12/06/2015

Waiting for Godot - Samuel Beckett

(Esperando pelo lampejo que materializará a ideia excepcional do que escrever sobre essa peça..............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................










Reparei que ~todo mundo~ apela para trocadilhos infames e simulações duvidosas da narrativa de Beckett na hora de resenhar esse livro e decidi engrossar o caldo. ¯\_(ツ)_/¯ 
A verdade é que, como minha situação encontra-se ligeiramente melhor que a do Didi e do Gogo, ainda disponho de discernimento para acertadamente desistir de esperar pela excepcionalidade e contentar-me com as palermices.


(info, sinopse, etc.)
Para que não haja dúvidas, começo pelo mais básico e relevante: essa peça é sensacional.

O que acho mais notável no excelente texto de Waiting for Godot é que ele revela-se capaz de admitir, concomitante e complementarmente, diversas interpretações distintas, reunindo uma multiplicidade de significados. Do site enotes:

It has been seen as existentialist (depicting man as lost as insecure in a world without God); Marxist (representing man turning away from his capitalist society, and embracing socialism and communism as alternatives to political alienation); Freudian (Vladimir represents the ‘ego’, Estragon represents the ‘id’); and Christian (the play as a parable illustrating man’s need for salvation). Yet, while these theories have some validity, they are all open to debate. They reflect a complex culture but limit understanding of the play. “The great success of Waiting for Godot,” Beckett said, “had arisen from a misunderstanding: critic and public alike were busy interpreting in allegorical or symbolic terms a play which strove at all costs to avoid definition.”

No início da leitura, confesso que eu estava certa de que Beckett estava falando a respeito daquela espera de caráter religioso, a espera do retorno à Terra do Deus Salvador; agarrando-me ao atalho preguiçoso "God ↔ Godot". Não demorou muito, porém, para que eu percebesse que aquele texto era muito maior do que isso, mesmo porque, como a própria peça demonstra, a espera por Godot - um "não sei o que, não sei quem" que nos trará O sentido de tudo, que performará A mágica aguardada em nossas vidas - não é uma exclusividade dos religiosos. Aliás, suponho que a situação dos indivíduos que têm uma religião seja até diferente daquela de Vladimir e Estragon - talvez menos exasperante -, pois estes, ao contrário daqueles, não podem contar sequer com uma pista a respeito do que raios esperam.

Dessa maneira, penso que afirmar que Waiting for Godot trata do absurdo equivale a dizer que a vida é um absurdo; afirmativa que acato sem resistências. E que absurdo difícil de compreender, não? Pior: mesmo cientes de que o desespero em tentar compreendê-lo pode nos destruir, não conseguimos desapegar facilmente da investida.

A paranoia metafísica que me foi proporcionada pela leitura foi +/- esta:

"Não sei:
quem sou, por que estou aqui, o que exatamente é esse "aqui", o que/quem estou esperando, o que eu quero, o que fiz da minha vida, o que fazer da minha vida, o que farei da minha vida, para onde fui, para onde irei, por que não acabo com tudo, se estou feliz, se estou infeliz, o que é ser feliz, o que é ser triste, ...

Se algum dia eu soube, esqueci.

E para que me preocupar com tudo isso, se não há nada que eu possa fazer?"


Algumas passagens:


ESTRAGON:
( giving up again). Nothing to be done.
VLADIMIR:
(advancing with short, stiff strides, legs wide apart). I'm beginning to come round to that opinion. All my life I've tried to put it from me, saying Vladimir, be reasonable, you haven't yet tried everything. And I resumed the struggle.
 O famigerado "aceita, que dói menos". 


ESTRAGON:
( feebly). Help me!
VLADIMIR:
It hurts?
ESTRAGON:
( angrily). Hurts! He wants to know if it hurts!
Tão engraçado, mas também tão explicitamente desconsolante...


ESTRAGON:
I'm unhappy.
VLADIMIR:
Not really! Since when?
ESTRAGON:
I'd forgotten.
VLADIMIR:
Extraordinary the tricks that memory plays!
(...)
ESTRAGON:
We are happy. (Silence) What do we do now, now that we are happy?
VLADIMIR:
Wait for Godot.

Achei também muito interessante os vários momentos nos quais Beckett explora, a meu ver, a ideia de que estamos sempre desesperadamente em busca de algo para ocupar e fazer passar nosso tempo. O ócio e o silêncio costumam ser evitados a qualquer custo, pois, como diz o ditado, "mente vazia, oficina do diabo"; eles cedem espaço ao pensamento e à consciência do tédio da existência. 
VLADIMIR:
Oh it's not the worst, I know.
ESTRAGON:
What?
VLADIMIR:
To have thought.
ESTRAGON:
Obviously.
VLADIMIR:
But we could have done without it.
... 
VLADIMIR:
All I know is that the hours are long, under these conditions, and constrain us to beguile them with proceedings which –how shall I say– which may at first sight seem reasonable, until they become a habit. You may say it is to prevent our reason from foundering. No doubt. But has it not long been straying in the night without end of the abyssal depths? That's what I sometimes wonder. You follow my reasoning?

E, como se já não bastasse, Beckett ainda mostra-se capaz de explorar esses complexos temas construindo um texto simplesmente hilário. Jamais desistirei de defender que, mesmo para falar de coisas difíceis, o humor não precisa, nem deve, ser posto de lado. Afinal, em consonância com a própria peça, o humor nada mais é do que um dos artifícios dos quais dispomos para apaziguar nossa espera. Por favor, aprendam isso, pós-modernistões. 

(via)

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