20/02/2016

The Driver's Seat - Muriel Spark

           Sobre o livro: info, sinopse, etc. 
Foi durante a leitura do livro do James Wood "Como Funciona a Ficção"  que interessei-me pela Muriel Spark - ela é uma das escritoras referenciadas. A princípio, eu havia planejado conhecê-la com seu livro mais famoso - The Prime of Miss Jean Brodie -, mas, quando vi a Claire (canal YT ReadingBukowskiincluindo-o entre suas leituras favoritas de 2015, decidi começar por essa obra.

The Driver's Seat, protagonizado por uma mulher misteriosamente excêntrica*, é um thriller psicológico com pitadinhas de humor negro, cuja graça encontra-se especialmente na forma, a qual é marcada por uma série de provocações da Muriel Spark, muitas delas relacionadas às "regras do jogo" mais banais referentes aos thrillers policiais:
Ela podia perfeitamente protagonizar o livro da Jane Bowles, como melhor amiga daquelas protagonistas.

 Provocação 01 - Aparece explicitamente no trecho destacado acima: o principal mistério a ser desvendado pelo leitor refere-se ao porquê dos fatos. Bem no início, a narrativa revela que nossa protagonista será encontrada morta a facadas. Essa provocação, a meu ver, é a mais desconcertante para o leitor, pois, concluída a leitura, o livro realmente não permite que cheguemos a nenhuma conclusão definitiva e satisfatória.

❥ Provocação 02 - Muriel Spark faz uma tremenda embaralhada nos conceitos de agressor/vítima, presa/predador; caça/caçador. As circunstâncias do crime são tão surreais e mal explicadas (deliberadamente), que fica bastante difícil não vacilar ao tentar apontar qual personagem assume cada um desses papéis.

❥ Provocação 03 - Não sou leitora habitual desse gênero literário, mas parece-me que, nessas histórias, o mais frequente é que as mulheres apareçam na mesa do médico legista, enquanto aos homens reserva-se o papel do serial killer. Bom, Spark também dá um jeito de complicar essa fórmula. E não, não trata-se de mera inversão de posições.

❥ Provocação 04 - Refere-se ao título da novela: o que significa estar no comando de sua própria vida, ou, de outro modo, assumir o assento do motorista e não apenas sentar passivamente como passageiro? A resposta parece até ser simples, mas Spark mostra que também é possível complicar isso. Apenas como exemplo (não diretamente relacionado ao livro), eu proporia este questionamento: o suicida, no exato momento em que acaba com sua própria vida para pôr fim ao sofrimento sufocante da depressão, está assumindo o comando, a direção de sua vida; ou estaria fora de controle; um mero passageiro da Depressão?

(A partir desse ponto, haverá possíveis SPOILERS.) 

Na tentativa de extrair uma explicação mais palpável à novela, registro aqui esta teoria interpretativa que encontrei em um fórum de discussão do GoodReads e que achei genial: seria a narrativa, na verdade, uma colagem dos depoimentos das pessoas que cruzaram o caminho de Lise, culminando no depoimento final do assassino? Bom, é uma hipótese que explicaria as várias informações desencontradas a respeito da personagem e a singularidade do comportamento dela. Na tentativa de desacreditar as próprias vítimas mulheres, qual costuma ser o tom do discurso  dos agressores do sexo masculino? Não seria exatamente este: "ela era louca, ela me seduziu, ela pediu para morrer, ela me arrastou para lá, olha como ela se vestia, ela foi vista beijando um desconhecido."?

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