08/03/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #04


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01, DL#02, DL #03.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 2 - Primeira Parte

↪ - Deníssov, você poderia me ensinar a dançar a mazurca polonesa? (mas, por favor, esteja sóbrio durante as aulas, ok?)



Nessa parte, Tolstói (1) confirmou uma prévia impressão minha e (2) respondeu duas perguntas que fiz na DL anterior:

DL #03"Vale mencionar as pistas dadas por Tolstói, na forma dos maus presságios do Pierre, de que esse casamento vai dar em muita merda. Vamos acompanhar." 

Nem precisei acompanhar durante muitas páginas: Pierre tornou-se ciente da "franqueza e brutalidade dos pensamentos e da vulgaridade das expressões" de Hélène, que o traiu com Dólokhov (se entendi direito, a traição começou já no noivado). O casamento não durou nem um ano.

❥ DL #03: "Questão a ser esclarecida: quais são os verdadeiros sentimentos de Hélène nessa história toda? Ela opera na mesma sintonia do pai ou foi obrigada? Apaixonou-se genuinamente por Pierre...?"

É, ela só queria saber da grana, mesmo. Aparentemente, ela é a versão de saia do irmãozinho Anatole.
(Hélène para Pierre) "(...) o senhor é um tolo, mas disso todos já sabiam. (...) é raro achar uma mulher com um marido como o senhor que não arranje amantes, mas eu não fiz isso (...) Eu me separo, estou às suas ordens, mas só se o senhor me der a fortuna. Separar, olhe só com o que ele quer me meter medo!"
❥ DL#02"(...) só resta comentar algo sobre o Dólokhov, ou melhor, perguntar: quem é e qual é a dele afinal de contas? Suspeito de que eu deva aguardar grandes feitos dessa figura sobre a qual Tolstói, até aqui, só tem oferecido pequenos lampejos de informação: um rapaz petulante, orgulhoso, inconsequente e ardiloso. Vamos acompanhar o sujeito."

Então ele é, essencialmente, um traste filhinho de mamãe que, nessa parte, aprontou realmente "grandes feitos": teve um caso com a esposa de Pierre, tratou o marido traído com sarcasmo e ironia humilhantes, perdeu embaraçosamente o duelo* proposto por Pierre, constrangeu Sônia com flertes constrangedores e persistentes, ficou emburradinho quando ela recusou sua proposta de casamento e achou-se no direito de descontar a esnobada no suposto amigo Rostóv.  ( * = Difícil acreditar que já houve um tempo em que os homens se desafiavam a um duelo. É muita palermice. Na literatura, porém, os duelos são encantadores, não?)

Ah, e, como já sabíamos, ele é amiguinho do Anatole. (Não, ainda não engoli o Anatole.)

↪ Os fluxos de consciência do Pierre e do Rostóv são sempre muito interessantes e, às vezes, até engraçados; embora pareça haver uma dicotomia entre ambos: para Pierre, o inferno é ele; para Rostóv, o inferno são os outros.

     Bolsa de Valores de Personagens:

Em alta:                                  Em baixa:
Natacha                                           Dólokhov
Pierre                                                Hélène
Deníssov                                          Rostóv


↪ E tivemos mais algumas passagens que remetem explicitamente à relação entre gerações, que comentei na DL #01:
"Está vendo como é a mocidade, hein, Feoktist? - disse ele. - Riem de nós, os mais velhos."
"No rosto dos jovens, em especial dos militares, havia a expressão de um sentimento de desprezo respeitoso em relação aos velhos, que parecia dizer à velha geração: "Estamos prontos a respeitar e honrar os senhores, mas lembrem-se de que o futuro nos pertence." 
"Natacha (...) percebeu no mesmo instante o estado do irmão. (...), mas estava tão alegre, tão distante do desgosto, da tristeza, das recriminações que ela (como acontece tantas vezes com os jovens) se iludiu voluntariamente."
↪ Reação imediata no início em que a narrativa afirma que Moscou, naquela época, adorava o imperador Alexandre e daria uma festinha em homenagem ao príncipe Bragation:



Reação final com a explicação das manobras políticas para pôr panos quentes sobre a derrota vergonhosa em Austerlitz - com direito à eleição de bodes expiatórios: o pobre Kutúzov (! - único que previu a decisão equivocada!) e Áustria (que, aliás, devia estar falando o mesmo dos russos):


 CURIOSIDADES:
1. "(...) aquele tal lugar (...)" = prostíbulo.
2. Prato da moda entre os ricos: Sopa de tartaruga com cristas de galo. 

↪ Andrei* vive, e Liza** morre.
*: A entrada triunfal de Andrei, na hora certinha, me fez lembrar muito do Victor Hugo, mestre das aparições oportunas, majestosas e sem qualquer explicação (além da providência divina, claro). Tolstói, pelo menos, faz certa piada com a questão, deixando claro ao leitor que ele estava ciente de que forçava um pouco a barra. 
"É o Andrei!", pensou a princesa Mária. "Não, não pode ser, seria extraordinário demais" (...).
Aliás, quantas páginas a mais teríamos de ter lido, caso o Victor Hugo tivesse escrito o trecho referente à Batalha de Austerlitz? Medo.

**: Aquele bigodinho, que insistentemente era destacado sempre que Liza aparecia, era símbolo de alguma coisa? Tenho fortes suspeitas de que Tolstói inspirou-se em alguma conhecida para escrever essa personagem.

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