29/06/2015

Lendo Contos | Interpreter of Maladies - Jhumpa Lahiri

(info, sinopse, etc.)

Há tempos tinha muita curiosidade de conhecer essa autora e comecei por sua coletânea de contos premiada com o Pulitzer de 2000.

A Jhumpa Lahiri tem uma história pessoal interessante que parece refletir em sua obra: nasceu em Londres, filha de Indianos, mas mudara-se com a família para os Estados Unidos desde criança, onde vive até hoje. O paralelo estabelecido pela ascendência/cultura indiana - reconhecidas, não relevadas - e a cultura americana - nacionalidade que acolhera - parece perpassar boa parte de sua obra. 

Comentando alguns contos:

➻ A temporary matter
Não me chamou muita atenção, pois achei um bocadinho previsível.

Se a narrativa me diz, logo de cara, que um casal passará uma semana sem energia elétrica durante 1 hora, a partir das 20h, o que eu posso imaginar que vai acontecer? Minha resposta: merda, é lógico. Acertei? Sim.

De forma +- parecida ao conto anterior que li do Carver, esse casal tem a brilhante ideia de matar o período sem energia brincando de "vamos revelar coisas que omitimos um ao outro ao longo da relação e casamento". Gente, mas nem brincando se faz um troço desse.

E conheci a Annaprashana, uma cerimônia hindu durante a qual os bebês recebem a primeira refeição sólida (arroz): meninos aos 6 meses e meninas aos 7 meses.


When Mr. Pirzada came do dine
Aqui, creio que as coisas começaram a ficar bem mais interessantes. 

Fazendo um paralelo com a crítica anterior que fiz à Harper Lee, eu diria que esse conto de Lahiri funciona super bem para exemplificar o que considero uma abordagem mais rica e interessante da narrativa sob o ponto de vista infantil.  A criança desse conto conseguiu me tirar da zona de conforto, fascinando-me com sua perspectiva e seus questionamentos (inteligentes; sem soar como uma adulta) diante da nova situação: Mr. Pirzada, professor universitário paquistanês em visita acadêmica aos EUA, janta diariamente na companhia de seus pais (nascidos na Índia), enquanto acompanha o noticiário sobre a guerra civil paquistanesa de 1971, aflito por conta da família que deixara para trás.

O texto também alude a uma certa alienação americana sobre o que ocorre no resto do mundo; sugerindo tratar-se de algo que começa desde a escola, onde se privilegia apenas o estudo da própria história americana. Mas daí, acabou ocorrendo-me que essa crítica, tão recorrentemente dirigida aos EUA, talvez não seja exclusividade daquele país. ~Quando eu era criança pequena lá em Barbacena~, por exemplo, não lembro de ter estudado na escola sobre a independência da Índia e a guerra civil no Paquistão. (・_・ヾ Enfim.


➻ Interpreter of maladies
Mais uma história de casal, porém enriquecida pela exploração do paralelo cultural que se estabelece entre Índia e Estados Unidos.

Para fins de registro, duas coisas:
1. Nunca havia imaginado que o sentido mais imediato e superficial do título do livro seria em referência ao indiano que trabalha como tradutor em um consultório médico; traduzindo, especificamente, o Gujarati, língua indo-ariana falada pelos pacientes durante a consulta.

2. Como nunca estive na Índia - aliás, percebi que não sei praticamente nada a respeito do país - fui apresentada às  "Tea Stalls":

(via)
e também ao Templo do Sol, em Konarak:
(via)

(via)
Vamos dar uma ampliada para ver as esculturas do templo de pertinho?

                           
                                                    (via)                                                                   (via)

¯\_(ツ)_/¯


➻ A real durwan
Aqui, Lahiri explora a condição dos refugiados na Índia após a partição de 1947. Durwan, aprendi também, é uma espécie de porteiro de edifício que mora no próprio prédio onde trabalha. 

É uma história bem triste, especialmente ao sugerir certa conformidade melancólica da refugiada pelas perdas materiais e pela separação da família; mas um desespero inconformado ao perceber que estavam roubando-lhe até mesmo sua honra, seu caráter e sua reputação. 

Quando contava sobre seu passado abastado oposto à miséria presente, o mantra de Boori Ma era "Believe me, don't believe me."; quando acusaram-na injustamente de cúmplice de roubo, passou para o angustiante e sofrido "Believe me, believe me.".

Sexy
Complicado quando uma criança reage da mesma forma que o amante babaca e, assim, surge como intermediária da epifania tardia que revela à protagonista a falácia da relação adúltera na qual envolvera-se.

Aqui, Lahiri também usa a deusa hindu Kali como metáfora e, caramba, que descrição fantástica ela proporciona nas circunstâncias daquela narrativa. Só não saberia dizer se ela aparece para encorajar a protagonista (que era americana) ou para fazê-la temer a ira da esposa bengali traída. Ambos?
"It was a painting of a naked woman with a red face shaped like a knight's shield. She had enormous white eyes that tilted towards her temples, and mere dots for pupils. Two circles, with the same dots at their centers, indicated her breasts. In one hand she brandished a dagger. With one foot she crushed a struggling man on the ground. Around her body was a necklace composed of bleeding heads, strung together like a popcorn chain. She stuck her tongue out at Miranda."
Deusa Kali

This blessed house
Esse foi meu conto favorito. 

Casados depois de apenas quatro meses de relacionamento, um casal de ascendência indiana aluga uma casa para morar nos EUA e, diariamente, encontram espalhadas pela residência memorabilias bizarras de imagens de santos católicos deixadas pelos inquilinos anteriores. 

A "caça aos tesouros católicos" serve de metáfora para cada elemento então desconhecido da personalidade do cônjuge que revelava-se desagradavelmente com o convívio matrimonial. 

The third and final continent
Não sei se entendi direito, mas acho que Lahiri parece ter sugerido que a cultura indiana das décadas de 60/70 guardava muito mais concordâncias com a cultura americana do final do século XIX do que com a contemporânea. Intrigante.

Mrs. Sen's
Da indiana casada e recém-chegada aos Estados Unidos:
"Here, in this place where Mr. Sen has brought me, I cannot sometimes sleep in so much silence. (...) if I begin to scream right now at the top of my lungs, would someone come? (...) Everyone, this people, too much in their world."
...

No geral, achei uma coletânea muito boa de contos, embora não tenha correspondido exatamente às minhas altas expectativas. 

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