01/03/2016

[Mad Men Reading List] Nancy Drew #01 - The Secret of the Old Clock - Carolyn Keene




























Retomando a listinha literária de Mad Men; selecionei o livro que a Sally Draper lê em Beautiful Girls, o nono epísódio da quarta temporada. Rigorosamente, Sally aparece lendo o 28o. livro - The Clue of the Black Keys (1951) - da clássica e looonga série americana adolescente The Nancy Drew Mystery Stories, publicada ao longo dos anos de 1930 a 2003; e acabei optando pela leitura do primeiro livro dessa franquia - The Secret of the Old Clock (1930). Carolyn Keene, na verdade, é um pseudônimo que incluiu um grupo variado de ghost writers ao longo dos anos e, pelo que pude entender, os livros foram um dos grandes sucessos daquela época no gênero(?) atualmente reconhecido pelo mercado editorial como Young Adult (YA). A premissa da série é simples: jovem garota atua como detetive, desvendando um novo mistério a cada volume. Embora eu não tenha assistido à esta série, acho que é seguro afirmar que Veronica Mars* seja, em linhas bem gerais, uma versão 2000 da Nancy Drew. (* Quando teremos, Netflix?)

Recentemente, a rede americana CBS anunciou planos concretos de produzir uma adaptação contemporânea das obras para uma série de tv e, agora que concluí a leitura, ficou ainda mais fácil compreender a grande repercussão gerada pela afirmativa daquele canal de que Nancy Drew não será uma branca caucasiana. Nesse primeiro livro da série, a narrativa faz questão de deixar absolutamente claro que Nancy era "uma garota atraente" de 18 anos, loira, alta e de olhos azuis. Ah, e rica, obviamente. Filha de um advogado famoso e influente, Nancy morava em uma mansão em "River Heights", era popular, comprava vestidos nas melhores boutiques e dirigia um novíssimo carro conversível azul marinho que acabara de ganhar de presentinho do papai. Acho que não seria exagero afirmar que ela era praticamente uma Barbie Detetive - She got it all!!  Neste artigo da Paris Review - X, Isabel Ortiz esclarece que a aparência física dela (e mesmo a idade) mudou entre os vários volumes da série ao longo dos anos, usualmente guardando relação com o perfil hollywoodiano da moda. 

Mas e quanto à personalidade da Nancy Drew? - She was flawless!! Não consigo chegar a uma conclusão definitiva se isto seria um problema absoluto a ser criticado no livro, mas o fato é que a Nancy era inegavelmente uma perfeita Mary Sue. Todos (ou quase, já que as mean girls da escola a detestavam) amam a Nancy - antes mesmo de conhecê-la, pois era amor à primeira vista -; ela era a paladina dos oprimidos (humanos, animais, plantas, aliens), uma alma caridosa que só queria fazer o bem, sem olhar a quem. Durante a resolução do mistério, Nancy prova ser uma moça inteligente, corajosa (encarava e perseguia bandidos!), perspicaz e determinada, demonstrando possuir um aguçado poder de dedução. Uma heroína assim tão forte, porém simultaneamente inatingível, unidimensional e excessivamente idealizada, representaria uma figura de inspiração positiva ou negativa às adolescentes daquela época? Ambas, com ressalvas? Essa parece ser uma discussão que rende bastante. Lido o livro, decidi rever o tal episódio de Mad Men ** (não lembro de mais nada; que horror!), e pude relembrar que ele narra o dia em que Sally foge sozinha da casa em que morava com a mãe no subúrbio (Don e Betty estavam recém-divorciados) para encontrar-se com o pai em Nova York. Ou seja, no contexto de Mad Men, pelo menos, esse perfil da Nancy parece ter servido como símbolo bastante oportuno e preciso na construção da narrativa de Sally.

E qual seria o tal mistério desse primeiro livro? Bem, é fácil resumir: um velho ricaço morre e, contrariando todas as promessas que ele havia feito à infinita parentada pobre, o testamento revela que toda a herança iria para os Tophams, a família ~do mal~ (sim, pois todas as caracterizações do livro são puramente maniqueístas) que o abrigara durante os anos que antecederam ao falecimento. Mas, mas, como assim?! E a orfã que precisa estudar? E a mocinha que quer ter aulas de canto? E a velhinha que necessita de um cuidador? E os primos que querem viajar? Nancy, será que não haveria... um outro testamento?? Onde estaria escondido? Pronto, está aí o mistério, só que - PAUSA - Vamos voltar ao título do livro? "O segredo do velho relógio". Então; pegou, pegou? (Writer, you had one job...)
"This is the first mistery I've solved alone," she thought. "I wonder if I'll ever have another one half so thrilling."
É claro que essa leitura me exigiu a devida e ampla contextualização, contudo, para minha grata surpresa, ela acabou sendo bastante fácil, já que as características de época e de gênero exageradamente acentuadas que encontrei tornaram o efeito final muito mais cômico, do que aborrecido.
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** em nota não diretamente relacionada: esse é o episódio com uma das melhores cenas ever (♥/✞):

Acho que não precisa chamar a Nancy Drew para resolver esse mistério...
Como talvez dissesse Suassuna: morreu de velha.

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