01/03/2016

Afirma Pereira - Antonio Tabucchi

(Sobre o livro: info, sinopse, etc.; Edição da Cosac Naify traduzida por Roberta Barni.)



Senhor Pereira, respondeu Daniela, aceito com enorme prazer; desde que o senhor me prometa que conversaremos sobre literatura e sobre o que aconteceu em sua vida durante o exílio em Paris. Adoraria muito saber como transcorreram os anos de liderança do seu novo eu hegemônico na confederação de suas almas.
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Afirma Pereira foi o segundo livro que li por recomendação indireta do Mário Vargas Llosa (primeiro: x), adotando como referência seu livro "A verdade das mentiras", e, mais uma vez, amei fervorosamente a sugestão. Definitivamente continuarei colando na dele, pois o digníssimo ganhador do Nobel parece mesmo manjar dos paranauês literários, ou, no mínimo, cabe dizer que nossos Santos dos Livros estão batendo harmoniosamente.Para poupar perda de tempo com minhas groselhas, sugiro de antemão a resenha que o próprio Llosa escreveu sobre o livro de Tabucchi, disponível aqui: X(* Também vale observar que foi mais um italiano excelente na minha conta. Seguirei, igualmente, de olho nessa turma.)
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Esse Pereira, que intermediamente nos afirmará eventos e situações, é um viúvo português sem filhos, de ~50 anos e que, formado em Letras, havia construído uma sólida carreira como repórter policial. No momento em que o encontramos, porém, ele trabalha em um projeto profissional ligeiramente diferente: Pereira é o único funcionário da redação responsável pela página cultural do novo jornal vespertino Lisboa, na qual eram publicadas traduções de contos franceses do século XIX, efemérides e necrológios de escritores célebres. As afirmações de Pereira narradas pelo livro correspondem à avassaladora jornada - um conflito moral e de alma - que ele percorre durante o verão de 1938, auge da ditadura salazarista em Portugal; e que, acredito, possa ser sumariamente traduzida pelos seguintes trechos marcantes do livro:


Voltando à resenha do Llosa, vale dizer que ela ajudou-me a melhor entender um dos aspectos mais marcantes da obra: narrativa e narrador. Recorrendo a sucessivas e repetidas frases que reproduzem a mesma estrutura sintática do título do livro, quase como se estivéssemos lendo uma espécie de depoimento transcrito em um laudo pericial, o narrador consegue sempre demarcar sua presença, embora o faça de modo bastante distante e impessoal. Sobre esse narrador, Llosa discorre: "Não é um narrador literário; ao contrário, ele foge de ornamentos retóricos e de efusões líricas. É um mero receptor e transmissor de informações que finge receber do próprio Pereira, mas que, ao passarem por suas mãos de funcionário, notário, policial ou juiz, tornam-se frias e despersonalizadas. Em qualquer outra circunstância, essa voz burocrática mataria a ilusão de romance. Nesse caso, não; ela contribui maravilhosamente para criar o ambiente social rarefeito e desumanizado no qual vegetava Pereira, o clima de consentimento, a apatia, a corrupção generalizada e o medo reprimido que sustenta a ditadura na qual, por qualquer motivo, cidadãos podem ser chamados a depor, a confessar o que fazem e pensam perante à polícia, aos notários e juízes, tão frios como o narrador que nos conta a história. Em poucos romances modernos a escolha do narrador foi tão bem-sucedida, tão funcional em proporcionar à história o poder de persuasão como em Afirma Pereira." 

E ainda mais fascinante foi constatar que, a despeito (?) desse indiferente, mas certeiro, narrador; a prosa de Tabucchi demonstra uma admirável capacidade de conquistar e encantar por sua história e por sua apaixonante personagem. O modo com que iniciei esse post não foi mero gracejo, mas, sim, um reflexo sincero do meu sentimento ao terminar a leitura.


"A filosofia parece só tratar da verdade, 
mas talvez só diga fantasias; 
e a literatura parece só tratar de fantasias,
 mas talvez diga a verdade."

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