29/06/2015

Os Miseráveis - Victor Hugo / Diário de Leitura #03

Estou lendo Os Miseráveis pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com entradas semanais.

Detalhes relevantes: é meu primeiro contato com Victor Hugo, nunca li nenhuma adaptação literária de Os Miseráveis e nunca vi suas adaptações a musicais ou filmes. Da narrativa, só conheço mesmo os nomes de algumas personagens famosas e o contexto histórico aproximado. Também já sei que há uma minuciosa descrição do sistema de esgoto parisiense (medo) e que encontrarei muito drama, com risco de lágrimas. 

Programação inicial: ~ 150 páginas/semana
Duração total estimada: 13 semanas
Início da leitura: 08/06/2015
Fim: 06/09/2015
Posts anteriores: #01, #02.

SEMANA #03
(Pg. 331 a 486. Fantine - Livros sétimo e oitavo; Cosette - Livro primeiro parcialmente)

E o julgamento do tal Champmathieu não foi exatamente uma cilada tramada por Javert como eu supunha (será que estou dando muito crédito à personagem?), mas também não diria que passou muito longe disso, correto?

A maneira com que Victor Hugo descreveu o conflito interno pelo qual passou Jean Valjean na tomada de decisão sobre o que seria moralmente correto fazer foi estupenda. Foi muito aflitivo acompanhar a consciência dele remoendo-se em desespero. 

Victor Hugo até mesmo externaliza a dimensão do que fora a exasperação de Valjean:
"Seus cabelos, ainda grisalhos quando chegara a Arras, agora estavam completamente brancos. Haviam embranquecido assim no curto espaço de uma hora. (...) 
- Meu Deus! Sr. Maire! O que aconteceu com o senhor? Seus cabelos estão completamente brancos!
- Brancos! - disse o Maire. (..) Madeleine pegou-o (um espelho), olhou os cabelos e disse; - Veja só!"
Ah, e eu achando que Valjean tinha virado um santo quando ele, de fato, almejava conscientemente isso. Curioso.
"(...) vivia pacificamente, tranquilo e confiante, não tendo mais que dois pensamentos: esconder o próprio nome e santificar a própria vida: escapar dos homens e voltar para Deus. (...) Não era possível entrar na santidade aos olhos de Deus se não voltasse á infâmia aos olhos dos homens!"
Um tantinho intrigada com o tipo de narrador que Victor Hugo encarna no livro, pois parece-me que ele decide aquilo que sabe e que desconhece simplesmente conforme a conveniência.

No diário #01, eu havia registrado que o narrador sinalizava não ser onisciente, visto que ele confessava desconhecer, por exemplo, o que se passava na alma de Valjean - "Ninguém poderia dizer o que acontecia no seu íntimo, nem ele mesmo.". Nessas últimas páginas, por sua vez, ele esclarece que o diálogo de Valjean que ele estava narrando era, na verdade, internalizado: "(...) Quando nossa alma está agitada, tudo dentro de nós fala, menos nossos lábios. As realidades da alma, por não serem visíveis e palpáveis, não deixam de ser realidades." (pg. 340).

Ah, sim, e ainda temos a fuga de Valjean da prisão, para a qual Victor Hugo, nosso narrador, praticamente pede que aceitemos o mistério em torno das circunstâncias:
"Ninguém jamais soube como conseguira penetrar no pátio interno sem abrir o portão principal. É verdade que levava sempre no bolso a chave de uma porta lateral; mas, como já o haviam revistado, certamente não a tinha consigo naquele momento. Esse ponto nunca pôde ser esclarecido. (...) carregava um pequeno embrulho e usava uma blusa. Onde a teria encontrado? Ninguém sabe."

O comportamento desse narrador parece-me um pouco confuso e contraditório; sei não...

E as alfinetadas que o Victor Hugo dá na galhofada que era (é?...) o universo jurídico foram  muito delicinhas. Amei, M. Hugo!
"(...) advogados, (...). É muito raro que em todas essas palavras haja um pouquinho de caridade e comiseração. O que transpiram mais comumente são condenações antecipadamente resolvidas. Todos esses grupos se mostram, ao observador que passa, como sombrias colmeias onde certos espíritos, zumbindo, constroem toda espécie de edifícios tenebrosos."
... 
"O advogado, portanto, começara a falar sobre o caso das frutas, coisa muito imprópria para grandes arroubos oratórios; mas o próprio Bossuet foi obrigado a fazer alusão a uma galinha em plena oração fúnebre, e saiu-se com toda a majestade."
... 
"O Advogado-Geral replicou ao defensor do acusado. Foi violento e cheio de floreios como costuma ser essa classe de advogados."

 "(...) o que é a prefeitura hoje em dia era, antes da Revolução, o palácio episcopal. Dom Conzié, que era Bispo desta diocese em 1728, fez construir então uma grande sala. É aí que se fazem as audiências."

Victor Hugo, será mesmo que há nessa passagem o subtexto que imagino? Por mais jocosa que seja a justiça ~dos homens~, adianto que eu seria obrigada a discordar completamente.

Voltando à pergunta que lancei no diário #01: sim, Victor Hugo segue dando inúmeros sinais de que era mesmo um religioso fervoroso, e que Deus é quem deve estar sempre no comando, guiando-nos. Ainda não pesquisei a respeito de sua biografia e estou curiosa em relação ao que encontrarei.

Eu teria curtido, se Victor Hugo tivesse estendido a passagem meio kafkiana, durante a qual o Maire não conseguia convencer o tribunal de que ele, sim, era o verdadeiro Jean Valjean. Foi bem divertido.
"Todos conhecem, pelo menos já ouviram falar do honrado e respeitável Sr. Madeleine, Maire de Montreuil-sur-Mer. Se houver algum médico no auditório, (...) digne-se assistir ao Sr. Madeleine, conduzindo-o à sua residência." 
"- (...) Prendam-me, Meu Deus! o Sr. Advogado Geral meneia a cabeça e os senhores dizem: - O Sr. Madeleine enlouqueceu! - Os senhores não querem acreditar em mim! Isso é o que me aflige. Mas, ao menos, não irão condenar esse homem! As testemunhas não me reconhecem! Eu queria que Javert estivesse aqui. Ele, sim, haveria de me reconhecer."

"A característica dos espetáculos sublimes é justamente esta, de se apoderarem de todos os espíritos e fazerem de todos os circunstantes simples espectadores. Ninguém, talvez, se dava conta do que estava sentindo. Ninguém, sem dúvida, se capacitava de que estava vendo resplandecer ali uma grande luz; interiormente, todos estavam deslumbrados. (...) Toda aquela multidão compreendeu de repente, e com um único olhar, a simples e magnífica história de um homem que se entregava para que outro não fosse condenado em seu lugar."

Javert, parece que a opinião de Victor Hugo sobre a tal  "bondade injusta" é bem diferente da sua - diário #02:
"A impiedosa alegria honesta de um fanático em plena atrocidade conserva não sei que brilho lugubremente venerável. Sem que o percebesse, Javert, em sua formidável felicidade, era digno de lástima, como todo ignorante que triunfa. Nada tão pungente e terrível como aquela figura em que se mostrava o que poderíamos chamar de lado mau da bondade."
➻       Fantine ✞.
 Qu'elle repose en paix.

➻ - É sério isto, Victor Hugo? Você vai mesmo descrever em detalhes a batalha de Waterloo?! Mas, mas... Por quê?

Oh, céus.... Sentando e apertando os cintos, pois lá vem história.


"(Bonaparte) Ele, sozinho, valia mais que toda a humanidade. Essa superabundância de vitalidade humana concentrada em uma única cabeça, o mundo subindo ao cérebro de um homem, seria fatal para a civilização, se continuasse. Chegara o momento em que devia intervir a incorruptível equidade suprema. (...) Napoleão tinha sido denunciado ao infinito, e sua queda já estava decidida. Tornava-se incômodo a Deus. Waterloo não era uma batalha; era a completa mudança da face do universo."

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