29/06/2015

Pais e Filhos - Ivan Turguêniev

(info, sinopse, etc. - aqui)

Antes de qualquer coisa, recomendo fortemente este vídeo com a professora Elena Nicolaevna Vássina, pois é muito mais proveitoso do que as xaropadas que registro aqui.



Pontuando breves impressões de leitura:

 Esse é mais um daqueles grandes livros que admite uma pluralidade de interpretações, encerrando múltiplos significados e temas. O "Pais e Filhos" do título surge no texto:

1. em nível mais primário e singelo, em referência à óbvia dinâmica da relação estabelecida entre pais e filhos.

Especificamente, como os respectivos protagonistas são pais com mais de 40 anos e filhos já adultos com pouco mais de 20 anos, é principalmente desse momento da relação de que trata Turguêniev; quando os filhos partem para construir suas próprias vidas, desgarrando-se da segurança do lar paternal; enquanto os pais, ao mesmo tempo que orgulham-se e torcem pelo sucesso e felicidade dos filhos, acabam padecendo da síndrome do ninho vazio.

Curiosamente, Turguêniev apresenta os russos (pelo menos aqueles do interior, fora dos grandes centros urbanos) como pais extremamente carinhosos, voltados a demonstrações públicas de afeto. Achei bem bonitinho.

2. ampliando essa questão, a expressão do título também aparece como referência à dinâmica estabelecida na sucessão das gerações, independentemente do estrito vínculo filial. Turguêniev aborda o embate interno e externo travado pelo encontro simultâneo entre o "novo" e o "velho"; nas mais diversas esferas: comportamento, ideias, política, ética, moral, arte, ciências, tecnologias, etc.

3. por fim, essa mesma questão das gerações pode ser afunilada ainda mais considerando-se o contexto histórico específico em que o livro fora publicado na Rússia, período de grandes mudanças, entre as quais o fim da servidão e a queda de braço entre o velho conservadorismo aristocrata e a nova burguesia liberal.

Considerando-se o que disse a professora no vídeo, acho realmente fantástico que um mesmo livro tenha conseguido provocar irritação dos dois lados.

 Claro, o livro trata bastante do niilismo, e fiquei ruminando ~aqui para comigo~: como faz para tocar a vida, quando não acredita-se em nada, a começar pela própria existência? Da maneira com que é exposta no livro, trata-se de uma filosofia que, além de negar tudo, não propõe coisa alguma que possa conferir a validade ou o sentido ausente das coisas. Para que viver nessas condições, é o que pergunto-me.

Essa reflexão me consumiu especialmente quando Bazárov revela negar até mesmo todas as formas de arte: música, literatura, pintura, escultura, etc. Como nosso niilista, eu também nego muitas coisas, mas arte?! Não, arte eu não posso negar em absoluto, pois, como diz a famosa assertiva de Nietzsche (na qual acredito piamente): "temos a arte para não morrer da verdade.".

Nesse sentido, SPOILER a morte tão prematura de Bazárov, embora trágica, pareceu-me algo lógica.


" O velho que morre já teve tempo de desabituar-se da vida, enquanto eu...Vá lá negar a morte. Ela é que me nega e basta!"

➻ Bazárov = ♥. A realidade é que identifiquei-me com ele (especialmente meu "eu" adolescente) mais do que eu gostaria de admitir. O rapaz é um grandessíssimo escroto, com uma atitude blasé e indiferente a absolutamente tudo (pais inclusive, coitados); mas suas contradições e suas fraquezas mostram-se tão humanas e reais, que eu não consigo resistir. Amei detestá-lo; detestei amá-lo.

Ele entrou no meu seleto grupo de personagens intitulado "jovens chatos e adoráveis", até então protagonizado por Hamlet, Julien Sorel e Holden Caulfield. Amo todos.

➻ Para mim, um dos momentos mais ordinários  de Bazárov:
"- Seu pai toca violoncelo?
- Toca.
- Quantos anos tem seu pai?
- 44 anos.
Bazárov desatou a rir ...
- Por que ri?
- Veja só! Aos 44 anos de idade, o homem, pater familias, em plena província, toca violoncelo!
Bazárov continuou rindo, mas Arcádio, por maior respeito que nutrisse pelo preceptor, desta vez sequer sorriu."

➻ A dinâmica entre Bazárov e Páviel também foi algo que achei completamente genial. Além dos muitos risos proporcionados, foi extremamente interessante testemunhar a aversão mútua despertada puramente pela identificação, pelo horror da imagem refletida pelo espelho do tempo.

➻ O grupo de personagens femininas, a despeito da coadjuvação, também é bastante instigante, pois há uma diversidade de personalidades que, suponho, também parece refletir o momento histórico russo. Aparentemente, algumas mulheres começavam a tornar-se mais independentes e a almejar algo além do papel da figura materna russa - mas parece haver no texto um tom crítico, senão apenas dúbio, em relação a isso; não sei bem como avaliar.

Na figura de Ana Odintsova, Bazárov acabou encontrando, por exemplo, uma aproximada versão feminina de si mesmo, ainda que muito melhor resolvida.
"Como todas as mulheres que não amaram de verdade, ela não sabia o que desejava. Propriamente não queria coisa alguma, mas parecia-lhe que aspirava a muito."
➻ Bazárov distribuía uns xingamentos que definitivamente preciso incorporar ao meu arsenal diário (* crédito também cabe ao tradutor da edição que li: Ivan Emilianovitch):
"esses aristocratas de província."
"aristocratóides crapulosos."
"burguesinho sentimental  e liberalóide"
"aquele fidalgote."
➻ Pensando também que, sem planejar, acabei lendo recentemente três livros que, de certo modo, tratam de um momento histórico similar vivido por países diferentes: O Leopardo, Os Miseráveis e Pais e Filhos. Turguêniev explicitamente chamou minha atenção para essa coincidência:
"Vassíli Ivanovitch, durante o jantar, andava pela sala, com expressão feliz, falando sobre os receios inspirados pela política de Napoleão e pela complexidade da questão italiana."
➻ Terminada a leitura, quanto mais eu penso nesse livro, mais eu gosto dele. Foi, realmente, uma grata surpresa.

Os Miseráveis - Victor Hugo / Diário de Leitura #03

Estou lendo Os Miseráveis pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com entradas semanais.

Detalhes relevantes: é meu primeiro contato com Victor Hugo, nunca li nenhuma adaptação literária de Os Miseráveis e nunca vi suas adaptações a musicais ou filmes. Da narrativa, só conheço mesmo os nomes de algumas personagens famosas e o contexto histórico aproximado. Também já sei que há uma minuciosa descrição do sistema de esgoto parisiense (medo) e que encontrarei muito drama, com risco de lágrimas. 

Programação inicial: ~ 150 páginas/semana
Duração total estimada: 13 semanas
Início da leitura: 08/06/2015
Fim: 06/09/2015
Posts anteriores: #01, #02.

SEMANA #03
(Pg. 331 a 486. Fantine - Livros sétimo e oitavo; Cosette - Livro primeiro parcialmente)

E o julgamento do tal Champmathieu não foi exatamente uma cilada tramada por Javert como eu supunha (será que estou dando muito crédito à personagem?), mas também não diria que passou muito longe disso, correto?

