28/09/2015

Um, nenhum e cem mil - Luigi Pirandello


E não é que, às vezes, pode ser vantajoso conhecer de antemão as sinopses dos livros?  Explico: como já li no início desse ano "Acontecimentos na Irrealidade Imediata", do Max Blecher; acho que teria sido mais astucioso ter reservado a leitura de "Um, nenhum e cem mil" (tradução de Maurício Santana Dias) para outro momento, visto que ele também explora as noções de realidade e identidade. 

De qualquer modo, o prejuízo não foi grande, pois a prosa do Pirandello é completamente diferente daquela que encontrei na obra de Blecher. O estilo do italiano, nesse livro, é muito mais informal e coloquial, utilizando a voz de um narrador protagonista que dialoga diretamente, de forma muito instigante e prazerosa, com o leitor.

E considerando-se que, do meu parco arsenal de leituras, eu consegui estabelecer de forma imediata - quase em déjà vu - três diálogos literários bastante próximos; esse tema parece ser mesmo frequentemente explorado na Literatura:


 ...


 ...


20/09/2015

[Mad Men Reading List] Lady Chatterley's Lover - D. H. Lawrence


A New York Public Library montou uma listinha de 25 livros que apareceram na série Mad Men, e fiquei com vontade de encarar alguns* daqueles títulos. Começo com Lady Chatterley's Lover porque, além de ter sido um dos primeiros que apareceram na série (S01E03 - Marriage of Figaro), meu exemplar fora aquirido exatamente depois que assisti à ótima cena em que a obra é discutida (ou seja, dei-me conta de que meu livro estava pegando poeira na estante há cerca de sete anos!). 

1. Queda e declínio do império romano? Sério, Sally?;  2. Desculpa, mas tenho preguiça eterna de Mark Twain;  3. Dois pés atrás com Thomas Pynchon ; etc, etc. )

Vou me intrometer no papo das secretárias da Sterling Cooper Agency para registrar algumas impressões de leitura:


-  err, not quite. 

Ao contrário do que eu supunha, o livro de D. H. Lawrence não se propõe a simplesmente narrar uma boa história sem ignorar a vida sexual das personagens, ou, de outro modo; não trata-se apenas de demonstrar que há, sim, espaço na Literatura para tratar abertamente de sexo. A verdade é que o livro nos apresenta a um autor disposto a defender certa bandeira valendo-se da temática sexual como principal munição.

Em Lady Chatterley's Lover, Lawrence prega contra a industrialização (como executada) e contra a estratificação social. Ele acusa a sociedade de sua época de futilidade e superficialidade, afirmando que ela constituía-se de indivíduos que só pensavam em dinheiro e sucesso, de modo que, em tal transformação, até o sexo havia sido colocado em segundo plano, tornando-se mais uma ocasião para performance social. Em contrapartida e com algumas ressalvas, ele parece mesmo sustentar uma proposta do tipo "conectemos com nossas emoções, vamos voltar para a natureza, preservar o belo e transar livremente e com intensidade; a estratificação da sociedade é uma falácia, só dinheiro não traz felicidade, yada, yada, yada." (base para o futuro o movimento hippie?...) Imagino tratar-se de um discurso compreensível para aquele período entre guerras, mas acabei achando o tom recorrentemente enfadonho.

A própria paraplegia do Clifford, um aristocrata inglês pseudo-intelectual aspirante a grande escritor, aparece também para que Lawrence espezinhe os colegas escritores, insinuando que seriam um bando de intelectualoides narcisistas despidos de qualquer paixão, produzindo uma arte vazia, egocêntrica e sem sentimento.

Que o autor defenda um ponto de vista valendo-se do sexo como argumento, tudo bem; o problema, a meu ver, está em executar tal premissa de modo excessivamente explícito e artificial. Lawrence injeta as suas próprias convicções nos pensamentos e falas de personagens completamente insípidas e mal desenvolvidas, o que acaba tornando a narrativa muito pouco convincente, aproximando-a muito de uma obra panfletária. A caracterização das personagens me pareceu tão pobre, que eu simplesmente não conseguia engolir de modo contundente que aquelas pessoas pensavam mesmo naquilo. O autor usa um discurso indireto livre peculiar, às vezes parecendo flertar com múltiplos fluxos de consciências, e que eu não conseguia comprar por completo: "não, não, Lawrence, isso é coisa só sua; e não dessa personagem".

