29/06/2015

Pais e Filhos - Ivan Turguêniev

(info, sinopse, etc.)

Antes de qualquer coisa, recomendo fortemente este vídeo com a professora Elena Nicolaevna Vássina, pois é muito mais proveitoso do que as xaropadas que registro aqui.



Pontuando breves impressões de leitura:

 Esse é mais um daqueles grandes livros que admite uma pluralidade de interpretações, encerrando múltiplos significados e temas. O "Pais e Filhos" do título surge no texto:

1. em nível mais primário e singelo, em referência à óbvia dinâmica da relação estabelecida entre pais e filhos.

Especificamente, como os respectivos protagonistas são pais com mais de 40 anos e filhos já adultos com pouco mais de 20 anos, é principalmente desse momento da relação de que trata Turguêniev; quando os filhos partem para construir suas próprias vidas, desgarrando-se da segurança do lar paternal; enquanto os pais, ao mesmo tempo que orgulham-se e torcem pelo sucesso e felicidade dos filhos, acabam padecendo da síndrome do ninho vazio.

Curiosamente, Turguêniev apresenta os russos (pelo menos aqueles do interior, fora dos grandes centros urbanos) como pais extremamente carinhosos, voltados a demonstrações públicas de afeto. Achei bem bonitinho.

2. ampliando essa questão, a expressão do título também aparece como referência à dinâmica estabelecida na sucessão das gerações, independentemente do estrito vínculo filial. Turguêniev aborda o embate interno e externo travado pelo encontro simultâneo entre o "novo" e o "velho"; nas mais diversas esferas: comportamento, ideias, política, ética, moral, arte, ciências, tecnologias, etc.

3. por fim, essa mesma questão das gerações pode ser afunilada ainda mais considerando-se o contexto histórico específico em que o livro fora publicado na Rússia, período de grandes mudanças, entre as quais o fim da servidão e a queda de braço entre o velho conservadorismo aristocrata e a nova burguesia liberal.

Considerando-se o que disse a professora no vídeo, acho realmente fantástico que um mesmo livro tenha conseguido provocar irritação dos dois lados.

 Claro, o livro trata bastante do niilismo, e fiquei ruminando ~aqui para comigo~: como faz para tocar a vida, quando não acredita-se em nada, a começar pela própria existência? Da maneira com que é exposta no livro, trata-se de uma filosofia que, além de negar tudo, não propõe coisa alguma que possa conferir a validade ou o sentido ausente das coisas. Para que viver nessas condições, é o que pergunto-me.

Essa reflexão me consumiu especialmente quando Bazárov revela negar até mesmo todas as formas de arte: música, literatura, pintura, escultura, etc. Como nosso niilista, eu também nego muitas coisas, mas arte?! Não, arte eu não posso negar em absoluto, pois, como diz a famosa assertiva de Nietzsche (na qual acredito piamente): "temos a arte para não morrer da verdade.".

Nesse sentido, SPOILER a morte tão prematura de Bazárov, embora trágica, pareceu-me algo lógica.


" O velho que morre já teve tempo de desabituar-se da vida, enquanto eu...Vá lá negar a morte. Ela é que me nega e basta!"

➻ Bazárov = ♥. A realidade é que identifiquei-me com ele (especialmente meu "eu" adolescente) mais do que eu gostaria de admitir. O rapaz é um grandessíssimo escroto, com uma atitude blasé e indiferente a absolutamente tudo (pais inclusive, coitados); mas suas contradições e suas fraquezas mostram-se tão humanas e reais, que eu não consigo resistir. Amei detestá-lo; detestei amá-lo.

Ele entrou no meu seleto grupo de personagens intitulado "jovens chatos e adoráveis", até então protagonizado por Hamlet, Julien Sorel e Holden Caulfield. Amo todos.

➻ Para mim, um dos momentos mais ordinários  de Bazárov:
"- Seu pai toca violoncelo?
- Toca.
- Quantos anos tem seu pai?
- 44 anos.
Bazárov desatou a rir ...
- Por que ri?
- Veja só! Aos 44 anos de idade, o homem, pater familias, em plena província, toca violoncelo!
Bazárov continuou rindo, mas Arcádio, por maior respeito que nutrisse pelo preceptor, desta vez sequer sorriu."

➻ A dinâmica entre Bazárov e Páviel também foi algo que achei completamente genial. Além dos muitos risos proporcionados, foi extremamente interessante testemunhar a aversão mútua despertada puramente pela identificação, pelo horror da imagem refletida pelo espelho do tempo.

➻ O grupo de personagens femininas, a despeito da coadjuvação, também é bastante instigante, pois há uma diversidade de personalidades que, suponho, também parece refletir o momento histórico russo. Aparentemente, algumas mulheres começavam a tornar-se mais independentes e a almejar algo além do papel da figura materna russa - mas parece haver no texto um tom crítico, senão apenas dúbio, em relação a isso; não sei bem como avaliar.

Na figura de Ana Odintsova, Bazárov acabou encontrando, por exemplo, uma aproximada versão feminina de si mesmo, ainda que muito melhor resolvida.
"Como todas as mulheres que não amaram de verdade, ela não sabia o que desejava. Propriamente não queria coisa alguma, mas parecia-lhe que aspirava a muito."
➻ Bazárov distribuía uns xingamentos que definitivamente preciso incorporar ao meu arsenal diário (* crédito também cabe ao tradutor da edição que li: Ivan Emilianovitch):
"esses aristocratas de província."
"aristocratóides crapulosos."
"burguesinho sentimental  e liberalóide"
"aquele fidalgote."
➻ Pensando também que, sem planejar, acabei lendo recentemente três livros que, de certo modo, tratam de um momento histórico similar vivido por países diferentes: O Leopardo, Os Miseráveis e Pais e Filhos. Turguêniev explicitamente chamou minha atenção para essa coincidência:
"Vassíli Ivanovitch, durante o jantar, andava pela sala, com expressão feliz, falando sobre os receios inspirados pela política de Napoleão e pela complexidade da questão italiana."
➻ Terminada a leitura, quanto mais eu penso nesse livro, mais eu gosto dele. Foi, realmente, uma grata surpresa.

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