A maneira com que Victor Hugo descreveu o conflito interno pelo qual passou Jean Valjean na tomada de decisão sobre o que seria moralmente correto fazer foi estupenda. Foi muito aflitivo acompanhar a consciência dele remoendo-se em desespero. 

Victor Hugo até mesmo externaliza a dimensão do que fora a exasperação de Valjean:
"Seus cabelos, ainda grisalhos quando chegara a Arras, agora estavam completamente brancos. Haviam embranquecido assim no curto espaço de uma hora. (...) 
- Meu Deus! Sr. Maire! O que aconteceu com o senhor? Seus cabelos estão completamente brancos!
- Brancos! - disse o Maire. (..) Madeleine pegou-o (um espelho), olhou os cabelos e disse; - Veja só!"
Ah, e eu achando que Valjean tinha virado um santo quando ele, de fato, almejava conscientemente isso. Curioso.
"(...) vivia pacificamente, tranquilo e confiante, não tendo mais que dois pensamentos: esconder o próprio nome e santificar a própria vida: escapar dos homens e voltar para Deus. (...) Não era possível entrar na santidade aos olhos de Deus se não voltasse á infâmia aos olhos dos homens!"
Um tantinho intrigada com o tipo de narrador que Victor Hugo encarna no livro, pois parece-me que ele decide aquilo que sabe e que desconhece simplesmente conforme a conveniência.

No diário #01, eu havia registrado que o narrador sinalizava não ser onisciente, visto que ele confessava desconhecer, por exemplo, o que se passava na alma de Valjean - "Ninguém poderia dizer o que acontecia no seu íntimo, nem ele mesmo.". Nessas últimas páginas, por sua vez, ele esclarece que o diálogo de Valjean que ele estava narrando era, na verdade, internalizado: "(...) Quando nossa alma está agitada, tudo dentro de nós fala, menos nossos lábios. As realidades da alma, por não serem visíveis e palpáveis, não deixam de ser realidades." (pg. 340).

Ah, sim, e ainda temos a fuga de Valjean da prisão, para a qual Victor Hugo, nosso narrador, praticamente pede que aceitemos o mistério em torno das circunstâncias:
"Ninguém jamais soube como conseguira penetrar no pátio interno sem abrir o portão principal. É verdade que levava sempre no bolso a chave de uma porta lateral; mas, como já o haviam revistado, certamente não a tinha consigo naquele momento. Esse ponto nunca pôde ser esclarecido. (...) carregava um pequeno embrulho e usava uma blusa. Onde a teria encontrado? Ninguém sabe."

O comportamento desse narrador parece-me um pouco confuso e contraditório; sei não...

E as alfinetadas que o Victor Hugo dá na galhofada que era (é?...) o universo jurídico foram  muito delicinhas. Amei, M. Hugo!
"(...) advogados, (...). É muito raro que em todas essas palavras haja um pouquinho de caridade e comiseração. O que transpiram mais comumente são condenações antecipadamente resolvidas. Todos esses grupos se mostram, ao observador que passa, como sombrias colmeias onde certos espíritos, zumbindo, constroem toda espécie de edifícios tenebrosos."
... 
"O advogado, portanto, começara a falar sobre o caso das frutas, coisa muito imprópria para grandes arroubos oratórios; mas o próprio Bossuet foi obrigado a fazer alusão a uma galinha em plena oração fúnebre, e saiu-se com toda a majestade."
... 
"O Advogado-Geral replicou ao defensor do acusado. Foi violento e cheio de floreios como costuma ser essa classe de advogados."

 "(...) o que é a prefeitura hoje em dia era, antes da Revolução, o palácio episcopal. Dom Conzié, que era Bispo desta diocese em 1728, fez construir então uma grande sala. É aí que se fazem as audiências."

Victor Hugo, será mesmo que há nessa passagem o subtexto que imagino? Por mais jocosa que seja a justiça ~dos homens~, adianto que eu seria obrigada a discordar completamente.

Voltando à pergunta que lancei no diário #01: sim, Victor Hugo segue dando inúmeros sinais de que era mesmo um religioso fervoroso, e que Deus é quem deve estar sempre no comando, guiando-nos. Ainda não pesquisei a respeito de sua biografia e estou curiosa em relação ao que encontrarei.

Eu teria curtido, se Victor Hugo tivesse estendido a passagem meio kafkiana, durante a qual o Maire não conseguia convencer o tribunal de que ele, sim, era o verdadeiro Jean Valjean. Foi bem divertido.
"Todos conhecem, pelo menos já ouviram falar do honrado e respeitável Sr. Madeleine, Maire de Montreuil-sur-Mer. Se houver algum médico no auditório, (...) digne-se assistir ao Sr. Madeleine, conduzindo-o à sua residência." 
"- (...) Prendam-me, Meu Deus! o Sr. Advogado Geral meneia a cabeça e os senhores dizem: - O Sr. Madeleine enlouqueceu! - Os senhores não querem acreditar em mim! Isso é o que me aflige. Mas, ao menos, não irão condenar esse homem! As testemunhas não me reconhecem! Eu queria que Javert estivesse aqui. Ele, sim, haveria de me reconhecer."

"A característica dos espetáculos sublimes é justamente esta, de se apoderarem de todos os espíritos e fazerem de todos os circunstantes simples espectadores. Ninguém, talvez, se dava conta do que estava sentindo. Ninguém, sem dúvida, se capacitava de que estava vendo resplandecer ali uma grande luz; interiormente, todos estavam deslumbrados. (...) Toda aquela multidão compreendeu de repente, e com um único olhar, a simples e magnífica história de um homem que se entregava para que outro não fosse condenado em seu lugar."

Javert, parece que a opinião de Victor Hugo sobre a tal  "bondade injusta" é bem diferente da sua - diário #02:
"A impiedosa alegria honesta de um fanático em plena atrocidade conserva não sei que brilho lugubremente venerável. Sem que o percebesse, Javert, em sua formidável felicidade, era digno de lástima, como todo ignorante que triunfa. Nada tão pungente e terrível como aquela figura em que se mostrava o que poderíamos chamar de lado mau da bondade."
➻       Fantine ✞.
 Qu'elle repose en paix.

➻ - É sério isto, Victor Hugo? Você vai mesmo descrever em detalhes a batalha de Waterloo?! Mas, mas... Por quê?

Oh, céus.... Sentando e apertando os cintos, pois lá vem história.


"(Bonaparte) Ele, sozinho, valia mais que toda a humanidade. Essa superabundância de vitalidade humana concentrada em uma única cabeça, o mundo subindo ao cérebro de um homem, seria fatal para a civilização, se continuasse. Chegara o momento em que devia intervir a incorruptível equidade suprema. (...) Napoleão tinha sido denunciado ao infinito, e sua queda já estava decidida. Tornava-se incômodo a Deus. Waterloo não era uma batalha; era a completa mudança da face do universo."

Lendo Contos | Interpreter of Maladies - Jhumpa Lahiri

(info, sinopse, etc.)