...


- With a bit of a struggled contextualization, I suppose I can too.

Muito barulho por nada. É realmente impressionante que tenha permanecido censurado nos EUA até a década de 60. 

...



- Exactly!

...



- Maybe they should, yes; but would they like what they'd find? I doubt it.

Veja bem, há diversas passagens nas quais o Sr. Lawrence expõe os homens como figurinhas meio, digamos, ridículas. Eles aparecem como indivíduos inseguros, "(...) too sensitive in the wrong place.",  que precisam ser tratados como bebês pelas mulheres.

Uma das minhas passagens favoritas é aquela em que Connie, completamente alheia ao ato sexual, dá uma espiada consciente na posição e nos movimentos executados pelo seu amante e acaba dando-se conta de que aquilo era um bocadinho deplorável:

"(...) her spirit seemed to look on from the top of her head, and the butting of his haunches seemed ridiculous to her, and the sort of anxiety of his penis to come to its little evacuating crisis seemed farcical. Yes, this was love, this ridiculous bouncing of the buttocks, and the wilting of the poor insignificant, moist little penis. This was the divine love! After all, the moderns were right when they felt contempt for the performance; for it was a performance. It was quite true, as some poets said, that the God who created man must have had a sinister sense of humor, creating him a reasonable being, yet forcing him to take this ridiculous posture, and driving him with blind craving for this ridiculous performance. Even a Maupassant found it a humiliating anticlimax. Men despised the intercourse act, and yet did it."

Outra deliciosa pérola do livro: o marido da Mrs. Bolton, traumatizado após testemunhar a esposa em trabalho de parto, só transava praticando coito interrompido, pois estava certo de que o perrengue do parto não era coisa de Deus. Como ela mesma afirma: (depois do parto) "I had a bad time, but I had to confort him." 

...



- But isn't it possible that that's what it really is, Joan? Tell me, what do you talk about, when you talk about marriage?

O D.H. Lawrence acaba propondo discussões ainda válidas (?) sobre o casamento. 

- A mais trivial de todas: qual o papel do sexo no casamento? Existe casamento sem sexo? E casamento só com sexo, sem nenhum diálogo? Basta ter algum/qualquer sexo, ou é preciso que ambos estejam satisfeitos em uníssono? Existe isso: ambos plenamente satisfeitos?

- O casamento resiste à ausência de filhos? Lawrence parece sugerir, p. ex., que o instinto maternal é forte o suficiente para determinar - mais cedo ou mais tarde - as condutas femininas... (Connie cede pela primeira vez aos encantos do futuro amante quando se emociona com os pintinhos de uma galinha! -- pelo amor de deus...)

- E difícil não parar para refletir acerca do discurso de Clifford Chatterley. Ele confidencia abertamente à esposa que não se importaria que ela mantivesse casos extraconjugais e nem mesmo em criar, como seu, um filho bastardo; desde que ela procedesse de modo discreto e respeitoso. Para Clifford, o casamento era um pacto eterno firmado entre duas pessoas no qual o companheirismo e o respeito mútuo era o que devia ser preservado. Mas, claro, cabe incluir na reflexão: será que ele também pensaria isso, se não fosse paraplégico?
“It would almost be a good thing if you had a child by another man,” he said. (...)
“But what about the other man?” she asked.
“Does it matter very much? Do these things really affect us very deeply? ... You had that lover in Germany... what is it now? Nothing almost. It seems to me that it isn’t these little acts and little connections we make in our lives that matter so very much. They pass away, and where are they? Where ... Where are the snows of yesteryear? ... It’s what endures through one’s life that matters; my own life matters to me, in its long continuance and development. But what do the occasional connections matter? And the occasional sexual connections specially. If people don’t exaggerate them ridiculously, they pass like the mating of birds. And so they should. What does it matter? It’s the life-long companionship that matters. It’s the living together from day to day, not the sleeping together once or twice. You and I are married, no matter what happens to us. We have the habit of each other. And habit, to my thinking, is more vital than any occasional excitement. The long, slow, enduring thing ... that’s what we live by ... not the occasional spasm of any sort. Little by little, living together, two people fall into a sort of unison, they vibrate so intricately to one another. That’s the real secret of marriage, not sex; at least not the simple function of sex. You and I are interwoven in a marriage. If we stick to that we ought to be able to arrange this sex thing, as we arrange going to the dentist; since fate has given us a checkmate physically there.”

