07/06/2015

The Rabbi's Cat - Joann Sfar

(info, sinopse, etc.)

Inspirado na ascendência judaica, no próprio gatinho de estimação e nas fábulas de La Fontaine, o quadrinista francês Joann Sfar (li a edição em inglês, mas a obra é francesa - Le Chat du Rabbin) escreveu esta história que se passa na década de 30 sobre uma tradicional família de judeus da Argélia (então colônia francesa) composta por um rabino viúvo, sua filha Zlabya e um gato que assume o papel de narrador personagem.


Este  primeiro volume é composto de três fascículos:

Fascículo 1 - Bar Mitzvah: após comer o papagaio de estimação da família, o gato do rabino torna-se capaz de falar e, assim, de revelar mais explicitamente sua peculiar personalidade. Ele "mente", desafia o mestre com questionamentos filosóficos e teológicos, e exige o Bar Mitzvah;


Fascículo 2 - Malka of the Lions: o rabino prepara-se para submeter-se à prova do Consistório Judeu da França a fim de tornar-se o rabino oficial da região, e sua filha conhece o futuro esposo;
Fascículo 3 - Exodus: a família viaja a Paris para conhecer os sogros de Zlabya.

Sobretudo graças às personagens extremamente cativantes, a história do quadrinho é bastante envolvente. Esteticamente, ele também é muito bonito; valendo destacar os cenários desenhados detalhadamente, a rica e variada combinação de cores terrosas e a letra dos balões escrita como um manuscrito em caligrafia cursiva.

Sfar e a inspiração felina. (via)
A temática, de fácil dedução, centra-se em torno do judaísmo e, especificamente, da realidade e do ponto de vista dos judeus sefarditas que viviam sob a dominação colonial francesa (extensiva ao campo religioso), entre muçulmanos e franceses não judeus. Aliás, preciso fazer uma pausa para esclarecer que, embora eu tenha escrito aquele "sefardita" como se fosse a coisa mais óbvia e banal do universo, a verdade é que essa foi apenas uma das muitas particularidades do judaísmo que aprendi com esse quadrinho.

Ressalvo, porém, que a proposta de Sfar não consiste necessariamente em apresentar o judaísmo a leigos. Através do gato - especulo que seja quase um alter ego do autor - e de diversas situações envolvendo o rabino, percebe-se facilmente que Sfar, na verdade, questiona muitos elementos relacionados à tradição judaica. Eliminando qualquer dúvida quanto a essa minha impressão, o site Jewish Review of Books traz uma matéria em que afirma o seguinte: "Certainly, he makes no secret of his aversion to rabbinic orthodoxy. Jewish law is, as he puts it in the Groensteen interview, “absurd” and “Jesuitical,” and Judaism is often a “teaching of hyperbolic guilt.” Contudo, aos meus olhos de leitora leiga gentia, a narrativa de Sfar não chega a construir uma condenação e/ou crítica veemente ao judaísmo. Ele pareceu-me demonstrar uma posição ponderada sobre o tema, mostrando-se capaz de oferecer simultaneamente enaltecimento, questionamento, defesa e, em certos momentos, desaprovação explícita.

Jewish Review of Books destaca também que Sfar costuma colocar seus personagens judeus interagindo com não judeus fora da comunidade tradicional, o que de fato ocorre em Le Chat du Rabbin, onde o rabino relaciona-se pacificamente com muçulmanos.

E relacionadas ao contexto histórico, aparecem ainda críticas dirigidas à influência invasiva e, de certo modo, quase violenta  dos judeus franceses sobre os judeus argelianos.

O mais interessante (e inusitado) que descobri através desse quadrinho, porém, foi isto: cabras são capazes de escalar galhos de árvores até grandes alturas para comer frutas de acácias. Pesquisando mais a fundo esse tema de grande relevância animal, achei evidências de que a habilidade delas estende-se inclusive para muralhas bastante íngremes. Fascinante.

  
(via)

Aliás, só por ter-me apresentado a uma realidade que eu ignorava por completo, essa leitura já valeu muito a pena.

Em 2011 foi lançada a adaptação animada dirigida pelo próprio Sfar, com dublagens no texto original francês (gato falando francês é muito mais legal). Segue o trailer:


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