17/04/2016

Lendo Contos | The Collected Stories → Bliss and Other Stories - Katherine Mansfield

(info, sinopse, etc.)
Então comecei a leitura do The Collected Stories da Katherine Mansfield pelo Bliss and Other Stories (1920) e, como eu não conhecia nada sobre a autora (exceto a corriqueira e bastante promissora comparação com Tchekhov), fui fisgada logo de cara pela excelente introdução dessa edição, na qual Ali Smith escreve sobre a vida e obra da contista neozelandesa. Julgando apenas pelo que li, afirmaria: Katherine Mansfield, que mulher. Ela realmente parece ter sido uma pessoa fascinante, que soube aproveitar intensamente seus (lamentavelmente) breves 34 anos de existência (faleceu acometida de tuberculose que, especula-se, tenha contraído do amigo e autor D.H. Lawrence); consciente, suponho, da urgência da vida. O relato provoca, de fato, uma sensação de profundo pesar quando constata-se o sarcástico paradoxo de uma vida tão curta, para tamanha vivacidade. A introdução me deixou com muita vontade de também ler os diários e cartas dela.
"I shall not be "fashionable" long. They will find me out; they will be disgusted; they will shiver in dismay. (...) you see I am not a high brow. Sunday lunches and very intricate conversations on Sex and that "fatigue" which is so essential and that awful "brightness" which is even more essential - these things I flee from. I'm in love with life - terribly." 
Para dar uma ideia do temperamento irreverente e irônico de Mansfield, creio que vale citar que ela chegou a sugerir a D.H. Lawrence que ele apelidasse sua casa de "O Falo" (The Phallus). Tem como resistir? Não à toa, penso, os integrantes do Bloomsbury Group e diversos intelectuais da época não iam lá muito com a cara dela, acusando-a de usar uma máscara, de ser vulgar e inescrutável.

Também acho digno de nota este delicioso episódio da biografia da autora: na manhã seguinte ao seu primeiro casamento, após passar a noite de núpcias fora do quarto de hotel, em restaurantes e teatros; ela simplesmente abandona o marido. Bafo! Após o ocorrido, a mãe manda-a para um convento na Alemanha e, retornando à Nova Zelandia, deserda a filha. Definitivamente, Katherine Mansfield não parece ter sido uma mulher disposta a sujeitar-se a qualquer tipo de regras ou controle.
"Here, then, is a little summary of what I need - power, wealth and freedom. It is the hopelessly insipid doctrine that love is the only thing in the world, taught, hammered into women from generation to generation which hampers us so cruelly. We must get rid of that bogey."
                                                                                                     (Amém.)
***
Bliss and Other Stories apresenta 14 contos, todos narrados em terceira pessoa (exceto um), focando muito mais nas personagens, do que em um plot propriamente dito. São textos de características modernistas, nos quais Mansfield oferece ao leitor a chance de observar curtos fragmentos, quase flashes, da vida das personagens que cria; ao mesmo tempo em que ela nos concede acesso ao mundo interior daquelas pessoas, explorando suas personalidades, sentimentos e aspectos psicológicos. E vale ressaltar que a autora não demonstrou sentir muita compaixão por suas personagens na hora de revelar, aberta e friamente, suas idiossincrasias, incongruências e vulnerabilidades.

Consegui identificar algumas características e temas recorrentes nos contos:
1. A grande maioria das protagonistas são mulheres de todas as idades (inclusive crianças), de procedências e realidades variadas. Lançando mão do termo da moda, eu diria que elas não encaixam-se exatamente no estereótipo construído para as ditas "personagens femininas fortes". Mansfield expõe mulheres de uma forma bastante real e humana; às vezes, pode-se dizer, até cruel e sarcástica, ainda que verdadeira. Lembrou-me, por exemplo, das mulheres dos contos da Alice Munro (*do que li da autora - Too Much Happiness).

2. A natureza aparece de forma marcante em muitos desses contos, especialmente o mar, vento, sol e flores. É um elemento que surge comunhando com as personagens em plena sintonia, o que parece ser influência do cenário neozelandês com o qual Mansfield conviveu durante a infância;

3. Muitas personagens são artistas: pintores, escritores, atores, músicos... A autora explora a personalidade dos indivíduos dessa classe e suas relações com a arte;

4. A dinâmica estabelecida nas relações entre homens e mulheres - enquanto indivíduos e na sociedade - é intensamente examinada através dessas histórias, com foco recaindo especialmente sobre a posição reservada à mulher, variavelmente vulnerável;

5. Mansfield sugere um prazer quase perverso em evidenciar a dissonância entre o que suas personagens sentiam e o que elas efetivamente expressavam/demonstravam em suas relações; sugerindo uma "performance" do indivíduo quando interagindo em sociedade. Seu amigo Lawrence, curiosamente, também parecia gostar dessa temática.

6. Alguns outros temas gerais: a complexidade do amor e das relações conjugais, a solidão e melancolia, a memória, ambições e desejos frustrados, desesperos contidos;

7. E é importante ressalvar que, em muitos desses contos, a personalidade de Mansfield, notadamente o bom humor e ironia (às vezes ferina), transparece deliciosamente no texto. Senti que ela gostava de mostrar como as pessoas podiam ser ridículas, especialmente quando atuando em sociedade.