... 



- A lot? Do they? Hum, that's not the impression I had.

Talvez por conta da censura, não sei, mas eu acreditava que iria encontrar algo mais, sei lá, eroticamente interessante? Estimulante? Excitante? Achei as descrições meio nhé.

Mas, porém, contudo, entretanto, todavia; cabe admitir que a descrição do Oliver Mellors - o digníssimo amante da Senhora Chatterley - permitiu que ele se materializasse fixamente na minha imaginação como o irmão gêmeo do Michael Fassbender; daí, já era: até sonho rolou e, quanto a isso, não digo mais nada.



...



- Totally agree, Joan.

Este aqui, por exemplo, é sem dúvidas um grande momento do livro: 
(He said) "That's got such a nice tail on thee. That's got the nicest arse of anybody. (...) It's a bottom as could hold the world up, it is. (...) An' if tha shits an' tha pisses, I'm glad. I don't want a woman as couldna shit nor piss."

Este também não fica atrás (no pun intended):
(...) the erect phallus (...). How strange! she said slowly. How strange he stands there! So big! and so dark and cock-sure! (...) So proud! And so lordly! Now I know why men are so overbearing! (...) A bit terrifying! But lovely really! And he comes to me! (...) And now he's tiny, and soft like a little bud of life! (...) so innocent (...) you must never insult him, you know. He's mine too. (...) And she held the penis soft in her hand."
Ah, e achei o primeiro  parágrafo do livro bastante provocativo (bem no espírito, suponho, daquele período histórico):
"OURS IS ESSENTIALLY A tragic age, so we refuse to take it tragically. The cataclysm has happened, we are among the ruins, we start to build up new little habits, to have new little hopes. It is rather hard work: there is now no smooth road into the future: but we go round, or scramble over the obstacles. We’ve got to live, no matter how many skies have fallen."
... 




- Too late. 

Traçando um paralelo com os tempos  atuais, essa  fala  é  bem  curiosa. Como  superficial ponto de partida: diz aí, por exemplo, quem nunca viu pelo menos um(a) passageiro(a) lendo 50 Tons de Cinza no ônibus/metrô sem demonstrar qualquer constrangimento? Será que disparou o radar de algum  tipo errado? Intrigada.

Seda - Alessandro Baricco

(info, sinopse, etc. / Ed. Rocco 97 traduzida por Elia Ferreira Edel)
"(...) era um daqueles homens que adoram assistir à própria vida, considerando desnecessária qualquer ambição de vivê-la. Daqueles que observam o próprio destino da mesma forma que observam um dia de chuva. (...) Sua vida chovia diante de seus olhos, espetáculo tranquilo."


Honestamente? Concedo-me o direito de registrar minha relação com essa leitura exclusivamente por meio de gif (algo sempre tentador, aliás). Nada mais a declarar.

(Mentira, pois: 1: É preciso ressaltar que minha experiência parece ser exceção entre os leitores da obra. Quem gosta de narrativas poéticas, melancólicas, reflexivas, líricas, minimalistas, sei lá, deve dialogar melhor com ela; 2: Detestei a personagem principal - Hervé Joncour; 3. Como é possível que esse tenha sido o segundo livro que leio explorando bicho-da-seda?! O primeiro foi Middlesex, do J. Eugenides. Peculiar. Bom, talvez seja a tentativa de explorar um símbolo mais instigante, em detrimento das manjadas borboletas; correto?)

16/09/2015

O amante - Marguerite Duras

(info, sinopse, etc.)

Peguei esse livro no escuro: não sabia nada sobre a história (nunca tinha visto a adaptação cinematográfica) ou sobre a própria Marguerite Duras (eu sei, eu sei). Como consequência, o título acabou tornando-se dissimulado, pois a obra é bem mais do que a suposta mera descrição romantizada de um caso amoroso.

