10/03/2016

Honorina - Balzac



"(...) já tinha começado a traduzir um conto de Balzac. Escolhera "Honorine", que era um conto sobre o arrependimento (...). Pereira não sabe o porquê, mas acreditava que aquele conto sobre o arrependimento seria uma mensagem na garrafa que alguém recolheria. Porque havia muito do que se arrepender, e um conto sobre o arrependimento vinha em boa hora, e esse era o único meio para transmitir uma mensagem a quem quisesse compreendê-la. (...) Não me sinto culpado de nada em especial e, no entanto, tenho o desejo de me arrepender. (...) estou contente de ter levado a vida que levei (...), porém, ao mesmo tempo, é como se tivesse vontade de me arrepender da minha vida (...)."

- Antonio Tabuccchi; Afirma Pereira.

Seria possível resistir ao querido Pereira? Não consegui na primeira vez e, bem, continuei falhando, pois investi-me na leitura de Honorina para melhor entender essa angústia corrosiva que Pereira traduz como uma necessidade sensorial de arrepender-se de algo conscientemente ignorado.

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Ok, e o que eu encontrei em Honorina? Ora, Balzac fazendo balzaquices. Não sei se a culpa é do longo tempo desde a minha última leitura da Comédia Humana, mas, nesse conto, tive a sensação de que Balzac está mais do que nunca armado até os dentes com o discursinho "as mulheres isso, as mulheres aquilo, as mulheres não sei o quê, as mulheres não sei o quê lá, etc.". E que história intrincada! Não no sentido de "difícil compreensão", mas, sim, quanto aos próprios recursos narrativos e de trama escolhidos pelo autor. Eu detesto fazer resumos de livros (é chato, e sinopses encontram-se até em sites de livrarias), mas tentarei com esse conto, apenas pela diversão do desafio. Será que consigo?! (spoilers adiante, claro.)

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No início da narrativa, estamos em uma festinha na casa de um cônsul francês na Itália que, instigado pelo papo divertido sobre "o erro da mulher" na sociedade (vulgo adultério feminino; pois é), decide relativizar a questão mediante exposição de um causo que ocorrera com ele na juventude, e é aqui que entra Honorina, a protagonista da história.

Honorina dá-se mal triplamente com os homens:
1o. Órfã, jovem e imatura, ela acaba casando com um conde muito mais velho do que ela; não por amor, mas por uma mera e aparente conveniência;

2o. Honorina finalmente conhece o amor na figura de um amante, porém a experiência revela-se traumatizante e catastrófica. Depois que ela larga o marido, o amancebado não curte a vida miserenta e a abandona grávida - a criança morre pouco tempo após o parto. O esposo traído, julgando-se culpado pelas circunstâncias (veja só), oferece-lhe todo o apoio, contudo ela refuta-o veementemente: os erros cometidos não permitiriam uma reconciliação e, de forma preponderante, ela não o amava. A partir desse ponto, Honorina resolve tentar levar uma vida independente e longe de novos relacionamentos amorosos com homens. Sem que ela saiba, contudo, a sombra do marido permanece em seu encalço, visto que era ele quem, indiretamente, financiava seu fictício sucesso de emancipação.

3o. Maurício, o cônsul que nos narra tais fatos, vê-se metido nesse imbróglio quando o marido traído (para quem trabalhava) pede que ele finja-se de vizinho de Honorina para sondar os sentimentos dela e interceder em nome do conde. Com tamanha insistência do marido e, especialmente, quando ela descobre que era ele quem financiava o projeto "um teto todo seu" dela; Honorina acaba cedendo e optando pela retomada do seu papel de esposa, ainda que aquilo implicasse em uma vida tremendamente infeliz. E pior: embora não tenham tido a ousadia de reconhecer, Maurício e Honorina apaixonaram-se.

Conforme afirma Pereira, há mesmo arrependimentos para todos os lados, para todos os gostos:
1. Honorina arrepende-se de:
ter casado com o conde,
ter-se deixado enganar pelo amante,
sua impotência em salvar o filho da morte,
ter acreditado que poderia levar uma vida independente,
ter voltado para o marido,
não ter sido uma melhor mãe para o filho que tivera com o conde (nos anos da reconciliação),
não ter declarado seu amor a Maurício.

2. O conde arrepende-se de:
ter sido um mau marido,
sua incapacidade em evitar a traição e o sofrimento do casal,
sua persistência invasiva na vida de Honorina, a despeito de todas as negativas enfáticas da esposa.

3. Maurício arrepende-se de:
ter ajudado o conde,
não ter compreendido, nem protegido Honorina,
não ter tido a coragem de assumir seu amor.

(e posso estar esquecendo-me de mais alguns...)

A narrativa, portanto, funciona quase como uma espécie de funil inceptiano (eita, acho que inventei um adjetivo): no presente, a festa na casa de Maurício (então cônsul francês na Itália) → no passado, as relações entre Maurício, o conde e Honorina  → no passado mais remoto, o que ocorrera entre o conde e Honorina.

***

Na introdução disponibilizada pela edição da Biblioteca Azul, Paulo Rónai discorre sobre a curiosa dualidade de interpretações em torno de Honorina. Segundo Rónai, Balzac pretendia demonstrar que o casamento e a família "não podem ter por base as tempestades do amor", enquanto o público leitor viu na obra a prova de que um marido verdadeiramente apaixonado é capaz de perdoar a esposa adúltera e reparar-lhe a honra. Certo, e por que eu menciono isso? Ora, porque a minha interpretação não seguiu nenhum desses dois lados. O que vi foi uma mulher socialmente aniquilada e esmagada por uma sequência bastante triste de eventos: um casamento apenas conveniente, um amor avassalador espezinhado, a morte de um filho, um marido traído que não sabe quando recuar, um novo homem apaixonado irresoluto e, o mais excruciante, a humilhação infligida por uma sociedade que não oferecia condições para que as mulheres levassem uma vida livre e autônoma, da maneira que julgassem melhor.

Talvez eu esteja criando uma tradição com a Comédia Humana, pois esse conto também leva uma trilha sonora que me ocorreu espontaneamente:

 - Dedico-lhe, querida Honorina.


 ( ˘˘з) So freeeeeee heeeeeeer. ♬♪ 

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