16/09/2015

O amante - Marguerite Duras

(info, sinopse, etc.)

Peguei esse livro no escuro: não sabia nada sobre a história (nunca tinha visto a adaptação cinematográfica) ou sobre a própria Marguerite Duras (eu sei, eu sei). Como consequência, o título acabou tornando-se dissimulado, pois a obra é bem mais do que a suposta mera descrição romantizada de um caso amoroso.

O texto tem caráter autobiográfico e traz Marguerite Duras recordando seu passado, notadamente sua adolescência durante o início da década de 30 em Saigon, no Vietnam; onde morava com a mãe e dois irmãos. O pai havia falecido quando ela ainda era criança, pouco tempo depois da decisão de mudar-se com a família para a colônia francesa. Aliás, "Duras" foi escolhido pela autora, pois seu sobrenome de família era, na verdade, Donnadieu.

Aos 15 anos de idade, durante a travessia do rio Mekong, ela conhece o amante do título, um chinês de 27 anos filho de um rico empresário da região. Essa cena é descrita em detalhes - o que vestiam, as expressões corporais, a sequência de ações, a simbólica limusine preta do amante - e torna-se icônica; uma das "imagens" referidas pela escritora (e que parece ter ficado linda no filme).
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O relacionamento dos dois inicia-se de forma rápida e intensa, marcando o início da vida sexual da adolescente. Retomando o que falei no início, o livro é mais do que o simples relato desse caso. O amante surge na narrativa como a representação dos precoces, mas necessários, amadurecimento e libertação da personagem em relação à pobre e difícil vida em família. De forma ressentida e com severas palavras, ela expõe em destaque no livro a espinhosa relação com a mãe, a qual é retratada como uma mulher fraca, doente (depressão? t. bipolar?) e distante, incapaz de lidar com questões financeiras e que, acima de tudo, acobertava em predileção explícita os atos do irmão mais velho; por sua vez descrito como um rapaz violento, ocioso, drogado e viciado em jogatina. A mágoa da personagem surge ainda mais exacerbada ao entender que o irmão mais novo, que tanto amava, era a grande vítima daqueles dois. É um forte rancor familiar que entremeia toda a obra. Imagino que, àqueles que estudam Psicologia, o livro seja um verdadeiro deleite.

A estrutura narrativa reflete o exercício da retomada de memórias. O texto é bastante fragmentado, não havendo linearidade temporal entre os fatos descritos. Os parágrafos aparecem destacados uns dos outros, como flashes de lembranças ou breves momentos de digressões e reflexões comuns em tal processo. A autora frequentemente utiliza as expressões "a imagem" e "fotografia" - como aquela em que conhece o amante -; possivelmente no sentido de que, deste passado distante, persistem apenas momentos estáticos capturados na memória e que, como fotos, tentam eternizar aquilo que já não existe mais. Os tempos verbais e os sujeitos também se misturam e se confundem de forma recorrente, o que causou-me certo estranhamento inicial. Há momentos em que a personagem (a própria Duras) surge como a narradora em primeira pessoa valendo-se dos tempos verbais pretérito e presente, o qual, porém, alterna-se entre a representação do "presente" de quem se lembra e o "presente" de quem vive este passado rememorado (ora temos a Duras atual escritora, ora temos a Duras adolescente). Simultaneamente, há trechos em que essa mesma narradora em primeira pessoa vale-se do tempo verbal futuro, o qual representa o "futuro" da adolescente e o "passado" da atual escritora. Mais intrigante ainda são as passagens em que a autora parte para a terceira pessoa, falando de si mesma como "a menina" ou "a criança", o que parece sugerir uma incapacidade de reconhecer-se por completo naquela garota. Ficou confuso, mas isso é culpa apenas da minha incapacidade expositiva, pois a leitura do livro faz-se de maneira bem fluida. 

Em vista do peculiar estilo narrativo, não temos o quadro completo e detalhado da infância e adolescência da personagem, porém a escrita, extremamente rica e poética, deixa transparecer o quão impactantes foram. Em consonância à intenção confessada nas páginas iniciais, Duras revela seus sentimentos mais profundos no texto, sendo difícil manter-se completamente impassível.


                                          "Muito cedo, foi tarde demais em minha vida." 

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