24/05/2015

On the pleasure of hating - William Hazlitt

photo by @mashamitovich

Sem rodeios: eu nutro alguns ódios. ¯\_(ツ)_/¯  Minha lista de coisas/pessoas odiadas é longa e, para espanto próprio, só cresce. Não me orgulho disso e, se prestar como defesa, afirmo praticar apenas o ódio passivo, o que significaria dizer que - parafraseando o Woody Allen - o sentimento serve apenas para alimentar um tumor interior. Então, quando a foto acima surgiu compartilhada pelo instagram da Penguin UK, minha curiosidade foi imediatamente atiçada.

Por conta da provocação fácil, astuta e super atual do título, imaginei logo que fosse um lançamento recente, mais um caça-níquel de editora nos moldes daqueles livros vendidos pela Urban Outfitters. Só que imaginei errado, pois a verdade é que o ensaio que intitula o livro da foto foi escrito em 1826 (!), pelo inglês William Hazlitt. Como o texto já está em domínio público, saquei-o para leitura.

Mr. Hazlitt me pareceu bastante ponderado e perspicaz nas observações que faz sobre o ódio. Ao contrário (de novo) do que o título me fizera supor, ele não desenvolve nem uma ode exultante em defesa das delícias do ódio, nem uma crítica sarcástica aos que odeiam; mas apenas discorre comedidamente sobre como o ódio opera no ser humano.

1.
Hazlitt, presumo, não faria pouco caso da capciosa artimanha que lancei através do mencionado "ódio passivo". Ele afirma que o homem é capaz, sim, de aprender a reprimir a exteriorização dos instintos odiosos, mas isso ocorre muito antes de que se consiga abrandar os sentimentos coléricos.
"The spirit of malevolence survives the practical exertion of it. We learn to curb our will and keep our overt actions within the bounds of humanity, long before we can subdue our sentiments and imaginations to the same mild tone. We give up the external demonstration, the brute violence, but cannot part with the essence or principle of hostility."
2. 
Ele conjectura, de forma ainda mais audaciosa, que a Natureza é feita de antipatias sem as quais a vida seria, basicamente, uma chatice. Ainda que perverso e corrosivo, o ódio representa uma fonte inesgotável de prazer, traz perspectiva para a justa valorização do que realmente importa.
"Nature seems (the more we look into it) made up of antipathies: without something to hate, we should lose the very spring of thought and action. Life would turn to a stagnant pool, were it not ruffled by the jarring interests, the unruly passions, of men."
Com certa vergonha, inclino-me a concordar um pouco com Hazlitt. Que atire a primeira pedra aquele que, honestamente, negar jamais ter se deliciado com um mísero xingamento odioso que seja.

3. 
Ele argumenta a favor do conceito de que, inevitavelmente, o Tempo faz com que odiemos: 

Amigos,
Hazlitt é meio cruel, é verdade, ao comparar velhas amizades a um pedaço de carne fria e ruim servida repetidamente: assim como o estômago a recusará, também nós o faremos em relação às velhas amizades. Ele alega que, com o tempo, os defeitos dos amigos tornam-se intoleráveis e as qualidades, com a exposição contínua, perde o encanto. As pequenas contradições e irritações provocadas pelo relacionamento acumulariam-se gradativamente e apenas o ódio permitiria o alívio.

Nesse ponto, já não concordo exatamente com o autor. Penso que os argumentos dele servem, na verdade, para demonstrar apenas que amizades exigem dedicação para serem construídas e preservadas. Se o ódio explícito surgir com o tempo, é porque  nunca sequer existiu amizade genuína.

