26/04/2016

Guerra e Paz - Liev Tolstói / Diário de Leitura #09


Em 2016, leio Guerra e Paz pela primeira vez e registro aqui um diário de leitura com possíveis postagens para cada uma das partes dos quatro tomos e epílogo.

Postagens anteriores: DL #01DL#02DL #03DL#04DL#05DL#06DL#07, DL#08.

Edição: Cosac Naify - 2 volumes - 2490 páginas; Tradutor: Rubens Figueiredo.
Programação inicial: ~ 110 páginas/semana.
Duração total estimada: 22 semanas.
Início da leitura: 24/01/2016.
Fim estimado: 25/06/2016.
Tomo 3 - Primeira Parte


↪ Chegamos a 1812, e é hora de aventura guerra!

↪ Tolstói inicia o tomo com uma espécie de ensaio sobre a Lei da Coincidência das Causas, a qual trata dos mecanismos que regem as causas capazes de produzir extraordinários acontecimentos históricos  contrários à razão humana e a toda a natureza humana. Resumida em um aforismo, creio que teríamos: nada é a causa; tudo é causa.

Segundo a lei, as guerras, exemplos máximos de fenômenos históricos irracionais, ocorrem em consequência de bilhares de pequeninas causas que concatenam-se por si mesmas e coincidem para provocá-las. Cada causa é simultaneamente pertinente - pois nada pode ocorrer sem quaisquer delas - e ilusória - devido à sua relativa insignificância e incapacidade de produzir isoladamente o acontecimento.

Nesse contexto, absolutamente todas as pessoas servem de instrumento inconsciente para que a história fatalista alcance seus objetivos; ou seja, cada mínima ação humana executada na esfera pessoal coincide no tempo com milhares de ações de outras pessoas e recebe um significado histórico. Ainda que reconheça-se haver pesos distintos entre as ações relacionados à posição do executante na escala social, não é possível negar a participação de nenhuma delas.

Suponho, portanto, que um desdobramento possível da lei é não permitir que ninguém coloque sua cabecinha no travesseiro à noite sem o peso da consciência de saber-se também culpado dos fenômenos históricos irracionais. Sob tal ponto de vista, e como mero exemplo: eu, uma brasileira insignificante e medíocre, também teria colaborado, ainda que em ridícula extensão, para a atual guerra na Síria?! (engolindo seco e suando frio.)

Aplicada à guerra entre a Rússia e a França, a lei afirmaria que a ambição de Napoleão, a tenacidade de Alexandre e um cabo qualquer que tenha decidido alistar-se ao exército são apenas três dos bilhões de fatos e agentes que contribuíram para a ocorrência do conflito que tinha de ser cumprido.

Com tais ideias, Tolstói acaba lançando interessantes questionamentos a respeito da maneira com que a História (fatalista, em sua concepção) é contada e construída; o que é reforçado por esta intrigante experiência de Rostóv citada posteriormente no tomo, a qual induz a conclusão de que relatos de experiências de guerra seriam sempre peças ficcionais:
"Depois de Austerlitz e da campanha de 1807, Róstov sabia (...) que, ao contar fatos militares, sempre mentiam, como ele mesmo mentia também, quando contava; em segundo lugar, ele já tinha experiência bastante para saber que, na guerra, tudo se passa de forma completamente distinta daquilo que podemos imaginar e contar."
Também fico tentada a fazer um contraponto meio provocativo e cínico (é irresistível) dessas ideias com o que Mária postula nesse mesmo tomo sobre o papel de Deus:
"Não pense que são as pessoas que produzem a dor. As pessoas são instrumentos Dele. (...) A dor é enviada por Ele, não pelas pessoas. As pessoas são o instrumento Dele, elas não têm culpa. Se lhe parece que alguém é culpado em relação a você, esqueça e perdoe."
Bom, se 1o. "todas as pessoas servem de instrumento inconsciente para que a história fatalista alcance seus objetivos"  e 2o. "As pessoas são o instrumento Dele, (...)";  então, no fim das contas... Guerras ocorrem porque é a vontade Dele? Vai saber.

Confiando na minha memória, parece-me que esses pensamentos também estariam em harmonia com os conceitos subentendidos no texto do Victor Hugo, em Os Miseráveis, relacionados à noção da providência divina, especialmente na passagem em que ele discute as razões que fizeram com que Bonaparte perdesse a batalha de Waterloo (~ foi preciso que tantas causas coincidissem no tempo e espaço, que é difícil concluir de outro modo).


↪ Ainda em relação às guerras, a narrativa também discorre sobre o possível papel que estratagemas teóricos assumiriam nessas situações. O texto afirma (através de Andrei) que há teóricos tão enamorados por suas teorias, que esquecem que elas existem para serem aplicadas em termos práticos; e ao mesmo tempo questiona: existe alguma teoria ou ciência que possa ser aplicada em um assunto cujas condições e circunstâncias são desconhecidas e indeterminadas?


↪ Mais uma vez, Tolstói traça um vívido e rico panorama da lambança com que o exército russo preparava-se para a guerra. Primeiro, o Tsar é informado no meio de um baile que o seu então amiguinho Napoleão estava invadindo a Rússia pela fronteira com a Polônia - como assim, sem nem avisar?! (aliás, lembrou-me a cena do presidente Bush no 11 de setembro). Depois, o narrador descreve toda a indefinição táctica e de comando militar russo; caracterizada, em destaque, 1. por um soberano que, embora não comandasse efetivamente, fazia-se presente com pitacos influenciados por uma corte de bajuladores da nobreza, e 2. por um agrupamento de militares que, tal qual Hogwarts, dividia-se em nove (!) partidos de orientações distintas quanto às decisões de guerra. Sem qualquer surpresa, o partido hegemônico (99%!) era formado por aqueles que não queriam nem a paz, nem a guerra, nem ofensiva ou defensiva, mas apenas isto: as maiores vantagens e recompensas para si mesmos.