O texto tem caráter autobiográfico e traz Marguerite Duras recordando seu passado, notadamente sua adolescência durante o início da década de 30 em Saigon, no Vietnam; onde morava com a mãe e dois irmãos. O pai havia falecido quando ela ainda era criança, pouco tempo depois da decisão de mudar-se com a família para a colônia francesa. Aliás, "Duras" foi escolhido pela autora, pois seu sobrenome de família era, na verdade, Donnadieu.

Aos 15 anos de idade, durante a travessia do rio Mekong, ela conhece o amante do título, um chinês de 27 anos filho de um rico empresário da região. Essa cena é descrita em detalhes - o que vestiam, as expressões corporais, a sequência de ações, a simbólica limusine preta do amante - e torna-se icônica; uma das "imagens" referidas pela escritora (e que parece ter ficado linda no filme).
Fonte
O relacionamento dos dois inicia-se de forma rápida e intensa, marcando o início da vida sexual da adolescente. Retomando o que falei no início, o livro é mais do que o simples relato desse caso. O amante surge na narrativa como a representação dos precoces, mas necessários, amadurecimento e libertação da personagem em relação à pobre e difícil vida em família. De forma ressentida e com severas palavras, ela expõe em destaque no livro a espinhosa relação com a mãe, a qual é retratada como uma mulher fraca, doente (depressão? t. bipolar?) e distante, incapaz de lidar com questões financeiras e que, acima de tudo, acobertava em predileção explícita os atos do irmão mais velho; por sua vez descrito como um rapaz violento, ocioso, drogado e viciado em jogatina. A mágoa da personagem surge ainda mais exacerbada ao entender que o irmão mais novo, que tanto amava, era a grande vítima daqueles dois. É um forte rancor familiar que entremeia toda a obra. Imagino que, àqueles que estudam Psicologia, o livro seja um verdadeiro deleite.

A estrutura narrativa reflete o exercício da retomada de memórias. O texto é bastante fragmentado, não havendo linearidade temporal entre os fatos descritos. Os parágrafos aparecem destacados uns dos outros, como flashes de lembranças ou breves momentos de digressões e reflexões comuns em tal processo. A autora frequentemente utiliza as expressões "a imagem" e "fotografia" - como aquela em que conhece o amante -; possivelmente no sentido de que, deste passado distante, persistem apenas momentos estáticos capturados na memória e que, como fotos, tentam eternizar aquilo que já não existe mais. Os tempos verbais e os sujeitos também se misturam e se confundem de forma recorrente, o que causou-me certo estranhamento inicial. Há momentos em que a personagem (a própria Duras) surge como a narradora em primeira pessoa valendo-se dos tempos verbais pretérito e presente, o qual, porém, alterna-se entre a representação do "presente" de quem se lembra e o "presente" de quem vive este passado rememorado (ora temos a Duras atual escritora, ora temos a Duras adolescente). Simultaneamente, há trechos em que essa mesma narradora em primeira pessoa vale-se do tempo verbal futuro, o qual representa o "futuro" da adolescente e o "passado" da atual escritora. Mais intrigante ainda são as passagens em que a autora parte para a terceira pessoa, falando de si mesma como "a menina" ou "a criança", o que parece sugerir uma incapacidade de reconhecer-se por completo naquela garota. Ficou confuso, mas isso é culpa apenas da minha incapacidade expositiva, pois a leitura do livro faz-se de maneira bem fluida. 

Em vista do peculiar estilo narrativo, não temos o quadro completo e detalhado da infância e adolescência da personagem, porém a escrita, extremamente rica e poética, deixa transparecer o quão impactantes foram. Em consonância à intenção confessada nas páginas iniciais, Duras revela seus sentimentos mais profundos no texto, sendo difícil manter-se completamente impassível.


                                          "Muito cedo, foi tarde demais em minha vida." 

Fonte

14/09/2015

Lolly Willowes (Sylvia Warner) & The Vet's Daughter (Barbara Comyns)

(sobre Lolly Willowes)    (sobre The Vet's Daughter)
Descobri esses títulos através da NYRB - New York Review Books, editora de cujo catálogo gosto e no qual confio bastante; e, sem que eu tivesse antecipado o íntimo diálogo que travariam, afortunadamente os li em sequencia. Foi possível identificar inúmeras e interessantes semelhanças entre eles, mas também algumas diferenças cruciais.