Opiniões, 
Esse trecho do ensaio é fantástico. É possível não odiar as velhas opiniões que defendíamos e que, com o tempo, demonstraram ser completamente equivocadas? Como não odiar a lembrança de uma convicção passada que nos fez agir feito imbecis? E eu diria mais: felizes aqueles que as odeiam, pois diminuem as chances de repetí-las. Ou não?

e... Livros!
Sim, Hazlitt crê que nos cansamos, passado um tempo, até de livros favoritos. Particularmente, não acho que seja um destino irremediável, mas a possibilidade parece mesmo existir. É exatamente por essa razão que tenho muito receio de reler livros que amei ler no passado.

Comicamente, percebemos que já no século XIX praticava-se a premissa hipsteriana do "desprezo aos autores populares".  Oh, the irony. 
"The popularity of the most successful writers operates to wean us from them, by the cant and fuss that is made about them, by hearing their names everlastingly repeated, and by the number of ignorant and indiscriminate admirers they draw after them: - we as little like to have to drag others from their unmerited obscurity, lest we should be exposed to the charge of affectation and singularity of taste. There is nothing to be said respecting an author that all the world have made up their minds about: it is a thankless as well as hopeless task to recommend one that nobody has ever heard of."
Embaraçosamente, assumo nutrir esse tipo de ódio por alguns autores amados pelo mainstream. Ou melhor: seria mais mero desdém, pois há só 1 ~certo autor~ que realmente o-dei-o e cujo nome jamais revelarei nesse blog.

4.
Há uma breve assertiva que creio resumir bem uma possível teoria para a existência dos odiadores: 
"(...) we avoid the sight, and are uneasy in the presence of, those who remind us of our infirmity, (...)"
Em outras palavras: tendemos a odiar aqueles que nos fazem lembrar nosso próprios defeitos. E, complementando tal ideia, Hazlitt diz preferir ter amigos com defeitos que ele possa ridicularizar, pois assim pode deliciar-se com a autoindulgêcia promovida às custas da chacota desdenhosa dos vícios alheios. 

Ou seja, o exercício do ódio representaria o esforço de buscar desferir contra terceiros o ódio que, de outro modo, recairia sobre si mesmo. É, talvez seja isso realmente. Importante ressalvar, porém, que não parece haver garantias quanto ao sucesso desse recurso. 
"Even our strongest partialities and likings soon take this turn. "That which was luscious as locusts, anon becomes bitter as coloquintida;" and love and friendship melt in their own fires. We hate old friends: we hate old books: we hate old opinions; and at last we come to hate ourselves."
5.
E aqui, a coisa fica séria:
"Love turns, with a little indulgence, to indifference or disgust: hatred alone is immortal."
A Sandy já dizia que "o que é imortal, não morre no final"; então... 

6.
Finalmente, destaco o que, pra mim, foi o ápice do ensaio e o sentido mais aguçado do título: Hazlitt chama atenção ao fato de que muitos credos, ideias, doutrinas, religiões e morais - tão revestidos de grande virtuosismo e boas intenções - prestam-se,  não raro, como meros instrumentos para o exercício opressor e cruel do ódio.
"The pleasure of hating, like a poisonous mineral, eats into the heart of religion, and turns it to rankling spleen and bigotry; it makes patriotism an excuse for carrying fire, pestilence, and famine into other lands: it leaves to virtue nothing but the spirit of censoriousness, and a narrow, jealous, inquisitorial watchfulness over the actions and motives of others. What have the different sects, creeds, doctrines in religion been but so many pretexts set up for men to wrangle, to quarrel, to tear one another in pieces about, like a target as a mark to shoot at? Does any one suppose that the love of country in an Englishman implies any friendly feeling or disposition to serve another bearing the same name? No, it means only hatred to the French or the inhabitants of any other country that we happen to be at war with for the time. Does the love of virtue denote any wish to discover or amend our own faults? No, but it atones for an obstinate adherence to our own vices by the most virulent intolerance to human frailties. This principle is of a most universal application. It extends to good as well as evil (...)"
Hazlitt, não o odeio; porém, como você mesmo talvez replicasse, pode ser só uma questão de tempo. -‿◦

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