26/04/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #09


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01DL#02DL #03DL#04DL#05DL#06DL#07, DL#08.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 3 - Primeira Parte


↪ Chegamos a 1812, e é hora de aventura guerra!

↪ Tolstói inicia o tomo com uma espécie de ensaio sobre a Lei da Coincidência das Causas, a qual trata dos mecanismos que regem as causas capazes de produzir extraordinários acontecimentos históricos  contrários à razão humana e a toda a natureza humana. Resumida em um aforismo, creio que teríamos: nada é a causa; tudo é causa.

Segundo a lei, as guerras, exemplos máximos de fenômenos históricos irracionais, ocorrem em consequência de bilhares de pequeninas causas que concatenam-se por si mesmas e coincidem para provocá-las. Cada causa é simultaneamente pertinente - pois nada pode ocorrer sem quaisquer delas - e ilusória - devido à sua relativa insignificância e incapacidade de produzir isoladamente o acontecimento.

Nesse contexto, absolutamente todas as pessoas servem de instrumento inconsciente para que a história fatalista alcance seus objetivos; ou seja, cada mínima ação humana executada na esfera pessoal coincide no tempo com milhares de ações de outras pessoas e recebe um significado histórico. Ainda que reconheça-se haver pesos distintos entre as ações relacionados à posição do executante na escala social, não é possível negar a participação de nenhuma delas.

Suponho, portanto, que um desdobramento possível da lei é não permitir que ninguém coloque sua cabecinha no travesseiro à noite sem o peso da consciência de saber-se também culpado dos fenômenos históricos irracionais. Sob tal ponto de vista, e como mero exemplo: eu, uma brasileira insignificante e medíocre, também teria colaborado, ainda que em ridícula extensão, para a atual guerra na Síria?! (engolindo seco e suando frio.)

Aplicada à guerra entre a Rússia e a França, a lei afirmaria que a ambição de Napoleão, a tenacidade de Alexandre e um cabo qualquer que tenha decidido alistar-se ao exército são apenas três dos bilhões de fatos e agentes que contribuíram para a ocorrência do conflito que tinha de ser cumprido.

Com tais ideias, Tolstói acaba lançando interessantes questionamentos a respeito da maneira com que a História (fatalista, em sua concepção) é contada e construída; o que é reforçado por esta intrigante experiência de Rostóv citada posteriormente no tomo, a qual induz a conclusão de que relatos de experiências de guerra seriam sempre peças ficcionais:
"Depois de Austerlitz e da campanha de 1807, Róstov sabia (...) que, ao contar fatos militares, sempre mentiam, como ele mesmo mentia também, quando contava; em segundo lugar, ele já tinha experiência bastante para saber que, na guerra, tudo se passa de forma completamente distinta daquilo que podemos imaginar e contar."
Também fico tentada a fazer um contraponto meio provocativo e cínico (é irresistível) dessas ideias com o que Mária postula nesse mesmo tomo sobre o papel de Deus:
"Não pense que são as pessoas que produzem a dor. As pessoas são instrumentos Dele. (...) A dor é enviada por Ele, não pelas pessoas. As pessoas são o instrumento Dele, elas não têm culpa. Se lhe parece que alguém é culpado em relação a você, esqueça e perdoe."
Bom, se 1o. "todas as pessoas servem de instrumento inconsciente para que a história fatalista alcance seus objetivos"  e 2o. "As pessoas são o instrumento Dele, (...)";  então, no fim das contas... Guerras ocorrem porque é a vontade Dele? Vai saber.

Confiando na minha memória, parece-me que esses pensamentos também estariam em harmonia com os conceitos subentendidos no texto do Victor Hugo, em Os Miseráveis, relacionados à noção da providência divina, especialmente na passagem em que ele discute as razões que fizeram com que Bonaparte perdesse a batalha de Waterloo (~ foi preciso que tantas causas coincidissem no tempo e espaço, que é difícil concluir de outro modo).


↪ Ainda em relação às guerras, a narrativa também discorre sobre o possível papel que estratagemas teóricos assumiriam nessas situações. O texto afirma (através de Andrei) que há teóricos tão enamorados por suas teorias, que esquecem que elas existem para serem aplicadas em termos práticos; e ao mesmo tempo questiona: existe alguma teoria ou ciência que possa ser aplicada em um assunto cujas condições e circunstâncias são desconhecidas e indeterminadas?


↪ Mais uma vez, Tolstói traça um vívido e rico panorama da lambança com que o exército russo preparava-se para a guerra. Primeiro, o Tsar é informado no meio de um baile que o seu então amiguinho Napoleão estava invadindo a Rússia pela fronteira com a Polônia - como assim, sem nem avisar?! (aliás, lembrou-me a cena do presidente Bush no 11 de setembro). Depois, o narrador descreve toda a indefinição táctica e de comando militar russo; caracterizada, em destaque, 1. por um soberano que, embora não comandasse efetivamente, fazia-se presente com pitacos influenciados por uma corte de bajuladores da nobreza, e 2. por um agrupamento de militares que, tal qual Hogwarts, dividia-se em nove (!) partidos de orientações distintas quanto às decisões de guerra. Sem qualquer surpresa, o partido hegemônico (99%!) era formado por aqueles que não queriam nem a paz, nem a guerra, nem ofensiva ou defensiva, mas apenas isto: as maiores vantagens e recompensas para si mesmos.


