20/02/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #02


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro* aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.

* (~tento~, pois a primeira investida de diário de leitura nesse blog morreu no meio do caminho...)

Tomo 1 - Segunda Parte

 É, pessoal, a guerra começou. Nessa segunda parte, acompanhamos o período de outubro a novembro de 1805, durante o qual as tropas russas, aliando-se a austríacos e alemães, ~tentam~ avançar para cima dos francesinhos, e falham miserável e vergonhosamente. 

No geral, achei essa parte meio chatinha. Sim, é isso mesmo: a pessoa decide ler um livro intitulado Guerra e Paz, e acredita ser plenamente razoável reclamar de descrições de batalhas. Estou um pouco envergonhada, mas preciso reconhecer que talvez a carapuça em forma de acusação do Andrei Bolkónski (primeira parte) esteja servindo em mim, pois a única coisa que quero saber  é: quando voltaremos aos salões, mexericos, bailes, vaidade, futilidade

 Ainda sobre militares: a tonta, aqui, não sabia que o pronome de tratamento a ser utilizado fosse "Vossa Excelência". Achei... estranho? Sendo tonta no. 02: só agora entendi as cores da capa da (finada) Cosac. ¯\_(ツ)_/¯    E sendo tonta no. 03:

"Ali a nossa infantaria tomara posição e, bem na ponta, viam-se DRAGÕES. (...) amarrado nas carretas os dois canhões ainda inteiros, dos quatro que formavam a bateria (um canhão quebrado e um UNICÓRNIO foram abandonados), ..."







(Dicionário) Dragão: antiga peça de artilharia; soldado de                                                    cavalaria que também combate a pé.

(N.T.) Unicórnio: tipo de canhão antigo russo, com a boca fina.


(Bom, nunca afirmei, nesse blog, que eu fosse inteligentona...)


↪    "- O que está havendo coronel? Eu disse ao senhor para queimar a ponte, (...) 
- O senhor me falou de materiais inflamáveis, mas não me falou nada de incendiar. 
- Mas, meu caro, como é que eu não disse para incendiar a ponte, se instalaram o material inflamável? 
- Não sou seu "caro", e o senhor não me disse para queimar a ponte! Conheço o meu dever e tenho o hábito de obedecer às ordens com rigor. O senhor disse que iam queimar a ponte, mas não disse quem ia queimar, e eu não podia saber por obra do Espírito Santo..."
Bom, segue imagem real do exército russo em 1805:


Ah, e olha quem também foi lutar com os russos:

"(...) - berrou Denissóv, que não conseguia pronunciar o r."

Sério, essa parte do livro descreve uma sequência de trapalhadas bizarras e surpreendentemente muito engraçadas cometidas pelo exército russo. Na primeira parte do tomo I, eu já havia suspeitado de que aquele bando de jovens em uma guerra contra Bonaparte daria merda, mas não tinha imaginado que ela seria assim tão homérica. O retrato desacreditador que Tolstói faz do exército russo é espantoso: 1. riam do perigo e do inimigo; 2. faziam piadas hediondas com "presuntos" e estupro de freiras; 3. estavam frequentemente embriagados, 4. roubavam uns aos outros. 5. mal terminados os confrontos, falavam gracinhas sobre relatórios que pudessem garantir promoções; 6. pouco importavam-se com os hussardos na linha de frente; etc. A narrativa permite concluir que eram - a maioria - um bando de patifes completamente inexperientes que, de fato, não sabiam onde tinham se metido. 

 E, nesse ponto, ficou realmente um pouquinho mais difícil distinguir todas as personagens. Os militares multiplicam-se feito Gremlins! 


 Dólokhov e Nikolai tiveram comportamentos que corroboraram bem o que eu havia dito no DL #01 sobre o que seria possível esperar da juventude extrema que havia se alistado para lutar no conflito. O desempenho do pobre Nikolai Leite com Pera já foi ilustrado no início do post; então só resta comentar algo sobre o Dólokhov, ou melhor, perguntar: quem é e qual é a dele afinal de contas? Suspeito de que eu deva aguardar grandes feitos dessa figura sobre a qual Tolstói, até aqui, só tem oferecido pequenos lampejos de informação: um rapaz petulante, orgulhoso, inconsequente e ardiloso. Vamos acompanhar o sujeito.

