09/05/2015

O Nome da Rosa - Umberto Eco

(info, sinopse, etc.)
Tradução: Aurora F. Bernardini +
Homero F. de Andrade
Este livro é tão ambicioso, tão notável na maneira com que explora múltiplos temas complexos e fascinantes, que admito não saber nem por onde começar esta impressão de leitura. Feita a humilde confissão, e dado que este espaço presta-se simplesmente à procrastinação especulativa, ousarei escrever as habituais bobagens para mero registro particular. 

Começando do começo; a premissa do livro poderia ser simploriamente resumida deste modo: Sherlock Holmes Guilherme de Baskerville - um frade franciscano inglês, ex-inquisidor, admirador do empirismo de Roger Bacon - e Watson Adso de Melk - um jovem noviço beneditino, puro e inocente de coração - embarcam na investigação de um assassinato ocorrido em certa abadia beneditina da Itália, durante o século XIV. Voilà.

Até seria assim simples se, ao contrário de ater-se à escrita de um puro romance policialesco em homenagem a Sir. Arthur Conan Doyle, Eco não tivesse entremeado o plot com uma comprometida retratação histórica e com reflexões de natureza filosófica e teológica.

Pontuando confabulações sobre algumas questões que mais me chamaram atenção:

1
Mantendo o alinhamento à máxima "o começo é um bom começo", gostaria de mencionar a nota introdutória do livro, através da qual somos informados de que O Nome da Rosa (ONR) corresponde a uma mera versão dos manuscritos originais escritos por Adso acerca dos eventos ocorridos durante os sete dias daquela investigação.

O autor responsável por tal versão do século XX admite ter tido acesso apenas a uma tradução francesa escrita no século XIX e declara que, a despeito de todos os esforços empreendidos, jamais conseguira localizar, em nenhuma biblioteca ou acervo, qualquer vestígio da tal tradução francesa um dia lida (mas perdida) ou mesmo dos originais de Adso. Resultado: o autor pôde contar, no momento da produção de ONR, apenas com as memórias da leitura de uma tradução secular. 

Então, não bastassem os atravessadores entre o manuscrito original e os leitores finais, restaria ainda a primordial indagação: afinal, o texto de Adso (e o próprio Adso) existiu ou não existiu? E, sendo assim, qual seria a validade/veracidade daquilo que pretende-se ler?

Bem, ONR traz passagens cujos subtextos parecem rebater tais desconfianças com outras perguntas, tais como: os vários intermediários tornam a leitura do livro imprestável? Ou: a inexistência do suposto manuscrito de Adso tornaria, sem sombra de dúvidas, completamente irrelevante o livro lido?
"Os livros não são feitos para acreditarmos neles, mas para serem submetidos a investigações. Diante de um livro, não devemos nos perguntar o que diz, mas o que quer dizer (...) encerra uma verdade  moral, ou alegórica, ou anagógica, que permanece verdadeira (...), quanto à verdade literal (...) resta saber de que dado de experiência originária nasceu a letra."
Essa introdução já parece representar a primeira referência ao universo de Borges - dentre várias outras -, pois remete facilmente ao conto "tlön, uqbar, orbis tertius". Aliás, uma referência mais explícita ao autor argentino surge através da personagem ~Jorge de Burgos~; um beneditino  cego, "O homem venerando em idade e sabedoria (...)" que comportava-se como o guardião da biblioteca do mosteiro.

2.
Por falar na biblioteca... Posto que a apuração dos eventos submetidos ao escrutínio de Guilherme e Adso leva-os reiteradamente a ela, ONR traz diversas e apaixonantes considerações a respeito de livros e bibliotecas, celebrando seus encantos, poderes e magias. (aqui, Borges surge mais uma vez, na figura dos labirintos, espelhos, sonhos...);
"Até então pensara que todo livro falasse das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Percebia agora que não raro os livros falam de livros, ou seja, é como se falassem entre si. À luz dessa reflexão, a biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era então o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminho e pergaminho, uma coisa viva, um receptáculo de forças não domáveis por uma mente humana, (...)"
Como, naquele momento histórico, a influência e o poder da Igreja Católica amparavam-se ainda mais amplamente no rigoroso controle da interpretação dos escritos sagrados e laicos; Eco pôde lançar reflexões sobre a importância do livre acesso aos livros e à informação.
"O bem de um livro está em ser lido. Um livro é feito de signos que falam de outros signos, os quais por sua vez falam das coisas. Sem um olho que o leia, um livro traz signos que não produzem conceitos, e portanto é mudo."
X
"Por que nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por uma alma piedosa (...)"
3.
Citando alguns temas das interessantes discussões teológicas propostas pela narrativa:

- a figura do Diabo e as convenientes "atribuições demoníacas";
"Bem, talvez a única prova verdadeira da presença do diabo seja a intensidade com que todos, naquele momento, desejam sabê-lo em ação..."
- conceito de "heresia", "pecado";
"(...) as ideias eram confusas, ou alguém queria confundi-las em seu interesse próprio. E este é o mal que a heresia faz ao povo cristão, tornando obscuras as ideias e levando todos a se tornarem inquisidores em benefício próprio."
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"Todas as heresias são bandeira de uma realidade da exclusão. Raspada a heresia, encontrarás o leproso. Toda batalha contra a heresia requer apenas isso: que o leproso continue como tal." 
-  relação estabelecida entre a razão/ciência e a religião;
"(...) existem duas formas de magia. Há uma magia que é obra do diabo e que visa a ruína do homem através de artifícios de que não é lícito falar. Mas há uma magia que é obra divina, lá onde a ciência de Deus se manifesta através da ciência do homem, que serve para transformar a natureza, e um de cujos fins é prolongar a vida humana. E esta é magia santa, a que os sábios deveriam se dedicar sempre (...)"
- a gentileza reservada pela religião às mulheres;
"(...) é através da mulher que o diabo penetra no coração dos homens!"
- perguntas aparentemente irrelevantes como "Cristo ria?" e "Cristo professava a pobreza?" podem ser mais complexas do que parecem...
"Mas a questão não é se Cristo era pobre, é se deve ser pobre a Igreja. E pobre não significa tanto possuir ou não um palácio, quanto manter ou abandonar o direito de legislar sobre as coisas terrenas."
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"O riso distrai, por alguns instantes, o aldeão do medo. Mas a lei é imposta pelo medo, cujo nome verdadeiro é temor a Deus." 
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discussões de altíssimo nível:
"O evangelho diz que Cristo tinha uma bolsa!"
"...O que dizes então do fato de que Nosso Senhor, quando estava em Jerusalém, voltava toda noite à Betânia?"
"E se Nosso Senhor queria ir dormir na Betânia, quem és tu para controlar sua decisão?"
"Não, bode velho. Nosso Senhor volta a Betânia porque não tinha dinheiro para pagar uma hospedaria em Jerusalém!"
"...bode és tu! E o que comia Nosso Senhor em Jerusalém?"
"E dirias tu então que o cavalo que recebe aveia do patrão para sobreviver tem a propriedade da aveia?"
"Olha que estás comparando Cristo a um cavalo..."
"Não, és tu que comparas Cristo a um prelado simoníaco da tua corte, receptáculo de esterco!"
4. 
A dinâmica estabelecida entre Guilherme e Adso mostrou-se um artifício muito eficaz em tornar mais atraente o desenvolvimento dos temas filosóficos (além, claro, do mistério em torno dos crimes). O pobre noviço, então seguro das típicas certezas da juventude, teve suas ideações teológicas - e mesmo existenciais - postas à prova pelo convívio com o mestre franciscano experiente, ponderado e afeito ao uso da razão. A imersão real na vida do mosteiro, em meio às investigações do crime e das discussões religiosas da época (Igreja Católica/Papa x Movimentos Reformistas/Imperador), foi gradativamente desconstruindo boa parte das concepções de Adso; levando-o ao exasperado questionamento e revisão de boa parte daquilo que ele tomava como certo, óbvio, simples e caro.

O noviço parece perceber que, para a maioria de nossas indagações, não podemos contar com o luxo das respostas simples e diretas.
"Mas então vivemos num lugar esquecido por Deus", disse eu desanimado.
"E encontraste porventura algum em que Deus ter-se-ia sentido à vontade?", perguntou-me Guilherme, olhando-me do alto de sua estatura.
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"Mas quem tinha razão, quem tem razão, quem errou?" perguntei perdido.
"Todos tinham a sua razão, todos erraram."
"E o senhor", gritei num ímpeto de rebelião, "por que não toma posição, por que não me diz onde está a verdade?"
Guilherme (...) abaixou-se sobre a mesa e me mostrou, através da lente, um instrumento de trabalho: "Olha; o que estás vendo
?"
"O instrumento, um pouco maior."
"É isso, o máximo que se pode fazer é olhar melhor."
5.
Achei particularmente cativante a passagem em que Adso recorre aos livros (claro!) para tentar entender o que viria a ser o tal "Amor". Como os textos encontrados tratam o Amor como uma doença (e quem discordaria?), seus autores sugerem  algumas maneiras peculiares para tratar desse mal:

- Primeira opção: "unir os dois amantes em matrimônio, e o mal estaria curado."; 
- Segunda opção: "banhos quentes" (?);
- Terceira opção (e mais inusitada): "recorrer à assistência de mulheres velhas e espertas que passam o tempo a denegrir a amada - e parece que as mulheres velhas são mais espertas que os homens nesta circunstância."
- Quarta opção: "conjugar o amante infeliz com muitas escravas."
- Quinta opção: "(...) tentar perder a confiança e a esperança de atingir o objeto amado, de modo que o pensamento dele se afastasse." (tenho larga experiência pessoal com esse método. é sofrido, mas funciona.)

6. Confesso ainda que, durante boa parte da leitura, não conseguia encontrar um sentido ou razão de ser para o título do livro. Foi preciso chegar até as últimas linhas, para que as fichas desabassem.

Se eu já não estivesse encantada com Adso, aquele final teria dado conta sozinho do serviço.


"Talvez a tarefa de quem ama os homens seja fazer rir da verdade, fazer rir a verdade, porque a única verdade é aprendermos a nos libertar da paixão insana pela verdade."

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