20/02/2016

Tirza - Arnon Grunberg


Como eu infelizmente desembolsei uma grana considerável da minha carteira proletária nesse livro, o gif vai ter de satisfazer a ânsia de efetivamente jogá-lo pela janela (fora que, claro, não desejo ferir ninguém), tendo em vista que o detestei com todas as forças. Que a experiência sirva, pelo menos, para que eu nunca mais me esqueça da valiosa lição:

NEVER BELIEVE THE HYPE!

Depois desse descarrego inicial mais do que necessário, vejamos se eu consigo registrar qualquer bobagem sobre essa peculiar experiência de leitura.

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(info, sinopse, etc.)
(Tradução: Mariângela
Guimarães)


Bom, no início do livro, o leitor é breve e deliberadamente ludibriado a seguir esta intempestiva linha de raciocínio: ~"Awn, tadinho do Jörgen. Um trabalhador esforçado, pai exemplar e dedicado que prepara a janta sozinho para ele e a filha adolescente, tendo de enfrentar o retorno da esposa discarada que abandonara a família sem dar qualquer satisfação; apenas em busca de uma aparente autorrealização. Certeza de que ela é uma vigarista e de que Jörgen não merecia nada disso. Olha lá, coitado, não sabe nem o que fazer sob o julgo da mulher manipuladora".~ A narrativa, porém, não é tão leviana com o leitor, pois não tarda em salvá-lo desse equívoco; revelando-lhe gradativamente com o que/quem ele efetivamente está lidando. E é aqui que os problemas começam pra mim.

A realidade progressivamente revelada é que Jörgen é um bosta de pai, marido, profissional, locatário, cidadão e ser humano; um sujeito que não entendia por que, a despeito de seu máximo esforço para atingir a excelência em tudo na vida, sempre ~colocavam~ alguma pedra no caminho dele. A personagem é tão simplória, que não é capaz sequer de dar título ao livro do qual é protagonista.

Jörgen é, de fato, assustadoramente detestável e desprezível, mas não foi isso o que me enervou durante a leitura; e, sim, a maneira com que o desnudamento dele acontece. A sensação que tive foi a de uma ladainha infinita que transcorre em um loop de inacreditáveis 460 páginas, ao longo das quais o narrador, em aparente pacto com a personagem principal, investe-nos em uma jornada autodepreciativa e autocomiserativa, repleta de ironiazinha e sarcasminho. A narrativa parece enebriar-se com sua própria sagacidade em achincalhar e criticar (="chutar...) o homem ordinário da #ClasseMédiaSofre (=...cachorro morto") padecedor de #FirstWorldProblems. Para ter certeza de que o leitor tenha entendido isso (acho que era essa a intenção; sei lá, eu), o texto ainda tem a manha de mandar a personagem para a África e enunciar explicitamente coisas do tipo: "(...) teve a impressão de que ele é que era a doença da classe média branca; ele, Jörgen Holfmeester, em pessoa." (pelo amor de deus. e ele ainda repete isso outras vezes.)   Durante a leitura, é possível deparar-se 1. com frases de efeito de revirar os olhos -

A postura, ele não havia encontrado, mas o pano de prato, sim.
O futuro está em esquecer.
Tem a sensação de ser invisível.
Eu venci as lágrimas.
Eu flutuava pelo espaço, não me apegava a ninguém.
Eu eliminei o amor.
Sou uma pessoa sem compaixão.

-, 2. com referências literárias explícitas aos queridinhos russos Tolstói e Dostoiévski (para dar ~peso~?...) e 3.com um plot twist embaraçosamente ridículo e apelativo. Ah, e para mim, a cereja fastidiosa do bolo: o carinhoso apelido que o senhor Jörgen dá à filha é "Rainha do Sol" (rolling my eyes again). Lembra do Humbert; aquele que chamava "sua" Lolita de "luz da minha vida"? Pois aí está. É demais; pra mim, não dá.

Pelas resenhas que li, parece-me que a maioria dos leitores conseguiu enxergar profundidade na narrativa e no conflito vivido por Jörgen, mas eu só consegui perceber artimanha superficial, pretensão e aporrinhação. Posso não ter entendido? Opa, é bem provável. Quero tentar dar uma segunda chance para finalmente entender? Nem sob tortura.

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