31/05/2015

O País das Neves - Yasunari Kawabata

(info, sinopse, etc.)
Tradução: Neide Hissae Nagae
"Atravessava-se um longo túnel e lá estava o País das Neves. A noite assumiu um fundo branco. O trem parou num entroncamento (...)  
O céu das montanhas mais distantes ainda guardava os resquícios da vermelhidão do pôr-do-sol. Por isso, bem ao longe, os contornos da paisagem através do vidro da janela ainda continuavam nítidos, mas já sem cor, e as montanhas infinitamente monótonas pareciam ainda mais triviais. Por não haver nada de mais atraente, tudo aquilo tornava-se um imenso fluxo de emoção anuviada, obviamente porque ele imaginava o rosto da menina flutuando nesse quadro. Não era possível ver o outro lado da janela na parte em que a figura dela se refletia, mas como a paisagem do entardecer se movia ao redor do contorno da moça, o rosto dela também lhe parecia translúcido. Se o era ou não, ele não foi capaz de distinguir, pois lhe parecia que a paisagem do crepúsculo que continuava a passar por trás do seu rosto estava em frente a ele.  
Como o interior do trem não era muito claro, aquele espelho não era tão nítido quanto deveria ser. Ele não refletia bem as imagens. Por isso, enquanto Shimamura olhava compenetrado, foi se  esquecendo da existência do espelho e começou a pensar que a moça flutuava na paisagem do entardecer."
Primeiramente, desejo compartilhar a seguinte informação (relevante ou não, eis a questão): O País das Neves renderia um excelente drinking game, cujo desafio consistiria em entornar uma dose de bebida alcoólica (qual? isso fica a critério dos jogadores, mas sem qualquer originalidade sugere-se saquê) toda vez que aparecerem durante a leitura as palavras "neve" e "montanha" - variantes inclusive. ALERTA: o nível desse jogo é avançado; há alto risco de coma alcoólico para participantes menos experientes.

Sério mesmo: essa obra traz a maior concentração das palavras "neve" e "montanha" por página quadrada. Por algum tempo, tentarei passar longe de qualquer livro que remotamente aluda a tais palavras.

Contudo, por mais irritante que tenha sido, não acho difícil compreender a recorrência desses termos descritivos. A reiteração parece ser intencional em consonância com a monotonia dominante e sufocante daquele cenário montanhesco e enevoado. Pela influência extremamente marcante e intensa que exerce sobre as personagens e, suponho, sobre a própria história do Japão, é uma Natureza de ambígua imponência - oprime, mas também acolhe e fascina - que exige o devido destaque. Na tentativa de melhor compreender o comportamento das personagens que acompanhei no livro, conjecturei inclusive que o que elas revelam de inércia, apatia e contido desespero seja simplesmente um reflexo simbólico daquele meio.

O plot da história, conduzido por personagens bem pouco empáticas, não despertou-me grande entusiasmo. Shimamura, um jovem senhor casado, pai de família e aparente digníssimo exemplar do homem hetero-cis-classe-alta de Tóquio; visita anualmente o País das Neves - o livro relata-nos três visitas -, região de turismo sazonal alavancado por resorts de esqui e casas termais, para encontrar-se com a gueixa Komako. Shimamura, todo trabalhado no "first world problems" pseudo-existenciais*, não entende ao certo por que comete-se àquelas visitas conjugais; enquanto Komako, sem poder dar-se ao luxo de fazer visitinhas por aí quando bem quer, prende-se romanticamente (?) àquele homem frio (opa, olha a neve), distante e indiferente de uma maneira pouco compreensível. Há ainda uma terceira mulher no meio desse imbróglio - aquela da citação inicial do post, refletida no vidro do trem que leva Shimamura ao País das Neves - , mas ela representa um papel tão enigmático e complexo, que eu não ousarei tecer qualquer hipótese.
"- Foi tudo muito difícil para mim, não percebe? É diferente de alguém como o senhor, que vive como bem entende!
- Quem é que vive como bem entende? - murmurou Shimamura sem forças."
*Certo, certo; eu sei que é ridículo reduzir os conflitos internos de Shimamura dessa maneira, porém é bem difícil conseguir enxergar além disso, especialmente vendo-o interagir com a população pobre e pouco afortunada daquela região e da qual Komako surge como representante. Tentando conceder-lhe algum desconto, admito que consigo empatizar especialmente com a crença dele na aparente inutilidade de quase tudo na vida - o "esforço em vão"

