22/06/2015

To Kill a Mockingbird - Harper Lee

     

É possível sair incólume compartilhando amargura em relação a um livro 1. ganhador do Pulitzer, 2. aclamado unanimemente (ou quase), 3. favoritado e amado por muitos leitores - entre eles a Oprah (♥) - e 4. cuja mensagem contra o racismo é amplamente recebida como positiva? Estou quase suando frio, pois ousarei essa proeza, já que minha experiência de leitura com To Kill a Mockinbird não sobreviveu às altas expectativas.

A Flannery O'Connor fez um comentário sobre a obra que, embora soe um pouco duro, acaba, sim, aproximando-se da frustração que senti durante essa leitura:  "It's interesting that all the folks that are buying it don't know they are buying a children's book." E um artigo do Guardian emenda com um sumário da intenção subentendida no comentário de O'Connor: "a story of good and evil, without greys or nuance or character development". De fato, foram exatamente essas as impressões que tive em relação ao livro.

(info, sinopse, etc.)
Não me agradou a condescendência exagerada (como senti) oferecida ao leitor e ao tema, o qual restou explorado de modo maniqueísta, superficial e pouco sutil; com um desenrolar bastante previsível. Harper Lee entrega uma história que apenas patina na superfície do iceberg.

As personagens são bem planas e pouco desenvolvidas, mas entendo que isso parece ter sido uma escolha intencional e apropriada ao texto de Lee, visto que elas surgem no livro apenas como símbolos de cada um dos elementos envolvidos na complexa dinâmica do racismo nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a compreensão dessa escolha narrativa não evita meu desapontamento pela ausência de um subsídio literário que usualmente me agrada. E pior: como a forma com que o tema foi explorado não me instigou, acabou sobrando pouca coisa da qual eu pudesse gostar.

O modo com que ela desenvolveu a perspectiva das crianças em relação ao argumento da história também acabou me irritando de modo recorrente. A meu ver, a valiosa vantagem que crianças oferecem na discussão de temas complexos ou, digamos, "adultos" (se é que isso existe), é que, como ainda não foram corrompidas por visões viciosas e preconceituosas, elas são capazes de abrir os olhos do adulto para uma perspectiva que encontrava-se inacessível, ou seja, elas são capazes de tirar o adulto do transe "vê, mas não enxerga". Nessa primeira leitura, não acho que Harper Lee soube aproveitar bem a oportunidade oferecida por esse recurso, pois suas personagens infantis apresentaram-se, com algumas exceções, variavelmente inverossímeis; parecendo adultos que despejam no leitor aquele mesmo discurso pronto e simplista de quem se coloca em uma espécie de pedestal moral. A mim, houve frequentemente a sensação de estar diante da Harper Lee disfarçada de criança me dando a mais óbvia e superficial lição de moral - praticamente um Geninho da She-ra. Honestamente, senti-me muitas vezes como este gatinho:

Awn, como é fofinha a minha leitora que não sabe de nada.
Deixe a tia Lee lhe ensinar umas coisinhas sobre racismo, que todas as pessoas são iguais.
Não pode julgar ninguém pela cor da pele ou classe social, tá bom?

Algo que achei válido e interessante no livro é que a autora, em muitos momentos, amplia a discussão do preconceito racial, demonstrando que a intolerância e violência contra os negros surge como uma pavorosa faceta de um vil comportamento humano maior: os julgamentos de pessoas baseado unicamente em critérios pífios como cor de pele, classe social, grau de instrução, religião, nacionalidade, sexualidade, ~gosto literário~... (é, não resisti à oportunidade de já tentar me defender.)

"You never really understand a person until you consider things from his point of view, (...) until you climb into his skin and walk around in it."

O início do livro também foi algo de que gostei muito. Chorei de rir com as primeiras experiências da Scout na escola e com as interações frustradas da nova professora tentando adaptar-se à realidade peculiar daquela cidade interiorana. Acho que Harper Lee se saiu muito bem no retrato que fez daquelas cidades típicas do sul americano, desnudando todas as idiossincrasias que repercutem na complexa relação estabelecida entre brancos e negros.

Voltando ao comentário da O'Connor: é óbvio que dizer que um livro é escrito para crianças não é necessariamente uma crítica em si (apenas não era o que eu esperava, nem o que eu estava disposta a ler). Acho que To Kill a Mockinbird é um excelente ponto de partida na abordagem do tema com crianças, apresentando-se como um fantástico material para discussão por professores - como ocorre nas escolas dos EUA - e pais com o público infantojuvenil. De certo modo, a própria simplicidade da história fortalece sua capacidade de despertar o interesse e de chamar a atenção para essa questão que, infelizmente, ainda é tão atual.

(P.S.: Chutaria que ter lido Toni Morrison no começo do ano igualmente não parece ter favorecido para o sucesso do meu encontro com Harper Lee.)

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