07/04/2016

In Other Words - Jhumpa Lahiri

(Sobre o livro: info, sinopse, etc.; tradução p/ inglês: Ann Goldstein)
- Então a Jhumpa Lahiri mudou-se de mala e cuia para a Itália, a fim de aprender o idioma italiano? Conte-me tudo e não esconda-me nada; pois quero saber de todos os detalhes! 

A premissa corresponde a uma experiência tão fascinante e imensamente invejada, que não consegui evitar que esse livro furasse minha interminável (mas muito querida) fila de futuras leituras. Por si só, a empreitada na qual Lahiri se mete já prenuncia um rico relato, mas o caso dela reserva algumas particularidades que tornam tudo ainda mais interessante:

1. A decisão de Lahiri não foi (apenas) um mero ímpeto repentino de frivolidade. Ela esclarece que já estudava o italiano há 20 anos, impelida por uma paixão inexplicável (e não exatamente mútua, certo?) que surgira após visitar a Itália pela primeira vez, contudo frustrava-se com o pouco progresso em direção à plena fluência; questão que ela atribuía ao fato de estar continuamente imersa no inglês. A autora vale-se de várias metáforas (figura de linguagem recorrentemente explorada no livro) para tentar explicar essa frustração, como a de sentir-se nadando em um lago (o italiano) sem jamais abandonar as margens (o inglês) para aventurar-se em sua travessia.

2. A decisão de mudar-se para a Itália (com esposo e filhos, inclusive) foi mais radical do que parece, pois Lahiri impôs que a nova rotina dela no país implicaria em falar, escrever e ler exclusivamente em italiano, rigorosamente. Por dois anos, portanto, ela distanciou-se completamente do inglês; de maneira que o próprio relato de sua experiência e reflexões -- com direito a dois contos inclusos nesse livro -- foi escrito em italiano. Nem mesmo a tradução da obra para o inglês ela quis fazer, deixando-a por conta da tradutora Ann Goldstein. 

3. Como filha de indianos criada nos Estados Unidos, Lahiri confessa que nunca sentiu pertencer completamente a qualquer idioma; sendo bastante impactante a maneira com que ela expõe esse sentimento de deslocamento e falta de pertencimento relacionados ao dialeto. Nos Estados Unidos, por conta de sua aparência física, não era-lhe incomum ter de encarar pessoas surpresas com o fato de que ela, como esperado de uma americana (-What?!), dominava fluentemente o inglês; enquanto na Índia, os parentes presumiam que ela não sabia expressar-se de modo algum em Bengali, idioma com o qual ela comunica-se com os pais.

Nesse contexto, portanto, o relato de uma pessoa que deliberadamente, sem um motivo lógico evidente, adota uma nova língua na tentativa de criar sua genuína identidade, torna-se muito bonito e significativo, ainda mais quando ela compartilha que, a despeito de todo seu amor e dedicação ao idioma, também na Itália ela acabaria por enfrentar as semelhantes barreiras presentes nos EUA e Índia. "- Essa moça com fisionomia indiana, famosa escritora americana, fala italiano? Irreal." 

"No one, anywhere, assumes that I speak the languages that are a part of me."
"All my life I've tried to get away from the void of my origin. (...) Change seemed the only solution. Writing, I discovered a way of hiding in my characters, of escaping myself. Of undergoing one mutation after another."

4. E o mais intrigante e fascinante: como e por que uma escritora decide abrir mão da crucial ferramenta de seu ofício, aquela que ela domina plenamente; trocando-a por outra nova, intimidante e desafiadora? Do meu ponto de vista como mera leitora, parece um ato assombroso de tremenda coragem e imprudência. Ao longo do livro, Lahiri tenta atribuir um sentido à essa aventura aparentemente insana, refletindo sobre quais seriam suas motivações, citando, por exemplo, que a sua imperfeição e os obstáculos de difícil transposição inerentes ao novo idioma atuavam como um paradoxal (?) estímulo inspirador. 

Claro, há casos notórios de escritores que escreveram em suas segundas línguas, mas a própria Lahiri ressalva que a situação dela possui diferenças significativas em relação a alguns deles. Por exemplo: 
- transcorreram décadas, após a mudança para França, até que Beckett começasse a escrever em francês;
- Nabokov aprendeu inglês durante a infância;
- Conrad pôde absorver a língua inglesa durante um tempo significativo dos seus trabalhos em alto-mar antes de tornar-se um escritor anglófono.
 E Jhumpa Lahiri? Bom, bastou um mísero ano morando na Itália para que ela já "ousasse" escrever em italiano.
***

Em certo trecho, a autora cita este interessante comentário de um amigo (tradução livre)"uma nova língua é quase uma nova vida, pois a gramática e a sintaxe remanejam-nos a uma lógica e sensibilidade diversas." Achei essa ressalva super certeira, pois eu, por exemplo, sempre sinto-me como um outro "eu" ao me expressar em inglês e imaginei que, para um escritor, isso pudesse ser ainda mais problemático. Lahiri, porém, desdobra essa falsa impressão de uma forma extraordinária ao afirmar que, ao incorporar o italiano à sua identidade, ela submetia-se a uma metamorfose que representa, sim, um processo violento, mas regenerador. Representa a morte, mas também a vida


Lahiri falando, em italiano, sobre seu livro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário