15/06/2015

Lendo Contos | Do que estamos falando quando falamos de amor - Raymond Carver


(info, sinopse, etc.)
Minha curiosidade em relação a esse autor surgiu quando li o livro  "Do que eu falo quando falo de corrida", no qual Murakami relata que a inspiração do seu título viera de um conto escrito por Carver: "Do que estamos falando quando falamos de amor".  Nem pensei duas vezes na hora de escolher por qual coletânea começar.

Duas questões que chamaram-me mais atenção:

1. É impressionante a constante presença do álcool nas histórias narradas; restando a noção de que o universo de Carver parece ser movido destruído pela bebida alcoólica. O conto Coreto traz uma passagem que transmite bem essa ideia:
"Beber é uma coisa gozada. Quando paro para pensar, vejo que todas as nossas decisões importantes foram tomadas quanto estávamos bebendo."
2. A representação da mulher. Há grande destaque dado às personagens femininas, variavelmente vítimas de algum tipo de violência; as quais, em oposição aos homens dos contos, surgem como indivíduos muito mais determinados, resolutos e complexos. Parece ser uma temática interessante na obra do autor.

Fiz uma pesquisa rápida no Google e vi que parece ter ocorrido uma evolução nas obras de Carver referente à relação mulher x violência: "In the early years, he was struggling with literary models, and produced parodies of others’ work in which women are both victims and perpetrators of violence. When he moved to his more idiomatic style in the 1970s, we see frustrated women performing violent gestures that seem to produce no changes in their lives. By the final years, however, women start achieving an amount of control over their lives as violence seems to move them from one phase to another in the direction they wish to be going." 
...

Muitos contos do Carver provocam uma reação peculiar: ao final, despertam-me um imediato "mas é só isso?"; contudo, como a história simplesmente não sai da cabeça, logo em seguida surge o "Não. Há, sim, algo complexo e que, aos poucos, começo a melhor perceber e delinear.".

Comentando alguns contos:

 Do que estamos falando quando falamos de amor
Espia a brilhante ideia: dois casais por volta dos 30/40 anos estão enchendo a cara com uma garrafa de gim na cozinha de um deles - fazendo o famigerado "esquenta" para um jantarzinho fora - e decidem que aquela era uma boa oportunidade para discutir o que diabos viria a ser o Amor. 

Coleguinhas, qual a necessidade disso? Quem, em sã consciência (ok, aqui não era o caso, pois: estavam bêbados), convida por livre e espontânea vontade o elefante branco para uma visitinha cordial? 
(via)
Fez-me lembrar do saudoso Haddaway enrolando-se todo com meras reverberações da mesma pergunta.



Para salvar o Haddaway e os coleguinhas desafortunados desse conto, o imperador romano Adriano apareceu coincidentemente na minha leitura atual oferecendo uma resposta que satisfaz bastante bem muitas questões propostas pelo diálogo daquelas quatro personagens:
"De todos os jogos, o do amor é o único capaz de transtornar a alma e, ao mesmo tempo, o único no qual o jogador se abandona necessariamente ao delírio do corpo. Não é indispensável que aquele que bebe abdique da razão, mas o amante que conserva a sua não obedece inteiramente ao deus do amor. (...) Aqui, como nas revelações dos Mistérios, tudo se passa além da lógica humana."
Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar. 
Conto sensacional.

 Visor
Conto simples, mas também excelente. 

Ele trata mais ou menos do seguinte: se a Vivian Maier, por exemplo, ainda pudesse cruzar nosso caminho para nos fotografar, suponho que gostaríamos de acreditar que ela conseguiria captar algo próximo ao sentimento registrado por esta foto

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by Vivian Maier (via)
mas a verdade é que a vida da grande maioria (especialmente daquela que habita o mundo de Carver) ofereceria às lentes de Maier apenas isto aqui

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by Vivian Maier (via)

Diga às mulheres que a gente vai dar uma volta
Conto muito bom, mas horroroso; com um final que acabou me pegando de surpresa - de ingênua tonta que ainda sou.

Spoiler - Plot: Um escroto que, para livrar-se do tédio, ~ dá voltinhas ~ violentando mulheres como se fosse a coisa mais óbvia e banal para passar o tempo. O bônus irônico - além do título - surge por conta do sujeito ser um pai de família rodeado de mulheres (esposa e filhas) e pelo fato do coadjuvante masculino ter se surpreendido tanto quanto eu, mesmo sendo seu amigo de infância.

Para fazer um descarrego, deixa eu reverter as coisas imaginando o protagonista como sendo o cara desta situação:



Tanta água tão perto de casa
"Olho para a palavra "amor" e depois a sublinho. Aí vejo a expressão 'tem que fazer'.  Será que é assim mesmo que se diz?"  
Quase uma parte II do conto "Diga às mulheres que a gente vai dar uma volta".

Testezinho moral rápido:
Você está acampando com amigos no interior - uma viagem planejada há tempos -, quando avista um corpo humano boiando em decomposição no rio. Não há meio de comunicação disponível, de modo que, para avisar a polícia, você teria de desistir do passeio e retornar. E aí, o que você faz? a) aproveita o fim de semana e avisa na volta - a pessoa já está morta mesmo, ou b) cancela o passeio e retorna para fazer a comunicação?

Ah, esqueci de avisar - sei lá, talvez faça alguma diferença: o corpo é de uma mulher.

Ainda na minha busca rápida, descobri que as circunstâncias relacionadas a esse homicídio remontam a eventos reais nos Estados Unidos: “So Much Water” is also one of several stories in Carver’s canon that is set in his native Pacific Northwest. This is Green River Killer Country: a place of tall forests and gushing rivers, where one can drive through miles of mountainous roads without meeting another car, where series of women can be raped, murdered, and abandoned with little risk of being discovered. The Green River Killer case was not solved until 2003, though the 49 or more murders of young women took place two decades earlier, between 1982 and 19847. The perpetrator, Gary Leon Ridgway, sexually molested and killed his victims, in most cases leaving their naked bodies in or near the Green River south of the Seattle-Tacoma area of Washington State."

Acabei lembrando-me desta música:

                        

➻ A terceira coisa que matou meu pai
"É o Mudinho", disse. "Matou a mulher com um martelo e se afogou." (...) "Mulheres", disse ele. "É nisso que dá se meter com o tipo errado de mulher, Jack."
Daí a gente repara no título, e tudo fica um pouquinho mais claro. 

➻ Depois do jeans
"A mulher no palco cantou; "G-60".
Alguém gritou: "Bingo!"
"Meu Deus", disse James Packer.
"Se ao menos eles soubessem. Se ao menos alguém chegasse e dissesse para eles. Só uma vez! (...) Ia contar a eles o que nos espera depois do jeans e dos brincos, depois que um toca o outro e trapaceia no jogo."
➻ Coreto,
Uma conversa séria, 
Mecânica popular, 
Mais uma coisa.

Quatro contos que funcionam quase como uma extensão um dos outros; explorando aquela fase em que os relacionamentos chegam ao fim de forma dura, quando não se sabe o que foi feito do amor que supõe-se ter existido um dia.

➻ Tudo grudava nele

Acho que aqui houve um olhar mais otimista e singelo sobre o amor. Quando pensei que as coisas também acabariam bem mal, fui surpreendida por Carver.

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