Citando mais alguns trechos interessantes, destacaria o ótimo paralelo estabelecido entre estes dois:
"Nos tempos de estudante, começou (Shimamura) a gostar de danças japonesas e de shosagoto. (...) Mas no momento em que era assediado por jovens mestres da dança japonesa, subitamente voltou-se para a dança ocidental. (...) Não era apenas um interesse pelo estrangeiro e pelo desconhecido. A alegria que descobriu aí vinha do fato de não poder vê-los ao vivo. (...) Ele não assistia à arte da dança ao vivo, assistia à ilusão da dança de sua própria imaginação proveniente de textos e fotos ocidentais. É como idolatrar uma paixão nunca vista."
 
"(...) Shimamura foi surpreendido ao saber dos registros que ela (Komako) fazia de cada romance lido desde os seus quinze ou dezesseis anos, que já atingiam dez cadernos de anotações.
-Você registra suas impressões, então?
- Não sou capaz de escrever impressões ou coisa parecida. Escrevo apenas o título, o autor, o nome das personagens e a relação entre elas.
- De que adianta deixar registro sobre essas coisas?
- De nada.
- É um esforço em vão.
- É mesmo.
(...)
O seu jeito de falar, porém, dava a impressão de que ela tratava de alguma literatura estrangeira distante e soava triste como a vida de um mendigo sem ambições. Shimamura ficou imaginando que as elucubrações sobre a dança ocidental que ele próprio fazia, sustentado por fotos e textos dos livros ocidentais, não eram muito diferentes."
(- indireta recebida, Shimamura.)

No geral, não foi uma leitura muito prazerosa. Gostei das imagens inicialmente construídas, mas estas logo perderam o ar de novidade e a capacidade de impressionar. A prosa extremamente poética (haiku em prosa), do tipo contemplativa e sublime, também não é o tipo de coisa que costuma me agradar especialmente. E as personagens, além de morosas em demasia, persistem ainda ao fim do livro como grandes enigmas. 

Deixando a rabugice de lado, digo que gostei muito do que o livro sutilmente revela a respeito da vida das gueixas - nada glamorosa (no interior, pelo menos) - e da Natureza tão estranha àquela com a qual convivo; bem como de conhecer um pouquinho mais sobre a realidade e algumas tradições do Japão. O livro - na edição da Estação Liberdade, tradução de Neide Hissae Nagae - traz algumas notas de rodapé explicando alguns termos que aparecem no texto e, simultaneamente, eu também joguei algumas coisas no Google para melhor compreender aquele universo tão particular. Das novas descobertas proporcionadas pelo livro de Kawabata, destaco a música tradicional japonesa que as gueixas costumam tocar com o Shamisen - instrumento de três cordas que aparece na imagem do vídeo abaixo. 



Aliás, sinto que devo fazer a pergunta: até que ponto meu pouco conhecimento sobre o Japão contribuiu para a relação que estabeleci com O País das Neves? Fiquei com a forte sensação de que Kawabata intensamente explora e propõe reflexões sobre a história e dinâmica da sociedade japonesa com esse livro - p.ex.: evolução das tradições e cultura diante da influência estrangeira, relação estabelecida entre as realidades vividas pelos habitantes da capital e interior do país, enaltecimento da Natureza do Japão pelo seu tratamento digno de uma personagem. E o Nobel assim justifica sua premiação:
Prize motivation: "for his narrative mastery, which with great sensibility expresses the essence of the Japanese mind."
Pode não ter sido uma leitura incrível, mas com certeza me deixou com vontade de ler mais literatura japonesa.

"A senhorita não apreciou meu livro? 
Olha só minha cara de ganhador do Nobel super preocupado."

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