Há tempos tinha muita curiosidade de conhecer essa autora e comecei por sua coletânea de contos premiada com o Pulitzer de 2000.

A Jhumpa Lahiri tem uma história pessoal interessante que parece refletir em sua obra: nasceu em Londres, filha de Indianos, mas mudara-se com a família para os Estados Unidos desde criança, onde vive até hoje. O paralelo estabelecido pela ascendência/cultura indiana - reconhecidas, não relevadas - e a cultura americana - nacionalidade que acolhera - parece perpassar boa parte de sua obra. 

Comentando alguns contos:

➻ A temporary matter
Não me chamou muita atenção, pois achei um bocadinho previsível.

Se a narrativa me diz, logo de cara, que um casal passará uma semana sem energia elétrica durante 1 hora, a partir das 20h, o que eu posso imaginar que vai acontecer? Minha resposta: merda, é lógico. Acertei? Sim.

De forma +- parecida ao conto anterior que li do Carver, esse casal tem a brilhante ideia de matar o período sem energia brincando de "vamos revelar coisas que omitimos um ao outro ao longo da relação e casamento". Gente, mas nem brincando se faz um troço desse.

E conheci a Annaprashana, uma cerimônia hindu durante a qual os bebês recebem a primeira refeição sólida (arroz): meninos aos 6 meses e meninas aos 7 meses.


When Mr. Pirzada came do dine
Aqui, creio que as coisas começaram a ficar bem mais interessantes. 

Fazendo um paralelo com a crítica anterior que fiz à Harper Lee, eu diria que esse conto de Lahiri funciona super bem para exemplificar o que considero uma abordagem mais rica e interessante da narrativa sob o ponto de vista infantil.  A criança desse conto conseguiu me tirar da zona de conforto, fascinando-me com sua perspectiva e seus questionamentos (inteligentes; sem soar como uma adulta) diante da nova situação: Mr. Pirzada, professor universitário paquistanês em visita acadêmica aos EUA, janta diariamente na companhia de seus pais (nascidos na Índia), enquanto acompanha o noticiário sobre a guerra civil paquistanesa de 1971, aflito por conta da família que deixara para trás.

O texto também alude a uma certa alienação americana sobre o que ocorre no resto do mundo; sugerindo tratar-se de algo que começa desde a escola, onde se privilegia apenas o estudo da própria história americana. Mas daí, acabou ocorrendo-me que essa crítica, tão recorrentemente dirigida aos EUA, talvez não seja exclusividade daquele país. ~Quando eu era criança pequena lá em Barbacena~, por exemplo, não lembro de ter estudado na escola sobre a independência da Índia e a guerra civil no Paquistão. (・_・ヾ Enfim.


➻ Interpreter of maladies
Mais uma história de casal, porém enriquecida pela exploração do paralelo cultural que se estabelece entre Índia e Estados Unidos.

Para fins de registro, duas coisas:
1. Nunca havia imaginado que o sentido mais imediato e superficial do título do livro seria em referência ao indiano que trabalha como tradutor em um consultório médico; traduzindo, especificamente, o Gujarati, língua indo-ariana falada pelos pacientes durante a consulta.

2. Como nunca estive na Índia - aliás, percebi que não sei praticamente nada a respeito do país - fui apresentada às  "Tea Stalls":

(via)
e também ao Templo do Sol, em Konarak:
(via)

(via)
Vamos dar uma ampliada para ver as esculturas do templo de pertinho?

                           
                                                    (via)                                                                   (via)

¯\_(ツ)_/¯


➻ A real durwan
Aqui, Lahiri explora a condição dos refugiados na Índia após a partição de 1947. Durwan, aprendi também, é uma espécie de porteiro de edifício que mora no próprio prédio onde trabalha. 

É uma história bem triste, especialmente ao sugerir certa conformidade melancólica da refugiada pelas perdas materiais e pela separação da família; mas um desespero inconformado ao perceber que estavam roubando-lhe até mesmo sua honra, seu caráter e sua reputação. 

Quando contava sobre seu passado abastado oposto à miséria presente, o mantra de Boori Ma era "Believe me, don't believe me."; quando acusaram-na injustamente de cúmplice de roubo, passou para o angustiante e sofrido "Believe me, believe me.".

Sexy
Complicado quando uma criança reage da mesma forma que o amante babaca e, assim, surge como intermediária da epifania tardia que revela à protagonista a falácia da relação adúltera na qual envolvera-se.

Aqui, Lahiri também usa a deusa hindu Kali como metáfora e, caramba, que descrição fantástica ela proporciona nas circunstâncias daquela narrativa. Só não saberia dizer se ela aparece para encorajar a protagonista (que era americana) ou para fazê-la temer a ira da esposa bengali traída. Ambos?
"It was a painting of a naked woman with a red face shaped like a knight's shield. She had enormous white eyes that tilted towards her temples, and mere dots for pupils. Two circles, with the same dots at their centers, indicated her breasts. In one hand she brandished a dagger. With one foot she crushed a struggling man on the ground. Around her body was a necklace composed of bleeding heads, strung together like a popcorn chain. She stuck her tongue out at Miranda."
Deusa Kali

This blessed house
Esse foi meu conto favorito. 

Casados depois de apenas quatro meses de relacionamento, um casal de ascendência indiana aluga uma casa para morar nos EUA e, diariamente, encontram espalhadas pela residência memorabilias bizarras de imagens de santos católicos deixadas pelos inquilinos anteriores. 

A "caça aos tesouros católicos" serve de metáfora para cada elemento então desconhecido da personalidade do cônjuge que revelava-se desagradavelmente com o convívio matrimonial. 

The third and final continent
Não sei se entendi direito, mas acho que Lahiri parece ter sugerido que a cultura indiana das décadas de 60/70 guardava muito mais concordâncias com a cultura americana do final do século XIX do que com a contemporânea. Intrigante.

Mrs. Sen's
Da indiana casada e recém-chegada aos Estados Unidos:
"Here, in this place where Mr. Sen has brought me, I cannot sometimes sleep in so much silence. (...) if I begin to scream right now at the top of my lungs, would someone come? (...) Everyone, this people, too much in their world."
...

No geral, achei uma coletânea muito boa de contos, embora não tenha correspondido exatamente às minhas altas expectativas. 

22/06/2015

Os Miseráveis - Victor Hugo / Diário de Leitura #02

Estou lendo Os Miseráveis pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com entradas semanais.

Detalhes relevantes: é meu primeiro contato com Victor Hugo, nunca li nenhuma adaptação literária de Os Miseráveis e nunca vi suas adaptações a musicais ou filmes. Da narrativa, só conheço mesmo os nomes de algumas personagens famosas e o contexto histórico aproximado. Também já sei que há uma minuciosa descrição do sistema de esgoto parisiense (medo) e que encontrarei muito drama, com risco de lágrimas. 

