08/07/2015

Os Miseráveis - Victor Hugo / Diário de Leitura #04

Estou lendo Os Miseráveis pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com entradas semanais.

Detalhes relevantes: é meu primeiro contato com Victor Hugo, nunca li nenhuma adaptação literária de Os Miseráveis e nunca vi suas adaptações a musicais ou filmes. Da narrativa, só conheço mesmo os nomes de algumas personagens famosas e o contexto histórico aproximado. Também já sei que há uma minuciosa descrição do sistema de esgoto parisiense (medo) e que encontrarei muito drama, com risco de lágrimas. 

Programação inicial: ~ 150 páginas/semana
Duração total estimada: 13 semanas
Início da leitura: 08/06/2015
Fim: 06/09/2015
Posts anteriores: #01, #02, #03

SEMANA #04
(Págs. 486 a 632.  Cosette - Livro Primeiro ao Quarto.)

Sobrevivi à descrição da batalha de Waterloo, e nem doeu (muito). 


Terminada a longa descrição do confronto, Victor Hugo oferece uma interessante reflexão acerca do que a derrota de Napoleão e a Restauração representaram em termos práticos; não apenas para a França, mas também para a Europa. Essa passagem acaba corroborando, de maneira ainda mais explícita, a minha impressão de que Os Miseráveis é, praticamente, um amplo ensaio político, sociológico e histórico disfarçado de romance ficcional.
"Que foi Waterloo? Uma vitória? Não. Uma partida. Partida ganha pela Europa e paga pela França. É inútil colocar aquele leão lá. (...) Waterloo (...) é intencionalmente uma vitória contrarrevolucionária. (...) é o status quo contra  a iniciativa, é o 14 de julho de 1975 atacado pelo 20 de março de 1815, é o toque de combate das monarquias  contra a indomável sublevação francesa. (...) Não vejamos em Waterloo senão o que realmente existe em Waterloo. Nenhuma liberdade intencional. A contrarrevolução era involuntariamente liberal, do mesmo modo que, por um fenômeno correspondente, Napoleão era involuntariamente revolucionário. A 18 de junho de 1815, Robespierre foi apeado de seu cavalo."
(via)
O capítulo XV - Cambronne, no qual Victor Hugo filosofa sobre o que esconde-se por trás do "Merde!" que o soldado francês rendido exclama diante do general inglês, é uma das coisas mais fantásticas que já li. Por favor, não subestimemos o poder catártico inerente ao ato de mandar alguém à merda.

"Dizer essa palavra e morrer em seguida que pode haver de maior?! (...) Fulminar com essa palavra o trovão que o esmaga é vencer. Dar essa resposta à catástrofe, falar assim ao destino, construir essa base para o futuro leão, (...) ser irônico à beira do sepulcro; (...) afogar em apenas duas sílabas a coligação europeia, (...) Essa palavra de titânico desdém, Cambronne não a lança somente ao rosto da Europa, em nome do Império; seria muito pouco; lança-a ao passado, em nome da Revolução. Nós a ouvimos, e reconhecemos em Cambronne a velha alma dos gigantes."

E, com outras palavras, Victor Hugo também reforça a emblemática frase do livro de Tomasi de Lampedusa, O Leopardo - "Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude.":
"Esse 1815 foi uma espécie de abril triste. (...) o direito divino escondeu-se por trás de uma Carta, as ficções tornaram-se constitucionais, os preconceitos, as superstições e as segundas intenções, com o artigo 14o. no coração, envernizaram-se de liberalismo. Simples troca de pele de serpentes."

Será mesmo possível que o execrável Thénardier vai se dar bem em cima do oficial frânces Pontmercy que, coitado, acreditou que ele o salvava da cova, quando apenas o roubava? (Registrando aqui para acompanhar o desenrolar dessa passagem nas próximas páginas.)


Victor Hugo, depois do judiciário, lança agora sua mordaz ironia crítica também à imprensa francesa, desmascarando sua hipocrisia e incompetência. A-DO-RO.
"O segundo artigo, (...) do Journal de Paris (...): 
(...) Jean Valjean, (...) foi desmascarado e preso, graças ao zelo infatigável do Ministério Público. Tinha por concubina uma mulher de rua, morta de susto por ocasião de sua captura. (...) acusado de roubo a mão armada. (...) ficou estabelecido, pelo hábil e eloquente órgão do Ministério Público, que o roubo fora cometido com a cumplicidade de outros malfeitores. (...) foi condenado à pena de morte. O criminoso recusou-se a pedir clemência, mas o Rei, em sua inegável bondade, dignou-se comutar-lhe a pena para trabalhos forçados por toda a vida."

