14/10/2015

O senhor das moscas - William Golding

"- Talvez (...) haja um bicho. (...) talvez sejamos nós. (...) Poderíamos ser uma espécie de... Qual é a coisa mais suja que há?
(...) 
- Que está fazendo aqui sozinho? Não tem medo de mim? (...) Que engraçado achar que o Bicho é algo que podem caçar e matar! (...) Você sabe, não é? Sou parte de você? (...) Sou a razão por que ninguém pode ir embora? Por que as coisas são o que são?"

Já consumi tanta ficção derivada do tema principal e da premissa de O Senhor das Moscas, que a empreitada de tentar conceder ao livro uma leitura despida de vícios e prejulgamentos — oferecendo-lhe os descontos e a contextualização aos quais faz merecidamente jus — revelou-se difícil. Não sei se a culpa foi minha, mas a verdade é que estava convicta a respeito do que eu iria encontrar (como ocorre com alguns clássicos) e, infelizmente, a conclusão da leitura não me contradisse.

O espírito do livro, digamos assim, me lembrou bastante de "O coração das trevas", do Joseph Conrad; porém com ressalvas, claro, tais como: (1) em vez da África; uma ilha do pacífico, (2) a II Guerra Mundial/Pós-Guerra substitui o contexto do colonialismo inglês e (3) Golding é beeeem menos sutil e mais ambicioso no número de temas explorados com sua história — se piscarmos os olhos por um segundo durante a leitura, corremos o risco de perder uma metáfora, uma alegoria, um símbolo; os quais saltam explicitamente de todas as páginas do texto, de quase todos os parágrafos. 

O que mais me agradou foram, como esperado, algumas questões e reflexões que não antecipei encontrar na obra. Por exemplo:

➻ Passagem da infância para a dura e amarga vida adulta.
As referências que Golding faz relacionadas ao choque que a brutalidade dessa fase da vida representa foram muito engraçadas. 
"A ilha estava ficando cada vez pior. - Estou com medo. (...) Que será de nós - Não sei, Ralph. Precisamos continuar, é tudo. E é isso que os adultos fariam."
- Amiguinhos da ilha, a vida adulta é só essa desgraceira mesmo e, de fato, só piora: quebram nossos óculos na cara dura, e ainda somos obrigados a engolir o choro.
Oh, Piggy, you were doomed from the start.
Que alegria, ser um adulto:
"Descobriu que compreendia o aborrecimento daquela vida, onde todo caminho era improvisado e uma parte considerável do tempo em que se estava desperto era passado olhando onde pisar. Parou, de frente para a praia, lembrando-se daquela primeira exploração entusiasmada, como se fizesse parte de uma infância mais brilhante, e sorriu sarcasticamente."

 ➻ Política! Reuniões! Votações! Bases aliadas!
(infol sinopse, etc.)
(tradutor: Geraldo Galvão Ferraz)
Quem nunca estressou-se/aporrinhou-se com uma reunião de qualquer natureza  o suposto epítome da vida em uma sociedade democrática , que atire a primeira pedra. Ri demais com o cúmulo da pauta colocada em votação pelas crianças: "existe fantasma?", "existe bicho?". Fez-me lembrar de ~certas propostas~ governamentais (não só brasileiras) esdrúxulas de plebiscito.

Much paranoia!
Há modo mais eficaz de firmar poder e impor submissão, do que a criação de um clima de paranoia social? O "Bicho" era do que Jack precisava para submeter definitivamente os meninos à sua liderança. Ao longo da História, esse "Bicho" já recebeu muitos nomes diferentes e, diante da atual discussão "terrorismo x privacidade", a questão segue relevante. Fiquei aqui pensando com meus botões: Edward Snowden seria, em parte, o Simon da nossa presente realidade? Posso estar exagerando, eu sei. Ou não? Sei lá.

➻ Provocação quanto ao tipo de ordem/liderança a que os indivíduos se sujeitam com menos resistência.
"- Viu? Eles fazem o que eu quero."
A afronta de Jack impõe, de fato, a reflexão: por que foi tão difícil convencer os bostinhas a manter uma simples fogueira, mas tão fácil fazê-los agredir e matar um ser humano?

No início do livro, Golding parece ter respondido (parcial e antecipadamente) essa pergunta:
(momento de um discurso exageradamente otimista e sem fundamento, proferido por Ralph) "- A Rainha tem um mapa daqui. - Novamente voltaram os sons de alegria e de melhor disposição. - E mais cedo ou mais tarde um navio chegará aqui. (...) seremos salvos.
O grupo orientara-se para a segurança através das suas palavras. Gostavam dele e agora o respeitavam. Espontaneamente, começaram a bater palmas e logo a plataforma estava tomada por aplausos."
 É assim que se faz política. ¯\_(ツ)_/¯ 

➻ O horror de encontrar-se numa posição em que não mais se identifica o propósito de coisa alguma.
Achei fascinantes as passagens nas quais Ralph percebe, apavorado, que começava a escapar-lhe a razão pela qual precisavam manter a fogueira acesa. Os trechos parecem sugerir que a preservação, pelo ser humano, de seus objetivos racionais e de sua conduta civilizada é um esforço consciente e permanente, o qual estabelece confronto direto com nossas tendências naturalmente selvagens. 