***

Fazendo um breve comentário sobre alguns contos, em ordem decrescente de predileção (mas, com exceção de um, vale destacar que gostei imensamente de todos):

❥ Prelude
Esse é o conto mais longo da coletânea, quase uma novela; e completamente sem plot definido; onde o que chama a atenção é mesmo a prosa, a forma e o estilo belíssimos da autora. Mansfield cria uma atmosfera bastante onírica, quase um conto de fadas, para o panorama dinâmico descrito sobre a história banal de uma família em mudança da capital para o interior. Como se fôssemos uma abelhinha ou uma câmera invisível, temos a sensação de voar entre os integrantes (~ sete) da família Burnell, saltando dentre as mentes de cada um deles e, assim, percebendo as diferentes perspectivas e sentimentos. Lindo demais. Ah, e lembra bastante o Ao Farol, da Virgínia Woolf, que só foi publicado dez anos depois de Prelude.
(crianças brincando:)"Well, let's play ladies," said Isabel. "Pip can be the father and you can be all our dear little children." "I hate playing ladies", said Kezia. "You always make us go to church hand in hand and come home and go to bed."
(a esposa:)
"How absurd life was-it was laughable (...) And why this mania of hers to keep alive at all? For it really was a mania, she thought, mocking and laughing."
Psychology
Breve cena na qual Mansfield expõe todo o desconforto, a frustração e o ridículo que acompanham duas pessoas que, a despeito da atração mútua, são incapazes de saírem da "zona de conforto", preferindo a segurança da falsa performance que só admite a mera amizade. Ironicamente nesse conto, ambos são escritores, ou seja, na hora de usarem a palavra em vantagem própria no mundo "real", eles falham miseravelmente. E tal ironia ainda é reforçada no final quando, em carta, a mulher consegue retomar o ânimo perdido pela lamentável performance no último encontro com o (secretamente) amado. Novamente, o diferencial do conto está na forma e prosa de Mansfield.

A Dill Pickle
Que conto fantástico. Agora temos um ex-casal que se encontra por acaso na rua, depois de seis anos sem se verem. A maneira com que Mansfield expõe as diferentes perspectivas, ressaltando o papel da memória e das escolhas de performance adotadas pela mulher e pelo homem, foi espetacular. O homem comporta-se como um sonso cuzão, cinicamente retratando o sucesso de sua vida após o rompimento e relembrando de forma sentimental o passado mútuo; enquanto a mulher tenta manter a dignidade como pode diante da dissimulação do ex-amante e do infortúnio de seu fracasso após o rompimento.

❥ The Wind Blows 
Conto centrado na figura da adolescente tomada pelo tornado de novos sentimentos e o desejo desesperado de liberdade. Como o título sugere, a natureza surge praticamente como uma personagem metafórica: o vento forte do outono e o mar revolto - livres e caóticos - ressoando em perfeita sintonia as emoções de Matilda.

❥ Sun and Moon
O conto toma a pequena fração de um dia, antes e após uma festa que ocorre na casa de duas crianças irmãs, a Lua e o Sol. Em breves cenas, através dos comportamentos e diálogos das crianças, Mansfield explora as curiosas diferenças entre as personalidades das duas personagens, processo que torna-se mais singelo pela metáfora proporcionada pelos nomes. Ao final, um evento aparentemente banal parece marcar o início da ruptura da inocência infantil, enaltecido pela surpresa das reações diferentes da Lua e do Sol.

❥ Bliss
Em termos de forma e estrutura, creio que seja um dos mais complexos da coletânea. Uma mulher de ~30 anos, casada e mãe, encontra-se em um momento de puro êxtase inexplicável do ponto de vista apenas consciente, de modo que o desenrolar de um jantar que ela oferece com o marido a um grupo de amigos intelectuais, entre os quais havia uma nova amiga da protagonista, revela a tremenda complicação do que efetivamente ocorria. Conto repleto de simbologia, exploração da sexualidade feminina e, novamente, com algumas alfinetadas cômicas da autora para cima dos artistas "intelectualóides".

❥ The Little Governess
Tenso, muto tenso esse conto. Li um artigo que o tratava como uma espécie de versão do conto da Chapeuzinho Vermelho, e achei a comparação bem válida; sendo especialmente repulsivo, ainda que completamente pertinente, pensar que Mansfield acabaria por demonstrar que os homens agem como uma irmandade fraternal de lobos caçadores que sentem um prazer doentio em violentar as Chapeuzinhos Vermelhos do mundo.

❥ Feuille D'Album e Je Ne Parle Pas Français
Em ambos os contos, pode-se chegar a uma conclusão similar: ser mulher é uma merda, ainda mais quando tomada como velha. Se for artista, então, pior ainda. Em ambos, Mansfield chama atenção para o que às vezes acaba sobrando como única "salvação" para muitas: prostituição.
E em JNPPF, o cínico escritor narrador me lembrou um pouco do Bandini, do livro do John Fante.

Mr. Reginald Peackock's Day
Volta a Mansfield ferrenha com suas chacotas. Uma personagem homem E artista E marido (ou seja, incorpora vários temas comuns da autora), tem exposta toda a ~glória~ do seu comportamento patético e da sua vaidade (de artista, principalmente) ilusória. O sujeito vivia na realidade paralela na qual ele seria um magnânimo cantor amado por todos, enquanto apenas a esposa simplória seria incapaz de reconhecer e admirar tal "verdade". Fica, porém, a dúvida: será que Mansfield acreditava que a arte era incompatível com o casamento?
"The truth was that once you married a woman she became insatiable, and the truth was that nothing was more fatal for an artist than marriage, at any rate until he was over forty..."
❥ The Excape
Creio que esse conto poderia ser tranquilamente incorporado ao Livro da Idolatria, do Bruno Schulz, no qual o autor ilustrou cenas de dominação de homens pequenos e grotescos por mulheres refinadas. No conto de Mansfield, o marido encontrava a paz nos momentos de conexão com a natureza - mar, vento -, em uma espécie de transe que o remetia ao silêncio apaziguador.

Undula w nocy, Bruno Schulz (1920-22)
(via)

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