04/04/2016

A paixão segundo G.H. - Clarice Lispector


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Literariamente falando, uma das coisas que mais me constrange são gringos engrandecendo escritores brasileiros que encontram-se mofando na minha pilha de futuras leituras intitulada "um dia, haveremos de nos conhecer". Acho muito embaraçoso e triste. A Clarice Lispector, infelizmente, encontrava-se nessa pilha (eu sei, eu sei...), e a gota d'água foi quando começaram a aparecer no meu feed do YouTube vídeos de estrangeiros resenhando os livros dela (x1, x2, x3); quando eu mesma: nada. Inaceitável. Pois bem, agora esse problema foi sanado com "A paixão segundo G.H.". (certo, foi só um livrinho dela, mas já é melhor do que nada, poxa.)
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Quem não curte um papo metafísico? "Quem sou eu? Eu sou? Não sou? O que é real? Real? De onde vim, para onde vou...quem, o quê, como, quando, hã, certo, certo?, hhmmm, aaargh!..."  Essa é minha praia e adoro surfar nessa onda saudável e sã; logo as chances de que eu me desse mal com o livro da Lispector eram pífias. 

G.H. toma nossa mão de leitor para que a acompanhemos em sua acidental epifania catártica a respeito da Grande Verdade e, olha, é uma jornada e tanto. A construção do momento e circunstâncias catalisadoras do frenesi que levara G.H. à desorganização profunda, mas libertadora, foi do que mais gostei. As descrições do quarto, das imagens na parede, do sol invadindo aquele espaço hermético e quase desértico, não fosse pela barata, foi impressionantemente preciso, causando-me a sensação física de adentrar uma realidade paralela digna de uma obra de ficção científica; A realidade marcada pelo vazio infinito e desorganizado originador de tudo. Fiquei mesmo imaginando que, nas mãos de um bom diretor, o cenário descrito pela Lispector renderia imagens fantásticas. (as descrições remeteram-me até à atmosfera do filme 2001, Uma Odisseia no Espaço.) E ainda mais genialmente perturbador: aquele perigoso, porque revelador, espaço encontrava-se na própria casa dela, ou seja, ao mesmo tempo fácil e dificilmente alcançável. O jogo de palavras típicos da Clarice, "afirmar, negando; negar, afirmando; antônimos +/= sinônimos" pode ser engraçado quando tomado isoladamente espalhado pela internet, mas faz bastante sentido no contexto da obra.

Por ter sido uma leitura recente, ocorreu-me a imedita lembrança do livro do Pirandello "Um, nenhum e cem mil". Os estilos dos dois autores são totalmente diferentes (confesso achar a leitura do Pirandello mais prazerosa, mas é apenas uma questão de gosto mesmo), contudo Gengê e G.H. (GGGG...!) percorrem praticamente a mesma difícil travessia iluminadora, com reações também não muito díspares, estando separados apenas pelo catalisador: para Gengê, descobrir que ele nunca havia percebido, ao contrário de seus amigos e parentes, que seu nariz caía para direita; para G.H., o quarto e a barata. Aliás, dando agora uma folheada novamente no livro do Pirandello e relembrando-me do final, dei-me conta de que Gengê parece ter sido para Anna Rosa o que a barata foi para G.H. Curioso.

A principal ressalva particular que sinto em relação ao livro de Clarice é mesmo em relação à sua extensão. O fluxo frenético reflexivo da personagem, o qual reverbera e concatena premissas correlatas que prenunciam claramente a conclusão final (o início, afinal, já parte do fim); acabou tornando a leitura um pouco fatigante depois da metade da obra.  Tivesse o livro apenas ~cinquenta páginas; creio que eu teria apreciado mais; contudo, obviamente, essa é apenas mais uma das minhas opiniões irrelevantes. 

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