Programação inicial: ~ 150 páginas/semana
Duração total estimada: 13 semanas
Início da leitura: 08/06/2015
Fim: 06/09/2015
Posts anteriores: Semana #01

SEMANA #02
(Pg. 184 a 331. Fantine - Livros terceiro ao sexto + sétimo parcialmente)

➻ "Eis, confusamente, o que acontecia em 1817, coisas de que hoje já não nos lembramos. A história negligencia quase todas essas particularidades, e não poderia fazer de outro modo; a identidade de detalhes a sufocaria. Contudo, esses pormenores, erradamente chamados de pequenos - não existem pequenos fatos na história, (...) - são úteis."

E quando eu finalmente decido pular o capítulo "1817", no qual Monsieur Hugo descreve TO-DAS as relevantes notícias e fofocas daquele ano, surge esse parágrafo finalizando o relato. Ah, vá.

Alguns devaneios: 
1. A julgar pelas notas de rodapé, muitas informações descritas no capítulo não estavam completamente exatas. Então, M. Hugo, será que isso não deixou essa sua argumentação final um pouquinho frouxa? Afinal, apenas poucas décadas depois, a "utilidade" dessas particularidades não evitou certo prejuízo nas respectivas acurácias. Seria, então, realmente errado chamá-las de "pequenas"? E para um leitor comum que já encontra-se no século XXI? 
2. Mesmo que se reconheça uma "utilidade" desses pormenores, isso não seria relativo? Qual seria exatamente a utilidade da descrição minuciosa desses pormenores dentro de um romance de ficção? E (novamente) para um leitor já no século XXI?

Enfim... Particularmente, acho que sempre que julgar pertinente, lançarei mão (ou tentarei) do Direito do Leitor no. 2 - direito de pular páginas. 

A famosa Fantine apareceu. 
"Ser sábio e filósofo são coisas distintas (...) e Fantine era sábia. (...) tinha na fronte o símbolo do anonimato e do desconhecimento. (...) Filha de quemQuem o poderia dizer(...) Chamava-se Fantine. Por que Fantine? Era o único nome que tinha. (...) nada de sobrenomes, porque não tinha família; nada de nomes de batismo, porque a Igreja não estava presente. Foi-lhe dado o nome que agradou ao primeiro transeunte que a encontrou pequenina, andando descalça pelas ruas. (...) Assim entrou para a existência."
O livro vai gradativamente demonstrando que seu título não é nada à toa; mas simplesmente o único possível. Haverá uma competição entre as personagens para avaliar quem tem a história mais triste?

O pior é que, aparentemente, há uma sugestão pessimista de que os destinos miseráveis simplesmente continuarão repetindo-se: Fantine → Cosette. Será? Vamos acompanhar.

Também reparei que Victor Hugo tem sistematicamente explorado a falta de alfabetização desses miseráveis. Interessante.

➻ "(...) Fantine, que estava ainda na sua primeira ilusão. (...) Trabalhou para poder viver e, para poder viver, amou, pois o coração também precisa de alimento. Seu amante era Tholomyès. Para ele tudo não passava de um namorico como outro qualquer; ela, porém, amava-o apaixonadamente."

Passam-se os séculos, mas algumas coisas parecem não mudar: sempre haverá um "Tholomyès" para cruzar nosso caminho. Dá cá um abraço, Fantine.

➻ Aliás, esse Tholomyès além de horroroso -
"(...) trinta anos muito malconservados. Tinha rugas, mas não tinha dentes, e começava a se esboçar uma calvície (...) e tinha um olho sempre cheio de lágrimas." -,
era o tipo de sujeito que manda este discurso:

"Onde houver mulher bonita, haja luta aberta. (...) A mulher é o direito do homem."


O genial é que Victor Hugo, depois de nos acalentar informando que ele não mais apareceria na narrativa (obrigada, M. Hugo), lambuza-se na verossimilhança ao relatar que, claro, a vida foi muito feliz para o M. Tholomyès. E não é sempre assim?
"Não teremos mais ocasião de falar de Félix Tholomyés. Limitamo-nos, portanto, a dizer que, vinte anos depois, no reinado de Luís Filipe, tornava-se importante advogado de província, influente e rico, sábio eleitor e jurado severíssimo, mas sempre dado aos prazeres."
... 

"Além do mais, duvidava superiormente de tudo, o que constitui grande força aos olhos dos fracos. Sendo, portanto, irônico e calvo, tornou-se o chefe. Iron é palavra inglesa que significa ferro. Será essa a etimologia de ironia?"

                                                          

➻ É curiosa a atenção que Victor Hugo dá aos cílios para caracterizar a beleza das personagens. Sinal de que ele, como a maioria dos bons escritores, era um sagaz observador. 
"(...) mas seus longos cílios cheios de sombra (...)"
 "(...) e tinham cílios magníficos."
Nós não "perdemos tempo" com curvex, rímel e cílios postiços à toa, colega.

Peculiar descrição do ~tipo de gente~ que acabou botando as mãos na Cosette:
"(...) pertenciam a essa classe de pessoas composta de gente rústica enriquecida e de pessoas inteligentes decaídas, que está entre a chamada classe média e a chamada classe baixa, combinando alguns dos defeitos da segunda com quase todos os vícios da primeira, sem possuir nem os impulsos generosos do operário nem a honestidade ordeira do burguês. Eram dessas naturezas anãs que, se algum fogo sombrio as aquece, tornam-se facilmente monstruosas."
Como assim o Bispo já morreu?! E assim, sem mais nem menos? Mas, mas... foram oitenta páginas de dedicação. E cego?! Mas, mas...

Ok, pelo jeito o esmero que Victor Hugo dedicou em construí-lo serviu à importante necessidade de transmitir ao leitor a exata noção de quem era o tipo de pessoa capaz de remediar o brutal estrago que fizeram na vida de Jean Valjean.

Será que não é essa, afinal, a diferença entre Valjean e Javert: o toque do Bispo Bienvenu? Vamos acompanhar.

Sim, o famoso Javert também apareceu.

(na página 273, cena do carroceiro Fauchelevent:) Calma, lá... Será que... Não, não pode ser. Mas as evidências estão indicando que sim...Então...
MADELEINE É JEAN VALJEAN?!
(Passada)

* e, na página 331, Victor Hugo manda: 
"O leitor, sem dúvida, já adivinhou que o Sr. Madeleine é o próprio Jean Valjean." 
- Sim, M. Hugo  (♥)

O que Victor Hugo está fazendo com a narrativa da Fantine, explicitando as agressões sociais das quais ela é vítima através de mutilações físicas gradativas, é uma das coisas mais brutais e dolorosas que já li.
"- Mas isso é uma fortuna! Onde arranjou esses luíses de ouro?
- Ganhei-os.
E pôs-se a sorrir. A vela iluminava-lhe o rosto. Era um sorriso ensanguentado. Uma saliva avermelhada sujava-lhe os cantos dos lábios, na boca aparecia um buraco escuro. Os dois dentes superiores tinham sido arrancados."
... 
"A que se reduz toda essa história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava.
Para quem? Para a miséria. Para a fome, o frio, a solidão, o abandono, a nudez. Doloroso comércio! Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita."
 Que pensamento torpe, o desse Javert (e de muitos, infelizmente, até hoje):
"A bondade que consiste em dar razão (...) àquele que está embaixo, contra o que está em cima, é o que eu chamo de bondade injusta. É por causa desse tipo de bondade que a sociedade se desorganiza. Meu Deus! É tão fácil ser bom: o difícil é ser justo."
 ➻ (Na cena em que Valjean arruma um cavalo para ir a Arras): Começo a crer que, no processo oficial de canonização do Bispo Bienvenu, Valjean servirá como a prova de um dos milagres, pois ele próprio também parece ter virado um santo; será possível?! Valjean volta para deixar o valor do cavalo e do tílburi como seguro, caso não consiga retornar. Gente...

Mas, ó, para quem já passou tanto perrengue pela falta de dinheiro, ele bem que deveria ser mais prudente com sua atual fortuna. Desde a infância, aprendi com meu pai que dinheiro não aceita desaforo.

Ah, e o mais importante:
- Não vai lá, Valjean! Suspeito de que não existe nenhum Champmathieu e que é tudo uma cilada armada pelo Javert.

Será? 
Cenas dos próximos capítulos.

To Kill a Mockingbird - Harper Lee

     

É possível sair incólume compartilhando amargura em relação a um livro 1. ganhador do Pulitzer, 2. aclamado unanimemente (ou quase), 3. favoritado e amado por muitos leitores - entre eles a Oprah (♥) - e 4. cuja mensagem contra o racismo é amplamente recebida como positiva? Estou quase suando frio, pois ousarei essa proeza, já que minha experiência de leitura com To Kill a Mockinbird não sobreviveu às altas expectativas.

A Flannery O'Connor fez um comentário sobre a obra que, embora soe um pouco duro, acaba, sim, aproximando-se da frustração que senti durante essa leitura:  "It's interesting that all the folks that are buying it don't know they are buying a children's book." E um artigo do Guardian emenda com um sumário da intenção subentendida no comentário de O'Connor: "a story of good and evil, without greys or nuance or character development". De fato, foram exatamente essas as impressões que tive em relação ao livro.

(info, sinopse, etc.)
Não me agradou a condescendência exagerada (como senti) oferecida ao leitor e ao tema, o qual restou explorado de modo maniqueísta, superficial e pouco sutil; com um desenrolar bastante previsível. Harper Lee entrega uma história que apenas patina na superfície do iceberg.

As personagens são bem planas e pouco desenvolvidas, mas entendo que isso parece ter sido uma escolha intencional e apropriada ao texto de Lee, visto que elas surgem no livro apenas como símbolos de cada um dos elementos envolvidos na complexa dinâmica do racismo nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a compreensão dessa escolha narrativa não evita meu desapontamento pela ausência de um subsídio literário que usualmente me agrada. E pior: como a forma com que o tema foi explorado não me instigou, acabou sobrando pouca coisa da qual eu pudesse gostar.

O modo com que ela desenvolveu a perspectiva das crianças em relação ao argumento da história também acabou me irritando de modo recorrente. A meu ver, a valiosa vantagem que crianças oferecem na discussão de temas complexos ou, digamos, "adultos" (se é que isso existe), é que, como ainda não foram corrompidas por visões viciosas e preconceituosas, elas são capazes de abrir os olhos do adulto para uma perspectiva que encontrava-se inacessível, ou seja, elas são capazes de tirar o adulto do transe "vê, mas não enxerga". Nessa primeira leitura, não acho que Harper Lee soube aproveitar bem a oportunidade oferecida por esse recurso, pois suas personagens infantis apresentaram-se, com algumas exceções, variavelmente inverossímeis; parecendo adultos que despejam no leitor aquele mesmo discurso pronto e simplista de quem se coloca em uma espécie de pedestal moral. A mim, houve frequentemente a sensação de estar diante da Harper Lee disfarçada de criança me dando a mais óbvia e superficial lição de moral - praticamente um Geninho da She-ra. Honestamente, senti-me muitas vezes como este gatinho:

Awn, como é fofinha a minha leitora que não sabe de nada.
Deixe a tia Lee lhe ensinar umas coisinhas sobre racismo, que todas as pessoas são iguais.
Não pode julgar ninguém pela cor da pele ou classe social, tá bom?

Algo que achei válido e interessante no livro é que a autora, em muitos momentos, amplia a discussão do preconceito racial, demonstrando que a intolerância e violência contra os negros surge como uma pavorosa faceta de um vil comportamento humano maior: os julgamentos de pessoas baseado unicamente em critérios pífios como cor de pele, classe social, grau de instrução, religião, nacionalidade, sexualidade, ~gosto literário~... (é, não resisti à oportunidade de já tentar me defender.)

"You never really understand a person until you consider things from his point of view, (...) until you climb into his skin and walk around in it."

O início do livro também foi algo de que gostei muito. Chorei de rir com as primeiras experiências da Scout na escola e com as interações frustradas da nova professora tentando adaptar-se à realidade peculiar daquela cidade interiorana. Acho que Harper Lee se saiu muito bem no retrato que fez daquelas cidades típicas do sul americano, desnudando todas as idiossincrasias que repercutem na complexa relação estabelecida entre brancos e negros.

Voltando ao comentário da O'Connor: é óbvio que dizer que um livro é escrito para crianças não é necessariamente uma crítica em si (apenas não era o que eu esperava, nem o que eu estava disposta a ler). Acho que To Kill a Mockinbird é um excelente ponto de partida na abordagem do tema com crianças, apresentando-se como um fantástico material para discussão por professores - como ocorre nas escolas dos EUA - e pais com o público infantojuvenil. De certo modo, a própria simplicidade da história fortalece sua capacidade de despertar o interesse e de chamar a atenção para essa questão que, infelizmente, ainda é tão atual.

(P.S.: Chutaria que ter lido Toni Morrison no começo do ano igualmente não parece ter favorecido para o sucesso do meu encontro com Harper Lee.)

15/06/2015

Os Miseráveis - Victor Hugo / Diário de Leitura #01

Estou lendo Os Miseráveis pela primeira vez e tentarei manter um diário de leitura com entradas semanais.

Detalhes relevantes: Será meu primeiro contato com Victor Hugo, nunca li nenhuma adaptação literária de Os Miseráveis e nunca vi suas adaptações a musicais ou filmes. Da narrativa, só conheço mesmo os nomes de algumas personagens famosas e o contexto histórico aproximado. Também já sei que há uma minuciosa descrição do sistema de esgoto parisiense (medo) e que encontrarei muito drama, com risco de lágrimas. 

Programação inicial: ~ 150 páginas/semana.
Duração total estimada: 13 semanas.
Início da leitura: 08/06/2015
Fim: 06/09/2015

SEMANA 01 
(Pg. 31 a 183. Fantine - Livros primeiro e segundo)


Ah, mas agora ficou perfeitamente óbvia a razão pela qual esse livro tem 1972 páginas: apenas para apresentar uma única personagem, 80 foram consumidas. 

Victor Hugo explora um recurso que eu já tinha reparado no Balzac: em vez de construir a personagem ao longo da narrativa, permitindo que o leitor a conheça e compreenda gradativamente, opta-se por escrever um tratado completo que a retrate antes de inseri-la na narrativa propriamente dita → "primeiro apresento os jogadores, depois faço-os jogarem.". 

