15/06/2015

Os Miseráveis - Victor Hugo / Diário de Leitura #01

Estou lendo Os Miseráveis pela primeira vez e tentarei manter um diário de leitura com entradas semanais.

Detalhes relevantes: Será meu primeiro contato com Victor Hugo, nunca li nenhuma adaptação literária de Os Miseráveis e nunca vi suas adaptações a musicais ou filmes. Da narrativa, só conheço mesmo os nomes de algumas personagens famosas e o contexto histórico aproximado. Também já sei que há uma minuciosa descrição do sistema de esgoto parisiense (medo) e que encontrarei muito drama, com risco de lágrimas. 

Programação inicial: ~ 150 páginas/semana.
Duração total estimada: 13 semanas.
Início da leitura: 08/06/2015
Fim: 06/09/2015

SEMANA 01 
(Pg. 31 a 183. Fantine - Livros primeiro e segundo)


Ah, mas agora ficou perfeitamente óbvia a razão pela qual esse livro tem 1972 páginas: apenas para apresentar uma única personagem, 80 foram consumidas. 

Victor Hugo explora um recurso que eu já tinha reparado no Balzac: em vez de construir a personagem ao longo da narrativa, permitindo que o leitor a conheça e compreenda gradativamente, opta-se por escrever um tratado completo que a retrate antes de inseri-la na narrativa propriamente dita → "primeiro apresento os jogadores, depois faço-os jogarem.". 

Não sei se gosto muito disso, mas, no caso do Victor Hugo com o Bispo Bienvenu, acho que funcionou bem, pois os pequenos causos que o autor escolheu para caracterizá-lo renderam uma leitura prazerosa. Só depois das quarenta páginas, talvez, é que eu comecei a perder um pouco a paciência: "- tá, Monsieur Hugo, já entendi sobre o Bispo:
"a pobreza voluntária em que vivia (...) o fantasma da justiça social o obcecava (...) ele era e foi em tudo justo, equitativo, inteligente, humilde  e digno, fazendo o bem e querendo o bem. (...) Era sacerdote, era sábio, era homem. (...) era tolerante e indulgente, (...) tinha um excesso de amor. (...) Vivia sem arrogância. (...) setenta e cinco anos (...) sua pessoa irradiava alegria. (...) ar de bondade (...) nada de teorias e muita ação."
E para não correr absolutamente nenhum risco de que o leitor ainda não tivesse entendido que Myriel era um santo na Terra (praticamente), Victor Hugo manda esta:
"Numa ocasião, chegou a torcer um pé por não querer pisar numa formiga." 
- Pronto, finalmente entendi, Monsieur Hugo. (*^-‘) 乃

 Achei interessante Victor Hugo assumir explicitamente a identidade do narrador da história que lemos; dialogando com o leitor e emitindo de maneira transparente suas opiniões acerca de questões políticas e sociais. 

Nessas primeiras páginas, ele já deu uns pitacos, por exemplo, sobre a Revolução Francesa e sobre as penalidades aplicadas pelo sistema jurídico francês, notadamente aquela de trabalho forçado. Suspeito de que Victor Hugo, se vivo estivesse, teria uma ou duas opiniões sobre a atual discussão da maioridade penal no Brasil. 

Ao mesmo tempo, ele não incorpora a onisciência.
"Ninguém poderia dizer o que acontecia no seu íntimo, nem ele mesmo. Para tentar compreender isso, seria preciso imaginar (...). Mas quais eram os seus pensamentos? Seria impossível adivinhar."
➻ 
"A Srta. Batiste era (...) realmente o que indica a palavra "respeitável", pois me parece que uma mulher para se tornar venerável precisa ser mãe."

- Oi? 
"Nunca foi bonita; (...) ganhou o que poderíamos chamar de beleza da bondade."
"Beleza da bondade":  o "miss simpatia" do século XIX. Saquei.

O tratamento dado à religião é que está me deixando um pouco confusa.

Há passagens em que Victor Hugo parece defender que não é possível possuir uma boa conduta moral - ser "um justo" - dissociando-se de Deus; porém, em outras - especialmente durante o discurso do convencionalista - ele parece oferecer um contra-argumento para a apreciação pelo leitor. Vamos acompanhar durante a leitura.
"Afinal, era um ateu, como todos os da sua espécie. - mexericos de patos a respeito do abutre."
(Bispo Bienvenu:) " - O Progresso precisa acreditar em Deus. O bem não pode ser servido pela impiedade. Um ateu é um péssimo condutor para a humanidade." (...) (o convencionalista:) "- Ideal! Tu só existes! (...) Havia abusos, e eu os combati; havia prepotências, e eu as destruí; havia direitos e princípios, eu os proclamei e confessei. (...) Socorri os oprimidos e confortei os que sofriam. (...) Fiz o meu dever de acordo com as minhas forças e do melhor modo possível. Depois disso fui (...) amaldiçoado, proscrito."
Relevante:
(sobre o bispo) "Não condenava nada apressadamente ou sem levar em conta as circunstâncias. Era comum ouví-lo dizer: - Vejamos o caminho por onde passou essa falta."
E apareceu o famoso Jean Valjean! (a sonoridade desse nome é incrível.)
"Dezenove anos! Em outubro de 1815, foi posto em liberdade; havia entrado em 1796 por ter partido um vidro e roubado um pedaço de pão." 
Hugão, nem vem, pois ainda está muito cedo para chorar (sinto que esse Valjean vai me dar trabalho).

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