20/09/2015

[Mad Men Reading List] Lady Chatterley's Lover - D. H. Lawrence


A New York Public Library montou uma listinha de 25 livros que apareceram na série Mad Men, e fiquei com vontade de encarar alguns* daqueles títulos. Começo com Lady Chatterley's Lover porque, além de ter sido um dos primeiros que apareceram na série (S01E03 - Marriage of Figaro), meu exemplar fora aquirido exatamente depois que assisti à ótima cena em que a obra é discutida (ou seja, dei-me conta de que meu livro estava pegando poeira na estante há cerca de sete anos!). 

1. Queda e declínio do império romano? Sério, Sally?;  2. Desculpa, mas tenho preguiça eterna de Mark Twain;  3. Dois pés atrás com Thomas Pynchon ; etc, etc. )

Vou me intrometer no papo das secretárias da Sterling Cooper Agency para registrar algumas impressões de leitura:


-  err, not quite. 

Ao contrário do que eu supunha, o livro de D. H. Lawrence não se propõe a simplesmente narrar uma boa história sem ignorar a vida sexual das personagens, ou, de outro modo; não trata-se apenas de demonstrar que há, sim, espaço na Literatura para tratar abertamente de sexo. A verdade é que o livro nos apresenta a um autor disposto a defender certa bandeira valendo-se da temática sexual como principal munição.

Em Lady Chatterley's Lover, Lawrence prega contra a industrialização (como executada) e contra a estratificação social. Ele acusa a sociedade de sua época de futilidade e superficialidade, afirmando que ela constituía-se de indivíduos que só pensavam em dinheiro e sucesso, de modo que, em tal transformação, até o sexo havia sido colocado em segundo plano, tornando-se mais uma ocasião para performance social. Em contrapartida e com algumas ressalvas, ele parece mesmo sustentar uma proposta do tipo "conectemos com nossas emoções, vamos voltar para a natureza, preservar o belo e transar livremente e com intensidade; a estratificação da sociedade é uma falácia, só dinheiro não traz felicidade, yada, yada, yada." (base para o futuro o movimento hippie?...) Imagino tratar-se de um discurso compreensível para aquele período entre guerras, mas acabei achando o tom recorrentemente enfadonho.

A própria paraplegia do Clifford, um aristocrata inglês pseudo-intelectual aspirante a grande escritor, aparece também para que Lawrence espezinhe os colegas escritores, insinuando que seriam um bando de intelectualoides narcisistas despidos de qualquer paixão, produzindo uma arte vazia, egocêntrica e sem sentimento.

Que o autor defenda um ponto de vista valendo-se do sexo como argumento, tudo bem; o problema, a meu ver, está em executar tal premissa de modo excessivamente explícito e artificial. Lawrence injeta as suas próprias convicções nos pensamentos e falas de personagens completamente insípidas e mal desenvolvidas, o que acaba tornando a narrativa muito pouco convincente, aproximando-a muito de uma obra panfletária. A caracterização das personagens me pareceu tão pobre, que eu simplesmente não conseguia engolir de modo contundente que aquelas pessoas pensavam mesmo naquilo. O autor usa um discurso indireto livre peculiar, às vezes parecendo flertar com múltiplos fluxos de consciências, e que eu não conseguia comprar por completo: "não, não, Lawrence, isso é coisa só sua; e não dessa personagem".

...


- With a bit of a struggled contextualization, I suppose I can too.

Muito barulho por nada. É realmente impressionante que tenha permanecido censurado nos EUA até a década de 60. 

...



- Exactly!

...



- Maybe they should, yes; but would they like what they'd find? I doubt it.

Veja bem, há diversas passagens nas quais o Sr. Lawrence expõe os homens como figurinhas meio, digamos, ridículas. Eles aparecem como indivíduos inseguros, "(...) too sensitive in the wrong place.",  que precisam ser tratados como bebês pelas mulheres.

Uma das minhas passagens favoritas é aquela em que Connie, completamente alheia ao ato sexual, dá uma espiada consciente na posição e nos movimentos executados pelo seu amante e acaba dando-se conta de que aquilo era um bocadinho deplorável:

"(...) her spirit seemed to look on from the top of her head, and the butting of his haunches seemed ridiculous to her, and the sort of anxiety of his penis to come to its little evacuating crisis seemed farcical. Yes, this was love, this ridiculous bouncing of the buttocks, and the wilting of the poor insignificant, moist little penis. This was the divine love! After all, the moderns were right when they felt contempt for the performance; for it was a performance. It was quite true, as some poets said, that the God who created man must have had a sinister sense of humor, creating him a reasonable being, yet forcing him to take this ridiculous posture, and driving him with blind craving for this ridiculous performance. Even a Maupassant found it a humiliating anticlimax. Men despised the intercourse act, and yet did it."

Outra deliciosa pérola do livro: o marido da Mrs. Bolton, traumatizado após testemunhar a esposa em trabalho de parto, só transava praticando coito interrompido, pois estava certo de que o perrengue do parto não era coisa de Deus. Como ela mesma afirma: (depois do parto) "I had a bad time, but I had to confort him." 