↪ Nessa segunda fase da guerra, será interessante observar como Bolkónski e Rostóv se comportarão sete anos depois de suas primeiras participações militares. De que maneira as experiências acumuladas refletirão nas atitudes de ambos? Que novas lições eles acumularão? Já foi possível observar algumas diferenças: agora, Andrei decide ir para a linha de frente e distanciar-se da hipocrisia teórica, buscando as ocorrências mais práticas e imediatas (reflete também um desapego da vida?); enquanto Rostóv, capitão no comando de um esquadrão, já demonstra mais serenidade e maturidade (?). Ademais, fichas continuam caindo, pois Rostóv, em sintonia com seu bordão "Não entendo nada", finalmente percebeu que o inimigo sente o mesmo que ele e que, também como ele, pode ser capaz de fingir.

P.S.: agora, sim, entendi o propósito da longa descrição prévia da caçada. Não era filler; era uma espécie de alegoria preparatória para a guerra. Certinho.

Ainda nessa segunda fase do conflito, uma personagem ganha finalmente protagonismo: Pétia, com quinze anos, dá sinais de que seguirá os mesmos precedentes passos infantis do irmão durante a guerra de sete anos atrás. E outro novo fator surge presente entre os russos: o terror amedrontador diante do gênio Napoleão Bonaparte. Como os russos tiveram a chance de provar o veneno de Bonaparte, sabiam finalmente contra quem estavam lutando. É, acho que não haverá mais nenhuma piadinha.


↪ Voltando ao Andrei no. 01: como a masculinidade é uma coisa frágil, não? (perdão pelo chavão, mas foquemos, por hora, nas razões que ainda parecem validá-lo.) Andrei sente a obrigação de vingar-se de Anatole; afirmando à irmã que o perdão é uma virtude exclusivamente feminina e que apenas como mulher ele seria capaz de perdoar Anatole; pois "(...) um homem não deve e não pode esquecer e perdoar - (...)". Deve ser muito excruciante viver dessa maneira. Será que esse rolo vai acabar mal? Teremos mais um duelo? Vamos acompanhar, pois, por enquanto, Anatole conseguiu escapar. 

↪ Voltando ao Andrei no. 02: quando ele volta a Montes Calvos antes de partir para a guerra, a narrativa acaba firmando um peculiar paralelo simétrico entre a relação pai-filho estabelecida pelas três gerações. Andrei está repetindo com o filho praticamente a mesma dinâmica por vezes fria e distante que mantinha com seu pai.


↪ Nacionalidades x Autoconfiança (segundo Andrei):

Franceses: são autoconfiantes porque, pelo intelecto e corpo, consideram-se irresistíveis para homens e mulheres.

Ingleses: são autoconfiantes por serem cidadãos do país mais bem provido de comodidades em todo o mundo; sabendo que tudo o que fazem é bom.

Italianos: são autoconfiantes porque são agitados.

Russos: são autoconfiantes justamente porque não sabem nada nem querem saber, porque não acreditam que seja possível saber alguma coisa completamente. (♥)

Alemães: só conseguem ser confiantes nos fundamentos das ideias abstratas -  a ciência, ou seja, o suposto conhecimento de uma verdade absoluta que eles mesmos inventaram.


↪ E o ajudante de ordens do soberano russo (!) que me aparece lendo um romance... francês?! Eu percebi essa piadinha, Tolstói.


↪ Nojo do tratamento que os oficiais russos reservaram à esposa do médico. Foi um dos diálogos mais torpes que já li. ( - Rostóv, fique sabendo que você, que nem era exatamente um favorito, perdeu muitos pontos na cotação de personagens.)
- Pois é, não pus açúcar, eu só queria que você mexesse com sua mãozinha. (...) A senhora use o dedinho, Mária Henríkhovna - disse Rostóv.- Vai ficar ainda mais gostoso. (...) É só colocar o dedinho que eu bebo tudo."
- Rostóv e demais soldadinhos, olhem aqui o dedinho que tenho para mostrar-lhes: 



↪ Essa parte também contou com uma Natacha toda trabalhada na culpa e, ao que parece, ela sofre uma crise existencial semelhante à de Pierre e tenta encontrar algum alívio em Deus. Talvez a narrativa também esteja construindo uma jornada para que Natacha atravesse? Vamos acompanhar.

E por falar em Pierre: começo a suspeitar de que o peso dele seja um reflexo metafórico para todas as aflições de sua vida (quanto mais aflito, mais gordo?), pois não é possível que seja de outro modo. Agora, mais gordo do que nunca, ele encontra-se perdidamente apaixonado por Natacha (!) - preguiça desse imbróglio*- e já consegue enxergar-se até mesmo nas profecias do Apocalipse. Exato, sua interpretação dos textos sagrados o leva a crer que ele terá uma participação crucial na luta contra o Anticristo, digo, Bonaparte. Bom, vamos acompanhar, ué.

(* = Não adianta: apesar de tudo, continuo firme no "time Andrei" e já tomei as mágoas em nome dele.)

↪ Para concluir, deixo a reflexão que ainda me aflige e para qual sigo sem resposta: como explicar que pessoas sejam capazes de afogarem-se voluntariamente com o propósito único de impressionar um estadista que não poderia se importar menos? Ou ainda: como explicar que pessoas estejam dispostas a genuinamente chamarem um imperador de "anjo e paizinho" e estapearem-se para apanhar migalhas de biscoito lançadas por ele? Fanatismo político, especialmente no grau descrito durante o lamentável episódio dos poloneses afogando-se no rio, é algo que atordoa-me as ideias por completo. 

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