14/10/2015

Lendo Contos | 60 Stories → Come back, Dr. Caligari - Donald Barthelme

(info, sinopse, etc.)
Iniciei, super na maciota, a leitura do Sixty Stories, de Donald Barthelme, e concluí os cinco contos que os editores selecionaram da primeira coletânea dele: Come back, Dr. Caligari (1964).

Bom, a seguinte sigla resume magistralmente bem minha experiência geral de leitura: WTF?!!  Eu caí de (sem?) paraquedas no universo desse autor e, olha, o tombo foi feio.  Não sabia nada sobre o estilo dele e surpreendi-me desbaratinadamente com a prosa super experimental; repleta de surrealismo, absurdos, non-sense e provocação. Como eu usualmente gosto de textos que me fazem sentir feito uma imbecil (desde que não resvalem explicitamente para o pedantismo e presunção vazios, claro), minha impressão inicial com o Barthelme foi bastante positiva. 

Registrando qualquer coisa, muito brevemente*, sobre os cinco contos:
(* sim, pois mesmo que quisesse, eu não teria capacidade nenhuma de destrinchar os textos. A verdade é que tenho muito mais perguntas do que respostas.)

Margins
Henry Grant - 1969
(fonte)
Sem qualquer apresentação prévia, somos arremessados no meio de um papo entre dois pedintes nas ruas de NY; um branco, o outro negro e ex-presidiário.

Fundamentando-se em um livro de embasamento científico duvidoso, o branco tenta convencer o negro - aparentemente um ávido leitor do cânone literário - de que ele precisava alterar as margens, a formatação e a caligrafia da sua placa como um primeiro passo para mudar a si mesmo.

Ousando especular, eu chutaria que, além da ~sacadinha~ "margens textuais x marginalizados x marginália" e da provocação quanto aos estereótipos sociais; Barthelme parece também alfinetar a inflexível exigência de padrões formais estáticos e rígidos na literatura, bem como o consequente distanciamento daquilo que seria a verdadeira essência do texto. Pela leitura dessa primeira coletânea, não restam dúvidas de que Barthelme desafia sem medo essa imposição.

 A shower of gold
Dos cinco contos selecionados dessa coletânea, esse foi meu favorito. Ele é completamente absurdo e surreal; com direito a:
1. programa de TV intitulado "Who am I?", que busca participantes com a seguinte chamada:
"We'll pay you to be on TV if your opinions are strong enough or your personal experiences have a flavor of the unusual."

2. presidente dos EUA invadindo abruptamente, montado em um trenó, o apartamento de um cidadão;
3. invasão de apartamento número 2; dessa vez por um "cat-piano player".
(fonte)
 Me and miss mandible
Premissa muito boa: você faz cagada no trabalho e no casamento, daí te mandam de volta para a escola - ensino fundamental - em uma tentativa de começar do zero sua transformação em um cidadão exemplar. A piada é que você parece persistir inevitavelmente nos mesmos erros.

For I'm the boy
Aviso que, desse ponto, as coisas vão ficando cada vez mais confusas e as relações/traições conjugais fixam-se, aparentemente, como um tema de particular interesse do autor, naquela época.

O conto trata-se de um papinho no carro entre três amigos que voltavam do aeroporto, onde um deles havia despedido-se da mulher de quem divorciara-se. Talvez haja uma referência ao Ulysses de James Joyce, mas como ainda não encarei esse calhamaço, fiquei só na especulação.

Curiosamente, assim como em Margins, mais uma vez os homens terminam resolvendo as coisas na base da porrada. 

 Will you tell me?
Dos cinco, acho que atingimos o "WTF" máximo aqui. De uma maneira beeeem mais ou menos, pareceu-me uma espécie de versão em prosa cínica, pós-modernista e surreal do poema A Quadrilha, do Drummond. (sim, posso ter chutado para fora.)

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