Tentando traçar um paralelo pontual e sumário, mencionaria o seguinte:

  Certa proximidade surge a partir das próprias autoras. Barbara Comyns (1909 - 1992) e Sylvia Townsend Warner (1893 - 1978) são britânicas, e acho que não seria extrapolação considerá-las relativamente contemporâneas entre si. Pelo pouco que consegui descobrir,  as duas escritoras parecem ter sido mulheres fascinantes. 

(fonte das informações: Goodreads)
  Quanto à narrativa, alguns elementos:


 A vida das duas protagonistas caracteriza-se por certas circunstâncias que, em suas bases e essências, podem ser consideradas algo próximas:

  The Vet's Daughter: Alice vive sob a sombra de um pai que aparece como uma figura masculina extremamanete violenta, autoritária, fria e amedrontadora. A mãe, mera empregada dentro de sua própria casa, chega a confessar-lhe que o marido casou-se com ela simplesmente pelo dinheiro. As duas vivem em um permanente clima de terror e medo, o qual Barbara Comyns constrói em sua prosa de modo bastante singular. O livro lembra uma espécie de conto de fadas gótico, no qual o trabalho do pai como veterinário - a casa da família apresenta-se com caveiras de macacos, cachorros deformados, um papagaio que ri nas situações mais inapropriadas - contribui para criar uma atmosfera meio ~David Lynchiana~ (existe isso?). Não sei apontar exatamente o segredo, mas o fato é que lê-se o livro com a certeza constante de que uma merda enorme vai acontecer na próxima virada de página. 


  Lolly Willowes: Quando o pai falece, o irmão de Laura - um advogado casado, conservador, religioso, pai de família - faz com que ela abandone a vida plenamente realizada que levava no interior para ir morar com sua família em Londres  - afinal, como poderia uma digníssima representante dos Willowes viver solteira e sozinha em uma casa do interior? Fora de qualquer cogitação. 
Laura passa a viver em um ambiente sufocante, no qual tentam casá-la a todo custo, mas sem sucesso. Ela vê-se obrigada a adaptar-se a uma rotina que não lhe pertence e a aceitar resignadamente a violência contra sua liberdade e individualidade: ela não é mais a Laura Willowes, mas sim a Tia Lolly, um mero agregado familiar acolhido no puxadinho da casa. 


→  No decorrer de ambas as narrativas, elementos mágicos e sobrenaturais surgem nas vidas das duas personagens. Observando algumas opções de capas desses livros, é possível inferir de quais fenômenos estou falando:


   (RESPOSTA: bruxaria, pacto com o diabo - gato como mensageiro - , levitação!)


  E é a partir desse ponto que os livros se distanciam de modo bastante relevante.

Laura não se assusta com a novidade sobrenatural. Ela mostra-se capaz de acolher aquele elemento mágico como algo que a distingue de modo especial; algo que a fortalece para a retomada das rédeas da própria vida; da sua independência e identidade.

Alice, por sua vez, não sabe lidar com a estranha habilidade. Talvez por ser muita mais nova que Laura - tendo a mente ainda plenamente lapidada pela sociedade/pai quanto ao papel que lhe "cabe" -, ela não consegue enxergar a distinta aptidão como algo positivo ou vantajoso para confrontar quem quer que fosse, até mesmo o pai. 


→  Há  uma   frase  de  Alice que   delineia  muito  bem  esse   ponto  em  que  as duas protagonistas se separam por caminhos diferentes (tradução livre minha):
(Alice) "Por favor, Deus, não deixe que isso aconteça comigo. Pai, não me obrigue a fazer isso. Eu não quero ser peculiar e diferente. Eu quero ser uma pessoa ordinária. Eu me caso com Henry Peebles e parto para que nunca mais você tenha que me ver - mas não me obrigue a fazer essa coisa terrível."
Embora não apareça explicitamente no livro de Sylvia Warner, é fácil deduzir, com mínima margem de erro, que Laura Willowes mandaria a seguinte contrapartida:

(Laura):  Eu não quero ser ordinária e normal, eu quero ser peculiar.


  Concluo refletindo a respeito de uma proposta que  pode  ser  assimilada  a  partir dessas leituras: que tal lutarmos contra o patriarcado com uma bruxaria e levitação de cada vez?




