02/02/2016

The Tenant of Wildfell Hall - Anne Brontë

(sobre o livro: info, sinopse, etc)


Prezados Sr. e Sra. Markham, 

por favor, permitam que me apresente. Meu nome é Daniela e escrevo do Brasil, século XXI. Devo-lhes pedir desculpas, pois escrevo em resposta às cartas que o Sr. Markham escrevera ao amigo J. Halford em 1847 e que eu, petulantemente, interceptei e li. Não orgulho-me dessa indiscrição, contudo apelo para que compreendam o fascínio tentador exercido pela possibilidade de conhecer a vida de pessoas que viveram em outro país, dois séculos anteriores ao meu. 

(Sr. e Sra. Markham, considerando-se o sentimento de intimidade proporcionado pela leitura da carta e dos trechos do diário nela reproduzidos, assumirei a ousadia de chamá-los por Gilbert e Helen. Espero não ofendê-los demasiadamente.) 

Helen, senti-me muito comovida pelos relatos de sua triste experiência no casamento com o Sr. Huntingdon e admiro-a pela força que demonstrara ao lidar com aquela situação de tanto sofrimento. Como as coisas eram, digo, são difíceis para as mulheres de seu tempo, não? Comparando-se ao século XIX, fico feliz por poder compartilhar que as coisas melhoraram consideravelmente no atual século XXI. Hoje, Helen, muitas de nós não mais veem-se forçadas, por exemplo, a casarem-se para garantir segurança na vida; já sendo muito mais fácil conquistar a independência por meios que dispensam um marido ou mesmo qualquer homem. No país em que vivo, não estamos obrigadas (teoricamente) a suportar sozinhas a violência física e/ou moral cometida por maridos alcoólatras do modo como você sofrera (sim, isso continua acontecendo e, de fato, a rede de apoio persiste falha). Ainda temos muito que avançar e conquistar, é verdade, mas resta evidente que já houve  progressos para o sexo feminino. 

Achei extremamente interessantes as reflexões proporcionadas pelo seu posicionamento em relação à criação dos filhos, particularmente quanto à incoerente diferença no tratamento concedido a meninos e meninas. De fato, a acusação que a mãe de Gilbert dirige-lhe a respeito de como você tratava seu filho - "Você vai criá-lo como uma garota, estragar seu espírito e fazer dele uma mera mocinha" - foi completamente descabida. No que, afinal, consistiria criar uma criança "como uma garota ou um garoto"? Sua preocupação em não permitir que seu filho Arthur se contaminasse pelo mau comportamento do pai chamou-me atenção para a importância que a educação das crianças possui na transformação de uma sociedade.

Gilbert, sua carta evoca bastante a discussão em torno do papel da mulher e do homem no casamento e, sobre esse tema, parece-me que as coisas evoluem a passos lentos ainda no atual século XXI. Respondendo intrometidamente à pergunta que você propusera a seu amigo Halford - "Is that the extent of your domestic virtues; and does your happy wife exact no more?": particularmente, eu não acho que o papel da mulher no casamento esteja restrito à mera execução exemplar de todos os afazeres domésticos; restando aos maridos apenas o provimento do lar. Acredito que o matrimônio constrói-se com partilha, companheirismo e amor mútuos, e não mediante um reles modelo de servidão apática.
Alegra-me saber que, após tantos percalços, vocês tenham encontrado juntos a felicidade. Encerro esta carta aqui, na esperança de que ela os encontre bem, com saúde e ainda mais felizes.
Afetuosamente,
Daniela (séc. XXI)
P.S.: por favor, enviem meus cumprimentos carinhosos ao pequeno Arthur. 
P.P.S. Gilbert, desculpe-me a afronta, mas um pouquinho de edição em suas cartas não seria má ideia, concorda? Só uma, como dizemos em meu tempo, "dica de amiga"; por favor não se aborreça comigo.  
P.P.P.S.: gostaram de conhecer o Doutor? Grande figura, não? Agradeçam-lhe, em meu nome,  a gentileza de entregá-los essa carta no séc. XIX.

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