13/06/2015

Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar

Honestamente? Estou no vácuo em relação a esse livro. Na presente data, a estatística que o Goodreads atribui a ele é esta aqui:

Como já dá para perceber, acabei juntando-me ao minguado grupo dos 289 leitores que, ao contrário dos 6891, não ficaram muito impressionados com as Memórias de Adriano. Usualmente, eu até consigo entender o que os outros veem em livros dos quais não gosto; contudo, nesse caso, eu não estou atinando com muita clareza o enorme apelo que essa obra desperta na maioria que a lê. 


Mas calma; deixa eu tentar conter um pouco a passionalidade antes de aplicar voadoras. 

Yourcenar, admiravelmente ambiciosa com sua proposta, coletou inúmeras e dispersas peças disponíveis a respeito da biografia de Adriano para escrever um texto que emula a autêntica voz dessa notória personagem masculina da antiguidade. A empreitada não é fácil e, na verdade, acho que ela não conseguiu me ganhar exatamente por ter logrado excepcional êxito nela. O livro é, sim, muito bem escrito; e não parece restar dúvida de que o trabalho de pesquisa foi estupendo. Porém, como a escritora opta por não romancear a vida de Adriano; a narrativa causou-me a sensação de estar lendo, simplesmente, um livro de História com um relevante detalhe: não era um historiador quem me narrava os fatos, mas sim o próprio célebre protagonista histórico. O que se lê é a longa carta redigida pelo imperador nos seus últimos anos, já à beira da morte, ao sucessor Marco Aurélio; na qual ele relata-o todos os sequenciais pormenores (todos mesmo) de fatos e eventos +/- verídicos (aplicar ressalvas cabíveis) que marcaram sua grande trajetória - não apenas política, mas também pessoal (esta, porém, em menor extensão). Nas palavras de Yourcenar: "(...) o momento em que o homem que viveu essa experiência a avalia, a examina, e por um instante chega a ser capaz de julgá-la. Fazer de modo que ele se encontre perante a sua própria vida na mesma posição que nós."

É uma sucessão de "eu sou assim; eu acho isto; eu acho assado; eu queria isto; aí eu fiz isto; daí eu fiz aquilo; depois eu fui para lá; depois em fui para acolá; depois voltei para cá; adoro a Grécia; gosto de música/arte/poesia/filosofia/esculturas/; amei aquele; amei este; já disse que adoro a Grécia? etc." Para mim, não dá - maçante demais -; mas aqueles que gostam de biografias e de história da antiguidade - sei que muitos têm interesse pelo tema - provavelmente apreciam a leitura. 

De qualquer jeito, houve, claro, momentos interessantes. Adriano é inegavelmente uma personagem fascinante; aliás, tão fascinante a ponto de fazer-me quase duvidar de que tenha existido. A incredulidade relaciona-se especialmente ao tipo de estadista que ele parece ter sido; extremamente inteligente, bem articulado, ponderado e, imagine só, competente (!). Sua enorme ambição não era do tipo estritamente egoísta e autocentrada visando o poder: ele queria ser grande, queria fazer a diferença - para muito melhor - na história do império romano e de seu povo. Adriano foi: "Pai da Pátria", "Evérgeta, Olímpico, Epifânio, Senhor de Tudo. E o mais belo, o mais difícil de merecer de todos os títulos: Jônio, Filheleno."
"Queria o poder! Queria-o para impor meus planos, experimentar minhas soluções, restaurar a paz. Queria-o sobretudo para ser eu mesmo antes de morrer. (...) Minha própria vida já não me preocupava: podia novamente pensar no resto da humanidade. (...) comecei a sentir-me deus. (...) longe de ver nessas demonstrações de adoração um perigo de alienação mental ou de prepotência para o homem que as aceita, descobri nelas um freio, a obrigação de procurar assemelhar-se a um modelo eterno, de associar ao poder humano uma parte de sua sapiência. Ser deus obriga, em suma, a possuir mais virtudes do que as de um imperador."

Adriano com Antínoo, seu grande amor.
Ah, pois é, Adriano também era gay ( ͡° ͜ʖ ͡°). (e pedófilo? pederasta? pela diferença de idade, talvez caiba a discussão.) Enquanto O Boticário sugere seus singelos perfuminhos como presente para os (as) namorados(as); Adriano eleva consideravelmente o nível do jogo ao colocar o rosto do amado nas moedas romanas e ao idealizar uma cidade e um culto em homenagem a Antínoo. Como competir?

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