28/03/2016

[DROPS] [Arquivo X - S03E22] vs [Moby Dick]

                                  

Guardando este diálogo aqui, pois amei demais. So goooood. (#maratonaArquivoX)
SCULLY: Poor Queequeg. 
MULDER: Why did you name your dog Queequeg? 
SCULLY: It was the name of the harpoonist in Moby Dick. My father used to read to me from Moby Dick when I was a little girl, I called him Ahab and he called me Starbuck. So I named my dog Queequeg. It's funny, I just realized something. 
MULDER: It's a bizarre name for a dog, huh? 
SCULLY: No, how much you're like Ahab. You're so consumed by your personal vengeance against life, whether it be its inherent cruelties or mysteries, everything takes on a warped significance to fit your megalomaniacal cosmology. 
MULDER: Scully, are you coming on to me? 
SCULLY: It's the truth or a white whale. What difference does it make? I mean, both obsessions are impossible to capture, and trying to do so will only leave you dead along with everyone else you bring with you. You know Mulder, you are Ahab. 
MULDER: You know, its interesting you should say that, because I've always wanted a peg leg. It's a boyhood thing I never grew out of. I'm not being flippant, I've given this a lot of thought. I mean. if you have a peg leg or hooks for hands then maybe its enough to simply keep on living. You know, braving facing life with your disability. But without these things you're actually meant to make something of your life, achieve something earn a raise, wear a necktie. So if anything I'm actually the antithesis of Ahab, because if I did have a peg leg I'd quite possibly be more happy and more content not to be chasing after these creatures of the unknown. 
SCULLY: And that's not flippant? 
MULDER: No, flippant is my favourite line from Moby Dick. 'Hell is an idea first born on an undigested apple dumpling', huh?
Decidido: deste ano, a leitura de Moby Dick não me escapa. (espero)

Poster by: J.J Lendl 

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #06


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01, DL#02, DL #03, DL#04, DL#05.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 2 - Terceira Parte


Sim, mas vamos com calma, pois é possível ~problematizar~ esse "romance". Primeiramente, há a óbvia e relevante diferença de idade: ele com 31 na cara, ela com apenas 16. Acho bem complicado, ainda mais se considerarmos outra clara diferença: a de personalidade, especialmente agravada pelo fato de ambos preferirem ignorá-la (eles mal se conhecem, na realidade). Depois, se retomarmos o discursinho aconselhador sobre casamentos que Andrei oferecera a Pierre no início do livro, é possível perceber que o príncipe parece cometer o mesmo "erro" pela segunda vez e, pior,  pouquíssimo tempo após a morte da esposa. Se juntarmos ainda as pistas que Tolstói está oferecendo (respectivos pais inseguros ou contrários, Andrei já assustado "perante a devoção e confiança" de Natacha, com "pena da fraqueza feminina e infantil"), cabe a suspeita de que logo teremos mais uma "família infeliz à sua maneira". Ou não? Vamos acompanhar.


↪ A personagem Rússia, por sua vez, mal conseguiu se safar com um acordo de paz, já decidiu que era a vez dela de brincar de reformas internas liberais diversas: políticas, administrativas, legais, militares... Preparando a pipoca para acompanhar o desenrolar dos fatos.
"...dois decretos famosos, que abalaram a sociedade, sobre a eliminação de cargos da corte e sobre a realização de concursos para preencher os cargos de assessor colegiado e conselheiro de Estado. (...) uma nova Constituição do estado, que devia transformar toda a ordem judiciária, administrativa e financeira vigente na Rússia (...) estavam se cumprindo e tomando corpo os vagos sonhos liberais com que o imperador Alexandre subira ao trono (...)"

↪ Natacha e os cargos nas comissões legisladora e do estatuto militar conseguiram, ainda que momentaneamente, retirar Andrei da crise existencial; mas o pobre Pierre continua mais perdido do que nunca. Ele cedeu às pressões e reconciliou-se com a esposa (ainda que seja um matrimônio de fachada) e segue travando uma árdua luta interna para conseguir seguir os preceitos e objetivos maçons. De modo semelhante ao que ocorrera com Rostóv no exército, Pierre também parece ser confrontado pelas contradições que ele gradativamente constata na Maçonaria e em seus membros. Mudam-se as instituições, porém paradoxos similares se repetem.


↪ Converti-me recentemente ao Bokononismo, mas isso não impediu que eu admirasse imensamente estas observações do maçom Ióssif Alekséievitch:
"Qual dos três objetivos era o primeiro e o mais importante? A regeneração e a purificação de si mesmo, é claro (...) é esse objetivo que exige de nós os maiores esforços, e por isso, iludidos pelo orgulho, deixamos de lado esse objetivo e nos ocupamos ou do mistério, que não somos dignos de compreender por causa da nossa impureza, ou nos ocupamos da regeneração da espécie humana, quando nós mesmos somos um exemplo de indecência e depravação."

↪ Essa parte, particularmente, fez-me refletir que Tolstói parece delinear quase um tratado sobre a relação da sociedade russa com a beleza e a feiura, aspectos recorrentemente explicitados e explorados a respeito das personagens. Naquela época -- quem quero enganar? ainda hoje, ué --, o aspecto físico das pessoas assumia papel crucial para determinar o sucesso ou a derrota do indivíduo na sociedade. A beleza, ou a falta dela, era um elemento decisivo (por vezes, o único) no julgamento de caráter que as pessoas estabeleciam entre si.

Outro aspecto que repercutia no desempenho social de um russo -- Tolstói já havia sugerido em partes anteriores e novamente o retomou aqui --, é a arte de saber relacionar-se com as pessoas certas.
"(...) é necessário travar conhecimento com pessoas de posição mais elevada do que eles, pois só nesse caso existe alguma satisfação em travar conhecimentos. (Berg:) - A gente pode imitar alguma coisa, pode pedir alguma coisa. Veja só como eu progredi, desde os postos mais baixos."
Ou seja, o retrato que Tolstói segue construindo é o de uma sociedade russa extremamente frágil, fútil, mesquinha e superficial.

E na realidade criada pelo autor, aqueles indivíduos que, em algum momento, constatam essa verdade desalentadora (Andrei, Pierre, Nikolai...), terminam sucumbindo à vibe "Hello Darkness, my old friend..."