Não sei se gosto muito disso, mas, no caso do Victor Hugo com o Bispo Bienvenu, acho que funcionou bem, pois os pequenos causos que o autor escolheu para caracterizá-lo renderam uma leitura prazerosa. Só depois das quarenta páginas, talvez, é que eu comecei a perder um pouco a paciência: "- tá, Monsieur Hugo, já entendi sobre o Bispo:
"a pobreza voluntária em que vivia (...) o fantasma da justiça social o obcecava (...) ele era e foi em tudo justo, equitativo, inteligente, humilde  e digno, fazendo o bem e querendo o bem. (...) Era sacerdote, era sábio, era homem. (...) era tolerante e indulgente, (...) tinha um excesso de amor. (...) Vivia sem arrogância. (...) setenta e cinco anos (...) sua pessoa irradiava alegria. (...) ar de bondade (...) nada de teorias e muita ação."
E para não correr absolutamente nenhum risco de que o leitor ainda não tivesse entendido que Myriel era um santo na Terra (praticamente), Victor Hugo manda esta:
"Numa ocasião, chegou a torcer um pé por não querer pisar numa formiga." 
- Pronto, finalmente entendi, Monsieur Hugo. (*^-‘) 乃

 Achei interessante Victor Hugo assumir explicitamente a identidade do narrador da história que lemos; dialogando com o leitor e emitindo de maneira transparente suas opiniões acerca de questões políticas e sociais. 

Nessas primeiras páginas, ele já deu uns pitacos, por exemplo, sobre a Revolução Francesa e sobre as penalidades aplicadas pelo sistema jurídico francês, notadamente aquela de trabalho forçado. Suspeito de que Victor Hugo, se vivo estivesse, teria uma ou duas opiniões sobre a atual discussão da maioridade penal no Brasil. 

Ao mesmo tempo, ele não incorpora a onisciência.
"Ninguém poderia dizer o que acontecia no seu íntimo, nem ele mesmo. Para tentar compreender isso, seria preciso imaginar (...). Mas quais eram os seus pensamentos? Seria impossível adivinhar."
➻ 
"A Srta. Batiste era (...) realmente o que indica a palavra "respeitável", pois me parece que uma mulher para se tornar venerável precisa ser mãe."

- Oi? 
"Nunca foi bonita; (...) ganhou o que poderíamos chamar de beleza da bondade."
"Beleza da bondade":  o "miss simpatia" do século XIX. Saquei.

O tratamento dado à religião é que está me deixando um pouco confusa.

Há passagens em que Victor Hugo parece defender que não é possível possuir uma boa conduta moral - ser "um justo" - dissociando-se de Deus; porém, em outras - especialmente durante o discurso do convencionalista - ele parece oferecer um contra-argumento para a apreciação pelo leitor. Vamos acompanhar durante a leitura.
"Afinal, era um ateu, como todos os da sua espécie. - mexericos de patos a respeito do abutre."
(Bispo Bienvenu:) " - O Progresso precisa acreditar em Deus. O bem não pode ser servido pela impiedade. Um ateu é um péssimo condutor para a humanidade." (...) (o convencionalista:) "- Ideal! Tu só existes! (...) Havia abusos, e eu os combati; havia prepotências, e eu as destruí; havia direitos e princípios, eu os proclamei e confessei. (...) Socorri os oprimidos e confortei os que sofriam. (...) Fiz o meu dever de acordo com as minhas forças e do melhor modo possível. Depois disso fui (...) amaldiçoado, proscrito."
Relevante:
(sobre o bispo) "Não condenava nada apressadamente ou sem levar em conta as circunstâncias. Era comum ouví-lo dizer: - Vejamos o caminho por onde passou essa falta."
E apareceu o famoso Jean Valjean! (a sonoridade desse nome é incrível.)
"Dezenove anos! Em outubro de 1815, foi posto em liberdade; havia entrado em 1796 por ter partido um vidro e roubado um pedaço de pão." 
Hugão, nem vem, pois ainda está muito cedo para chorar (sinto que esse Valjean vai me dar trabalho).

Lendo Contos | Do que estamos falando quando falamos de amor - Raymond Carver


(info, sinopse, etc.)
Minha curiosidade em relação a esse autor surgiu quando li o livro  "Do que eu falo quando falo de corrida", no qual Murakami relata que a inspiração do seu título viera de um conto escrito por Carver: "Do que estamos falando quando falamos de amor".  Nem pensei duas vezes na hora de escolher por qual coletânea começar.

Duas questões que chamaram-me mais atenção:

1. É impressionante a constante presença do álcool nas histórias narradas; restando a noção de que o universo de Carver parece ser movido destruído pela bebida alcoólica. O conto Coreto traz uma passagem que transmite bem essa ideia:
"Beber é uma coisa gozada. Quando paro para pensar, vejo que todas as nossas decisões importantes foram tomadas quanto estávamos bebendo."
2. A representação da mulher. Há grande destaque dado às personagens femininas, variavelmente vítimas de algum tipo de violência; as quais, em oposição aos homens dos contos, surgem como indivíduos muito mais determinados, resolutos e complexos. Parece ser uma temática interessante na obra do autor.

Fiz uma pesquisa rápida no Google e vi que parece ter ocorrido uma evolução nas obras de Carver referente à relação mulher x violência: "In the early years, he was struggling with literary models, and produced parodies of others’ work in which women are both victims and perpetrators of violence. When he moved to his more idiomatic style in the 1970s, we see frustrated women performing violent gestures that seem to produce no changes in their lives. By the final years, however, women start achieving an amount of control over their lives as violence seems to move them from one phase to another in the direction they wish to be going." 
...

Muitos contos do Carver provocam uma reação peculiar: ao final, despertam-me um imediato "mas é só isso?"; contudo, como a história simplesmente não sai da cabeça, logo em seguida surge o "Não. Há, sim, algo complexo e que, aos poucos, começo a melhor perceber e delinear.".

Comentando alguns contos:

 Do que estamos falando quando falamos de amor
Espia a brilhante ideia: dois casais por volta dos 30/40 anos estão enchendo a cara com uma garrafa de gim na cozinha de um deles - fazendo o famigerado "esquenta" para um jantarzinho fora - e decidem que aquela era uma boa oportunidade para discutir o que diabos viria a ser o Amor. 

Coleguinhas, qual a necessidade disso? Quem, em sã consciência (ok, aqui não era o caso, pois: estavam bêbados), convida por livre e espontânea vontade o elefante branco para uma visitinha cordial? 
(via)
Fez-me lembrar do saudoso Haddaway enrolando-se todo com meras reverberações da mesma pergunta.



Para salvar o Haddaway e os coleguinhas desafortunados desse conto, o imperador romano Adriano apareceu coincidentemente na minha leitura atual oferecendo uma resposta que satisfaz bastante bem muitas questões propostas pelo diálogo daquelas quatro personagens:
"De todos os jogos, o do amor é o único capaz de transtornar a alma e, ao mesmo tempo, o único no qual o jogador se abandona necessariamente ao delírio do corpo. Não é indispensável que aquele que bebe abdique da razão, mas o amante que conserva a sua não obedece inteiramente ao deus do amor. (...) Aqui, como nas revelações dos Mistérios, tudo se passa além da lógica humana."
Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar. 
Conto sensacional.

 Visor
Conto simples, mas também excelente. 

Ele trata mais ou menos do seguinte: se a Vivian Maier, por exemplo, ainda pudesse cruzar nosso caminho para nos fotografar, suponho que gostaríamos de acreditar que ela conseguiria captar algo próximo ao sentimento registrado por esta foto

,
by Vivian Maier (via)
mas a verdade é que a vida da grande maioria (especialmente daquela que habita o mundo de Carver) ofereceria às lentes de Maier apenas isto aqui

.
by Vivian Maier (via)

Diga às mulheres que a gente vai dar uma volta
Conto muito bom, mas horroroso; com um final que acabou me pegando de surpresa - de ingênua tonta que ainda sou.

Spoiler - Plot: Um escroto que, para livrar-se do tédio, ~ dá voltinhas ~ violentando mulheres como se fosse a coisa mais óbvia e banal para passar o tempo. O bônus irônico - além do título - surge por conta do sujeito ser um pai de família rodeado de mulheres (esposa e filhas) e pelo fato do coadjuvante masculino ter se surpreendido tanto quanto eu, mesmo sendo seu amigo de infância.

Para fazer um descarrego, deixa eu reverter as coisas imaginando o protagonista como sendo o cara desta situação:



Tanta água tão perto de casa
"Olho para a palavra "amor" e depois a sublinho. Aí vejo a expressão 'tem que fazer'.  Será que é assim mesmo que se diz?"  
Quase uma parte II do conto "Diga às mulheres que a gente vai dar uma volta".

Testezinho moral rápido:
Você está acampando com amigos no interior - uma viagem planejada há tempos -, quando avista um corpo humano boiando em decomposição no rio. Não há meio de comunicação disponível, de modo que, para avisar a polícia, você teria de desistir do passeio e retornar. E aí, o que você faz? a) aproveita o fim de semana e avisa na volta - a pessoa já está morta mesmo, ou b) cancela o passeio e retorna para fazer a comunicação?

Ah, esqueci de avisar - sei lá, talvez faça alguma diferença: o corpo é de uma mulher.

Ainda na minha busca rápida, descobri que as circunstâncias relacionadas a esse homicídio remontam a eventos reais nos Estados Unidos: “So Much Water” is also one of several stories in Carver’s canon that is set in his native Pacific Northwest. This is Green River Killer Country: a place of tall forests and gushing rivers, where one can drive through miles of mountainous roads without meeting another car, where series of women can be raped, murdered, and abandoned with little risk of being discovered. The Green River Killer case was not solved until 2003, though the 49 or more murders of young women took place two decades earlier, between 1982 and 19847. The perpetrator, Gary Leon Ridgway, sexually molested and killed his victims, in most cases leaving their naked bodies in or near the Green River south of the Seattle-Tacoma area of Washington State."

Acabei lembrando-me desta música:

                        

➻ A terceira coisa que matou meu pai
"É o Mudinho", disse. "Matou a mulher com um martelo e se afogou." (...) "Mulheres", disse ele. "É nisso que dá se meter com o tipo errado de mulher, Jack."
Daí a gente repara no título, e tudo fica um pouquinho mais claro. 

➻ Depois do jeans
"A mulher no palco cantou; "G-60".
Alguém gritou: "Bingo!"
"Meu Deus", disse James Packer.
"Se ao menos eles soubessem. Se ao menos alguém chegasse e dissesse para eles. Só uma vez! (...) Ia contar a eles o que nos espera depois do jeans e dos brincos, depois que um toca o outro e trapaceia no jogo."
➻ Coreto,
Uma conversa séria, 
Mecânica popular, 
Mais uma coisa.

Quatro contos que funcionam quase como uma extensão um dos outros; explorando aquela fase em que os relacionamentos chegam ao fim de forma dura, quando não se sabe o que foi feito do amor que supõe-se ter existido um dia.

➻ Tudo grudava nele

Acho que aqui houve um olhar mais otimista e singelo sobre o amor. Quando pensei que as coisas também acabariam bem mal, fui surpreendida por Carver.

13/06/2015

Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar

Honestamente? Estou no vácuo em relação a esse livro. Na presente data, a estatística que o Goodreads atribui a ele é esta aqui:

Como já dá para perceber, acabei juntando-me ao minguado grupo dos 289 leitores que, ao contrário dos 6891, não ficaram muito impressionados com as Memórias de Adriano. Usualmente, eu até consigo entender o que os outros veem em livros dos quais não gosto; contudo, nesse caso, eu não estou atinando com muita clareza o enorme apelo que essa obra desperta na maioria que a lê. 


Mas calma; deixa eu tentar conter um pouco a passionalidade antes de aplicar voadoras. 

Yourcenar, admiravelmente ambiciosa com sua proposta, coletou inúmeras e dispersas peças disponíveis a respeito da biografia de Adriano para escrever um texto que emula a autêntica voz dessa notória personagem masculina da antiguidade. A empreitada não é fácil e, na verdade, acho que ela não conseguiu me ganhar exatamente por ter logrado excepcional êxito nela. O livro é, sim, muito bem escrito; e não parece restar dúvida de que o trabalho de pesquisa foi estupendo. Porém, como a escritora opta por não romancear a vida de Adriano; a narrativa causou-me a sensação de estar lendo, simplesmente, um livro de História com um relevante detalhe: não era um historiador quem me narrava os fatos, mas sim o próprio célebre protagonista histórico. O que se lê é a longa carta redigida pelo imperador nos seus últimos anos, já à beira da morte, ao sucessor Marco Aurélio; na qual ele relata-o todos os sequenciais pormenores (todos mesmo) de fatos e eventos +/- verídicos (aplicar ressalvas cabíveis) que marcaram sua grande trajetória - não apenas política, mas também pessoal (esta, porém, em menor extensão). Nas palavras de Yourcenar: "(...) o momento em que o homem que viveu essa experiência a avalia, a examina, e por um instante chega a ser capaz de julgá-la. Fazer de modo que ele se encontre perante a sua própria vida na mesma posição que nós."

É uma sucessão de "eu sou assim; eu acho isto; eu acho assado; eu queria isto; aí eu fiz isto; daí eu fiz aquilo; depois eu fui para lá; depois em fui para acolá; depois voltei para cá; adoro a Grécia; gosto de música/arte/poesia/filosofia/esculturas/; amei aquele; amei este; já disse que adoro a Grécia? etc." Para mim, não dá - maçante demais -; mas aqueles que gostam de biografias e de história da antiguidade - sei que muitos têm interesse pelo tema - provavelmente apreciam a leitura. 