↪ Nessa segunda fase da guerra, será interessante observar como Bolkónski e Rostóv se comportarão sete anos depois de suas primeiras participações militares. De que maneira as experiências acumuladas refletirão nas atitudes de ambos? Que novas lições eles acumularão? Já foi possível observar algumas diferenças: agora, Andrei decide ir para a linha de frente e distanciar-se da hipocrisia teórica, buscando as ocorrências mais práticas e imediatas (reflete também um desapego da vida?); enquanto Rostóv, capitão no comando de um esquadrão, já demonstra mais serenidade e maturidade (?). Ademais, fichas continuam caindo, pois Rostóv, em sintonia com seu bordão "Não entendo nada", finalmente percebeu que o inimigo sente o mesmo que ele e que, também como ele, pode ser capaz de fingir.

P.S.: agora, sim, entendi o propósito da longa descrição prévia da caçada. Não era filler; era uma espécie de alegoria preparatória para a guerra. Certinho.

Ainda nessa segunda fase do conflito, uma personagem ganha finalmente protagonismo: Pétia, com quinze anos, dá sinais de que seguirá os mesmos precedentes passos infantis do irmão durante a guerra de sete anos atrás. E outro novo fator surge presente entre os russos: o terror amedrontador diante do gênio Napoleão Bonaparte. Como os russos tiveram a chance de provar o veneno de Bonaparte, sabiam finalmente contra quem estavam lutando. É, acho que não haverá mais nenhuma piadinha.


↪ Voltando ao Andrei no. 01: como a masculinidade é uma coisa frágil, não? (perdão pelo chavão, mas foquemos, por hora, nas razões que ainda parecem validá-lo.) Andrei sente a obrigação de vingar-se de Anatole; afirmando à irmã que o perdão é uma virtude exclusivamente feminina e que apenas como mulher ele seria capaz de perdoar Anatole; pois "(...) um homem não deve e não pode esquecer e perdoar - (...)". Deve ser muito excruciante viver dessa maneira. Será que esse rolo vai acabar mal? Teremos mais um duelo? Vamos acompanhar, pois, por enquanto, Anatole conseguiu escapar. 

↪ Voltando ao Andrei no. 02: quando ele volta a Montes Calvos antes de partir para a guerra, a narrativa acaba firmando um peculiar paralelo simétrico entre a relação pai-filho estabelecida pelas três gerações. Andrei está repetindo com o filho praticamente a mesma dinâmica por vezes fria e distante que mantinha com seu pai.


↪ Nacionalidades x Autoconfiança (segundo Andrei):

Franceses: são autoconfiantes porque, pelo intelecto e corpo, consideram-se irresistíveis para homens e mulheres.

Ingleses: são autoconfiantes por serem cidadãos do país mais bem provido de comodidades em todo o mundo; sabendo que tudo o que fazem é bom.

Italianos: são autoconfiantes porque são agitados.

Russos: são autoconfiantes justamente porque não sabem nada nem querem saber, porque não acreditam que seja possível saber alguma coisa completamente. (♥)

Alemães: só conseguem ser confiantes nos fundamentos das ideias abstratas -  a ciência, ou seja, o suposto conhecimento de uma verdade absoluta que eles mesmos inventaram.


↪ E o ajudante de ordens do soberano russo (!) que me aparece lendo um romance... francês?! Eu percebi essa piadinha, Tolstói.


↪ Nojo do tratamento que os oficiais russos reservaram à esposa do médico. Foi um dos diálogos mais torpes que já li. ( - Rostóv, fique sabendo que você, que nem era exatamente um favorito, perdeu muitos pontos na cotação de personagens.)
- Pois é, não pus açúcar, eu só queria que você mexesse com sua mãozinha. (...) A senhora use o dedinho, Mária Henríkhovna - disse Rostóv.- Vai ficar ainda mais gostoso. (...) É só colocar o dedinho que eu bebo tudo."
- Rostóv e demais soldadinhos, olhem aqui o dedinho que tenho para mostrar-lhes: 



↪ Essa parte também contou com uma Natacha toda trabalhada na culpa e, ao que parece, ela sofre uma crise existencial semelhante à de Pierre e tenta encontrar algum alívio em Deus. Talvez a narrativa também esteja construindo uma jornada para que Natacha atravesse? Vamos acompanhar.

E por falar em Pierre: começo a suspeitar de que o peso dele seja um reflexo metafórico para todas as aflições de sua vida (quanto mais aflito, mais gordo?), pois não é possível que seja de outro modo. Agora, mais gordo do que nunca, ele encontra-se perdidamente apaixonado por Natacha (!) - preguiça desse imbróglio*- e já consegue enxergar-se até mesmo nas profecias do Apocalipse. Exato, sua interpretação dos textos sagrados o leva a crer que ele terá uma participação crucial na luta contra o Anticristo, digo, Bonaparte. Bom, vamos acompanhar, ué.

(* = Não adianta: apesar de tudo, continuo firme no "time Andrei" e já tomei as mágoas em nome dele.)

↪ Para concluir, deixo a reflexão que ainda me aflige e para qual sigo sem resposta: como explicar que pessoas sejam capazes de afogarem-se voluntariamente com o propósito único de impressionar um estadista que não poderia se importar menos? Ou ainda: como explicar que pessoas estejam dispostas a genuinamente chamarem um imperador de "anjo e paizinho" e estapearem-se para apanhar migalhas de biscoito lançadas por ele? Fanatismo político, especialmente no grau descrito durante o lamentável episódio dos poloneses afogando-se no rio, é algo que atordoa-me as ideias por completo. 

17/04/2016

Lendo Contos | The Collected Stories → Bliss and Other Stories - Katherine Mansfield

(info, sinopse, etc.)
Então comecei a leitura do The Collected Stories da Katherine Mansfield pelo Bliss and Other Stories (1920) e, como eu não conhecia nada sobre a autora (exceto a corriqueira e bastante promissora comparação com Tchekhov), fui fisgada logo de cara pela excelente introdução dessa edição, na qual Ali Smith escreve sobre a vida e obra da contista neozelandesa. Julgando apenas pelo que li, afirmaria: Katherine Mansfield, que mulher. Ela realmente parece ter sido uma pessoa fascinante, que soube aproveitar intensamente seus (lamentavelmente) breves 34 anos de existência (faleceu acometida de tuberculose que, especula-se, tenha contraído do amigo e autor D.H. Lawrence); consciente, suponho, da urgência da vida. O relato provoca, de fato, uma sensação de profundo pesar quando constata-se o sarcástico paradoxo de uma vida tão curta, para tamanha vivacidade. A introdução me deixou com muita vontade de também ler os diários e cartas dela.
"I shall not be "fashionable" long. They will find me out; they will be disgusted; they will shiver in dismay. (...) you see I am not a high brow. Sunday lunches and very intricate conversations on Sex and that "fatigue" which is so essential and that awful "brightness" which is even more essential - these things I flee from. I'm in love with life - terribly." 
Para dar uma ideia do temperamento irreverente e irônico de Mansfield, creio que vale citar que ela chegou a sugerir a D.H. Lawrence que ele apelidasse sua casa de "O Falo" (The Phallus). Tem como resistir? Não à toa, penso, os integrantes do Bloomsbury Group e diversos intelectuais da época não iam lá muito com a cara dela, acusando-a de usar uma máscara, de ser vulgar e inescrutável.

Também acho digno de nota este delicioso episódio da biografia da autora: na manhã seguinte ao seu primeiro casamento, após passar a noite de núpcias fora do quarto de hotel, em restaurantes e teatros; ela simplesmente abandona o marido. Bafo! Após o ocorrido, a mãe manda-a para um convento na Alemanha e, retornando à Nova Zelandia, deserda a filha. Definitivamente, Katherine Mansfield não parece ter sido uma mulher disposta a sujeitar-se a qualquer tipo de regras ou controle.
"Here, then, is a little summary of what I need - power, wealth and freedom. It is the hopelessly insipid doctrine that love is the only thing in the world, taught, hammered into women from generation to generation which hampers us so cruelly. We must get rid of that bogey."
                                                                                                     (Amém.)
***
Bliss and Other Stories apresenta 14 contos, todos narrados em terceira pessoa (exceto um), focando muito mais nas personagens, do que em um plot propriamente dito. São textos de características modernistas, nos quais Mansfield oferece ao leitor a chance de observar curtos fragmentos, quase flashes, da vida das personagens que cria; ao mesmo tempo em que ela nos concede acesso ao mundo interior daquelas pessoas, explorando suas personalidades, sentimentos e aspectos psicológicos. E vale ressaltar que a autora não demonstrou sentir muita compaixão por suas personagens na hora de revelar, aberta e friamente, suas idiossincrasias, incongruências e vulnerabilidades.

Consegui identificar algumas características e temas recorrentes nos contos:
1. A grande maioria das protagonistas são mulheres de todas as idades (inclusive crianças), de procedências e realidades variadas. Lançando mão do termo da moda, eu diria que elas não encaixam-se exatamente no estereótipo construído para as ditas "personagens femininas fortes". Mansfield expõe mulheres de uma forma bastante real e humana; às vezes, pode-se dizer, até cruel e sarcástica, ainda que verdadeira. Lembrou-me, por exemplo, das mulheres dos contos da Alice Munro (*do que li da autora - Too Much Happiness).

2. A natureza aparece de forma marcante em muitos desses contos, especialmente o mar, vento, sol e flores. É um elemento que surge comunhando com as personagens em plena sintonia, o que parece ser influência do cenário neozelandês com o qual Mansfield conviveu durante a infância;

3. Muitas personagens são artistas: pintores, escritores, atores, músicos... A autora explora a personalidade dos indivíduos dessa classe e suas relações com a arte;

4. A dinâmica estabelecida nas relações entre homens e mulheres - enquanto indivíduos e na sociedade - é intensamente examinada através dessas histórias, com foco recaindo especialmente sobre a posição reservada à mulher, variavelmente vulnerável;

5. Mansfield sugere um prazer quase perverso em evidenciar a dissonância entre o que suas personagens sentiam e o que elas efetivamente expressavam/demonstravam em suas relações; sugerindo uma "performance" do indivíduo quando interagindo em sociedade. Seu amigo Lawrence, curiosamente, também parecia gostar dessa temática.

6. Alguns outros temas gerais: a complexidade do amor e das relações conjugais, a solidão e melancolia, a memória, ambições e desejos frustrados, desesperos contidos;

7. E é importante ressalvar que, em muitos desses contos, a personalidade de Mansfield, notadamente o bom humor e ironia (às vezes ferina), transparece deliciosamente no texto. Senti que ela gostava de mostrar como as pessoas podiam ser ridículas, especialmente quando atuando em sociedade.

***

Fazendo um breve comentário sobre alguns contos, em ordem decrescente de predileção (mas, com exceção de um, vale destacar que gostei imensamente de todos):

❥ Prelude
Esse é o conto mais longo da coletânea, quase uma novela; e completamente sem plot definido; onde o que chama a atenção é mesmo a prosa, a forma e o estilo belíssimos da autora. Mansfield cria uma atmosfera bastante onírica, quase um conto de fadas, para o panorama dinâmico descrito sobre a história banal de uma família em mudança da capital para o interior. Como se fôssemos uma abelhinha ou uma câmera invisível, temos a sensação de voar entre os integrantes (~ sete) da família Burnell, saltando dentre as mentes de cada um deles e, assim, percebendo as diferentes perspectivas e sentimentos. Lindo demais. Ah, e lembra bastante o Ao Farol, da Virgínia Woolf, que só foi publicado dez anos depois de Prelude.
(crianças brincando:)"Well, let's play ladies," said Isabel. "Pip can be the father and you can be all our dear little children." "I hate playing ladies", said Kezia. "You always make us go to church hand in hand and come home and go to bed."
(a esposa:)
"How absurd life was-it was laughable (...) And why this mania of hers to keep alive at all? For it really was a mania, she thought, mocking and laughing."
Psychology
Breve cena na qual Mansfield expõe todo o desconforto, a frustração e o ridículo que acompanham duas pessoas que, a despeito da atração mútua, são incapazes de saírem da "zona de conforto", preferindo a segurança da falsa performance que só admite a mera amizade. Ironicamente nesse conto, ambos são escritores, ou seja, na hora de usarem a palavra em vantagem própria no mundo "real", eles falham miseravelmente. E tal ironia ainda é reforçada no final quando, em carta, a mulher consegue retomar o ânimo perdido pela lamentável performance no último encontro com o (secretamente) amado. Novamente, o diferencial do conto está na forma e prosa de Mansfield.

A Dill Pickle
Que conto fantástico. Agora temos um ex-casal que se encontra por acaso na rua, depois de seis anos sem se verem. A maneira com que Mansfield expõe as diferentes perspectivas, ressaltando o papel da memória e das escolhas de performance adotadas pela mulher e pelo homem, foi espetacular. O homem comporta-se como um sonso cuzão, cinicamente retratando o sucesso de sua vida após o rompimento e relembrando de forma sentimental o passado mútuo; enquanto a mulher tenta manter a dignidade como pode diante da dissimulação do ex-amante e do infortúnio de seu fracasso após o rompimento.

❥ The Wind Blows 
Conto centrado na figura da adolescente tomada pelo tornado de novos sentimentos e o desejo desesperado de liberdade. Como o título sugere, a natureza surge praticamente como uma personagem metafórica: o vento forte do outono e o mar revolto - livres e caóticos - ressoando em perfeita sintonia as emoções de Matilda.

❥ Sun and Moon
O conto toma a pequena fração de um dia, antes e após uma festa que ocorre na casa de duas crianças irmãs, a Lua e o Sol. Em breves cenas, através dos comportamentos e diálogos das crianças, Mansfield explora as curiosas diferenças entre as personalidades das duas personagens, processo que torna-se mais singelo pela metáfora proporcionada pelos nomes. Ao final, um evento aparentemente banal parece marcar o início da ruptura da inocência infantil, enaltecido pela surpresa das reações diferentes da Lua e do Sol.

❥ Bliss
Em termos de forma e estrutura, creio que seja um dos mais complexos da coletânea. Uma mulher de ~30 anos, casada e mãe, encontra-se em um momento de puro êxtase inexplicável do ponto de vista apenas consciente, de modo que o desenrolar de um jantar que ela oferece com o marido a um grupo de amigos intelectuais, entre os quais havia uma nova amiga da protagonista, revela a tremenda complicação do que efetivamente ocorria. Conto repleto de simbologia, exploração da sexualidade feminina e, novamente, com algumas alfinetadas cômicas da autora para cima dos artistas "intelectualóides".

❥ The Little Governess
Tenso, muto tenso esse conto. Li um artigo que o tratava como uma espécie de versão do conto da Chapeuzinho Vermelho, e achei a comparação bem válida; sendo especialmente repulsivo, ainda que completamente pertinente, pensar que Mansfield acabaria por demonstrar que os homens agem como uma irmandade fraternal de lobos caçadores que sentem um prazer doentio em violentar as Chapeuzinhos Vermelhos do mundo.

❥ Feuille D'Album e Je Ne Parle Pas Français
Em ambos os contos, pode-se chegar a uma conclusão similar: ser mulher é uma merda, ainda mais quando tomada como velha. Se for artista, então, pior ainda. Em ambos, Mansfield chama atenção para o que às vezes acaba sobrando como única "salvação" para muitas: prostituição.
E em JNPPF, o cínico escritor narrador me lembrou um pouco do Bandini, do livro do John Fante.

Mr. Reginald Peackock's Day
Volta a Mansfield ferrenha com suas chacotas. Uma personagem homem E artista E marido (ou seja, incorpora vários temas comuns da autora), tem exposta toda a ~glória~ do seu comportamento patético e da sua vaidade (de artista, principalmente) ilusória. O sujeito vivia na realidade paralela na qual ele seria um magnânimo cantor amado por todos, enquanto apenas a esposa simplória seria incapaz de reconhecer e admirar tal "verdade". Fica, porém, a dúvida: será que Mansfield acreditava que a arte era incompatível com o casamento?
"The truth was that once you married a woman she became insatiable, and the truth was that nothing was more fatal for an artist than marriage, at any rate until he was over forty..."
❥ The Excape
Creio que esse conto poderia ser tranquilamente incorporado ao Livro da Idolatria, do Bruno Schulz, no qual o autor ilustrou cenas de dominação de homens pequenos e grotescos por mulheres refinadas. No conto de Mansfield, o marido encontrava a paz nos momentos de conexão com a natureza - mar, vento -, em uma espécie de transe que o remetia ao silêncio apaziguador.

Undula w nocy, Bruno Schulz (1920-22)
(via)

10/04/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #08


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01DL#02DL #03DL#04DL#05DL#06, DL#07.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 2 - Quinta Parte

↪ A Natacha testou mesmo a paciência do pobre leitor nessa parte. Como eu disse previamente, Tolstói já tinha fornecido todas as pistas de que o noivado dela com Andrei daria em merda, mas falhei, admito, no cálculo da quantidade. Por exemplo, a maneira com que ela havia respondido à investida do próprio Andrei não foi muito diferente daquela concedida ao Anatole. Recapitulando as passagens com Andrei: "Será possível que esse homem, um estranho para mim, virou tudo para mim? (...) respondeu: Sim, tudo (...)", "O senhor sabe que, desde o dia em que veio a Otrádnoie pela primeira vez, eu me apaixonei pelo senhor, disse, segura de que dizia a verdade." (= era mentira, claro) Ok, ela é muito jovem, inexperiente, impulsiva e passional, tremenda presa fácil para as cobras karaguianas Anatole e Hélène (Relações Perigosas feelings), mas, puxa vida, foi praticamente impossível manter em mente tais ponderações e dar um desconto à moça. - Caiu muito na cotação, Natacha.


↪ Aliás, atualizemos a Bolsa de Valores de Personagens:
Em baixa:                                                                           Em alta: 
 Anatole                                                                                                                   Pierre (♥)
( Casado e reincidente naquele tipo de canhalhice.)                                                                                    ↑ Sônia                        
 Hélène
 Dólokhov (Aaargh!! Foi o FDP quem escreveu a carta; 
e a tonta lá derretendo-se.)
Conde Iliá Rostóv (O narrador não o poupou novamente, 
revelando toda a inépcia dele em proteger a filha do antro de cobras.)
Príncipe Nikolai Bolkónski (Que pessoa difícil.)
Princesa Mária (Nunca imaginei que a veria aqui... Tão carola, 
e ainda assim o preconceito de classe enrustido não pôde ser sufocado por completo.)                                               
↓ Bóris (Esse conseguiu uma esposa rica: Julie! De novo: parabéns à mãe dele. )
 Natacha (- Desculpe, mas, mesmo com todas as ressalvas, você entra aqui sim. 
Amiga, espero que, pelo menos, você tenha aprendido alguma coisa.)
                                    

↪ Ainda ponderando sobre o fato de que Natacha, de certo modo e com ressalvas, pode ser considerada vítima daquela história; é interessante como o narrador reforça essa questão nos trechos da ópera e do sarau na casa de Hélène. Inicialmente, em ambos os casos, é descrito que Natacha consegue perceber a afetação e artificialidade ("mundo estranho") no comportamento de todos daquela sociedade, entretanto, após pouco tempo inserida naquele meio, sua juventude passional e inexperiente não consegue resistir à sedução ("Natacha já não achava aquilo estranho"). Era uma sociedade capaz de estraçalhar facilmente aqueles que ousassem penetrá-la sem a devida competência.


↪ E o querido Pierre? Além da notável conduta demonstrada durante o imbróglio "Natacha x Anatole x Andrei" (até uma sova no paspalho Anatole, ele dá!), vale ressalvar a continuidade da crise melancólica e existencial dele. Na verdade, acho até bastante razoável que ela persista remoendo-o, pois acredito que, uma vez tomados por uma dessas crises, não há mesmo escapatória. Com sorte, aprende-se a sofrer menos em sua companhia. Tendo isso em mente, concordo bastante com o que Pierre reflete a respeito do Anatole: "(...) aí está um verdadeiro sábio! (...) Não enxerga nada além do momento real do prazer, nada o perturba...e por isso está sempre alegre, satisfeito e tranquilo. Eu daria tudo para ser como ele!" Outra excelente passagem é aquela em que Pierre contempla o que ele havia idealizado para sua vida, em contrapartida àquilo em que ela efetivamente transformara-se. Sofrido e humano demais. E quando o narrador diz que ele estava procurando alívio, entre outras coisas, na leitura desenfreada de livros? Alerta de carapuça servindo em 3, 2, 1...

Ainda nesses devaneios do Pierre, Tolstói também reitera uma impressão que comentei no DL#06: a depressão que parece assombrar as personagens percebem conscientemente a pequenez da sociedade russa:
(...) e aquela mentira geral, reconhecida por todos, sempre o deixava espantado, como se fosse algo novo, por mais que já estivesse habituado."

↪ - Tolstói, não venha me dizer que o Andrei ficará igualzinho ao pai. Não darei conta, hein.
"(...) Andrei. Sorriu de modo frio, maldoso, desagradável, como o pai."
"O príncipe Andrei deu uma risada desagradável, de novo fazendo lembrar o pai."

↪ Curiosidades da Rússia no século XIX:
1. Com apenas 27 anos, uma mulher deixava de ser uma "senhorita casadoura", para virar "uma conhecida sem sexo".

2. Esporte radical da moda: corrida de carruagens, com direito a capotagens e atropelamento de pedestres. Hardcore.


↪ E apertando os cintos, pois winter is coming a guerra está voltando! (já estamos em 1811.)

                                                           
Fim do volume 01! Yay!
ᕕ(ᐛ)ᕗ

07/04/2016

In Other Words - Jhumpa Lahiri

(Sobre o livro: info, sinopse, etc.; tradução p/ inglês: Ann Goldstein)
- Então a Jhumpa Lahiri mudou-se de mala e cuia para a Itália, a fim de aprender o idioma italiano? Conte-me tudo e não esconda-me nada; pois quero saber de todos os detalhes! 

A premissa corresponde a uma experiência tão fascinante e imensamente invejada, que não consegui evitar que esse livro furasse minha interminável (mas muito querida) fila de futuras leituras. Por si só, a empreitada na qual Lahiri se mete já prenuncia um rico relato, mas o caso dela reserva algumas particularidades que tornam tudo ainda mais interessante:

1. A decisão de Lahiri não foi (apenas) um mero ímpeto repentino de frivolidade. Ela esclarece que já estudava o italiano há 20 anos, impelida por uma paixão inexplicável (e não exatamente mútua, certo?) que surgira após visitar a Itália pela primeira vez, contudo frustrava-se com o pouco progresso em direção à plena fluência; questão que ela atribuía ao fato de estar continuamente imersa no inglês. A autora vale-se de várias metáforas (figura de linguagem recorrentemente explorada no livro) para tentar explicar essa frustração, como a de sentir-se nadando em um lago (o italiano) sem jamais abandonar as margens (o inglês) para aventurar-se em sua travessia.

2. A decisão de mudar-se para a Itália (com esposo e filhos, inclusive) foi mais radical do que parece, pois Lahiri impôs que a nova rotina dela no país implicaria em falar, escrever e ler exclusivamente em italiano, rigorosamente. Por dois anos, portanto, ela distanciou-se completamente do inglês; de maneira que o próprio relato de sua experiência e reflexões -- com direito a dois contos inclusos nesse livro -- foi escrito em italiano. Nem mesmo a tradução da obra para o inglês ela quis fazer, deixando-a por conta da tradutora Ann Goldstein. 

3. Como filha de indianos criada nos Estados Unidos, Lahiri confessa que nunca sentiu pertencer completamente a qualquer idioma; sendo bastante impactante a maneira com que ela expõe esse sentimento de deslocamento e falta de pertencimento relacionados ao dialeto. Nos Estados Unidos, por conta de sua aparência física, não era-lhe incomum ter de encarar pessoas surpresas com o fato de que ela, como esperado de uma americana (-What?!), dominava fluentemente o inglês; enquanto na Índia, os parentes presumiam que ela não sabia expressar-se de modo algum em Bengali, idioma com o qual ela comunica-se com os pais.

Nesse contexto, portanto, o relato de uma pessoa que deliberadamente, sem um motivo lógico evidente, adota uma nova língua na tentativa de criar sua genuína identidade, torna-se muito bonito e significativo, ainda mais quando ela compartilha que, a despeito de todo seu amor e dedicação ao idioma, também na Itália ela acabaria por enfrentar as semelhantes barreiras presentes nos EUA e Índia. "- Essa moça com fisionomia indiana, famosa escritora americana, fala italiano? Irreal." 

"No one, anywhere, assumes that I speak the languages that are a part of me."
"All my life I've tried to get away from the void of my origin. (...) Change seemed the only solution. Writing, I discovered a way of hiding in my characters, of escaping myself. Of undergoing one mutation after another."

4. E o mais intrigante e fascinante: como e por que uma escritora decide abrir mão da crucial ferramenta de seu ofício, aquela que ela domina plenamente; trocando-a por outra nova, intimidante e desafiadora? Do meu ponto de vista como mera leitora, parece um ato assombroso de tremenda coragem e imprudência. Ao longo do livro, Lahiri tenta atribuir um sentido à essa aventura aparentemente insana, refletindo sobre quais seriam suas motivações, citando, por exemplo, que a sua imperfeição e os obstáculos de difícil transposição inerentes ao novo idioma atuavam como um paradoxal (?) estímulo inspirador. 

Claro, há casos notórios de escritores que escreveram em suas segundas línguas, mas a própria Lahiri ressalva que a situação dela possui diferenças significativas em relação a alguns deles. Por exemplo: 
- transcorreram décadas, após a mudança para França, até que Beckett começasse a escrever em francês;
- Nabokov aprendeu inglês durante a infância;
- Conrad pôde absorver a língua inglesa durante um tempo significativo dos seus trabalhos em alto-mar antes de tornar-se um escritor anglófono.
 E Jhumpa Lahiri? Bom, bastou um mísero ano morando na Itália para que ela já "ousasse" escrever em italiano.
***

Em certo trecho, a autora cita este interessante comentário de um amigo (tradução livre)"uma nova língua é quase uma nova vida, pois a gramática e a sintaxe remanejam-nos a uma lógica e sensibilidade diversas." Achei essa ressalva super certeira, pois eu, por exemplo, sempre sinto-me como um outro "eu" ao me expressar em inglês e imaginei que, para um escritor, isso pudesse ser ainda mais problemático. Lahiri, porém, desdobra essa falsa impressão de uma forma extraordinária ao afirmar que, ao incorporar o italiano à sua identidade, ela submetia-se a uma metamorfose que representa, sim, um processo violento, mas regenerador. Representa a morte, mas também a vida


Lahiri falando, em italiano, sobre seu livro.

05/04/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #07


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01, DL#02, DL #03, DL#04, DL#05DL#06

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 2 - Quarta Parte


↪ Ok, parou. Eu já tinha lançado a pergunta no DL#04 em relação à Lise, mas agora o negócio ficou ainda mais sério e cabe ratificar a indagação: qual é a do Tolstói com mulheres de bigode??!! Como tenho medo de tomar spoilers, deixo a dúvida arquivada para pesquisar posteriormente. Intrigante mesmo. (Frida Kahlo, suponho, não se surpreenderia... Humm, será que eu ficaria mais bonita de bigode?...)

↪ No geral, pouca coisa aconteceu nesta parte (- Tolstói, isso foi um filler?!):

- Mais alfinetadas de Tosltói para cima dos militares que usufruem, com bastante satisfação, de seus "ócios forçados e irrepreensíveis", "protegidos das embrulhadas do cotidiano (...), daquele mundo absurdo e confuso (...)". 

- E os Rostóv estão cada vez mais atolados na pindaíba. (◕︵◕) Não sei se eu já tinha mencionado aqui, mas é curioso que a família mais afável e generosa desta narrativa seja exatamente aquela que mais esteja dando-se mal (pelo menos até aqui). Será que o "crime" compensa nessa história? Quem não segue à risca as regras subentendidas da sociedade russa está fadado à desgraça? Ou trata-se da decadência que, em breve, assolará toda a nobreza dessa história? Vamos acompanhar.

- Caçadas, blá, blá, blá, mais caçadas, blá, blá, blá... Aliás, Tolstói não dá trégua para o pobre Iliá Rostóv ao continuar ridicularizando-o, digamos assim, até com a alegoria de sua abobalhada performance na caçada.  E, Natacha, ~tu tá metida com caçada~?

- Curiosidade (N.T.): "Entre os senhores de terra, era costume ter, entre os servos, artistas, músicos e até um bufão." Ei, eu também quero um bufão.

- Eu já havia mencionado que a filosofia seguida por Nikolai é "o problema (inferno) são os outros", e agora descobri que nem Deus escapa:
"Puxa, o que custa a você fazer isso para mim?, dizia a Deus. (...) sempre tenho azar."
- Tolstói já vinha construindo isto nas partes anteriores, e mais uma vez reforçou aqui: a construção da relação fraternal de plena intimidade e cumplicidade entre Nikolai e Natacha; algo realmente muito prazeroso de ser lido e que sempre me deixa de sorriso abobalhado. Gostei muito.

- Novos maus presságios a respeito do casamento entre Andrei e Natacha foram lançados. Restou sugerido nas entrelinhas, inclusive, que ele morrerá no final. Será? Em combate? É bem típico, mesmo, que minhas personagens favoritas sejam sacrificadas pelos autores. 

- Tolstói desenvolve novos diálogos filosóficos envolventes, questionando alguns temas relevantes: tédio, despropósito da vida, eternidade, alma, reencarnação, memórias x lembranças. Acho que eu gostaria de poder conversar com o autor sobre a vida, o universo e tudo mais.

- Bastante interessante a descrição da tradição de Natal na Rússia que, de certa forma, mistura Halloween com Carnaval: pessoas fantasiadas visitam as casas vizinhas, cantam, brincam de prever o futuro. Obviamente, nunca tinha ouvido falar disso. 

- E que coisa mais meiga, a descrição do beijo entre Nikolai e Sônia. Achei bem curiosa a aparente ideia sugerida por Tolstói de que, nas relações de amor, às vezes é preciso apenas prestar melhor atenção naquelas pessoas que estão bem ao nosso lado, modificar a perspectiva do olhar. A fantasia, nessa passagem, parece ter permitido que isso acontecesse com Nikolai. Teorias, apenas.

(Sobre descobrir-se apaixonado:)
♥ "- Natacha, é uma coisa mágica. Hein? 
- É, sim - respondeu ela." 

↪ De fato, Nikolai é outra personagem com quem, em alguns momentos, também consigo me identificar bastante. Por exemplo:


04/04/2016

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector


                                             ()       

                                                                                              
                                                             

                                                                                                        


                                               

                      
                                                                                                        

Literariamente falando, uma das coisas que mais me constrange são gringos engrandecendo escritores brasileiros que encontram-se mofando na minha pilha de futuras leituras intitulada "um dia, haveremos de nos conhecer". Acho muito embaraçoso e triste. A Clarice Lispector, infelizmente, encontrava-se nessa pilha (eu sei, eu sei...), e a gota d'água foi quando começaram a aparecer no meu feed do YouTube vídeos de estrangeiros resenhando os livros dela (x1, x2, x3); quando eu mesma: nada. Inaceitável. Pois bem, agora esse problema foi sanado com "A paixão segundo G.H.". (certo, foi só um livrinho dela, mas já é melhor do que nada, poxa.)
***

Quem não curte um papo metafísico? "Quem sou eu? Eu sou? Não sou? O que é real? Real? De onde vim, para onde vou...quem, o quê, como, quando, hã, certo, certo?, hhmmm, aaargh!..."  Essa é minha praia e adoro surfar nessa onda saudável e sã; logo as chances de que eu me desse mal com o livro da Lispector eram pífias. 

G.H. toma nossa mão de leitor para que a acompanhemos em sua acidental epifania catártica a respeito da Grande Verdade e, olha, é uma jornada e tanto. A construção do momento e circunstâncias catalisadoras do frenesi que levara G.H. à desorganização profunda, mas libertadora, foi do que mais gostei. As descrições do quarto, das imagens na parede, do sol invadindo aquele espaço hermético e quase desértico, não fosse pela barata, foi impressionantemente preciso, causando-me a sensação física de adentrar uma realidade paralela digna de uma obra de ficção científica; A realidade marcada pelo vazio infinito e desorganizado originador de tudo. Fiquei mesmo imaginando que, nas mãos de um bom diretor, o cenário descrito pela Lispector renderia imagens fantásticas. (as descrições remeteram-me até à atmosfera do filme 2001, Uma Odisseia no Espaço.) E ainda mais genialmente perturbador: aquele perigoso, porque revelador, espaço encontrava-se na própria casa dela, ou seja, ao mesmo tempo fácil e dificilmente alcançável. O jogo de palavras típicos da Clarice, "afirmar, negando; negar, afirmando; antônimos +/= sinônimos" pode ser engraçado quando tomado isoladamente espalhado pela internet, mas faz bastante sentido no contexto da obra.

Por ter sido uma leitura recente, ocorreu-me a imedita lembrança do livro do Pirandello "Um, nenhum e cem mil". Os estilos dos dois autores são totalmente diferentes (confesso achar a leitura do Pirandello mais prazerosa, mas é apenas uma questão de gosto mesmo), contudo Gengê e G.H. (GGGG...!) percorrem praticamente a mesma difícil travessia iluminadora, com reações também não muito díspares, estando separados apenas pelo catalisador: para Gengê, descobrir que ele nunca havia percebido, ao contrário de seus amigos e parentes, que seu nariz caía para direita; para G.H., o quarto e a barata. Aliás, dando agora uma folheada novamente no livro do Pirandello e relembrando-me do final, dei-me conta de que Gengê parece ter sido para Anna Rosa o que a barata foi para G.H. Curioso.

A principal ressalva particular que sinto em relação ao livro de Clarice é mesmo em relação à sua extensão. O fluxo frenético reflexivo da personagem, o qual reverbera e concatena premissas correlatas que prenunciam claramente a conclusão final (o início, afinal, já parte do fim); acabou tornando a leitura um pouco fatigante depois da metade da obra.  Tivesse o livro apenas ~cinquenta páginas; creio que eu teria apreciado mais; contudo, obviamente, essa é apenas mais uma das minhas opiniões irrelevantes.