↪ O trecho em que Tolstói descreve a interação entre Vera e Berg demonstra muitas questões que o autor exploraria em Anna Karenina. Foi uma leitura muito interessante. Olha só o que parece ser o embrião do futuro famoso parágrafo inicial:
"(...) tudo era absolutamente igual à casa dos outros."
↪ Não é com pouco vergonha que sinto a obrigação de assumir que, até aqui, tenho me identificado mais do que gostaria com Andrei - ele é um poço de contradições, falhas, inseguranças... Sem qualquer originalidade, portanto, ele segue sendo meu personagem preferido (com pequena vantagem, é verdade).


↪ Também como bokononista, cabe a confissão de que o discurso religioso da Mária causa-me uma canseira danada*, mas achei esta passagem extremamente relevante:
"Mária (...) se admirava com a miopia das pessoas, que procuravam aqui na terra o prazer e a felicidade; trabalhavam, sofriam, lutavam e faziam mal umas às outras para alcançar aquela felicidade impossível, ilusória, viciosa."
(* o que é meio desconfortável, pois suponho que as reflexões dela correspondem ao pensamento do próprio Tolstói.)

↪ Posso mandar a minha resposta à pergunta do Ióssif?
"Aquela paixão que obrigava o senhor a vacilar no caminho da virtude (...). Diga a verdade, qual é a sua principal paixão? Será que o senhor sabe qual é?"
Minha resposta:


↪ Essa parte inspirou várias ideias de trilha sonora, mas acabei ficando com a Ella Fitzgerald, pois o Andrei e a Natacha conseguiram me deixar com muita vontade de sentir-me perdidamente apaixonada. ◖(ღ˘⌣˘ღ)◗♫・*:。:* (**Pensando bem... nope, melhor bater na madeira.**)


♫ But I adore you, so strong for you
Why go on stalling? I am falling; love is calling; why be shy?
Let's fall in love 

26/03/2016

Wonder Woman / The Hiketeia - Greg Rucka, J.G. Jones, Wade von Grawbadger, Dave Stewart, Todd Klein


A mera imagem da Mulher-Maravilha, que sempre julguei exageradamente objetificada e americanizada, já havia garantido o meu completo desinteresse e distanciamento da personagem, porém, quando constatei (especialmente agora, com um filme estreando em 2017) que a maioria do público leitor feminino de quadrinhos parece ser, na verdade, grande fã da heroína, fui ficando cada vez mais intrigada.

Fiz uma pesquisa rápida e gostei bastante de algumas coisas que descobri sobre a personagem nesse artigo do site The New Yorker: The Last AmazonWonder Woman returns. O press release de 1941, por exemplo, explicando a proposta do criador, é realmente muito promissor: 

"‘Wonder Woman’ was conceived by Dr. Marston to set up a standard among children and young people of strong, free, courageous womanhood; to combat the idea that women are inferior to men, and to inspire girls to self-confidence and achievement in athletics, occupations and professions monopolized by men” because “the only hope for civilization is the greater freedom, development and equality of women in all fields of human activity.” Marston put it this way: “Frankly, Wonder Woman is psychological propaganda for the new type of woman who should, I believe, rule the world.”

Eu ignorava praticamente tudo relacionado à origem dela e fiquei fascinada com a mistura de referências: mitologia grega, Amazonas, feminismo, sufragistas, sociedades matriarcais; "uma heroína lutando para mudar, e não apenas proteger, o status quo"... 
"Wonder Woman’s début appeared in December, 1941, in All-Star Comics No. 8. On the eve of the Second World War, she flew her invisible plane to the United States to fight for peace, justice, and women’s rights. To hide her identity, she disguised herself as a secretary named Diana Prince and took a job working for U.S. Military Intelligence. Her gods are female, and so are her curses. “Great Hera!” she cries. “Suffering Sappho!”
Talvez não fosse mesmo má ideia gastar uns minutinhos para ler qualquer coisa, não?

Peguei uma listinha do GoodReads com a votação das melhores publicações e comecei pelo respectivo segundo lugar: Hiketeia, publicado em 2002 (info, sinopse etc.: X). Honestamente? Minha única reclamação é que o quadrinho é muito curto. Quando estava ficando super empolgante...THE END.

Depois da capa grandiosa, rapidamente surge este painel ilustrando a agenda de um dia normal na vida da Princesa Diana Prince:

      
"Sabe como é (...)"

Talvez eu queira ser a Diana Prince quando crescer? (Continuo, porém, dispensando a roupinha icônica.)

21/03/2016

Kitchen - Banana Yoshimoto

(Sobre o livro: info, sinopse, etc.)

Nope, não rolou praticamente nenhum diálogo com esse livro. Li uma edição traduzida para o inglês (por Megan Backus) e suspeito de que isso também não tenha contribuído em nada para o sucesso da empreitada. 

Yoshimoto parte de uma boa premissa -- jovens aprendendo a lidar com a morte de familiares/pessoas queridas e com a solidão (real, aliás) inerente -- , mas o desenvolvimento acaba sendo tão raso, que até irrita. Valendo-se de uma prosa juvenil, pouco fluida e meio desconexa (tradução?), repleta de insistentes floreios metafóricos de gosto duvidoso, a autora parecia esforçar-se embaraçosamente em me dizer que aquilo tudo era muito profundo, mas eu não conseguia sentir nada*, pois ela simplesmente não demonstrava/provava nada. 

* = Ou quase nada, pois achei o segundo conto (novela?) - The Moonlight Shadow - bem melhor do que o primeiro nesse aspecto. 

20/03/2016

We have always lived in the castle - Shirley Jackson

(Sobre o livro: info, sinopse, etc.)

Fazendo uma colagem das referências para recordação posterior: 


Vós, leitor e autor, vos tornais eternamente responsáveis pela expectativa que criais.  

Começo: bem instigante;
  +
Desenvolvimento: ótima criação de suspense e atmosfera;
  +
Clímax: meio frustrante; não contradizendo muito as antecipações/previsões; (se bem que imaginei até que o gato fosse falar a qualquer momento, então...)
  +
Desfecho: muito arrastado e enfadonho (sensação de "história já concluída, mas autora não larga o osso.");
  +
Personagens: interessantes, porém tornam-se progressivamente malas;
  +
Inúmeras repetições intencionais de palavras, frases e imagens que, em certo ponto, acabaram tornando-se bastante irritantes (entendo que seja uma figura de linguagem/um recurso estilístico, mas isso não evitou a aporrinhação).
_________________________

    =     Livro  Ok*.  ¯\_(ツ)_/¯

* Há algo mais presunçoso do que dizer que um livro é "ok"? Acho que não. Ah, talvez "decente"?)

19/03/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #05


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01, DL#02, DL #03, DL#04.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 2 - Segunda Parte


↪ Essa parte, especialmente, sugeriu muito que a narrativa de Tolstói corresponde, em considerável extensão, às diferentes versões da "jornada do herói" que Pierre, Andrei e Nikolai terão de atravessar durante aqueles conturbados anos da história russa; simbolizando, cada um, os diferentes aspectos da jornada que o próprio país também atravessava. Considerando-se que ainda faltam mais de 1500 páginas para acabar o livro (é, possivelmente ainda escreverei muita abobrinha nesse blog sobre o livro), obviamente isso ainda deve ser encarado como uma mera hipótese a ser confirmada em definitivo. Aparentemente, é provável que os três tenham ultrapassado, nessas ultimas páginas, a fase do "Threshold - Começo da transformação". Ou talvez já tenha sido "A Grande Revelação"? Não sei, é necessário continuar a leitura.

O interessante é que não seriam jornadas de fantasia, envolvendo grandiosas aventuras de jedis ou hobbits, mas representariam e confirmariam que todos nós, de maneiras diferentes, somos sim heróis atravessando a aventura grandiosa e misteriosa chamada "vida". (poxa, isso foi profundo; admite aí.)


 Esse momento das jornadas do Pierre e do Andrei lembra bastante, pelo pouco do que conheço, a própria história pessoal de Tolstói, que também enfrentou uma crise espiritual semelhante a dessas duas personagens. Sei que o autor, inclusive, compartilhou suas angústias e reflexões filosóficas em livro, o qual encontra-se publicado pela Companhia das Letras - Os Últimos Dias.  O Brain Pickings também escreveu um bom artigo sobre a obra: x.
"(Pierre:) O que é ruim? O que é bom? O que se deve amar, e o que se deve odiar? Para que se deve viver e o que eu sou? O que é a vida, o que é a morte? Que força governa tudo? (...) Você vai morrer e tudo vai terminar. Você vai morrer e vai ficar sabendo de tudo...ou vai parar de perguntar."
Por enquanto, Pierre parece ter encontrado um alívio para sua alma através da maçonaria, enquanto Andrei () resiste parcialmente às investidas solidárias do amigo, ainda encontrando alguma espécie de alento no ceticismo e na solidão.


Tá vendo, Jon Snow? Aos olhos de Tolstói, o senhor é, sim, um grande sábio.

 Já a jornada do Nikolai... QUE JORNADA!! Amando demais. Está sendo delicioso acompanhar os sonhos e as ilusões de adolescente do bom rapaz sendo destruídos gradativamente (eu bem que tinha previsto que o tombo dele seria feio). Dá muita pena, claro, especialmente por estar ocorrendo no meio do cenário cruel de uma guerra; contudo acho que todo mundo passa por isso, em menor ou maior grau.

Nessa parte, o jovem tenente foi submetido a grandes contragostos que certamente fizeram-no questionar, ainda que inconscientemente, o sentido de toda aquela merda:
- Meu major toma parte das provisões de alimentos do outro regimento simplesmente para que seus soldados não morressem de fome e é punido severamente por roubo, sem qualquer constrangimento ou atenuante? 
- É assim que meu país está cuidando de seus soldados feridos?! 
- É assim que meu amigo de infância, agora que conseguiu chegar ao alto escalão, me trata?! Com desdém mal disfarçado? 
- Meu soberano, que eu tanto amo, tão perfeito e magnânimo, diz que não pode fazer nada por Deníssov, que "a lei é mais forte do que eu"?! 
- Meu querido amigo e brilhante militar está padecendo em um hospital putrefato, acusado de roubo apenas por alimentar seus soldados, enquanto os imperadores decidem condecorar o primeiro Zé Mané que aparece em suas frentes? 
- Soldados morreram em batalha, muitos passaram e ainda passam fome e frio, enquanto outros ainda agonizam em hospitais que mais parecem abatedouros... e agora esses dois imperadores decidem que foi tudo um mal-entendido? Decidem começar um bromance?!
"(Nikolai:) - Como vocês podem julgar os atos do soberano, que direito nós temos de entender?! (...) Nós não somos funcionários diplomáticos, somos soldados e mais nada. Eles nos mandam morrer, e nós morremos. Se nos castigam, quer dizer que somos culpados; não cabe a nós julgar nada. Se convém ao soberano reconhecer Bonaparte como imperador e selar um acordo de paz com ele, quer dizer que isso é necessário. Se nós começarmos a querer julgar e discutir tudo, aí não vai restar mais nada de sagrado."

E daí, claro, ele foi encher a cara com bebida. ¯\_(ツ)_/¯

Aos poucos, Nikolai, você parece estar captando o espiríto de como as coisas realmente funcionam neste mundo. Vai doer, não vou mentir, mas vai ficar tudo bem no final. Quero dizer, espero que sim. Vai, Tolstói?

13/03/2016

The Arrival - Shaun Tan

(Sobre o livro: info, sinopse, etc.)
The Arrival explora a temática da imigração, propondo-se a discutir noções de pertencimento e identidade. Partindo dessa premissa, Shaun Tan, ilustrador australiano, faz uma série de boas escolhas narrativas que dialogam muito bem entre si:

1. Ausência completa de textos e diálogos. Aproximando-se da experiência do imigrante que ainda não domina a língua do país, o leitor precisa se virar para construir a história apenas a partir das ilustrações;

2. Shaun Tan não utiliza uma inspiração única, mas sim uma coletânea diversificada de fluxos imigratórios historicamente relevantes; de modo que não há a identificação de países específicos. O autor cria um lugar ficcional incrivelmente imaginativo, estranho e surreal (como os novos lares costumam parecer aos olhos de imigrantes recém-chegados) que acaba por aproximar a narrativa de uma história universal;


3. As cores das ilustrações - belas gradações de tons sépia - simulam livros e fotos antigas de imigrantes, e o projeto gráfico da edição (capa, contracapa, etc.) acompanha a analogia proposta pelas lindas ilustrações do autor;


4. As situações retratadas pelas imagens refletem uma gama variada de experiências (mais uma vez, contribuindo para o tom universal da narrativa): o desafio de comunicar-se em uma nova língua, a saudade da família que fica para trás, a árdua adaptação aos novos e diferentes costumes, as dificuldades para conseguir um emprego, as novas amizades...