"(...) crê-se que o diabo, desde tempos imemoriais, escolheu a floresta para aí esconder seus tesouros. (...) um homem negro, (...) que se reconhece logo porque, em vez de boné ou de chapéu, tem dois chifres enormes na cabeça. (...) Então a gente vê que não passa de um pacato camponês; parece negro por causa do crepúsculo, (...)"


Eita; mas não faz isso, Victor Hugo. Haja contextualização para te defender.


Há momentos em que a trajetória narrada para o Jean Valjean caracteriza-o quase como um ser divino sobrenatural. Sem muitas explicações, ele, um cara de 55 anos de idade (dos quais 19 passados em trabalhos forçados), aparece e desaparece miraculosamente do nada. O Javert, por sua vez, seria seu nêmesis, a entidade demoníaca no pólo oposto.

Victor Hugo, às vezes, pesa realmente a mão na polarização das personagens (que reflete-se até na descrição física): ou são extremamente boas - beirando a santidade -, ou são extremamente más - beirando o diabólico. É algo que me incomoda um pouquinho, mesmo ciente de que isso era comum nos romances daquela época.


De fato, estes são temas muito recorrentes na narrativa:

acaso, destino, providência divina, "estava escrito nas estrelas", "Deus está no comando".


Eu já sabia que ia para o inferno, mas, sabe como é, sempre resta um resquício de esperança escondidinho no íntimo quanto à possibilidade de salvação. Porém, depois de ler a passagem sobre a vida miserenta da pobre Cosette, não me resta mais qualquer esperança de burlar o destino fatídico. 

Explico-me: no trecho em que Victor Hugo vivamente descreve o enorme perrengue da garotinha de oito anos para conseguir carregar, por várias léguas de distância, um galão de água à noite, no meio do breu (é; tome-lhe drama), como é que eu reajo quando diz-se que ela, desesperada, exclama "Ó meu Deus, meu Deus!" ?  Isso mesmo; assim:


Não tenho salvação, tenho? O pior: sempre que eu me lembro da cena, eu rio! Se estou rindo agora mesmo? É possível, é possível. 


Engraçado que, de certo modo, Victor Hugo provoca a sensação de que existe uma palavrinha mágica capaz de resolver uma quantidade enorme de problemas: ~DINHEIRO~. O Valjean, qualquer coisinha é: "pois tome cá tantos francos" = problema resolvido. Caberia encarar Os Miseráveis também como uma crítica contra o capitalismo? Devaneando aqui.


Victor Hugo estava inspirado quando descreveu a Mme. Thénardier:

"Era o ideal do carregador de mercado vestido de mulher."

"...era como o produto do enxerto de uma donzela em uma peixeira." 

"mastodonte."

"aquela montanha de ruídos e carne movia-se."


O Brasil aparece no livro! Quero dizer, mais ou menos: Victor Hugo cita um grupo de saltimbancos que possuíam "(...) um desses temíveis abutres do Brasil que o nosso Museu Real não conseguiu adquirir senão depois de 1845 (...) os naturalistas chamam-no, creio eu, de Caracara polyborus (..)", ou seja, um carcará.

(via)

Houve uma passagem um tanto datada e controversa envolvendo identidade de gênero e o papel da mulher na sociedade:
"Uma boneca é das mais imperiosas necessidades e, ao mesmo tempo, um dos mais encantadores instintos da infância feminina. (...) imaginar que alguma coisa é alguém, aí está todo o futuro da mulher. (...) Uma menina sem boneca é quase tão infeliz e quase tão impossível quanto uma mulher sem filhos."

Sinto muito, Harry, mas a Cosette já dormia embaixo da escada antes de você lançar a modinha.
"Tratava-se da parte inferior dos degraus. Ali, rodeada por toda espécie de cestas e trastes velhos, no meio da poeira e das teias de aranha, havia uma cama, se é que poderemos chamar de cama uma enxerga esburacada, com as palhas à mostra e um cobertor rasgado. Não havia lençóis e estava colocada diretamente no chão. Ali dormia Cosette."
E, comparada a de Cosette, sua acomodação era até bem confortável, Harry.


Estabelecendo um paralelo com o comentário que fiz no DL #02 quanto ao analfabetismo que era ressaltado nos miseráveis: será que a passagem na qual Valjean ensina Cosette a ler e escrever é um sinal de que o destino da garotinha será feliz e, também respondendo à minha pergunta, diferente ao de sua mãe? Cenas dos próximos capítulos.
"Jean Valjean começou a ensiná-la a ler. Por vezes, enquanto fazia a menina soletrar, pensava que fora com a ideia de fazer mal que havia aprendido a ler nas galés. Agora ensinava a ler a uma criança. Então o velho grilheta sorria com o sorriso pensativo dos anjos."

O Javert achou mesmo Valjean?! Gente...

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