De qualquer jeito, houve, claro, momentos interessantes. Adriano é inegavelmente uma personagem fascinante; aliás, tão fascinante a ponto de fazer-me quase duvidar de que tenha existido. A incredulidade relaciona-se especialmente ao tipo de estadista que ele parece ter sido; extremamente inteligente, bem articulado, ponderado e, imagine só, competente (!). Sua enorme ambição não era do tipo estritamente egoísta e autocentrada visando o poder: ele queria ser grande, queria fazer a diferença - para muito melhor - na história do império romano e de seu povo. Adriano foi: "Pai da Pátria", "Evérgeta, Olímpico, Epifânio, Senhor de Tudo. E o mais belo, o mais difícil de merecer de todos os títulos: Jônio, Filheleno."
"Queria o poder! Queria-o para impor meus planos, experimentar minhas soluções, restaurar a paz. Queria-o sobretudo para ser eu mesmo antes de morrer. (...) Minha própria vida já não me preocupava: podia novamente pensar no resto da humanidade. (...) comecei a sentir-me deus. (...) longe de ver nessas demonstrações de adoração um perigo de alienação mental ou de prepotência para o homem que as aceita, descobri nelas um freio, a obrigação de procurar assemelhar-se a um modelo eterno, de associar ao poder humano uma parte de sua sapiência. Ser deus obriga, em suma, a possuir mais virtudes do que as de um imperador."

Adriano com Antínoo, seu grande amor.
Ah, pois é, Adriano também era gay ( ͡° ͜ʖ ͡°). (e pedófilo? pederasta? pela diferença de idade, talvez caiba a discussão.) Enquanto O Boticário sugere seus singelos perfuminhos como presente para os (as) namorados(as); Adriano eleva consideravelmente o nível do jogo ao colocar o rosto do amado nas moedas romanas e ao idealizar uma cidade e um culto em homenagem a Antínoo. Como competir?

12/06/2015

Waiting for Godot - Samuel Beckett

(Esperando pelo lampejo que materializará a ideia excepcional do que escrever sobre essa peça..............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................










Reparei que ~todo mundo~ apela para trocadilhos infames e simulações duvidosas da narrativa de Beckett na hora de resenhar esse livro e decidi engrossar o caldo. ¯\_(ツ)_/¯ 
A verdade é que, como minha situação encontra-se ligeiramente melhor que a do Didi e do Gogo, ainda disponho de discernimento para acertadamente desistir de esperar pela excepcionalidade e contentar-me com as palermices.


(info, sinopse, etc.)
Para que não haja dúvidas, começo pelo mais básico e relevante: essa peça é sensacional.

O que acho mais notável no excelente texto de Waiting for Godot é que ele revela-se capaz de admitir, concomitante e complementarmente, diversas interpretações distintas, reunindo uma multiplicidade de significados. Do site enotes:

It has been seen as existentialist (depicting man as lost as insecure in a world without God); Marxist (representing man turning away from his capitalist society, and embracing socialism and communism as alternatives to political alienation); Freudian (Vladimir represents the ‘ego’, Estragon represents the ‘id’); and Christian (the play as a parable illustrating man’s need for salvation). Yet, while these theories have some validity, they are all open to debate. They reflect a complex culture but limit understanding of the play. “The great success of Waiting for Godot,” Beckett said, “had arisen from a misunderstanding: critic and public alike were busy interpreting in allegorical or symbolic terms a play which strove at all costs to avoid definition.”

No início da leitura, confesso que eu estava certa de que Beckett estava falando a respeito daquela espera de caráter religioso, a espera do retorno à Terra do Deus Salvador; agarrando-me ao atalho preguiçoso "God ↔ Godot". Não demorou muito, porém, para que eu percebesse que aquele texto era muito maior do que isso, mesmo porque, como a própria peça demonstra, a espera por Godot - um "não sei o que, não sei quem" que nos trará O sentido de tudo, que performará A mágica aguardada em nossas vidas - não é uma exclusividade dos religiosos. Aliás, suponho que a situação dos indivíduos que têm uma religião seja até diferente daquela de Vladimir e Estragon - talvez menos exasperante -, pois estes, ao contrário daqueles, não podem contar sequer com uma pista a respeito do que raios esperam.

Dessa maneira, penso que afirmar que Waiting for Godot trata do absurdo equivale a dizer que a vida é um absurdo; afirmativa que acato sem resistências. E que absurdo difícil de compreender, não? Pior: mesmo cientes de que o desespero em tentar compreendê-lo pode nos destruir, não conseguimos desapegar facilmente da investida.

A paranoia metafísica que me foi proporcionada pela leitura foi +/- esta:

"Não sei:
quem sou, por que estou aqui, o que exatamente é esse "aqui", o que/quem estou esperando, o que eu quero, o que fiz da minha vida, o que fazer da minha vida, o que farei da minha vida, para onde fui, para onde irei, por que não acabo com tudo, se estou feliz, se estou infeliz, o que é ser feliz, o que é ser triste, ...

Se algum dia eu soube, esqueci.

E para que me preocupar com tudo isso, se não há nada que eu possa fazer?"


Algumas passagens:


ESTRAGON:
( giving up again). Nothing to be done.
VLADIMIR:
(advancing with short, stiff strides, legs wide apart). I'm beginning to come round to that opinion. All my life I've tried to put it from me, saying Vladimir, be reasonable, you haven't yet tried everything. And I resumed the struggle.
 O famigerado "aceita, que dói menos". 


ESTRAGON:
( feebly). Help me!
VLADIMIR:
It hurts?
ESTRAGON:
( angrily). Hurts! He wants to know if it hurts!
Tão engraçado, mas também tão explicitamente desconsolante...


ESTRAGON:
I'm unhappy.
VLADIMIR:
Not really! Since when?
ESTRAGON:
I'd forgotten.
VLADIMIR:
Extraordinary the tricks that memory plays!
(...)
ESTRAGON:
We are happy. (Silence) What do we do now, now that we are happy?
VLADIMIR:
Wait for Godot.

Achei também muito interessante os vários momentos nos quais Beckett explora, a meu ver, a ideia de que estamos sempre desesperadamente em busca de algo para ocupar e fazer passar nosso tempo. O ócio e o silêncio costumam ser evitados a qualquer custo, pois, como diz o ditado, "mente vazia, oficina do diabo"; eles cedem espaço ao pensamento e à consciência do tédio da existência. 
VLADIMIR:
Oh it's not the worst, I know.
ESTRAGON:
What?
VLADIMIR:
To have thought.
ESTRAGON:
Obviously.
VLADIMIR:
But we could have done without it.
... 
VLADIMIR:
All I know is that the hours are long, under these conditions, and constrain us to beguile them with proceedings which –how shall I say– which may at first sight seem reasonable, until they become a habit. You may say it is to prevent our reason from foundering. No doubt. But has it not long been straying in the night without end of the abyssal depths? That's what I sometimes wonder. You follow my reasoning?

E, como se já não bastasse, Beckett ainda mostra-se capaz de explorar esses complexos temas construindo um texto simplesmente hilário. Jamais desistirei de defender que, mesmo para falar de coisas difíceis, o humor não precisa, nem deve, ser posto de lado. Afinal, em consonância com a própria peça, o humor nada mais é do que um dos artifícios dos quais dispomos para apaziguar nossa espera. Por favor, aprendam isso, pós-modernistões. 

(via)