedos podiam dobrar como papel as moedas de um ducado", um intelectual de renome nas áreas da matemática e astronomia. Em outras palavras: o Príncipe - ou seja, a própria nobreza italiana - era ~pura magia~. Algumas dessas descrições são simplesmente hilárias, principalmente as recorrentes evocações de coisas tremendo em resposta à passagem de Fabrizio - nada permanece imune à presença do príncipe.
"(...) o príncipe (...), fazendo gemer o divã sob o seu peso, adormeceu tranquilamente."
" o príncipe levantou-se: sob o impacto de seu peso de gigante, o soalho estremecia."
"despiu-se e meteu-se na água; ao receber aquele volume imenso, a água transbordou um pouco. (...) ele, já fora da água (...) erguia-se inteiramente nu, como o Hércules de Farnese, e ainda por cima fumegante, com a água escorrendo-lhe em torrentes (...) tal como o Ródano (...). O espetáculo do príncipe em estado adamítico era inédito (...)"
É o Príncipe quem oferece, também, uma impactante versão para um famigerado adágio popular:
"Aqui quem decide sou eu; já havia decidido, quando ainda nem sequer o sonhavas."
A representação construída por essa personagem é fantástica e avassaladora. Embora a narrativa seja em terceira pessoa - um narrador que, volta e meia, dá indícios de estar no futuro dos eventos (Lampedusa escreve o livro na década de 50) - , é mediante a percepção do Príncipe Salinas, de suas reflexões sobre as mudanças em evolução, de sua melancólica consciência quanto ao fim de sua linhagem e de sua relevância, que acompanhamos a lenta exposição dos fatos. É, sem dúvidas, uma personagem extremamente marcante.
"O príncipe estava deprimido: "Tudo isso não devia durar, mas vai durar e sempre; o sempre humano, bem entendido, um século, dois séculos...; depois será diferente mas pior. Nós fomos os leopardos, os leões; os que hão de substituir-nos, os chacais, as hienas; e todos nós, leopardos, chacais e ovelhas continuaremos considerando-nos o sal da terra."
A narrativa de Lampedusa destaca-se pela construção de diálogos certeiros, carregados de simbologia e, principalmente, pelas impressionantes descrições. Os cenários são vividamente delineados para o leitor, a tal ponto que mesmo objetos inanimados parecem ganhar vida por intermédio das palavras do autor. A leitura propicia, sem dúvidas, uma excursão praticamente presencial às residências dos Salinas e à região da Sicília. Tanto é assim que, assistindo à adaptação cinematográfica do livro dirigida por Luchino Visconti e ganhadora da palma de ouro de Cannes, a sensação de déjà vu foi inegável: todas as imagens criadas em minha mente graças às descrições de Lampedusa estavam em perfeita sintonia com a belíssima arte e cenários do filme. 

Gostaria, ainda, de destacar uma singela personagem: Bendicò, o cachorrinho dos Leopardos (olha só a ironia). Há uma certa lição que já aprendi faz tempo (- você não me pega, Lampedusa), qual seja:


De posse dessa preciosa informação, permaneci então muito atenta aos rumos de Bendicò, mas, mesmo assim, não consegui antever o papel que ele assumiria até o desfecho da história. (Ok, Lampedusa, você venceu nessa.) SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER → 
 [À nobre linhagem de Fabrizio, restaram apenas a morte, o empalhamento e a lata do lixo. Caramba.]

E falando em desfecho, o paralelo criado por Lampedusa entre a cena inicial e a final do livro, destacando especialmente como ocorreu a evolução da intimidade histórica entre a Nobreza e a Igreja, ficou incrível.  A frase inicial da obra ganha muito mais força com o final.
"Nunc et in hora mortis nostrae. Amen."
O livro equivale inegavelmente ao próprio Príncipe Fabrizio; mas se fosse preciso escolher uma única de suas frases para resumir a essência derradeira, não há dúvidas de que eu ficaria com a seguinte fala de Tancredi - o jovem sobrinho do príncipe e símbolo de uma "nova nobreza", a amostra da velha que conseguiu adaptar-se aos "novos tempos":
"- Se nós não estivermos lá, eles fazem uma república. Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude. Expliquei-me bem?"
Não muito bem. Explica de novo, Sr. Delon Tancredi. Por favooooooor (ʃƪ ˘ ³˘)~♥.

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