08/06/2015

Lendo Contos | Ficção Completa - Bruno Schulz (Parte I - Lojas de Canela)


(Ed. Cosac Naify )
(Tradução: Henryk Siewierski)
Os contos da coletânea inicial "Lojas de Canela" leem-se quase como capítulos de um romance de memórias, e o que mais chama atenção na prosa de Schulz é mesmo o uso que ele faz da linguagem, descrevendo e recriando realidades e sensações através de excepcionais combinações de palavras, construções de frases e metáforas. Gostei bastante.


Comentando alguns contos:

 Agosto 
História simples, praticamente sem trama: um garoto passeia com a mãe pelas ruas da cidade, indo visitar a tia - lendo o posfácio da edição da Cosac Naify (por Henryk Siewierski), parece ser uma referência à própria infância de Schulz na cidade de  Drohobycz.

A particularidade do conto é que esse garoto, bastante observador, descreve-nos tudo o que vê com uma belíssima riqueza de detalhes, valendo-se de metáforas astuciosas e poéticas. A narrativa constrói uma verdadeira celebração dos mágicos dias de verão no mês de agosto.
"A cada dia, todo um grande verão atravessava o apartamento escuro (...) Adela estendia a sombra pelos quartos, puxando as cortinas de pano. As cores então desciam uma oitava, o quarto enchia-se de sombra (...)"
                                                                                  ❉
"Os transeuntes, patinhando no ouro, tinham os olhos pregados de ardor, como que grudados de mel, e o lábio superior, levantado, descobria-lhes a gengiva e os dentes. E todos, patinhando nesse dia dourado, tinham aquela careta de canícula, como se o sol pusesse em seus seguidores a mesma máscara - a máscara dourada da irmandade solar; (...) todos que hoje passeavam pelas ruas (...) se cumprimentavam com essa máscara pintada no rosto com uma tinta dourada e grossa, arreganhavam uns aos outros essa careta dionisíaca - a máscara bárbara de um culto pagão."
 A visitação
Voltamos à casa do garoto e, agora, ele relata-nos a triste evolução da doença mental do pai. 

Especialmente por conta do final, provocou a impressão de uma metamorfose kafkiana na qual a doença obstinada transforma o pai não no inseto monstruoso, mas em uma entidade simplesmente irreconhecível.
"Pouco a pouco, esses desaparecimentos deixaram de nos impressionar, habituamo-nos a eles, e quando depois de muitos dias aparecia de novo, algumas polegadas menor e mais magro, já não chamava tanto a nossa atenção. Simplesmente deixamos de levá-lo em conta, a tal ponto se afastara de tudo que é humano e real. (...) O que dele ainda restou, um pouco daquela carcaça do corpo e um punhado de extravagâncias absurdas, podia desaparecer um dia, despercebido como a pequena e cinzenta porção de lixo do canto da sala, (...)"
 Os pássaros
O pai segue em foco; mais especificamente, uma das primeiras extravagâncias dele que prenunciava "o lamentável complexo que amadurecia em seu interior": a incubação de ovos de aves com a manutenção de um aviário dentro da casa da família.


(via)
"Lembro-me particularmente de um condor, uma ave enorme de pescoço pelado, rosto enrugado e viçoso com muitas excrecências. Era um magro asceta, um lama budista cheio de uma impassível dignidade em todo o seu comportamento, que se guiava pelo cerimonial severo de sua grande estirpe. Sentado em frente a meu pai, imóvel em sua pose monumental dos sempiternos deuses egípcios, o olho coberto da belida branca com que cerrava de lado a pupila para encolher-se completamente na contemplação de sua nobre solidão, parecia, com esse perfil de pedra, o irmão mais velho de meu pai. (...) Ao vê-lo assim adormecido, não pude resistir à impressão de que estava na frente da múmia - ressecada e por isso diminuída múmia de meu pai. Suponho que também minha mãe não deixou de notar essa estranhíssima semelhança, apesar de nunca termos tocado no assunto. É característico que o condor usava o mesmo penico que meu pai."
 Os manequins 
O pai de Schulz parece mesmo ser a grande personagem dos contos iniciais dessa coletânea. O parágrafo inicial de Manequins o descreve de maneira fascinante:
"Essa empresa avícola foi a última explosão de cores, a última e brilhante contramarcha da fantasia que esse improvisador incorrigível, esse esgrimista da imaginação conduzira para os redutos e trincheiras do inverno estéril e vazio. Só hoje percebo o heroísmo solitário com que ele sozinho declarou guerra ao elemento imensurável de tédio que entorpecia a cidade. Sem nenhum apoio, sem reconhecimento de nossa parte, esse homem estranhíssimo defendia a causa perdida da poesia. Ele era um moinho maravilhoso, em cujos funis caíam os farelos das horas vazias para florescer nas engrenagens com todas as cores e perfumes das especiarias do Oriente. Mas, acostumados com a excelente charlatanice desse prestidigitador metafísico, estávamos propensos a ignorar o valor da sua magia soberana, que nos salvava da letargia dos dias e noites vazios."
 Tratado dos Manequins (ou o Segundo Gênese) 
Nesses três contos subsequentes, o "prestidigitador metafísico" (amei a expressão) retorna para desenvolver e concluir a extraordinária Teoria dos Manequins
"- Figuras de museu de cera (...), minhas senhoras - começou ele - paródias plebeias de manequins (...) Vocês não sentem a dor, o sofrimento obscuro e não liberto desse fantoche, aprisionado na matéria, que não sabe a razão de ser desse jeito, nem por que deve permanecer assim, nessa forma paródica, imposta com tanta violência? Vocês compreendem o poder da expressão, da forma, da aparência, a arbitrariedade tirânica com que se atiram a um bloco indefeso e o dominam como se fossem sua própria alma, tirânica e presunçosa? Vocês enxertam numa cabeça de pano e estopa uma expressão de cólera e depois deixam-na para sempre com essa cólera, essa convulsão, essa tensão, fechada em uma raiva cega para a qual não há nenhum escape. A multidão ri dessa paródia. Chorem, minhas senhoras, chorem seu próprio destino, ao ver esse triste estado da matéria, matéria oprimida que não sabe quem é e por que é, nem para onde leva esse gesto que lhe foi impresso para todo o sempre."
(Caramba.)

O trecho ganha trilha sonora (link):




 No conto Lojas de Canelaele nos conduz através do mundo mágico e onírico no qual ele havia transformado a realidade de um determinada opulenta região da cidade; enquanto em A Rua dos Crocodilos * embarcamos em uma jornada oposta, passeando por um bairro cuja realidade é enaltecida por sua repugnância.
*(para não deixar passar: acho que rolaram uns trechos meio racistas nesse conto. Não sei...)

➻ Nemrod 
A premissa do conto é basicamente esta:

.
Olhando esse gif, eu inspiro-me simplesmente a exclamar "awn, que fofo!"; o Sr. Schulz, por sua vez, escreve "Nemrod":
"Seu passo era um rolamento inábil, de lado e de viés, numa direção indecisa, seguindo uma linha um pouco embriagada e vacilante. A dominante de seu estado de espírito era uma tristeza profunda e indefinida, uma orfandade e um desamparo, ou seja, uma incapacidade de preencher o vazio da vida entre um e outro sensacional evento da refeição. Era o que revelavam os movimentos sem nenhum plano ou consequência, os ataques irracionais de nostalgia com um gemido triste e a incapacidade de achar um lugar. Até em seu sono profundo, em que para satisfazer a necessidade de apoio e aconchego tinha de usar a própria pessoa, enrolada num novelo que tremia, acompanhava-o a consciência da solidão e do desamparo. Ah, uma vida, uma vida jovem e frágil, solta da escuridão confiável, do calor aconchegante do ventre materno para um mundo enorme, estranho e luminoso!"
A noite da grande estação
Chuto que Schulz tenha me levado para dentro da mente do pai durante uma crise psicótica, numa noite de outono. Foi isso?

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