13/09/2015

My Uncle Napoleon - Iraj Pezeshkzad

(info, sinopse, etc.)

Encarei a leitura desse livro sob a influência da epifania avassaladora promovida pelo discurso da Chimamanda Adichie no Ted Talks - The danger of a single story.

Especificamente, foi assim: 1. uma moça inglesa apresenta o livro em um daqueles vídeos de Book Haul do You Tube (YT)  -  eu: "- hum, capa bem legal." - , 2. ela diz que o autor é iraniano  -  eu: "- say what?"  -  e 3. diz também que é uma popular comédia naquele  país -  eu: "- say whaaat?".  Ou seja: a lição da Chimamanda me deu um tapa na cara (- Pois é, os iranianos têm, sim, senso de humor, veja só. Dá para largar mão dos estereótipos e preconceitos, faz favor?) A vergonha e constrangimento foram tamanhos, que na mesma hora adquiri um exemplar.

O livro foi publicado em 1973 e, até onde pude compreender, parece ser mesmo um grande sucesso no país; tendo ganhado, inclusive, uma famosa adaptação para a TV iraniana - segue videozinho do YT:




Pelo que li em resenhas, a obra de Iraj Pezeshkzad também parece ser muito bem recomendada pela autora Azar Nasifi no seu livro "Lendo Lolita em Teerã"  (já na listinha de leitura).

Apelando para a salada de referências na tentativa de explicar sucintamente a história, eu diria que trata-se de uma espécie de Dom Quixote iraniano narrado através de uma prosa que lembra com algumas ressalvas o estilo do Ariano Suassuna, mais umas leves pitadinhas de Romeu e Julieta e, não sei, uns programinhas globais  talvez (novelinha + zorra total). Pois é.

Trata-se de uma comédia de costumes, uma sátira na qual as personagens são super caricatas e, não à toa, quase todas têm pelo menos um bordão repetido ad infinitum.  Rolam muitas piadas com peido, sexo, castração de maridos, chifres conjugais, brigas e fofocas familiares, tiros na bunda, trocadilhos infames e por aí vai.

A paranoia quixotesca do tio iraniano relaciona-se à história do próprio Irã: tendo - segundo ele próprio alega, veja bem - atuado nas lutas da Revolução Constitucional Iraniana, o tio patriarca da família vive de relatar peripécias megalomaníacas e heroicas durante tais conflitos. Com o advento da segunda guerra mundial, ele então passa a crer piamente que os ingleses retornarão para se vingar dele, restando contar com a ajuda de Hitler para se safar. (I know!!) Aliás, é dessa relação com os ingleses que surge sua admiração pela figura de Napoleão Bonaparte (razão do apelido).

Para ser bem honesta, comigo não funcionou muito.  O livro tem mais de 500 páginas e a fórmula tornou-se enfadonha e sem graça bastante rápido. Foram pouquíssimos os trechos em que efetivamente ri. De qualquer jeito, vale retomar a lição da Chimamanda: só por ter descoberto que, sim, iranianos também fazem piadas de teor escatológico e sexual, acho que já valeu a pena. Menos um estereótipo canhestro na minha vida. 

(olha aí o tio Napoleão.)
E há um bordão do qual não me esquecerei muito facilmente (pertencente ao Sancho Pança iraniano):

"Mash Qasem (...) every time we asked him a question he would first say, “Why should I lie? To the grave it’s ah . . . ah . . . !” 
And as he said “Ah . . . ah” he’d show four fingers and later on we realized he meant that since the grave was very close, only the width of four fingers away, one mustn’t tell lies."

You get so alone at times that it just makes sense - Charles Bukowski

(info, sinopse, etc.)

Já faz um tempinho que terminei essa leitura, portanto as impressões não estão mais tão frescas. De qualquer modo, gostaria de deixar algo registrado sobre o livro.

11/09/2015

Os Miseráveis - Victor Hugo / Diário de Leitura - ENCERRADO


¯\_(ツ)_/¯ 

Bom, falhei apenas no registro do diário, pois a leitura do livro foi concluída dentro do prazo programado. Como a preguiça  indisposição para escrever ainda persiste em certo grau, deixo apenas o registro de que foi uma sensacional experiência de leitura. Adorei.