E, apesar desses percalços e atribulações que costumam desafiar a jornada de muitos imigrantes, é plenamente possível, como demonstra Shaun Tan, que eles alcancem o sonhado final feliz.

10/03/2016

Honorina - Balzac



"(...) já tinha começado a traduzir um conto de Balzac. Escolhera "Honorine", que era um conto sobre o arrependimento (...). Pereira não sabe o porquê, mas acreditava que aquele conto sobre o arrependimento seria uma mensagem na garrafa que alguém recolheria. Porque havia muito do que se arrepender, e um conto sobre o arrependimento vinha em boa hora, e esse era o único meio para transmitir uma mensagem a quem quisesse compreendê-la. (...) Não me sinto culpado de nada em especial e, no entanto, tenho o desejo de me arrepender. (...) estou contente de ter levado a vida que levei (...), porém, ao mesmo tempo, é como se tivesse vontade de me arrepender da minha vida (...)."

- Antonio Tabuccchi; Afirma Pereira.

Seria possível resistir ao querido Pereira? Não consegui na primeira vez e, bem, continuei falhando, pois investi-me na leitura de Honorina para melhor entender essa angústia corrosiva que Pereira traduz como uma necessidade sensorial de arrepender-se de algo conscientemente ignorado.

***

Ok, e o que eu encontrei em Honorina? Ora, Balzac fazendo balzaquices. Não sei se a culpa é do longo tempo desde a minha última leitura da Comédia Humana, mas, nesse conto, tive a sensação de que Balzac está mais do que nunca armado até os dentes com o discursinho "as mulheres isso, as mulheres aquilo, as mulheres não sei o quê, as mulheres não sei o quê lá, etc.". E que história intrincada! Não no sentido de "difícil compreensão", mas, sim, quanto aos próprios recursos narrativos e de trama escolhidos pelo autor. Eu detesto fazer resumos de livros (é chato, e sinopses encontram-se até em sites de livrarias), mas tentarei com esse conto, apenas pela diversão do desafio. Será que consigo?! (spoilers adiante, claro.)

***

No início da narrativa, estamos em uma festinha na casa de um cônsul francês na Itália que, instigado pelo papo divertido sobre "o erro da mulher" na sociedade (vulgo adultério feminino; pois é), decide relativizar a questão mediante exposição de um causo que ocorrera com ele na juventude, e é aqui que entra Honorina, a protagonista da história.

Honorina dá-se mal triplamente com os homens:
1o. Órfã, jovem e imatura, ela acaba casando com um conde muito mais velho do que ela; não por amor, mas por uma mera e aparente conveniência;

2o. Honorina finalmente conhece o amor na figura de um amante, porém a experiência revela-se traumatizante e catastrófica. Depois que ela larga o marido, o amancebado não curte a vida miserenta e a abandona grávida - a criança morre pouco tempo após o parto. O esposo traído, julgando-se culpado pelas circunstâncias (veja só), oferece-lhe todo o apoio, contudo ela refuta-o veementemente: os erros cometidos não permitiriam uma reconciliação e, de forma preponderante, ela não o amava. A partir desse ponto, Honorina resolve tentar levar uma vida independente e longe de novos relacionamentos amorosos com homens. Sem que ela saiba, contudo, a sombra do marido permanece em seu encalço, visto que era ele quem, indiretamente, financiava seu fictício sucesso de emancipação.

3o. Maurício, o cônsul que nos narra tais fatos, vê-se metido nesse imbróglio quando o marido traído (para quem trabalhava) pede que ele finja-se de vizinho de Honorina para sondar os sentimentos dela e interceder em nome do conde. Com tamanha insistência do marido e, especialmente, quando ela descobre que era ele quem financiava o projeto "um teto todo seu" dela; Honorina acaba cedendo e optando pela retomada do seu papel de esposa, ainda que aquilo implicasse em uma vida tremendamente infeliz. E pior: embora não tenham tido a ousadia de reconhecer, Maurício e Honorina apaixonaram-se.

Conforme afirma Pereira, há mesmo arrependimentos para todos os lados, para todos os gostos:
1. Honorina arrepende-se de:
ter casado com o conde,
ter-se deixado enganar pelo amante,
sua impotência em salvar o filho da morte,
ter acreditado que poderia levar uma vida independente,
ter voltado para o marido,
não ter sido uma melhor mãe para o filho que tivera com o conde (nos anos da reconciliação),
não ter declarado seu amor a Maurício.

2. O conde arrepende-se de:
ter sido um mau marido,
sua incapacidade em evitar a traição e o sofrimento do casal,
sua persistência invasiva na vida de Honorina, a despeito de todas as negativas enfáticas da esposa.

3. Maurício arrepende-se de:
ter ajudado o conde,
não ter compreendido, nem protegido Honorina,
não ter tido a coragem de assumir seu amor.

(e posso estar esquecendo-me de mais alguns...)

A narrativa, portanto, funciona quase como uma espécie de funil inceptiano (eita, acho que inventei um adjetivo): no presente, a festa na casa de Maurício (então cônsul francês na Itália) → no passado, as relações entre Maurício, o conde e Honorina  → no passado mais remoto, o que ocorrera entre o conde e Honorina.

***

Na introdução disponibilizada pela edição da Biblioteca Azul, Paulo Rónai discorre sobre a curiosa dualidade de interpretações em torno de Honorina. Segundo Rónai, Balzac pretendia demonstrar que o casamento e a família "não podem ter por base as tempestades do amor", enquanto o público leitor viu na obra a prova de que um marido verdadeiramente apaixonado é capaz de perdoar a esposa adúltera e reparar-lhe a honra. Certo, e por que eu menciono isso? Ora, porque a minha interpretação não seguiu nenhum desses dois lados. O que vi foi uma mulher socialmente aniquilada e esmagada por uma sequência bastante triste de eventos: um casamento apenas conveniente, um amor avassalador espezinhado, a morte de um filho, um marido traído que não sabe quando recuar, um novo homem apaixonado irresoluto e, o mais excruciante, a humilhação infligida por uma sociedade que não oferecia condições para que as mulheres levassem uma vida livre e autônoma, da maneira que julgassem melhor.

Talvez eu esteja criando uma tradição com a Comédia Humana, pois esse conto também leva uma trilha sonora que me ocorreu espontaneamente:

 - Dedico-lhe, querida Honorina.


 ( ˘˘з) So freeeeeee heeeeeeer. ♬♪ 

08/03/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #04


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01, DL#02, DL #03.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 2 - Primeira Parte

↪ - Deníssov, você poderia me ensinar a dançar a mazurca polonesa? (mas, por favor, esteja sóbrio durante as aulas, ok?)



Nessa parte, Tolstói (1) confirmou uma prévia impressão minha e (2) respondeu duas perguntas que fiz na DL anterior:

DL #03"Vale mencionar as pistas dadas por Tolstói, na forma dos maus presságios do Pierre, de que esse casamento vai dar em muita merda. Vamos acompanhar." 

Nem precisei acompanhar durante muitas páginas: Pierre tornou-se ciente da "franqueza e brutalidade dos pensamentos e da vulgaridade das expressões" de Hélène, que o traiu com Dólokhov (se entendi direito, a traição começou já no noivado). O casamento não durou nem um ano.

❥ DL #03: "Questão a ser esclarecida: quais são os verdadeiros sentimentos de Hélène nessa história toda? Ela opera na mesma sintonia do pai ou foi obrigada? Apaixonou-se genuinamente por Pierre...?"

É, ela só queria saber da grana, mesmo. Aparentemente, ela é a versão de saia do irmãozinho Anatole.
(Hélène para Pierre) "(...) o senhor é um tolo, mas disso todos já sabiam. (...) é raro achar uma mulher com um marido como o senhor que não arranje amantes, mas eu não fiz isso (...) Eu me separo, estou às suas ordens, mas só se o senhor me der a fortuna. Separar, olhe só com o que ele quer me meter medo!"
❥ DL#02"(...) só resta comentar algo sobre o Dólokhov, ou melhor, perguntar: quem é e qual é a dele afinal de contas? Suspeito de que eu deva aguardar grandes feitos dessa figura sobre a qual Tolstói, até aqui, só tem oferecido pequenos lampejos de informação: um rapaz petulante, orgulhoso, inconsequente e ardiloso. Vamos acompanhar o sujeito."

Então ele é, essencialmente, um traste filhinho de mamãe que, nessa parte, aprontou realmente "grandes feitos": teve um caso com a esposa de Pierre, tratou o marido traído com sarcasmo e ironia humilhantes, perdeu embaraçosamente o duelo* proposto por Pierre, constrangeu Sônia com flertes constrangedores e persistentes, ficou emburradinho quando ela recusou sua proposta de casamento e achou-se no direito de descontar a esnobada no suposto amigo Rostóv.  ( * = Difícil acreditar que já houve um tempo em que os homens se desafiavam a um duelo. É muita palermice. Na literatura, porém, os duelos são encantadores, não?)

Ah, e, como já sabíamos, ele é amiguinho do Anatole. (Não, ainda não engoli o Anatole.)

↪ Os fluxos de consciência do Pierre e do Rostóv são sempre muito interessantes e, às vezes, até engraçados; embora pareça haver uma dicotomia entre ambos: para Pierre, o inferno é ele; para Rostóv, o inferno são os outros.

     Bolsa de Valores de Personagens:

Em alta:                                  Em baixa:
Natacha                                           Dólokhov
Pierre                                                Hélène
Deníssov                                          Rostóv


↪ E tivemos mais algumas passagens que remetem explicitamente à relação entre gerações, que comentei na DL #01:
"Está vendo como é a mocidade, hein, Feoktist? - disse ele. - Riem de nós, os mais velhos."
"No rosto dos jovens, em especial dos militares, havia a expressão de um sentimento de desprezo respeitoso em relação aos velhos, que parecia dizer à velha geração: "Estamos prontos a respeitar e honrar os senhores, mas lembrem-se de que o futuro nos pertence." 
"Natacha (...) percebeu no mesmo instante o estado do irmão. (...), mas estava tão alegre, tão distante do desgosto, da tristeza, das recriminações que ela (como acontece tantas vezes com os jovens) se iludiu voluntariamente."
↪ Reação imediata no início em que a narrativa afirma que Moscou, naquela época, adorava o imperador Alexandre e daria uma festinha em homenagem ao príncipe Bragation:



Reação final com a explicação das manobras políticas para pôr panos quentes sobre a derrota vergonhosa em Austerlitz - com direito à eleição de bodes expiatórios: o pobre Kutúzov (! - único que previu a decisão equivocada!) e Áustria (que, aliás, devia estar falando o mesmo dos russos):


 CURIOSIDADES:
1. "(...) aquele tal lugar (...)" = prostíbulo.
2. Prato da moda entre os ricos: Sopa de tartaruga com cristas de galo. 

↪ Andrei* vive, e Liza** morre.
*: A entrada triunfal de Andrei, na hora certinha, me fez lembrar muito do Victor Hugo, mestre das aparições oportunas, majestosas e sem qualquer explicação (além da providência divina, claro). Tolstói, pelo menos, faz certa piada com a questão, deixando claro ao leitor que ele estava ciente de que forçava um pouco a barra. 
"É o Andrei!", pensou a princesa Mária. "Não, não pode ser, seria extraordinário demais" (...).
Aliás, quantas páginas a mais teríamos de ter lido, caso o Victor Hugo tivesse escrito o trecho referente à Batalha de Austerlitz? Medo.

**: Aquele bigodinho, que insistentemente era destacado sempre que Liza aparecia, era símbolo de alguma coisa? Tenho fortes suspeitas de que Tolstói inspirou-se em alguma conhecida para escrever essa personagem.

04/03/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #03


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01, DL#02.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 1 - Terceira Parte



↪ Enquanto a guerra troa no exterior, os russos que ficaram em casa brincam de arranjar casamentos. C'est la vie. Aliás, que brincadeira assustadoramente surreal. Durante essa leitura, foi inevitável questionar se aquilo era mesmo obra de um romancista do século XIX, e não de um surrealista do séc. XX.

↪ Aventura casamenteira 1: Conde* Pierre Bezúkhov x Princesa Hélène.
*(olha, que chique. o mundo dá voltas, não é mesmo?)

Eis que, "de repente", o digníssimo Pierre, até então um pária bastardo da sociedade russa, transforma-se no queridinho da high society nacional. O banimento de Petersburgo é esquecido, ele muda-se para a casa do príncipe Vassíli, é nomeado para o cargo de conselheiro de Estado e passa a viver cercado de pessoas que o tratam de maneira carinhosa e amável, entre as quais temos a própria Anna Pávlovna. "Subitamente", todos estavam, de modo evidente e incontestável, convencidos dos méritos dele (físicos, intelectuais, financeiros, sociais, etc.); e todos o amavam, até mesmo (aparentemente) a princesa Hélène.

Pierre, coitado, parece ser mais ingênuo e inexperiente do que eu pensava, pois, além de permitir que o príncipe Vassíli tomasse conta dos negócios e da vida dele, não consegue somar o "1+1" referente à toda aquela transformação:
Abba, por favor, explique para o Pierre o que ele fez para que as pessoas passassem a tratá-lo com tanta gentileza e devoção:


"Money, money, money
Always sunny
In the rich man's world"

Encarando tanta ingenuidade como adversária, o Príncipe Vassíli já entrou na batalha vitorioso: facilmente subjugou Pierre, presa fácil, e, todo trabalhado no mais puro gaslighting, foi lá ele mesmo tratar de oficializar o noivado entre a filha e o novo ricaço. Pierre não teve nenhuma chance.

Questão a ser esclarecida: quais são os verdadeiros sentimentos de Hélène nessa história toda? Ela opera na mesma sintonia do pai ou foi obrigada? Apaixonou-se genuinamente por Pierre (com a forcinha dada pela grana, talvez)? Essa personagem ainda precisa ser melhor delineada pela narrativa, mesmo porque nem Pierre sabe bem quem ela é (até fofocas de incesto entre ela e Anatole são mencionadas - p. 437-8!): 
"Afinal, é preciso avaliá-la e fazer um balanço para mim mesmo: Quem é ela? Eu estava enganado antes, ou me engano agora? Não, ela não é tola; não, ela é uma jovem encantadora!"
Vale mencionar as pistas dadas por Tolstói, na forma dos maus presságios do Pierre, de que esse casamento vai dar em muita merda. Vamos acompanhar.

↪ Aventura casamenteira 2: Príncipe Anatole x Princesa Mária.

Ora, restou claro que o Príncipe Vassíli sabia muito bem que casamentos não se arranjam sozinhos, portanto, se ele ainda tinha pimpolhos solteiros, era preciso atacar a próxima vítima: Princesa Mária. Aqui, as coisas ficaram surreais ao quadrado; com descrições lamentavelmente constrangedoras envolvendo a pobre Mária: a insistência da narrativa em expôr sua feiura, a cunhada e a dama de companhia tentando "arrumá-la" como se ela fosse um produto de loja a satisfazer os gostos de um possível futuro consumidor marido que só tinha olhos para o dinheiro e para a própria dama de companhia dela, os insultos do pai estressado... Quanta humilhação a princesa teve de suportar.

E o que dizer de Anatole; que mal conheço e já desconsidero pacas? Ele não vale a bosta que o cavalo do Napoleão Bonaparte cagava. 
"Anatole (...) encarava toda sua vida como um divertimento ininterrupto que alguém, por algum motivo, tinha a obrigação de providenciar para ele. (...) "Por que não casar, se ela é tão rica? Isso nunca atrapalha."
(...)
"(Mária) viu Anatole, que abraçava a francesinha e lhe sussurrava alguma coisa. (...) Anatole virou os olhos para a princesa Mária e, no primeiro momento, não soltou a cintura de Mlle. Bourienne, que não a via. (...) Mlle. soltou um grito e fugiu, enquanto Anatole, com um sorriso alegre, saudou a princesa Mária com uma reverência, como se a convidasse a rir daquele caso estranho e, após encolher os ombros, seguiu para a porta que dava para os seus aposentos."
(A petulância, a afronta, o disparate, a pachorra.... ARGH!!! Já torcendo pela morte desse desgraçado.)

Mas voltando à Mária: sério mesmo que a inocente vai querer dar uma de casamenteira para cima do Anatole e da Bourienne? Puxa vida, hein. (- Mária, colega, tome juízo.) Mas, para ser bem honesta, ela ainda conseguiu me surpreender positivamente com tal decisão (juro!), pois eu tinha me preparado para o pior: ela aceitaria um casamento de fachada com Anatole, sacrificando-se em nome da "felicidade" entre ele e a Bourienne. Ou seja, no fim das contas, até saí no lucro com a Mária.

Ah, e em nota mais pessoal: o comportamento do Príncipe Nikolai Bolkónski fez com que eu me lembrasse do bordão do meu falecido querido avô (uma piadinha interna familiar): "Sou um homem nervoso!"  (♥♥)  Achei mesmo que o príncipe fosse morrer de desgosto e ultraje. (Caso tivesse ocorrido, não o teria julgado.)

↪ No fim das contas, esses causos maritais trouxeram algumas peças perdidas do quebra-cabeça relacionado ao casamento de Andrei Bolkónski e Liza. Pierre levou apenas um mísero mês para casar-se com Hélène, enquanto Anatole invade a casa de uma mina que nunca vira na vida com a firme intenção de pedi-la em casamento. Que loucura. Ou seja, é possível que a história pessoal de Andrei não tenha sido muito diferente.

P.S.: Tolstói também respondeu à minha pergunta prévia (p. 549): sim, houve um tempo em que Andrei Bolkonski amou sua esposa.

Depois de todo esse surrealismo, o leitor passa a vomitar arco-íris com a reação fofa da família Rostóv recebendo a cartinha do filhote soldado. Aliás, as famílias Kuráguin e Róstov parecem ocupar pólos antagônicos no romance, não? O que uma tem de escrota, a outra tem de singeleza. Vamos acompanhar se isso continuará.

Nicolai Róstov, quem diria, acabou sendo promovido a oficial do exército. e Tolstói, mais uma vez, demonstra toda a inexperiência, inocência e imaturidade do mancebo: ele recusa o valioso "QI - quem-indica" que a família havia arrumado (p. 503), julga o colega que preferiu permanecer calado diante dos impropérios do grão-príncipe (p.505), encanta-se embaraçosamente pelo soberano e dá uma bela cortada no Andrei que, por sua vez, recepciona com estilo (p. 508):
"- (...) mas as nossas histórias, as histórias de quem esteve lá, sob o fogo do inimigo, as nossas histórias têm peso, não são como as histórias desses sujeitos do estado-maior, que recebem condecorações sem fazer nada."
 "- Pois vou lhe dizer uma coisa - interrompeu-o o príncipe Andrei, com uma autoridade calma na voz. - O senhor quis me ofender, mas estou pronto para concordar com o senhor que isso é muto fácil de fazer, se o senhor não tiver suficiente respeito por si mesmo; porém reconheça que a hora e a luta são muito impróprios para tais insultos. Mais dia, menos dia, todos nós teremos de travar um grande duelo mais sério, (...) e meu conselho, como um homem mais velho que o senhor, é deixar este assunto sem nenhuma consequência."

O senhor Bóris, na contramão do amigo, mostra ser um rapaz bem mais pragmático; sabendo aproveitar espertamente a forcinha que Andrei propõe-se a dar-lhe. A mãe parece ter-lhe ensinado direitinho.

↪ Que tal mais uma rodada de "momentos de sabedoria" a respeito das mulheres no século XIX? Vamos conferir:
"- Não me leve a mal se me prevaleço dos direitos de velha. - Calou-se por um momento, como as mulheres sempre se calam, à espera de alguma coisa, depois que falam da sua idade." 
"(...) ele estava casado, (...) na condição de feliz proprietário de uma linda esposa." 
sobre Lise grávida: "Naquela indumentária, (...) notava-se ainda mais como ela havia ficado feia." 
"Mária era tão feia, que nenhuma das duas poderia vê-la como uma rival; por isso elas se incumbiram do seu vestiário com uma sinceridade total, e com aquela certeza ingênua e firme das mulheres de que a roupa pode tornar um rosto bonito." 
Nicolai Bolkónski sobre a filha: "E quem vai casar com ela por amor? É feia, desajeitada. Vão casar por interesse, pela riqueza. E as solteiras não vivem? São até mais felizes!" 
"Como sempre acontece com mulheres solitárias que passaram sem companhia masculina, diante do surgimento de Anatole (...) as três mulheres sentiram que a vida que levavam até então não era vida."

↪ Daí, chegamos ao grande confronto:

BATALHA DE AUSTERLITZ.
(via)
Para os russos, mais uma vez, deu ruim. ¯\_(ツ)_/¯  Foi uma tremenda aflição ler, novamente, as trapalhadas do exército russo que, ousando subestimar um adversário tão ardiloso como Bonaparte; marcha convenientemente em direção a um vale para ser encurralado. Que desgraça. (Sugiro esse vídeo do History Channel sobre a batalha: history.com/topics/napoleon/videos/the-battle-of-austerlitz) 

Foi bem interessante o paralelo que a ótima narrativa de Tolstói permite que façamos entre as duas grandes lideranças inimigas, ao mesmo tempo em que demonstra como um bom comandante faz, sim, toda a diferença. Alexandre I, embora encantasse a juventude de seu exército com sua simpatia, não parecia possuir o comando frio, calculista e certeiro do brilhante Napoleão Bonaparte. Para alguém como Andrei, que almejava glória e fama, saber admirar e respeitar Bonaparte era, portanto, bastante lógico.

Ah, e como eu não o conhecia, seguem imagens do soberano russo derrotado:

  

Voltando ao Andrei, personagem que fecha essa terceira parte: ele é capturado pelos franceses e, desenganado pelo médico das tropas, é largado aos cuidados dos habitantes locais para morrer. Vejamos quanto tempo durará seu momento sublime de epifania e revelação transcendental:
"Naquele momento, pareceram-lhe tão insignificantes todos os interesses que ocupavam Napoleão, tão mesquinho lhe pareceu seu próprio herói, com aquela vaidade rasteira e sua alegria de vitória (...) Andrei pensou na insignificância da grandeza, na insignificância da vida, cujo significado ninguém conseguia entender, e na insignificância ainda maior da morte, cujo sentido ninguém entre os vivos conseguia entender ou explicar."

01/03/2016

[Mad Men Reading List] Nancy Drew #01 - The Secret of the Old Clock - Carolyn Keene




























Retomando a listinha literária de Mad Men; selecionei o livro que a Sally Draper lê em Beautiful Girls, o nono epísódio da quarta temporada. Rigorosamente, Sally aparece lendo o 28o. livro - The Clue of the Black Keys (1951) - da clássica e looonga série americana adolescente The Nancy Drew Mystery Stories, publicada ao longo dos anos de 1930 a 2003; e acabei optando pela leitura do primeiro livro dessa franquia - The Secret of the Old Clock (1930). Carolyn Keene, na verdade, é um pseudônimo que incluiu um grupo variado de ghost writers ao longo dos anos e, pelo que pude entender, os livros foram um dos grandes sucessos daquela época no gênero(?) atualmente reconhecido pelo mercado editorial como Young Adult (YA). A premissa da série é simples: jovem garota atua como detetive, desvendando um novo mistério a cada volume. Embora eu não tenha assistido à esta série, acho que é seguro afirmar que Veronica Mars* seja, em linhas bem gerais, uma versão 2000 da Nancy Drew. (* Quando teremos, Netflix?)

Recentemente, a rede americana CBS anunciou planos concretos de produzir uma adaptação contemporânea das obras para uma série de tv e, agora que concluí a leitura, ficou ainda mais fácil compreender a grande repercussão gerada pela afirmativa daquele canal de que Nancy Drew não será uma branca caucasiana. Nesse primeiro livro da série, a narrativa faz questão de deixar absolutamente claro que Nancy era "uma garota atraente" de 18 anos, loira, alta e de olhos azuis. Ah, e rica, obviamente. Filha de um advogado famoso e influente, Nancy morava em uma mansão em "River Heights", era popular, comprava vestidos nas melhores boutiques e dirigia um novíssimo carro conversível azul marinho que acabara de ganhar de presentinho do papai. Acho que não seria exagero afirmar que ela era praticamente uma Barbie Detetive - She got it all!!  Neste artigo da Paris Review - X, Isabel Ortiz esclarece que a aparência física dela (e mesmo a idade) mudou entre os vários volumes da série ao longo dos anos, usualmente guardando relação com o perfil hollywoodiano da moda. 

Mas e quanto à personalidade da Nancy Drew? - She was flawless!! Não consigo chegar a uma conclusão definitiva se isto seria um problema absoluto a ser criticado no livro, mas o fato é que a Nancy era inegavelmente uma perfeita Mary Sue. Todos (ou quase, já que as mean girls da escola a detestavam) amam a Nancy - antes mesmo de conhecê-la, pois era amor à primeira vista -; ela era a paladina dos oprimidos (humanos, animais, plantas, aliens), uma alma caridosa que só queria fazer o bem, sem olhar a quem. Durante a resolução do mistério, Nancy prova ser uma moça inteligente, corajosa (encarava e perseguia bandidos!), perspicaz e determinada, demonstrando possuir um aguçado poder de dedução. Uma heroína assim tão forte, porém simultaneamente inatingível, unidimensional e excessivamente idealizada, representaria uma figura de inspiração positiva ou negativa às adolescentes daquela época? Ambas, com ressalvas? Essa parece ser uma discussão que rende bastante. Lido o livro, decidi rever o tal episódio de Mad Men ** (não lembro de mais nada; que horror!), e pude relembrar que ele narra o dia em que Sally foge sozinha da casa em que morava com a mãe no subúrbio (Don e Betty estavam recém-divorciados) para encontrar-se com o pai em Nova York. Ou seja, no contexto de Mad Men, pelo menos, esse perfil da Nancy parece ter servido como símbolo bastante oportuno e preciso na construção da narrativa de Sally.

E qual seria o tal mistério desse primeiro livro? Bem, é fácil resumir: um velho ricaço morre e, contrariando todas as promessas que ele havia feito à infinita parentada pobre, o testamento revela que toda a herança iria para os Tophams, a família ~do mal~ (sim, pois todas as caracterizações do livro são puramente maniqueístas) que o abrigara durante os anos que antecederam ao falecimento. Mas, mas, como assim?! E a orfã que precisa estudar? E a mocinha que quer ter aulas de canto? E a velhinha que necessita de um cuidador? E os primos que querem viajar? Nancy, será que não haveria... um outro testamento?? Onde estaria escondido? Pronto, está aí o mistério, só que - PAUSA - Vamos voltar ao título do livro? "O segredo do velho relógio". Então; pegou, pegou? (Writer, you had one job...)
"This is the first mistery I've solved alone," she thought. "I wonder if I'll ever have another one half so thrilling."
É claro que essa leitura me exigiu a devida e ampla contextualização, contudo, para minha grata surpresa, ela acabou sendo bastante fácil, já que as características de época e de gênero exageradamente acentuadas que encontrei tornaram o efeito final muito mais cômico, do que aborrecido.
---

** em nota não diretamente relacionada: esse é o episódio com uma das melhores cenas ever (♥/✞):

Acho que não precisa chamar a Nancy Drew para resolver esse mistério...
Como talvez dissesse Suassuna: morreu de velha.

Afirma Pereira - Antonio Tabucchi

(Sobre o livro: info, sinopse, etc.; Edição da Cosac Naify traduzida por Roberta Barni.)



Senhor Pereira, respondeu Daniela, aceito com enorme prazer; desde que o senhor me prometa que conversaremos sobre literatura e sobre o que aconteceu em sua vida durante o exílio em Paris. Adoraria muito saber como transcorreram os anos de liderança do seu novo eu hegemônico na confederação de suas almas.
***

Afirma Pereira foi o segundo livro que li por recomendação indireta do Mário Vargas Llosa (primeiro: x), adotando como referência seu livro "A verdade das mentiras", e, mais uma vez, amei fervorosamente a sugestão. Definitivamente continuarei colando na dele, pois o digníssimo ganhador do Nobel parece mesmo manjar dos paranauês literários, ou, no mínimo, cabe dizer que nossos Santos dos Livros estão batendo harmoniosamente.Para poupar perda de tempo com minhas groselhas, sugiro de antemão a resenha que o próprio Llosa escreveu sobre o livro de Tabucchi, disponível aqui: X(* Também vale observar que foi mais um italiano excelente na minha conta. Seguirei, igualmente, de olho nessa turma.)
***

Esse Pereira, que intermediamente nos afirmará eventos e situações, é um viúvo português sem filhos, de ~50 anos e que, formado em Letras, havia construído uma sólida carreira como repórter policial. No momento em que o encontramos, porém, ele trabalha em um projeto profissional ligeiramente diferente: Pereira é o único funcionário da redação responsável pela página cultural do novo jornal vespertino Lisboa, na qual eram publicadas traduções de contos franceses do século XIX, efemérides e necrológios de escritores célebres. As afirmações de Pereira narradas pelo livro correspondem à avassaladora jornada - um conflito moral e de alma - que ele percorre durante o verão de 1938, auge da ditadura salazarista em Portugal; e que, acredito, possa ser sumariamente traduzida pelos seguintes trechos marcantes do livro:


Voltando à resenha do Llosa, vale dizer que ela ajudou-me a melhor entender um dos aspectos mais marcantes da obra: narrativa e narrador. Recorrendo a sucessivas e repetidas frases que reproduzem a mesma estrutura sintática do título do livro, quase como se estivéssemos lendo uma espécie de depoimento transcrito em um laudo pericial, o narrador consegue sempre demarcar sua presença, embora o faça de modo bastante distante e impessoal. Sobre esse narrador, Llosa discorre: "Não é um narrador literário; ao contrário, ele foge de ornamentos retóricos e de efusões líricas. É um mero receptor e transmissor de informações que finge receber do próprio Pereira, mas que, ao passarem por suas mãos de funcionário, notário, policial ou juiz, tornam-se frias e despersonalizadas. Em qualquer outra circunstância, essa voz burocrática mataria a ilusão de romance. Nesse caso, não; ela contribui maravilhosamente para criar o ambiente social rarefeito e desumanizado no qual vegetava Pereira, o clima de consentimento, a apatia, a corrupção generalizada e o medo reprimido que sustenta a ditadura na qual, por qualquer motivo, cidadãos podem ser chamados a depor, a confessar o que fazem e pensam perante à polícia, aos notários e juízes, tão frios como o narrador que nos conta a história. Em poucos romances modernos a escolha do narrador foi tão bem-sucedida, tão funcional em proporcionar à história o poder de persuasão como em Afirma Pereira." 

E ainda mais fascinante foi constatar que, a despeito (?) desse indiferente, mas certeiro, narrador; a prosa de Tabucchi demonstra uma admirável capacidade de conquistar e encantar por sua história e por sua apaixonante personagem. O modo com que iniciei esse post não foi mero gracejo, mas, sim, um reflexo sincero do meu sentimento ao terminar a leitura.


"A filosofia parece só tratar da verdade, 
mas talvez só diga fantasias; 
e a literatura parece só tratar de fantasias,
 mas talvez diga a verdade."