 Voltando ao Andrei Bolkónski: preciso reconhecer que, a despeito do seu discursinho em relação às mulheres na primeira parte do tomo I, ele tem ganhado de jeito o coraçãozinho da presente leitora. Assim como ele, sou exatamente o tipo de pessoa que teria um rompante de cólera se coleguinhas, no meio de uma guerra, decidissem fazer piadinhas de gosto duvidoso para desanuviar. E o discurso final que ele proferiu dando os devidos créditos ao Túchin (que salvara os russos da humilhação completa contra os franceses) foi notável. 

↪ É, a labuta começava cedo para os russos: 
"Ainda era um homem jovem, mas já era um diplomata vivido, pois começara a carreira aos 16 anos."
 Curiosamente, o narrador do livro posiciona-se como russo (próprio Tolstói, explicitamente?) ao referir-se recorrentemente ao exército da Rússia como "nosso, nossa..."

"- Mas que gênio extraordinário! - exclamou de repente o príncipe Andrei, cerrando a mão pequena e batendo com ela na mesa - E que sorte tem esse homem!"

The Driver's Seat - Muriel Spark

           Sobre o livro: info, sinopse, etc. 
Foi durante a leitura do livro do James Wood "Como Funciona a Ficção"  que interessei-me pela Muriel Spark - ela é uma das escritoras referenciadas. A princípio, eu havia planejado conhecê-la com seu livro mais famoso - The Prime of Miss Jean Brodie -, mas, quando vi a Claire (canal YT ReadingBukowskiincluindo-o entre suas leituras favoritas de 2015, decidi começar por essa obra.

The Driver's Seat, protagonizado por uma mulher misteriosamente excêntrica*, é um thriller psicológico com pitadinhas de humor negro, cuja graça encontra-se especialmente na forma, a qual é marcada por uma série de provocações da Muriel Spark, muitas delas relacionadas às "regras do jogo" mais banais referentes aos thrillers policiais:
Ela podia perfeitamente protagonizar o livro da Jane Bowles, como melhor amiga daquelas protagonistas.

 Provocação 01 - Aparece explicitamente no trecho destacado acima: o principal mistério a ser desvendado pelo leitor refere-se ao porquê dos fatos. Bem no início, a narrativa revela que nossa protagonista será encontrada morta a facadas. Essa provocação, a meu ver, é a mais desconcertante para o leitor, pois, concluída a leitura, o livro realmente não permite que cheguemos a nenhuma conclusão definitiva e satisfatória.

❥ Provocação 02 - Muriel Spark faz uma tremenda embaralhada nos conceitos de agressor/vítima, presa/predador; caça/caçador. As circunstâncias do crime são tão surreais e mal explicadas (deliberadamente), que fica bastante difícil não vacilar ao tentar apontar qual personagem assume cada um desses papéis.

❥ Provocação 03 - Não sou leitora habitual desse gênero literário, mas parece-me que, nessas histórias, o mais frequente é que as mulheres apareçam na mesa do médico legista, enquanto aos homens reserva-se o papel do serial killer. Bom, Spark também dá um jeito de complicar essa fórmula. E não, não trata-se de mera inversão de posições.

❥ Provocação 04 - Refere-se ao título da novela: o que significa estar no comando de sua própria vida, ou, de outro modo, assumir o assento do motorista e não apenas sentar passivamente como passageiro? A resposta parece até ser simples, mas Spark mostra que também é possível complicar isso. Apenas como exemplo (não diretamente relacionado ao livro), eu proporia este questionamento: o suicida, no exato momento em que acaba com sua própria vida para pôr fim ao sofrimento sufocante da depressão, está assumindo o comando, a direção de sua vida; ou estaria fora de controle; um mero passageiro da Depressão?

(A partir desse ponto, haverá possíveis SPOILERS.) 

Na tentativa de extrair uma explicação mais palpável à novela, registro aqui esta teoria interpretativa que encontrei em um fórum de discussão do GoodReads e que achei genial: seria a narrativa, na verdade, uma colagem dos depoimentos das pessoas que cruzaram o caminho de Lise, culminando no depoimento final do assassino? Bom, é uma hipótese que explicaria as várias informações desencontradas a respeito da personagem e a singularidade do comportamento dela. Na tentativa de desacreditar as próprias vítimas mulheres, qual costuma ser o tom do discurso  dos agressores do sexo masculino? Não seria exatamente este: "ela era louca, ela me seduziu, ela pediu para morrer, ela me arrastou para lá, olha como ela se vestia, ela foi vista beijando um desconhecido."?

Chéri - Colette

Sobre o livro: info, sinopse, etc.
Tradução: André Telles. (Record)

Pois é; só que a Colette foi lá e escreveu a história de uma mulher de 40+ anos que, a despeito de suas próprias dúvidas e inseguranças, recusou-se a ser encavernada pela sociedade. Na Paris do início do século XX, Léa de Lonval manteve um romance tórrido de sete anos de duração com um estonteante jovem de ~20 anos. De um lado, "a velha amante carcomida"; do outro, seu "escandaloso jovem amante". Ah, Colette, eu acho mesmo que o título do livro deveria ter sido Léa de Lonval.

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Envelhecer, independente de gênero, não costuma ser fácil para a maioria das pessoas; contudo, para as mulheres, esse processo parece gerar um escrutínio social que em nada se compara ao tratamento reservado aos homens na mesma situação. Em 1920, Colette abordou o tema (dentre outros, deixo claro) na sua obra Chéri; e, lendo-a quase um século depois de sua publicação, surge o questionamento inevitável: isso ainda é relevante? Bom, fiz uma recapitulação rápida e... Não foi a Madonna que, em maio de 2015, teve de explicar porque ainda ousava continuar trabalhando na sua idade?

E, bem recentemente, não foi a Gillian Anderson quem não engoliu o sapo que a mídia empurrava-lhe, sobre a sua aparência nos episódios da atual nova temporada de Arquixo X?


É; estou achando que ainda é relevante, hein. Que coisa. 

Tirza - Arnon Grunberg


Como eu infelizmente desembolsei uma grana considerável da minha carteira proletária nesse livro, o gif vai ter de satisfazer a ânsia de efetivamente jogá-lo pela janela (fora que, claro, não desejo ferir ninguém), tendo em vista que o detestei com todas as forças. Que a experiência sirva, pelo menos, para que eu nunca mais me esqueça da valiosa lição:

NEVER BELIEVE THE HYPE!

Depois desse descarrego inicial mais do que necessário, vejamos se eu consigo registrar qualquer bobagem sobre essa peculiar experiência de leitura.

#

(info, sinopse, etc.)
(Tradução: Mariângela
Guimarães)


Bom, no início do livro, o leitor é breve e deliberadamente ludibriado a seguir esta intempestiva linha de raciocínio: ~"Awn, tadinho do Jörgen. Um trabalhador esforçado, pai exemplar e dedicado que prepara a janta sozinho para ele e a filha adolescente, tendo de enfrentar o retorno da esposa discarada que abandonara a família sem dar qualquer satisfação; apenas em busca de uma aparente autorrealização. Certeza de que ela é uma vigarista e de que Jörgen não merecia nada disso. Olha lá, coitado, não sabe nem o que fazer sob o julgo da mulher manipuladora".~ A narrativa, porém, não é tão leviana com o leitor, pois não tarda em salvá-lo desse equívoco; revelando-lhe gradativamente com o que/quem ele efetivamente está lidando. E é aqui que os problemas começam pra mim.

A realidade progressivamente revelada é que Jörgen é um bosta de pai, marido, profissional, locatário, cidadão e ser humano; um sujeito que não entendia por que, a despeito de seu máximo esforço para atingir a excelência em tudo na vida, sempre ~colocavam~ alguma pedra no caminho dele. A personagem é tão simplória, que não é capaz sequer de dar título ao livro do qual é protagonista.

Jörgen é, de fato, assustadoramente detestável e desprezível, mas não foi isso o que me enervou durante a leitura; e, sim, a maneira com que o desnudamento dele acontece. A sensação que tive foi a de uma ladainha infinita que transcorre em um loop de inacreditáveis 460 páginas, ao longo das quais o narrador, em aparente pacto com a personagem principal, investe-nos em uma jornada autodepreciativa e autocomiserativa, repleta de ironiazinha e sarcasminho. A narrativa parece enebriar-se com sua própria sagacidade em achincalhar e criticar (="chutar...) o homem ordinário da #ClasseMédiaSofre (=...cachorro morto") padecedor de #FirstWorldProblems. Para ter certeza de que o leitor tenha entendido isso (acho que era essa a intenção; sei lá, eu), o texto ainda tem a manha de mandar a personagem para a África e enunciar explicitamente coisas do tipo: "(...) teve a impressão de que ele é que era a doença da classe média branca; ele, Jörgen Holfmeester, em pessoa." (pelo amor de deus. e ele ainda repete isso outras vezes.)   Durante a leitura, é possível deparar-se 1. com frases de efeito de revirar os olhos -

A postura, ele não havia encontrado, mas o pano de prato, sim.
O futuro está em esquecer.
Tem a sensação de ser invisível.
Eu venci as lágrimas.
Eu flutuava pelo espaço, não me apegava a ninguém.
Eu eliminei o amor.
Sou uma pessoa sem compaixão.

-, 2. com referências literárias explícitas aos queridinhos russos Tolstói e Dostoiévski (para dar ~peso~?...) e 3.com um plot twist embaraçosamente ridículo e apelativo. Ah, e para mim, a cereja fastidiosa do bolo: o carinhoso apelido que o senhor Jörgen dá à filha é "Rainha do Sol" (rolling my eyes again). Lembra do Humbert; aquele que chamava "sua" Lolita de "luz da minha vida"? Pois aí está. É demais; pra mim, não dá.

Pelas resenhas que li, parece-me que a maioria dos leitores conseguiu enxergar profundidade na narrativa e no conflito vivido por Jörgen, mas eu só consegui perceber artimanha superficial, pretensão e aporrinhação. Posso não ter entendido? Opa, é bem provável. Quero tentar dar uma segunda chance para finalmente entender? Nem sob tortura.

10/02/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #01


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro* aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.

* (~tento~, pois a primeira investida de diário de leitura nesse blog morreu no meio do caminho...)
Tomo 1 - Primeira Parte

↪ Certo, o ponto de partida da história é 1805, e ela inicia-se especificamente com o discurso em francês de uma russa da alta sociedade - Anna Pávlovna Scherer -, no qual ela acusa Napoleão Bonaparte de ser o Anticristo (!). Ok, pode até não ser um "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira", mas já sinaliza bem onde estamos nos metendo. 

Aliás, o início do livro dar-se em francês é bastante significativo e, de certo modo, irônico, dado o iminente embate bélico entre Rússia e França. Segundo a narrativa de Tolstói, é possível deduzir que o francês era praticamente uma segunda (primeira?!) língua oficial do país, pelo menos entre os integrantes da alta sociedade. Até cartas informais, para amigos íntimos, eles escreviam integralmente em francês! 

Dando início às minhas elucubrações habituais, não acho que seria uma extrapolação se eu dissesse que as classes média e alta do Brasil, por exemplo, podem encontrar-se em situação semelhante em um futuro bem próximo, só que em relação ao inglês. Quem já não conhece um tupiniquim incapaz de falar uma única frase que seja sem enfiar uma palavra em inglês? As coisas mudam, mas continuam as mesmas: no século XIX, quem dava as cartas era a França; no século XXI, os Estados Unidos. 

↪ Essa questão do francês é tão relevante no livro, que ela presta-se inclusive para que Tolstói trace o perfil de uma das personagens ao leitor. Hippolyte, o sujeito cujo "(...) rosto era ensombrecido por um idiotismo e exprimia, de forma constante, um azedume presunçoso, (...)" era o indivíduo que, conforme nos esclarece Rubens Figueiredo em uma nota de rodapé, trocava as palavras em francês e que "(...) começou a falar em russo tal como o pronunciam os franceses depois de viver um ano na Rússia." Ou seja, o modo com que Hippolyte falava o francês nos permite concluir que ele era, basicamente, um babaca presunçoso. 

↪ "E falando em sociedade russa" no. 1... Esse livro parece trazer uma das maiores quantidades de personagens por página quadrada. Apesar disso, não estou tendo (ainda) dificuldades em me situar entre elas e, logicamente, o mérito vai todo para a excelente narrativa da apresentação. Mas, com todo o respeito, Tolstói; ele também vai para as minhas anotações:


Porém já aviso logo que não me sentirei culpada, caso eu troque as bolas, visto que nem mesmo as próprias personagens conseguem se situar:
  "- O senhor está enganado (...). Sou Boris, filho da princesa Anna Mikháilovna Drubetskaia. O Rotsóv pai se chama Iliá, mas o filho se chama Nikolai. E eu não conheço nenhuma madame Jacquot.
    Pierre sacudiu os braços e a cabeça como se mosquitos ou abelhas o tivessem atacado.
    - Ah, mas o que é isso? Confundi tudo. Há tantos parentes em Moscou!"

↪ "E falando em sociedade russa" no. 2... Como é que esses russos aguentavam fazer tanto social? Todo dia era uma festinha, um bailinho, uma visitinha, um jantarzinho, um .... Só de ler, eu fico bastante aflita. Fora o climinha esperto de puro disse-me-disse.
"- Nós, aqui em Moscou, andamos mais ocupados com jantares e mexericos do que com política. (...) Moscou está ocupada, acima de tudo, com mexericos - prosseguiu."
↪ "E falando em sociedade russa" no. 3... Por lá, naquela época, as coisas não eram em nada diferentes ao que vale até hoje: o Q.I. - não, claro que não falo do quociente de inteligência; eu falo do "Quem Indique" - deve ser tratado a peso de ouro, pois é o que faz a roda girar na sociedade, coleguinhas.
"A influência na sociedade é um capital que é preciso poupar, para que ele não acabe. O príncipe Vassíli sabia disso e, assim que se deu conta de que se começasse a pedir por todos os que lhe pediam em pouco tempo não poderia mais pedir por si mesmo, raramente fazia uso da sua influência."
↪ "E falando em sociedade russa" no. 4... As ocupações da moda para a alta sociedade eram três: funcionário público, diplomata ou militar. Ok.

↪ "E falando em sociedade russa" no. 5... Quando o assunto é zoeira alcoólica, os russinhos deixam até brasileiros no chinelo. O nível da brincadeira dos rapazes, na minha opinião, era hardcore (olha aí, a blogueira mandando inglês no meio do texto. não falei?): 

- apostar que seria capaz de entornar uma garrafa de rum e sentar na janela do terceiro andar com as pernas para fora?!
- amarrar um inspetor nas costas de um urso e soltar o bicho nadando em um canal?!

~ô loco, meu.~


↪ "E falando em sociedade russa" no. 6... Aaaaah, o casamento... Se até hoje ainda não tornou-se uma instituição totalmente falida, imagine então naquela época.
"(...) o casamento, a meu ver, é uma instituição divina à qual é preciso conformar-se."
A julgar pelo modo com que o jovem príncipe Andrei Bolkónski trata a esposa, os homens também não escapavam à obrigação social do casamento. Da maneira com que Tolstói descreve, inclusive; a impressão que fica é que o príncipe 1. ou casou-se por conta de uma arma apontada para sua cabeça, ou 2. acordou um belo dia como o Gregor Samsa - "...ao despertar de um sonho inquieto, descobriu-se em sua cama casado com uma enfadonha e bigoduda esposa."

↪ Aliás, vamos aproveitar para dar uma espiada no que andavam falando de nós, mulheres
(1) 
"(...) É uma dessas raras mulheres com quem podemos ficar tranquilos quanto à nossa honra; (...)"

(2) 
"Mas amarrar-se a uma mulher e, como um condenado preso em grilhões, vai perder toda a liberdade. E tudo o que houver de força e de esperança, tudo será só um peso (...). Salões, mexericos, bailes, vaidade, futilidade...eis o círculo vicioso do qual não consigo sair."

(3)
"Meu pai tem razão. Egoismo, vaidade, estupidez, futilidade em tudo: isso são as mulheres, quando se revelam por inteiro, tais como são. Quando a gente as observa na sociedade, parece existir alguma coisa, mas não há nada, nada, nada!"

(4)
"E as duas vão falar até não poder mais. Isso é coisa de mulher."

(5)
"- Mau negócio, hein?
- O quê, meu pai?
- A esposa! (...) não há nada a fazer (...). São todas assim."


↪ Mãããs... Algo que achei bem legal e interessante nessa primeira parte foi a sinalização de que Tolstói talvez explorará, sob uma perspectiva bastante positiva, diferentes relações de forte amizade entre mulheres: 1. Condessa Rostóv x Anna Mikháilovna, 2. Natália x Sônia, 3. Mariá x Julie.
"Choravam porque eram amigas; e porque eram boas; e porque, amigas de juventude, tinham de se preocupar com aquele assunto vulgar - o dinheiro; e porque sua mocidade já tinha passado...Mas as lágrimas das duas lhes eram agradáveis..."
Essa passagem acabou me dando até uma ideia para nome de banda (se eu tivesse uma):

Russian Girlmance.

(não tenho a banda, mas tenho o poster.) (via)
↪ Até esse ponto, a obra de Tolstói indica que focará sua narrativa especialmente na juventude da Rússia da época, e, claro, nos impactos que o confronto com a França causará sobre ela -- praticamente todos os núcleos familiares da história cedem uma de suas jovens figuras à guerra. Retomando-se os perfis traçados, constatamos, então, que a Rússia estava mandando para a guerra, por exemplo, 1. jovens capazes de amarrar inspetores a ursos e 2. jovens que apenas fugiam da vida matrimonial fracassada. Vai dar muito certo, não?

Também por essa razão, achei que esse início evocou, com as devidas proporções e ressalvas, o livro Pais e Filhos, do Turguêniev.
"(...) e ali Pierre se deteve, esperando uma oportunidade para expressar seus pensamentos, como os jovens gostam de fazer." 
"(...), a ingenuidade do seu egoísmo de jovem era tão flagrante que ele desarmava os seus ouvintes." 
↪ Para leitores do século XXI, este comentário do príncipe Nikolai Andréievitch Bolkónski a respeito dos alemães é de causar arrepios:
"Além do mais, começou atacando os alemães. Só os preguiçosos não vencem os alemães. Desde que o mundo é mundo, todos vencem os alemães. E eles não vencem ninguém. Só vencem uns aos outros."
↪ Mária, me perdoa, mas te achei um tantinho chata, sabes
"(...) parece-me inútil ocupar-se com uma leitura ininteligível (...) Vamos ler os apóstolos e o evangelho (...) devemos nos persuadir de que quanto menos dermos asas ao nosso fraco espírito humano, mais agradável será para Deus, que rejeita toda ciência que não venha dele; quanto menos tentarmos nos aprofundar naquilo que Ele houve por bem esconder da nossa consciência, tanto mais cedo Ele nos concederá a descoberta por meio do seu espírito divino."
Será que esse pensamento já espelha o de Tolstói na época? Até onde eu saiba, ele foi um cristão fervoroso.

"- Se todos fossem para a guerra só por causa de suas convicções, não haveria guerras - disse.
- E isso seria maravilhoso - disse Pierre."

02/02/2016

The Remains of the Day - Kazuo Ishiguro

(sobre o livro: info, sinopse, etc.)

A sensação foi de grande alívio quando constatei que diversas resenhas dessa obra mencionam que ela relaciona-se muito mais àquilo que não é dito e ao que está nas entrelinhas, pois admito que, aproximando-se dessa premissa, não sei bem o que registrar aqui sobre The Remains of the Day. Nunca antes na história da internet o meme "não sei o que dizer, só sentir" fez tanto sentido pra mim.

Contudo, tentando desenvolver uma mínima concatenação de ideias, eu diria que o livro nos apresenta ao mordomo inglês Stevens que, vivendo o turbilhão de mudanças por que passava a Inglaterra após a II Guerra Mundial, inconscientemente dá-se conta -- embora conscientemente tente refutar para si mesmo e para o leitor (com evidente fracasso) -- de que tudo aquilo em que acreditara e a que dedicara-se por toda a vida era uma grande e completa falácia, praticamente uma piada ilusória de péssimo gosto. Não é uma jornada fácil para ele. Para o leitor, aliás, tampouco.

A narrativa, que transcorre primordialmente durante a década de 50, nos leva à companhia de Stevens por duas viagens - física e (~) espiritual - que transcorrem simultaneamente: 1. acompanhamos o trajeto de carro que ele faz pelo oeste da Inglaterra, com as seguintes passagens

2. e também a viagem reflexiva e contemplativa que ele desdobra sobre seu passado, suas escolhas e atitudes, ao longo do percurso. Estas foram algumas paradas dessa viagem em particular:
1. "We call this land of ours Great Britain, ... And yet what precisely is this "greatness"? Just where, or in what, does it lie?"
2. "What is a great butler?"
3. "What is dignity comprised?" 
4. "Oh, I'm not in a hurry at all...For the first time...I'm able to take my time and I must say, it's rather an enjoyable experience." 
5. "I may not have thought further why it was that i had given the distinct impression I had never been in the employ of Lord Darlington."
6. "Why, Mr. Stevens, why, why, why do you always have to pretend?"
7. "Aren't you curious? Good God, man,...Aren't you at all curious?" 
8. "And you must have seen it, Stevens. How could you not have seen it? "
9. "Whatever awaits me, Mrs. Benn, I know I'm not awaited by emptiness. If only I were. But oh no, there's work, work and more work."
10. "One can't be forever dwelling on what might have been." 
11. "You've got to enjoy yourself. The evening's the best part of the day."
O livro é lindo, é sofrido - chorei feito uma bezerra desmamada no final (posso estar chorando agora, será?) - e acredito que qualquer leitor, em maior ou menor extensão, será capaz de identificar-se com o processo pelo qual passava Stevens. Olhar para trás, encarar de frente o passado e permitir-se aceitar que, sim, escolhas erradas podem ter sido feitas; porém, a despeito do tempo desperdiçado (?), um horizonte de possibilidades segue logo adiante. A noite, a bela e misteriosa noite, ainda nos aguarda.