➻ A edição que li traz um comentário na contracapa de Oscar Pilagallo: "(...) o livro tem uma moral, que bem pode ser a defesa, pelo avesso, dos valores cristãos que moldaram a sociedade ocidental." Felizmente esse subtexto religioso me escapou, confesso, durante a leitura (instinto selvagem x pecado original; bem x mal, blá, blá, blá...). 

Fiquei pensando: e se houvesse um(a) professor(a) sobrevivente com os moleques? Será que já não existe algum episódio de "Tales from the crypt" ou de "The Twilight Zone" com a premissa "um adulto ilhado com um bando de pivetes selvagens"? O horror!!

08/10/2015

Angel - Elizabeth Taylor

(info, sinopse, etc.)
Esse foi mais um livro sacado dos excelentes catálogos da NYRB e da Virago; embora eu tenha lido a edição brasileira traduzida por Aulyde Soares Rodrigues, publicada em 98 pela editora Mandarim. Agrupei acima imagens das múltiplas capas disponíveis no mercado para ressalvar que a disparidade preliminarmente confusa que despertam resta completamente dissipada após a leitura do livro que, de fato, é bem peculiar (no muito bom sentido, adianto).

Elizabeth Taylor
De antemão, seguem duas notas relevantes sobre a obra:
1. essa  Elizabeth Taylor não é a famosa atriz dos olhos violetas; mas sim a escritora britânica homônima que publicara entre as décadas de 40 e 70. Angel, especificamente, foi publicado em 1957;
2. ao contrário do que o título e a capa brasileira (em especial) sugerem, também não se trata de um daqueles ~romanções~ de banca. Ou trata-se? Bem, eis aí uma interessante questão, a qual retomarei adiante.

Inspirando-se em grande parte na vida de Marie Corelli, famosa romancista inglesa das eras Vitoriana e Eduardiana, Taylor cria a personagem epônima Angélica Deverell; a Angel, cuja trajetória  parece recriar em grande extensão aquela de Corelli.

No início do livro, Angel é uma adolescente de 15 anos que vive sufocada entre dois mundos: de um lado, a pobreza do bairro e casa em que mora com a mãe viúva; do outro, os mistérios sedutores da rica família da Casa Paraíso, de cujas histórias a tia, criada daquela casa, é porta-voz. Aliás, a sombra daquela mansão parece ter-lhe roubado até mesmo o direito a um nome próprio, considerando-se que ela fora batizada de Angélica como uma deturpada homenagem à herdeira homônima da Casa Paraíso.

Como escapismo da realidade considerada degradante, Angel tinha por hábito sonhar acordada, recorrendo a realidades paralelas idealizadas com o glamour digno (na sua concepção) dos muros da Casa Paraíso. Logo no início do livro, ela tem a fascinante ideia, quase uma epifania, de canalizar toda essa imaginação fértil para a escrita de um livro que, ainda em sua fantasia, a tornaria rica e famosa. Por mais improvável que isso possa parecer, o fato é que sua artimanha dá certo: ainda adolescente, Angélica Deverell consegue o feito de publicar seu primeiro livro - Lady Irania - que torna-se um estrondoso e imediato sucesso, catapultando-a à posição de grande escritora best-seller.

Mediante tal premissa, Elizabeth Taylor explora, em tom muitas vezes cômico e quase de paródia, o mercado editorial dos romances populares do final do século XIX e primeira metade do século XX (então publicados por editoras precursoras da atual Harlequin). Algumas passagens do livro ilustram bem a, digamos, comédia por trás daquele universo literário*:

Quanto ao perfil da escritora:
"(...) prosa ornamental, com tantos crescendos e aliterações (...), composição era vulgarmente rebuscada (..). a linguagem empolada, a extravagância, extremamente tedioso, (...)"
"- Você lê muito, Angélica?
- Não, eu nunca leio. (...) Não acho interessante."
 "Poderia perfeitamente, ela pensou, imaginar o que acontecia lá dentro, nos bares, no teatro e na prisão. A experiência era um recurso da imaginação, jamais seria, Angel estava certa, tão bela nem tão terrível." (lembrando que ela começa a escrever ainda adolescente, sem nenhuma experiência de vida.)
Quanto aos editores:
"Nós publicamos para eles, infelizmente, para o "exército do ganha-pão", como diz meu sócio. Eles decidem. (...) Para eles, encobrimos o que é real demais, minimizamos o que é por demais vívido e retiramos uma boa parte do que, de acordo com nosso gosto, preferíamos deixar. "
Quanto à dinâmica crítica x leitores x escritores de tais romances:
"Quanto mais os críticos riam, maiores eram as filas nas livrarias para comprar os livros de Angel; a força de seu romantismo capturava as mentes simples; as situações absurdas encantavam os sofisticados; sua indignação fervente quando uma fúria passageira a fazia afastar-se da história, com denúncias e irrelevâncias, levava alguns leitores a uma concordância solene e outros a acessos de riso."
"Seu ressentimento mórbido com a menor crítica era uma carga penosa para a autora de uma obra tão sujeita a constantes zombarias e ofensas. (...) da legião dos que ridicularizavam seus livros, "os macacos confusos", como ela chamava, "aqueles que zombariam de Shakespeare por serem incapazes de escrever outro Hamlet."
 "(...) parte do estado de excitação dentro do qual o livro fora criado parecia saltar das páginas (...) os leitores menos sofisticados eram transportados para muito além da crítica das inexatidões e das improbabilidades."
* Ou seja: Taylor direciona seu olhar ao mercado editorial do início do século XX e ainda acaba acertando, com pequena margem de erro, igualmente o cenário literário atual.
...

Porém, extrapolando ainda mais essa excitante paródia literária, acho que pode-se dizer que a verdadeira essência do livro é mesmo a protagonista que, não à toa, intitula ironicamente a obra, visto que, de angelical, ela não tem nada (adendo: se admitirmos que a capa brasileira não tenta ludibriar o leitor quanto a proposta da obra, mas sim reforçar essa ironia do título; fica mais fácil aceitá-la). Taylor narra toda a vida de Angélica Deverell, uma espécie de anti-heroína tão detestável quanto fascinante, e que efetivamente desperta sentimentos bastante dúbios no leitor. Angel é uma precoce escritora que habita permanentemente, como já mencionado, uma realidade delirante que ela própria cria a fim de satisfazer as necessidades de sua imaginação megalomaníaca e de proteger-se das brutalidades reais da vida. Sua personalidade é do tipo tóxica, arrogante, narcisista e histriônica. Esta passagem ilustra bem o efeito que a presença de Angel causava nas pessoas:
"Não estou mais rindo dela (de Angel) (...). Na verdade tenho um pouco de medo. Hermione a imaginava sentada no fundo do mar, fazendo encantamentos, contando os corpos dos afogados. Pediu a uma criada para acender mais velas, pois a sala, de repente, pareceu tristonha. Faltava alegria e ela sentia-se gelada."
Ao mesmo tempo, como não admirar uma mulher confiante e determinada que, com uma inegável dedicação ao seu trabalho, consegue mudar para uma direção muito melhor o rumo de sua própria vida em pleno final de século XIX? Voltando à questão inicial desse post: o livro é um romance de banca? Acho que, em consonância com o tom cômico, pode-se dizer que Taylor parece propor um "romance de banca às avessas", no qual a trajetória de uma heroína execrável, mas também admirável, presta-se como metalinguagem crítica para o gênero satirizado.

Através da personagem Angel, a autora também levanta uma série de questões bastante provocativas sobre a relação "escritor x escrita":

      - O tipo de literatura produzida por escritores como Angel é menor? É imprestável e irrelevante?

      - O quanto de Angélica Deverell existe em todo e qualquer escritor? 

      - A escrita é uma arte cujo exercício exige, inevitavelmente, um pouco de paranoia, obsessão,                     excentricidade, vaidade, arrogância, solidão? 

      - E, como o final do livro parece questionar: para o escritor, vale a pena o sacrifício?

Em sentido correlato, a premiada escritora britânica Hilary Mantel, grande admiradora do livro, assim já o descreveu: "Elizabeth Taylor’s tender, funny, exquisitely stylish novel keeps us on Angel’s side, even though we are appalled by her narcissism and shocked into laughter by her self-delusion. She is a monster, but a delicious monster, and the novel poses, for writers, questions that don’t date. That’s why I’m so drawn to the book and have loved it for years; there’s a bit of Angel in every writer, I fear."  

Enfim, foi um livro que me surpreendeu muito positivamente. 
...

Em 2007, a obra foi adaptada para o cinema por François Ozon, mas creio que nem o Fassbender fez compensar o tempo que despendi assistindo ao filme. Achei o roteiro péssimo, a atuação da Romola ficou bem pouco convincente (para quem leu o livro, pelo menos) e, de modo indefensável, o filme é inegavelmente chato. ¯\_(ツ)_/¯

Segue o trailer: