04/03/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #03


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01, DL#02.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 1 - Terceira Parte



↪ Enquanto a guerra troa no exterior, os russos que ficaram em casa brincam de arranjar casamentos. C'est la vie. Aliás, que brincadeira assustadoramente surreal. Durante essa leitura, foi inevitável questionar se aquilo era mesmo obra de um romancista do século XIX, e não de um surrealista do séc. XX.

↪ Aventura casamenteira 1: Conde* Pierre Bezúkhov x Princesa Hélène.
*(olha, que chique. o mundo dá voltas, não é mesmo?)

Eis que, "de repente", o digníssimo Pierre, até então um pária bastardo da sociedade russa, transforma-se no queridinho da high society nacional. O banimento de Petersburgo é esquecido, ele muda-se para a casa do príncipe Vassíli, é nomeado para o cargo de conselheiro de Estado e passa a viver cercado de pessoas que o tratam de maneira carinhosa e amável, entre as quais temos a própria Anna Pávlovna. "Subitamente", todos estavam, de modo evidente e incontestável, convencidos dos méritos dele (físicos, intelectuais, financeiros, sociais, etc.); e todos o amavam, até mesmo (aparentemente) a princesa Hélène.

Pierre, coitado, parece ser mais ingênuo e inexperiente do que eu pensava, pois, além de permitir que o príncipe Vassíli tomasse conta dos negócios e da vida dele, não consegue somar o "1+1" referente à toda aquela transformação:
Abba, por favor, explique para o Pierre o que ele fez para que as pessoas passassem a tratá-lo com tanta gentileza e devoção:


"Money, money, money
Always sunny
In the rich man's world"

Encarando tanta ingenuidade como adversária, o Príncipe Vassíli já entrou na batalha vitorioso: facilmente subjugou Pierre, presa fácil, e, todo trabalhado no mais puro gaslighting, foi lá ele mesmo tratar de oficializar o noivado entre a filha e o novo ricaço. Pierre não teve nenhuma chance.

Questão a ser esclarecida: quais são os verdadeiros sentimentos de Hélène nessa história toda? Ela opera na mesma sintonia do pai ou foi obrigada? Apaixonou-se genuinamente por Pierre (com a forcinha dada pela grana, talvez)? Essa personagem ainda precisa ser melhor delineada pela narrativa, mesmo porque nem Pierre sabe bem quem ela é (até fofocas de incesto entre ela e Anatole são mencionadas - p. 437-8!): 
"Afinal, é preciso avaliá-la e fazer um balanço para mim mesmo: Quem é ela? Eu estava enganado antes, ou me engano agora? Não, ela não é tola; não, ela é uma jovem encantadora!"
Vale mencionar as pistas dadas por Tolstói, na forma dos maus presságios do Pierre, de que esse casamento vai dar em muita merda. Vamos acompanhar.

↪ Aventura casamenteira 2: Príncipe Anatole x Princesa Mária.

Ora, restou claro que o Príncipe Vassíli sabia muito bem que casamentos não se arranjam sozinhos, portanto, se ele ainda tinha pimpolhos solteiros, era preciso atacar a próxima vítima: Princesa Mária. Aqui, as coisas ficaram surreais ao quadrado; com descrições lamentavelmente constrangedoras envolvendo a pobre Mária: a insistência da narrativa em expôr sua feiura, a cunhada e a dama de companhia tentando "arrumá-la" como se ela fosse um produto de loja a satisfazer os gostos de um possível futuro consumidor marido que só tinha olhos para o dinheiro e para a própria dama de companhia dela, os insultos do pai estressado... Quanta humilhação a princesa teve de suportar.

E o que dizer de Anatole; que mal conheço e já desconsidero pacas? Ele não vale a bosta que o cavalo do Napoleão Bonaparte cagava. 
"Anatole (...) encarava toda sua vida como um divertimento ininterrupto que alguém, por algum motivo, tinha a obrigação de providenciar para ele. (...) "Por que não casar, se ela é tão rica? Isso nunca atrapalha."
(...)
"(Mária) viu Anatole, que abraçava a francesinha e lhe sussurrava alguma coisa. (...) Anatole virou os olhos para a princesa Mária e, no primeiro momento, não soltou a cintura de Mlle. Bourienne, que não a via. (...) Mlle. soltou um grito e fugiu, enquanto Anatole, com um sorriso alegre, saudou a princesa Mária com uma reverência, como se a convidasse a rir daquele caso estranho e, após encolher os ombros, seguiu para a porta que dava para os seus aposentos."
(A petulância, a afronta, o disparate, a pachorra.... ARGH!!! Já torcendo pela morte desse desgraçado.)

Mas voltando à Mária: sério mesmo que a inocente vai querer dar uma de casamenteira para cima do Anatole e da Bourienne? Puxa vida, hein. (- Mária, colega, tome juízo.) Mas, para ser bem honesta, ela ainda conseguiu me surpreender positivamente com tal decisão (juro!), pois eu tinha me preparado para o pior: ela aceitaria um casamento de fachada com Anatole, sacrificando-se em nome da "felicidade" entre ele e a Bourienne. Ou seja, no fim das contas, até saí no lucro com a Mária.

Ah, e em nota mais pessoal: o comportamento do Príncipe Nikolai Bolkónski fez com que eu me lembrasse do bordão do meu falecido querido avô (uma piadinha interna familiar): "Sou um homem nervoso!"  (♥♥)  Achei mesmo que o príncipe fosse morrer de desgosto e ultraje. (Caso tivesse ocorrido, não o teria julgado.)

↪ No fim das contas, esses causos maritais trouxeram algumas peças perdidas do quebra-cabeça relacionado ao casamento de Andrei Bolkónski e Liza. Pierre levou apenas um mísero mês para casar-se com Hélène, enquanto Anatole invade a casa de uma mina que nunca vira na vida com a firme intenção de pedi-la em casamento. Que loucura. Ou seja, é possível que a história pessoal de Andrei não tenha sido muito diferente.

P.S.: Tolstói também respondeu à minha pergunta prévia (p. 549): sim, houve um tempo em que Andrei Bolkonski amou sua esposa.

Depois de todo esse surrealismo, o leitor passa a vomitar arco-íris com a reação fofa da família Rostóv recebendo a cartinha do filhote soldado. Aliás, as famílias Kuráguin e Róstov parecem ocupar pólos antagônicos no romance, não? O que uma tem de escrota, a outra tem de singeleza. Vamos acompanhar se isso continuará.

Nicolai Róstov, quem diria, acabou sendo promovido a oficial do exército. e Tolstói, mais uma vez, demonstra toda a inexperiência, inocência e imaturidade do mancebo: ele recusa o valioso "QI - quem-indica" que a família havia arrumado (p. 503), julga o colega que preferiu permanecer calado diante dos impropérios do grão-príncipe (p.505), encanta-se embaraçosamente pelo soberano e dá uma bela cortada no Andrei que, por sua vez, recepciona com estilo (p. 508):
"- (...) mas as nossas histórias, as histórias de quem esteve lá, sob o fogo do inimigo, as nossas histórias têm peso, não são como as histórias desses sujeitos do estado-maior, que recebem condecorações sem fazer nada."
 "- Pois vou lhe dizer uma coisa - interrompeu-o o príncipe Andrei, com uma autoridade calma na voz. - O senhor quis me ofender, mas estou pronto para concordar com o senhor que isso é muto fácil de fazer, se o senhor não tiver suficiente respeito por si mesmo; porém reconheça que a hora e a luta são muito impróprios para tais insultos. Mais dia, menos dia, todos nós teremos de travar um grande duelo mais sério, (...) e meu conselho, como um homem mais velho que o senhor, é deixar este assunto sem nenhuma consequência."

O senhor Bóris, na contramão do amigo, mostra ser um rapaz bem mais pragmático; sabendo aproveitar espertamente a forcinha que Andrei propõe-se a dar-lhe. A mãe parece ter-lhe ensinado direitinho.

↪ Que tal mais uma rodada de "momentos de sabedoria" a respeito das mulheres no século XIX? Vamos conferir:
"- Não me leve a mal se me prevaleço dos direitos de velha. - Calou-se por um momento, como as mulheres sempre se calam, à espera de alguma coisa, depois que falam da sua idade." 
"(...) ele estava casado, (...) na condição de feliz proprietário de uma linda esposa." 
sobre Lise grávida: "Naquela indumentária, (...) notava-se ainda mais como ela havia ficado feia." 
"Mária era tão feia, que nenhuma das duas poderia vê-la como uma rival; por isso elas se incumbiram do seu vestiário com uma sinceridade total, e com aquela certeza ingênua e firme das mulheres de que a roupa pode tornar um rosto bonito." 
Nicolai Bolkónski sobre a filha: "E quem vai casar com ela por amor? É feia, desajeitada. Vão casar por interesse, pela riqueza. E as solteiras não vivem? São até mais felizes!" 
"Como sempre acontece com mulheres solitárias que passaram sem companhia masculina, diante do surgimento de Anatole (...) as três mulheres sentiram que a vida que levavam até então não era vida."

↪ Daí, chegamos ao grande confronto:

BATALHA DE AUSTERLITZ.
(via)
Para os russos, mais uma vez, deu ruim. ¯\_(ツ)_/¯  Foi uma tremenda aflição ler, novamente, as trapalhadas do exército russo que, ousando subestimar um adversário tão ardiloso como Bonaparte; marcha convenientemente em direção a um vale para ser encurralado. Que desgraça. (Sugiro esse vídeo do History Channel sobre a batalha: history.com/topics/napoleon/videos/the-battle-of-austerlitz) 

Foi bem interessante o paralelo que a ótima narrativa de Tolstói permite que façamos entre as duas grandes lideranças inimigas, ao mesmo tempo em que demonstra como um bom comandante faz, sim, toda a diferença. Alexandre I, embora encantasse a juventude de seu exército com sua simpatia, não parecia possuir o comando frio, calculista e certeiro do brilhante Napoleão Bonaparte. Para alguém como Andrei, que almejava glória e fama, saber admirar e respeitar Bonaparte era, portanto, bastante lógico.

Ah, e como eu não o conhecia, seguem imagens do soberano russo derrotado:

  

Voltando ao Andrei, personagem que fecha essa terceira parte: ele é capturado pelos franceses e, desenganado pelo médico das tropas, é largado aos cuidados dos habitantes locais para morrer. Vejamos quanto tempo durará seu momento sublime de epifania e revelação transcendental:
"Naquele momento, pareceram-lhe tão insignificantes todos os interesses que ocupavam Napoleão, tão mesquinho lhe pareceu seu próprio herói, com aquela vaidade rasteira e sua alegria de vitória (...) Andrei pensou na insignificância da grandeza, na insignificância da vida, cujo significado ninguém conseguia entender, e na insignificância ainda maior da morte, cujo sentido ninguém entre os vivos conseguia entender ou explicar."

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