Lendo Contos | Confabulário - Juan José Arreola

(Tradução: Iara Tizzot)
Sinopse surrupiada do site da editora (Arte & Letra): Juan José Arreola (1918-2001) fez de tudo um pouco, comediante, padeiro, atendente de banco e qualquer outra ocupação que lhe garantisse o sustento. Somente aos 31 anos começa sua carreira com os livros, trabalhando no Fondo de Cultura Económica como revisor e escritor de orelhas. Seus livros tiveram um impacto tremendo não só no México, mas em todo o mundo. Juan Rulfo, Octavio Paz, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Augusto Monterroso, Pablo Neruda, todos tiveram sua obra influenciada pelos textos ou pela pessoa de Arreola. Uma figura difícil, controversa, mas genial e de uma inventividade sem limites.
Os contos que compõem Confabulário ultrapassam qualquer intenção de descrição: fábulas, poemas em prosa, crônicas, simples narrações e divertimentos que transcendem, além de sua profundidade e poesia, por sua enorme maestria no manejo da linguagem. Clássico já pela contundência de sua obra, Juan José Arreola nos dá em Confabulário uma pequena mostra de seu grande talento literário.

Infelizmente, admito que não consegui dialogar muito bem com os contos do Arreola; valendo dizer que achei a maioria  (olho para os lados, inspeciono o ambiente, sussurro:)  sem graça?  (e fujo para as montanhas). Porém, a título de mera ilustração, veja que o autor 1. é incluído por Borges em uma hipotética lista de 100 livros que comporiam sua biblioteca pessoal, 2. é elogiado por Cortázar, que afirmava que Arreola detinha "o que Rimbaud chamava "le lieu e la formule" e 3. é recomendado e elogiado pelo Guillermo del Toro. Ou seja, resta claro que eu é que estou completamente equivocada. E a edição da Arte & Letra é bem bonita, inclusive com a delicadeza de trazer o texto impresso em roxo, acompanhando o projeto gráfico da capa. Vou ficar de olho na editora. 

Deixo registradas as passagens de um dos contos de que mais gostei dessa coletânea:


The Tenant of Wildfell Hall - Anne Brontë

(sobre o livro: info, sinopse, etc)


Prezados Sr. e Sra. Markham, 

por favor, permitam que me apresente. Meu nome é Daniela e escrevo do Brasil, século XXI. Devo-lhes pedir desculpas, pois escrevo em resposta às cartas que o Sr. Markham escrevera ao amigo J. Halford em 1847 e que eu, petulantemente, interceptei e li. Não orgulho-me dessa indiscrição, contudo apelo para que compreendam o fascínio tentador exercido pela possibilidade de conhecer a vida de pessoas que viveram em outro país, dois séculos anteriores ao meu. 

(Sr. e Sra. Markham, considerando-se o sentimento de intimidade proporcionado pela leitura da carta e dos trechos do diário nela reproduzidos, assumirei a ousadia de chamá-los por Gilbert e Helen. Espero não ofendê-los demasiadamente.) 

Helen, senti-me muito comovida pelos relatos de sua triste experiência no casamento com o Sr. Huntingdon e admiro-a pela força que demonstrara ao lidar com aquela situação de tanto sofrimento. Como as coisas eram, digo, são difíceis para as mulheres de seu tempo, não? Comparando-se ao século XIX, fico feliz por poder compartilhar que as coisas melhoraram consideravelmente no atual século XXI. Hoje, Helen, muitas de nós não mais veem-se forçadas, por exemplo, a casarem-se para garantir segurança na vida; já sendo muito mais fácil conquistar a independência por meios que dispensam um marido ou mesmo qualquer homem. No país em que vivo, não estamos obrigadas (teoricamente) a suportar sozinhas a violência física e/ou moral cometida por maridos alcoólatras do modo como você sofrera (sim, isso continua acontecendo e, de fato, a rede de apoio persiste falha). Ainda temos muito que avançar e conquistar, é verdade, mas resta evidente que já houve  progressos para o sexo feminino. 

Achei extremamente interessantes as reflexões proporcionadas pelo seu posicionamento em relação à criação dos filhos, particularmente quanto à incoerente diferença no tratamento concedido a meninos e meninas. De fato, a acusação que a mãe de Gilbert dirige-lhe a respeito de como você tratava seu filho - "Você vai criá-lo como uma garota, estragar seu espírito e fazer dele uma mera mocinha" - foi completamente descabida. No que, afinal, consistiria criar uma criança "como uma garota ou um garoto"? Sua preocupação em não permitir que seu filho Arthur se contaminasse pelo mau comportamento do pai chamou-me atenção para a importância que a educação das crianças possui na transformação de uma sociedade.

Gilbert, sua carta evoca bastante a discussão em torno do papel da mulher e do homem no casamento e, sobre esse tema, parece-me que as coisas evoluem a passos lentos ainda no atual século XXI. Respondendo intrometidamente à pergunta que você propusera a seu amigo Halford - "Is that the extent of your domestic virtues; and does your happy wife exact no more?": particularmente, eu não acho que o papel da mulher no casamento esteja restrito à mera execução exemplar de todos os afazeres domésticos; restando aos maridos apenas o provimento do lar. Acredito que o matrimônio constrói-se com partilha, companheirismo e amor mútuos, e não mediante um reles modelo de servidão apática.
Alegra-me saber que, após tantos percalços, vocês tenham encontrado juntos a felicidade. Encerro esta carta aqui, na esperança de que ela os encontre bem, com saúde e ainda mais felizes.
Afetuosamente,
Daniela (séc. XXI)
P.S.: por favor, enviem meus cumprimentos carinhosos ao pequeno Arthur. 
P.P.S. Gilbert, desculpe-me a afronta, mas um pouquinho de edição em suas cartas não seria má ideia, concorda? Só uma, como dizemos em meu tempo, "dica de amiga"; por favor não se aborreça comigo.  
P.P.P.S.: gostaram de conhecer o Doutor? Grande figura, não? Agradeçam-lhe, em meu nome,  a gentileza de entregá-los essa carta no séc. XIX.

Duas Damas de Respeito (Two Serious Ladies) - Jane Bowles

(sobre o livro: info, sinopse, etc. /Editora Amarylis/ Tradução: Mariluce Pessoa)

Sinopse surrupiada do site da Amazon: A excêntrica e impulsiva Christina Goering, uma rica herdeira nova-iorquina, encontra-se com a igualmente imprevisível senhora Copperfield numa festa da alta sociedade. Cada qual a seu modo, as duas mulheres estão prestes a trilhar caminhos singulares na busca por seus desejos. Os passos das duas voltam a se cruzar em determinado ponto, com resultados surpreendentes. Publicado originalmente em 1943, o único romance de Jane Bowles é uma verdadeira obra-prima, repleta de absurdo. Escrito com sagacidade e compaixão mordazes, Duas damas de respeito é uma agradável e afiada celebração da liberdade feminina, que determina um marco na literatura do século XX. 

Parece sensacional, não? Bom, eu estava super animada e gostaria muito de poder dizer que gostei desse livro, mas definitivamente não rolou. A Jane Bowles tem fãs de peso como Trumam Capote, Tennessee Williams e Ali Smith, sua obra é considerada um clássico cult modernista e, a partir desse livro, pude perceber o instigante posicionamento feminista da autora; contudo não deu para mim. A narrativa provocou uma sensação pouco prazerosa de completa aleatoriedade desconexa, detestei a maioria das personagens - aliás, nem sei se as compreendi inteiramente - e, sendo curta e grossa, achei tudo muitíssimo enfadonho. Creio que esta passagem resume muito bem o espírito geral do livro e das personagens - marcadas por comportamentos relativamente absurdos e inesperados em resposta a uma aparente inadequação e insatisfação crônicas com o mundo e a vida:
"- Não gosto de esportes - disse a senhorita Goering -...me dão uma terrível sensação de estar pecando.
(...)
- Os esportes - disse a senhorita Gamelon - não podem nunca lhe dar a sensação de estar pecando, mas o que é mais interessante é que você não consegue nunca se sentar por mais de cinco minutos sem introduzir alguma coisa estranha na conversa. Eu acho até que você faz uma pesquisa sobre isso."
Ah, e esta aí logo abaixo é a Jane Bowles. Você acha que ela tem cara de quem precisa da minha aprovação para alguma coisa?

- Please, I'm flawless.
De modo nenhum tentaria desencorajar a leitura, pois 1. pareço mesmo estar entre a minoria, e 2. foi de fato um daqueles casos de falta de diálogo pessoal com a prosa. Houve diversos momentos isolados que me marcaram e deixo aqui o registro do meu favorito: