22/06/2015

Os Miseráveis - Victor Hugo / Diário de Leitura #02

Estou lendo Os Miseráveis pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com entradas semanais.

Detalhes relevantes: é meu primeiro contato com Victor Hugo, nunca li nenhuma adaptação literária de Os Miseráveis e nunca vi suas adaptações a musicais ou filmes. Da narrativa, só conheço mesmo os nomes de algumas personagens famosas e o contexto histórico aproximado. Também já sei que há uma minuciosa descrição do sistema de esgoto parisiense (medo) e que encontrarei muito drama, com risco de lágrimas. 

Programação inicial: ~ 150 páginas/semana
Duração total estimada: 13 semanas
Início da leitura: 08/06/2015
Fim: 06/09/2015
Posts anteriores: Semana #01

SEMANA #02
(Pg. 184 a 331. Fantine - Livros terceiro ao sexto + sétimo parcialmente)

➻ "Eis, confusamente, o que acontecia em 1817, coisas de que hoje já não nos lembramos. A história negligencia quase todas essas particularidades, e não poderia fazer de outro modo; a identidade de detalhes a sufocaria. Contudo, esses pormenores, erradamente chamados de pequenos - não existem pequenos fatos na história, (...) - são úteis."

E quando eu finalmente decido pular o capítulo "1817", no qual Monsieur Hugo descreve TO-DAS as relevantes notícias e fofocas daquele ano, surge esse parágrafo finalizando o relato. Ah, vá.

Alguns devaneios: 
1. A julgar pelas notas de rodapé, muitas informações descritas no capítulo não estavam completamente exatas. Então, M. Hugo, será que isso não deixou essa sua argumentação final um pouquinho frouxa? Afinal, apenas poucas décadas depois, a "utilidade" dessas particularidades não evitou certo prejuízo nas respectivas acurácias. Seria, então, realmente errado chamá-las de "pequenas"? E para um leitor comum que já encontra-se no século XXI? 
2. Mesmo que se reconheça uma "utilidade" desses pormenores, isso não seria relativo? Qual seria exatamente a utilidade da descrição minuciosa desses pormenores dentro de um romance de ficção? E (novamente) para um leitor já no século XXI?

Enfim... Particularmente, acho que sempre que julgar pertinente, lançarei mão (ou tentarei) do Direito do Leitor no. 2 - direito de pular páginas. 

A famosa Fantine apareceu. 
"Ser sábio e filósofo são coisas distintas (...) e Fantine era sábia. (...) tinha na fronte o símbolo do anonimato e do desconhecimento. (...) Filha de quemQuem o poderia dizer(...) Chamava-se Fantine. Por que Fantine? Era o único nome que tinha. (...) nada de sobrenomes, porque não tinha família; nada de nomes de batismo, porque a Igreja não estava presente. Foi-lhe dado o nome que agradou ao primeiro transeunte que a encontrou pequenina, andando descalça pelas ruas. (...) Assim entrou para a existência."
O livro vai gradativamente demonstrando que seu título não é nada à toa; mas simplesmente o único possível. Haverá uma competição entre as personagens para avaliar quem tem a história mais triste?

O pior é que, aparentemente, há uma sugestão pessimista de que os destinos miseráveis simplesmente continuarão repetindo-se: Fantine → Cosette. Será? Vamos acompanhar.

Também reparei que Victor Hugo tem sistematicamente explorado a falta de alfabetização desses miseráveis. Interessante.

➻ "(...) Fantine, que estava ainda na sua primeira ilusão. (...) Trabalhou para poder viver e, para poder viver, amou, pois o coração também precisa de alimento. Seu amante era Tholomyès. Para ele tudo não passava de um namorico como outro qualquer; ela, porém, amava-o apaixonadamente."

Passam-se os séculos, mas algumas coisas parecem não mudar: sempre haverá um "Tholomyès" para cruzar nosso caminho. Dá cá um abraço, Fantine.

➻ Aliás, esse Tholomyès além de horroroso -
"(...) trinta anos muito malconservados. Tinha rugas, mas não tinha dentes, e começava a se esboçar uma calvície (...) e tinha um olho sempre cheio de lágrimas." -,
era o tipo de sujeito que manda este discurso:

"Onde houver mulher bonita, haja luta aberta. (...) A mulher é o direito do homem."


O genial é que Victor Hugo, depois de nos acalentar informando que ele não mais apareceria na narrativa (obrigada, M. Hugo), lambuza-se na verossimilhança ao relatar que, claro, a vida foi muito feliz para o M. Tholomyès. E não é sempre assim?
"Não teremos mais ocasião de falar de Félix Tholomyés. Limitamo-nos, portanto, a dizer que, vinte anos depois, no reinado de Luís Filipe, tornava-se importante advogado de província, influente e rico, sábio eleitor e jurado severíssimo, mas sempre dado aos prazeres."
... 

"Além do mais, duvidava superiormente de tudo, o que constitui grande força aos olhos dos fracos. Sendo, portanto, irônico e calvo, tornou-se o chefe. Iron é palavra inglesa que significa ferro. Será essa a etimologia de ironia?"

                                                          

➻ É curiosa a atenção que Victor Hugo dá aos cílios para caracterizar a beleza das personagens. Sinal de que ele, como a maioria dos bons escritores, era um sagaz observador. 
"(...) mas seus longos cílios cheios de sombra (...)"
 "(...) e tinham cílios magníficos."
Nós não "perdemos tempo" com curvex, rímel e cílios postiços à toa, colega.

Peculiar descrição do ~tipo de gente~ que acabou botando as mãos na Cosette:
"(...) pertenciam a essa classe de pessoas composta de gente rústica enriquecida e de pessoas inteligentes decaídas, que está entre a chamada classe média e a chamada classe baixa, combinando alguns dos defeitos da segunda com quase todos os vícios da primeira, sem possuir nem os impulsos generosos do operário nem a honestidade ordeira do burguês. Eram dessas naturezas anãs que, se algum fogo sombrio as aquece, tornam-se facilmente monstruosas."
Como assim o Bispo já morreu?! E assim, sem mais nem menos? Mas, mas... foram oitenta páginas de dedicação. E cego?! Mas, mas...

Ok, pelo jeito o esmero que Victor Hugo dedicou em construí-lo serviu à importante necessidade de transmitir ao leitor a exata noção de quem era o tipo de pessoa capaz de remediar o brutal estrago que fizeram na vida de Jean Valjean.

Será que não é essa, afinal, a diferença entre Valjean e Javert: o toque do Bispo Bienvenu? Vamos acompanhar.

Sim, o famoso Javert também apareceu.

(na página 273, cena do carroceiro Fauchelevent:) Calma, lá... Será que... Não, não pode ser. Mas as evidências estão indicando que sim...Então...
MADELEINE É JEAN VALJEAN?!
(Passada)

* e, na página 331, Victor Hugo manda: 
"O leitor, sem dúvida, já adivinhou que o Sr. Madeleine é o próprio Jean Valjean." 
- Sim, M. Hugo  (♥)

O que Victor Hugo está fazendo com a narrativa da Fantine, explicitando as agressões sociais das quais ela é vítima através de mutilações físicas gradativas, é uma das coisas mais brutais e dolorosas que já li.
"- Mas isso é uma fortuna! Onde arranjou esses luíses de ouro?
- Ganhei-os.
E pôs-se a sorrir. A vela iluminava-lhe o rosto. Era um sorriso ensanguentado. Uma saliva avermelhada sujava-lhe os cantos dos lábios, na boca aparecia um buraco escuro. Os dois dentes superiores tinham sido arrancados."
... 
"A que se reduz toda essa história de Fantine? É a sociedade comprando uma escrava.
Para quem? Para a miséria. Para a fome, o frio, a solidão, o abandono, a nudez. Doloroso comércio! Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita."
 Que pensamento torpe, o desse Javert (e de muitos, infelizmente, até hoje):
"A bondade que consiste em dar razão (...) àquele que está embaixo, contra o que está em cima, é o que eu chamo de bondade injusta. É por causa desse tipo de bondade que a sociedade se desorganiza. Meu Deus! É tão fácil ser bom: o difícil é ser justo."
 ➻ (Na cena em que Valjean arruma um cavalo para ir a Arras): Começo a crer que, no processo oficial de canonização do Bispo Bienvenu, Valjean servirá como a prova de um dos milagres, pois ele próprio também parece ter virado um santo; será possível?! Valjean volta para deixar o valor do cavalo e do tílburi como seguro, caso não consiga retornar. Gente...

Mas, ó, para quem já passou tanto perrengue pela falta de dinheiro, ele bem que deveria ser mais prudente com sua atual fortuna. Desde a infância, aprendi com meu pai que dinheiro não aceita desaforo.

Ah, e o mais importante:
- Não vai lá, Valjean! Suspeito de que não existe nenhum Champmathieu e que é tudo uma cilada armada pelo Javert.

Será? 
Cenas dos próximos capítulos.

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