...



- But isn't it possible that that's what it really is, Joan? Tell me, what do you talk about, when you talk about marriage?

O D.H. Lawrence acaba propondo discussões ainda válidas (?) sobre o casamento. 

- A mais trivial de todas: qual o papel do sexo no casamento? Existe casamento sem sexo? E casamento só com sexo, sem nenhum diálogo? Basta ter algum/qualquer sexo, ou é preciso que ambos estejam satisfeitos em uníssono? Existe isso: ambos plenamente satisfeitos?

- O casamento resiste à ausência de filhos? Lawrence parece sugerir, p. ex., que o instinto maternal é forte o suficiente para determinar - mais cedo ou mais tarde - as condutas femininas... (Connie cede pela primeira vez aos encantos do futuro amante quando se emociona com os pintinhos de uma galinha! -- pelo amor de deus...)

- E difícil não parar para refletir acerca do discurso de Clifford Chatterley. Ele confidencia abertamente à esposa que não se importaria que ela mantivesse casos extraconjugais e nem mesmo em criar, como seu, um filho bastardo; desde que ela procedesse de modo discreto e respeitoso. Para Clifford, o casamento era um pacto eterno firmado entre duas pessoas no qual o companheirismo e o respeito mútuo era o que devia ser preservado. Mas, claro, cabe incluir na reflexão: será que ele também pensaria isso, se não fosse paraplégico?
“It would almost be a good thing if you had a child by another man,” he said. (...)
“But what about the other man?” she asked.
“Does it matter very much? Do these things really affect us very deeply? ... You had that lover in Germany... what is it now? Nothing almost. It seems to me that it isn’t these little acts and little connections we make in our lives that matter so very much. They pass away, and where are they? Where ... Where are the snows of yesteryear? ... It’s what endures through one’s life that matters; my own life matters to me, in its long continuance and development. But what do the occasional connections matter? And the occasional sexual connections specially. If people don’t exaggerate them ridiculously, they pass like the mating of birds. And so they should. What does it matter? It’s the life-long companionship that matters. It’s the living together from day to day, not the sleeping together once or twice. You and I are married, no matter what happens to us. We have the habit of each other. And habit, to my thinking, is more vital than any occasional excitement. The long, slow, enduring thing ... that’s what we live by ... not the occasional spasm of any sort. Little by little, living together, two people fall into a sort of unison, they vibrate so intricately to one another. That’s the real secret of marriage, not sex; at least not the simple function of sex. You and I are interwoven in a marriage. If we stick to that we ought to be able to arrange this sex thing, as we arrange going to the dentist; since fate has given us a checkmate physically there.”

... 



- A lot? Do they? Hum, that's not the impression I had.

Talvez por conta da censura, não sei, mas eu acreditava que iria encontrar algo mais, sei lá, eroticamente interessante? Estimulante? Excitante? Achei as descrições meio nhé.

Mas, porém, contudo, entretanto, todavia; cabe admitir que a descrição do Oliver Mellors - o digníssimo amante da Senhora Chatterley - permitiu que ele se materializasse fixamente na minha imaginação como o irmão gêmeo do Michael Fassbender; daí, já era: até sonho rolou e, quanto a isso, não digo mais nada.



...



- Totally agree, Joan.

Este aqui, por exemplo, é sem dúvidas um grande momento do livro: 
(He said) "That's got such a nice tail on thee. That's got the nicest arse of anybody. (...) It's a bottom as could hold the world up, it is. (...) An' if tha shits an' tha pisses, I'm glad. I don't want a woman as couldna shit nor piss."

Este também não fica atrás (no pun intended):
(...) the erect phallus (...). How strange! she said slowly. How strange he stands there! So big! and so dark and cock-sure! (...) So proud! And so lordly! Now I know why men are so overbearing! (...) A bit terrifying! But lovely really! And he comes to me! (...) And now he's tiny, and soft like a little bud of life! (...) so innocent (...) you must never insult him, you know. He's mine too. (...) And she held the penis soft in her hand."
Ah, e achei o primeiro  parágrafo do livro bastante provocativo (bem no espírito, suponho, daquele período histórico):
"OURS IS ESSENTIALLY A tragic age, so we refuse to take it tragically. The cataclysm has happened, we are among the ruins, we start to build up new little habits, to have new little hopes. It is rather hard work: there is now no smooth road into the future: but we go round, or scramble over the obstacles. We’ve got to live, no matter how many skies have fallen."
... 




- Too late. 

Traçando um paralelo com os tempos  atuais, essa  fala  é  bem  curiosa. Como  superficial ponto de partida: diz aí, por exemplo, quem nunca viu pelo menos um(a) passageiro(a) lendo 50 Tons de Cinza no ônibus/metrô sem demonstrar qualquer constrangimento? Será que disparou o radar de algum  tipo errado? Intrigada.

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